Hell on us
45 Tranquilidade
Notas iniciais
[...]
Aquele dia havia começado de uma forma muito, mas muito silenciosa mesmo, era muito estranho demais caminhar pelas ruas de Alexandria depois de tudo o que havia acontecido no dia anterior, todos aqueles errantes que conseguiram entrar e as pessoas que acabaram sendo mortas por causa disso... Olhar para aquele mesmo cenário e não se lembrar disso era realmente algo muito difícil. Ainda mais quando parte dessas mortes eu havia presenciado bem de perto. Eu havia acordado um pouco mais cedo do que era de costume, passei um tempo com Michonne enquanto ela ficava de olho em Judith e depois decidi passear um pouco até que Denise liberasse o horário de visitas para Carl; depois de ter acidentalmente dado um tiro em seu rosto tudo o que eu queria naquele momento era saber se ele estava realmente bem e se tinha acordado. Eu sei que eu não deveria me culpar, Rick já havia me dito várias vezes que aquilo não era minha culpa e sim, eu não tinha intensão nenhuma de atirar em Carl, mas era difícil não se sentir culpada quando a cena dele nos olhando com parte do seu rosto sangrando continuava se repetindo de forma constante na minha mente.
Vi algumas pessoas ajudar na retirada dos corpos de alguns errantes que ainda estavam em Alexandria e mesmo me oferecendo para ajudar eles disseram que estava tudo bem e que não queriam que eu me preocupasse quanto a isso; parece que o discurso do Rick acabou mesmo fazendo efeito naquelas pessoas e depois de ontem eu acho que os moradores mais antigos de Alexandria estavam finalmente abrindo seus olhos e vendo que o mundo nos dias atuais não era assim tão bom, mesmo vivendo dentro daqueles muros escondidos dos errantes.
Caminhando até a enfermaria de Denise acabei me encontrando com David, ele também estava ajudando na limpeza de Alexandria e parecia até um pouco mais feliz, o que era algo um tanto quanto novo vindo dele já que, seu temperamento era muito semelhante com o de Daryl. Os dois em muitas coisas eram parecidos e não me surpreenderia se eles acabassem se tornando melhores amigos. Ao chegar na casa que Denise usava como enfermaria a vi varrer os poucos degraus que sua sacada possuía, ela parecia menos agitada do que estava ontem e também não era a única que estava agitada com toda aquela merda acontecendo dentro de Alexandria.
—Vejam só quem acordou mais cedo hoje. —Ela riu ao me olhar se aproximar da enfermaria. —Nem vou perguntar o nome do motivo que a trouxe aqui tão cedo porque eu sei bem como ele se chama.
Eu sorri de canto ficando um pouco sem graça com aquilo; será que eu estava dando tão na cara assim que estava preocupadíssima com Carl depois de ontem?
—Eu já posso entrar? —Perguntei a olhando com esperanças de que ela me deixasse entrar logo para ver como Carl estava, Denise fez uma expressão como se estivesse um pouco pensativa e logo sorriu concordando com a cabeça e dando espaço para que eu pudesse entrar.
—Se puder pode levar a bandeja que está na mesinha do lado de fora do quarto dele? —Perguntou. —Olivia fez um pequeno café da manhã para o menino e bem, como você pode ver eu estou um pouco ocupada aqui por enquanto.
—Eu levo, —Falei balançando a cabeça. —sem problemas.
Caminhei até a porta e a abri com cuidado, adentrei o mesmo local que ontem mesmo estava protegendo algumas pessoas da invasão de errantes que Alexandria recebeu e o lugar parecia incrivelmente quieto em comparação ao dia anterior. Era estranho não ver o corpo de Carl sobre uma maca que tiveram que improvisar ontem, na verdade era muito estranho olhar para aquele mesmo lugar sem me lembrar de como ontem havia sido um dia completamente turbulento e agitado. Andei um pouco mais até o corredor que dava direto para alguns quartos, vi a mesa que Denise havia falado e a bandeja que ela mencionou com um pouco de comida para Carl e a peguei. Abri a porta do quarto com calma tentando não fazê-la ranger muito, aos poucos pude ver todo o interior do quarto e principalmente a cama onde Carl estava desde ontem quando eu o visitei pela primeira vez. Ele ainda estava do mesmo jeito, dormindo (eu queria acreditar que ele estava mesmo dormindo), porém seu rosto estava virado na direção da porta e se ele estivesse com seu olho aberto provavelmente estaria me olhando naquele mesmo momento em que eu havia entrado no quarto.
Deitado com quase todo o seu corpo debruçado na cama estava Rick, ele sim estava dormindo e continuava com as mesmas roupas de ontem; sinal de que ele não havia saído de dentro daquele quarto nem mesmo por um minuto só. Me aproximei um pouco mais dele e vi que ele estava segurando a mão direita de Carl, inevitavelmente eu senti meus lábios se moverem formando um sorriso, aquela cena era realmente muito fofa e linda. Acho que era a primeira vez que via os dois de um jeito tão meigo como aquele; era um pouco difícil ver Carl e Rick em momentos como aquele e ver isso pela primeira vez era muito legal. Olhei para a bandeja em minhas mãos e com cuidado a coloquei na beirada da cama deixando-a longe o suficiente para que ela não caísse, me aproximei um pouco mais de Rick e sentindo que provavelmente eu fosse me arrepender por estar fazendo isso comecei a acordá-lo.
Não foi preciso chama-lo tantas vezes assim, depois da terceira tentativa Rick pareceu já começar a despertar, porém assim que eu comecei a cutuca-lo para acordá-lo mais rápido ele imediatamente tirou sua arma do cinto apontando-a diretamente para meu rosto num movimento único e absolutamente rápido; aquilo me assustou, mas de certa forma eu compreendi que ele tenha feito isso por ter se assustado ao sentir um dedo lhe cutucando o braço. Um mundo como aquele em que estávamos vivendo nos dias atuais acabava deixando as pessoas mais atentas a qualquer tipo de movimento ou toque e bem, Rick já havia passado por bastante coisa e não era de se esperar que ele fosse agir daquela forma.
—Eita mãe! —Exclamei arregalando meus olhos e erguendo os braços para o alto ao mesmo tempo, Rick me olhou ofegante como se realmente tivesse levado um susto e aos poucos foi abaixando sua arma logo a guardando no mesmo lugar de antes. Respirei fundo sentindo meu coração dar uma curta disparada por causa do susto em ter uma arma apontada diretamente para meu rosto e depois fui sentindo-o se acalmar aos poucos até voltar completamente ao normal.
—Meu Deus Ayla, me assustou! —Ele suspirou também respirando fundo passando sua mão pelo rosto cansado. —Desculpe, eu não queria ter feito isso.
Eu sorri de canto um pouco mais aliviada.
—Sem problemas, pelo menos se atirasse estáriamos quites. —Dei de ombros fazendo-o soltar um curto riso. —Eu teria feito o mesmo se sentisse alguém me cutucar enquanto durmo.
Rick concordou com a cabeça se arrumando na cadeira e logo se esticando para despertar um pouco mais rápido, ele mexeu nos curtos cabelos olhando rapidamente para Carl que continuava dormindo e depois olhou para a bandeja que estava quase ao seu lado.
—Suponho que isso não seja exatamente para mim. —Falou me olhando outra vez um pouco mais tranquilo.
—Bom, a Denise falou que era para o Carl, mas pelo visto você parece estar realmente precisando comer alguma coisa. —Respondi dando de ombros outra vez. —Não acho que ela vá se importar se você comer metade.
Eu olhei por mais tempo para Rick notando o quanto ele parecia cansado, seu rosto parecia completamente abatido por causa da péssima noite que ele provavelmente teve de sono e parecia pedir urgentemente por pelo menos um dia todo de descanso. Na verdade a palavra certa não seria pedindo e sim implorando, Rick parecia estar implorando por descanso.
—Eu acho que vou estar sendo um pouco intrusa dizendo isso, mas eu acho que você deveria dar um tempo aqui. —Assim que disse aquilo o pai de Carl me olhou no mesmo segundo sem entender muito bem o que eu queria dizer com aquilo. —Olha, pelo que está parecendo você está aqui desde ontem e com toda certeza não deve ter saido daqui em momento algum. Você está cansado e dá pra ver isso no seu rosto, eu acho que deveria tirar umas horas para descansar, comer alguma coisa e depois quem sabe voltar para ficar de olho em Carl.
Fiz uma pausa breve.
—Não é por nada não, mas você parece estar realmente precisando descansar um pouco. —Falei. —Nem que seja por algumas poucas horas, se quiser eu posso ficar olhando o Carl até você voltar.
Rick passou novamente a mão pelo cabelo jogando-o todo para trás, seus lábios se moveram lentamente formando sorrindo, acho que ouvi ele dizer um meu Deus mas não tenho tanta certeza assim então deixei de lado isso. Eu confesso que não achei que Rick fosse mesmo concordar com aquilo que eu havia lhe dito, mas assim que eu o vi se levantar da cadeira fiquei realmente surpresa por vê-lo fazer isso. Mas o que eu poderia dizer? Era apenas a verdade e ele merecia necessitava de um pouco de descanso depois de tudo o que houve. Peguei o copo com um pouco de leite e o entendi para Rick, além de cansado ele parecia estar faminto e não era nada justo deixá-lo sair daquele quarto de estômago completamente vazio.
—Bebe um pouco, dizem que leite melhora um pouco o dia. —O olhei. —Não sei se isso é verdade, mas pelo menos não vai ficar de estômago vazio.
—Já que você insiste tanto. —Ele pegou o copo da minha mão dando o primeiro gole. —Cuida dele enquanto eu estiver fora.
—Pode deixar chefe. —Levei uma mão até minha testa fazendo continência como um soldado. —Não vou deixá-lo sair desse quarto tão cedo.
...
Algumas horas se passaram e Carl continua do mesmo jeito, eu já estava ficando completamente entediada por não estar fazendo absulutamente nada e me arrependi amargamente de não ter trazido meu livro para passar um pouco o tempo enquanto ficava de olho em Carl. Abri uma das janelas deixando um pouco de claridade entrar no quarto e olhei um pouco para o lado de fora da enfermaria de Denise, depois de algumas horas alguns dos moradores de Alexandria já estavam caminhando pelas ruas do lugar. Vi algumas pessoas ajudar na construção da parte do muro que havia caído e isso era algo realmente bom de se ver, já havia passado da hora daquelas pessoas começarem a ter uma noção daquele mundo e era chato pensar que precisou acontecer uma invasão de errantes em Alexandria para que eles finalmente deixassem de ser uns bundões.
—Ayla fecha isso, eu quero dormir! —Aquela voz me fez parar imeditamente e virar todo meu corpo para trás olhando para a cama onde Carl estava, assim que eu o vi acordado e quase sentado na cama eu precisei me controlar para não sair correndo até ele e pular na cama de tanta felicidade. Carl estava acordado e o melhor de tudo: ele estava bem. Tirando pelo fato do tiro ter acertado em cheio o seu olho por minha causa.
—Ai meu Deus menino você tá bem! —Gritei praticamente correndo até a cama e subindo nela logo o abraçando. —Eu pensei que você tinha... Mas aí a Denise começou a cuidar de você e então ela...porra você está bem!
Eu não conseguia ficar calma, ver Carl acordado e bem era algo realmente muito aliviador e até me fez sentir menos culpada por ter causado aquilo com ele, mas ele estava bem e isso era o que importava no momento.
—Eu...eu nem sei como começar a dizer isso mas me desculpa por ter feito isso com você, Carl! Eu juro que eu não queria fazer isso! Eu sou uma tremenda filha da puta por ter feito isso com você, mas eu juro que não queria atirar... eu juro que
Carl me olhou confuso por um tempo, sua mão foi até seu rosto e então ele tocou o olhou com o curativo parecendo se lembrar do que havia acontecido com ele no dia anterior.
—Ayla... —Ele me interrompeu enquanto tentava se arrumar na cama encontrando uma posição mais confortável que antes. —eu vou ficar bem, eu acho. Mas pare de pedir desculpas, eu lembro o que aconteceu e se Ron não estivesse tentando te empurrar você nunca teria atirado, a culpa não é sua.
—Seu pai ficou repetindo a mesma coisa ontem —Falei dando um pouco mais de espaço para ele na cama. —Mas eu sei que vocês só querem que eu não me sinta mal por ter feito isso, mas é sim minha culpa. Eu estava segurando a arma e o tiro veio dela então...
Carl bufou.
—Acho que você deveria ficar feliz em ver que eu estou bem. —Ele disse sorrindo levemente. —E parar de falar tanto palavrão assim.
Ele sorriu como se estivesse tentando me provocar e assim que notei isso dei um leve empurrão em seu ombro fazendo-o rir outra vez, era bom ver que ele continuava o mesmo de sempre mesmo depois de ter passado por uma merda como essa de ter levado um tiro no rosto. Era bom demais.
—Ok, já que você está bem então precisa comer alguma coisa antes que comece a ficar um palito por não estar comendo nada. —Falei pegando a bandeja que havia deixado na beirada da cama. —Olivia quem preparou.
Coloquei a bandeja no meu colo mostrando as opções que Carl tinha, tirando o copo de leite que eu havia dado para Rick tudo o que havia restado agora era dois pães caseiros, um pacote pequeno de biscoitos e três torradas com um pouco de geleia? Alexandria tinha geleias também? Isso era novidade. Carl olhou diretamente para as três torradas com geleia e depois me olhou também um pouco surpreso, assenti mordendo o lábio o olhando como se estivesse dizendo para que ele as comessem e foi exatamente isso o que ele acabou fazendo. Devagar ele esticou o braço pegando a primeira torrada e então logo a levou diretamente até sua boca dando uma pequena mordida onde a geleia estava, ele ficou mastigando por um tempo até que me olhou outra vez.
—É geleia de morango. —Ele falou animado. —Dá pra acreditar nisso?
—Sério? —Perguntei sem acreditar. —Morango?
Ele balançou a cabeça em afirmativa esticando seu braço na minha direção para que eu comesse um pedaço também, abri a boca devagar mordendo um pedaço e então senti o gosto da geleia. Era realmente geleia de morango. De morango! Quem diria que em pleno apocalipse zumbi teríamos ainda o gostinho de comer torradas com geleia de morango, poderia até parecer um pouco bobo o fato de termos ficado felizes com algo tão simples como torrada com geleia, mas naquele mundo onde apenas existia mortes e só desgraça, ter momentos simples e até mesmo felizes como aquele era algo bom. De repente coisas simples como devorar um pote de sorvete de flocos ou comer torradas com geleia pareciam ser coisas que deixavam nosso dia ainda melhor.
—Incrível como o gosto continua o mesmo. —Falei de boca cheia. —Precisamos fazer alguma coisa para impedir que geleia de morango seja extinta da terra.
—Vamos pegar tudo o que tiver no estoque da Olivia e guardar para comermos apenas quando realmente estivermos com vontade.
Balancei a cabeça ficando um pouco mais animada.
—Acho que seria mais fácil se plantássemos morango e pedíssemos para que ela fizesse mais geleia, mas eu gosto das coisas mais complicadas. —Falei um pouco pensativa. —Quando Daryl ou alguém saísse poderíamos pedir para procurarem por sementes de morango ou sei lá, poderíamos procurar morangos aqui em Alexandria e começar a plantar.
Carl me olhou.
—E quando você quer fazer isso? —Perguntou já mostrando um pouco de entusiasmo.
—Não sei, primeiro precisamos procurar sementes de morangos para começarmos a plantar e depois é só alegria.
Carl torceu a boca por alguns segundos como se estivesse mesmo pensando nesse assunto, acho que seria uma boa ideia começar a plantas algumas coisas que dessem para serem plantadas já que metade dessas coisas não seriam fabricadas novamente. Afinal, estávamos no meio de um apocalipse e bem, seria cada vez mais complicado encontrar comida por aí.
—Então você quer começar a bancar a jardineira? —Carl perguntou debochando já querendo fazer piada. —Precisamos encontrar um chapéu de fazendeira para você.
Semicerrei meus olhos erguendo uma sobrancelha logo em seguida e olhei para o criado mudo ao lado da cama onde seu chapéu estava, o peguei colocando-o na minha cabeça e fiz pose.
—Eu já tenho um chapéu, agora só falta encontrar um para você. —Falei entrando na brincadeira.
—Ha ha ha esse é meu! —Ele tirou o chapéu da minha cabeça logo o colocando na sua. —Encontre o seu e quem sabe começamos essa vida de fazendeiros amanhã mesmo.
Eu abri minha boca fingindo surpresa.
—Carl Grimes sendo positivo? —Caçoei dele. —As coisas estão mesmo mudando por aqui em Alexandria!
Carl parecia um pouco diferente naquele dia, não sei ao certo se isso era apenas para aliviar um pouco o clima de levei um tiro no rosto e isso custou um dos meus olhos e por isso vou ficar deprimido até cansar, mas havia algo realmente diferente nele, não falando mais sobre a questão dele estar sendo positivo, mas por estar vendo ele um pouco mais alegre que antes. Mesmo depois de uma merda como aquele de ontem.
—Você não? Eu já acordei e posso muito bem voltar para casa, quem sabe isso aconteça ainda hoje mesmo!
Eu tentei ignorar a ênfase que ele deu na palavra casa, mas foi quase impossível de fazer isso, acho que era a primeira vez que ouvia ele mencionar a casa onde estávamos vivendo agora com tanta ênfase e animação como estava naquele momento. Carl realmente parecia diferente.
—Eu acho que ela vai te liberar daqui quando menos imaginar. —Falei concordando. —Só vai precisar convencê-la de que está completamente bem.
Ele deu de ombros.
—Isso vai ser fácil. —Falou num tom descontraído. —Agora vamos voltar para as torradas.
Fale com o autor