Notas iniciais
Olá meus queridinhos e queridinhas voltei antes do previsto! Bom, eu preciso admitir que foi complicado escrever esse capítulo, vocês logo irão entender o motivo. Até iria mudá-lo mas como segui um pouco de um dos episódios da quarta temporada, achei que deveria ter deixado ele assim. Espero que gostem e boa leitura!

[...]

Quando finalmente paramos de correr já era noite e tudo o que eu conseguia enxergar era apenas as sombras das árvores que estavam no cercando ali, ao pararmos notei que assim como eu, todos estavam ofegantes por causa da longa corrida que fizemos para escapar dos errantes que apareceram na casa e como se tudo não poderia ficar pior acabamos nos encontrando com uma outra horda também.

— Acha que conseguimos escapar de todos? — Michonne olhou para Rick que ainda estava ofegante e também um pouco preocupada.

— Saímos do outro lado da estrada... — Falou devolvendo o olhar a ela. — Acho que pelo menos por essa noite, nós não teremos que nos preocupar com isso. Pelo menos por hoje.

Michonne limpou a testa com as costas das mãos enquanto assentia concordando com o que Rick havia nos falado, eu ainda segurava a faca que usei para matar os errantes e antes de guardá-la novamente limpei sua lâmina na calça que eu usava deixando-a suja de sangue dos mortos. Olhei em volta tentando conseguir enxergar alguma coisa que não fosse árvore e tudo o que vi foram mais sombras das mesmas que agora tinham suas folhagens movidas por causa do vento que batia nelas.

— Vamos, precisamos encontrar algum lugar para passar a noite!

Rick pegou Judith no colo deixando Carl novamente com suas mãos livres, antes de voltarmos a andar ele se virou nos olhando, ou pelo menos eu achava que ele estava nos olhando e perguntou se estávamos todos bem e respondemos que sim — tirando um pouco do cansaço que sentíamos, acho que estávamos todos bem sim, já havíamos passado por coisas bem piores do que uma horda que invadiu a casa onde iríamos passar a noite. Aquilo que aconteceu minutos atrás era fichinha se comparado com tudo o que já enfrentamos em tão poucos dias.

Merdas sempre acontecem, Ayla. E vão continuar sempre acontecendo.

Caminhamos durante um pouco mais de quinze ou vinte minutos até pararmos por ter ouvido um som estranho vindo do meio de tantas árvores, Michonne rapidamente deixou sua katana preparada para uso se colocando a nossa frente e até mesmo na frente de Rick. Esperamos por mais alguns minutos, mas nada apareceu. Sabe aquela sensação estranha de estar sendo seguida por algum estranho desconhecido?

Então, eu estava me sentindo exatamente daquele jeito quando paramos naquele lugar.

Depois de ter certeza de que nada iria sair dali, finalmente voltamos a andar naquela escuridão toda que estava se fosse antes do apocalipse eu jamais faria algo parecido como aquilo que estava fazendo; andar em lugares quase desertos como estávamos fazendo agora era algo que estava totalmente fora da minha lista de coisas a serem feitas por mim. Mas, estávamos em tempos novos — se é que podíamos chamar assim — e andar de noite em busca de algum lugar para se passar a noite era algo do qual eu já estava quase me acostumando a fazer.

Invadir casas para conseguir comida e abrigo parecia ter se tornado algo tão comum quanto respirar, era disso que o mundo se tratava agora; de sobrevivência. Apenas isso que importava agora.

Paramos novamente e dessa vez encontramos um carro parado no meio da estrada que seguíamos, avistamos um errante que parecia estar preso debaixo do carro e Michonne não demorou a matá-lo. O carro estava com apenas as portas da frente inteiras, as duas outras portas estavam totalmente amassadas e seus vidros estavam quebrados. Na verdade, o carro não seria muito útil para continuar, faltavam três rodas e o único pneu que havia parecia estar murcho.

— Acho que servirá por essa noite. — Rick olhou para o carro verificando se havia mais algum outro errante dentro dele. — Carl e Ayla, podem descansar ali dentro.

Suspirei aliviada quando ouvi o pai de Carl nos dizer isso, descansar era tudo o que eu estava querendo naquele momento e seria ótimo finalmente conseguir isso depois de correr tanto.

Eu e o projeto de xerife arrumamos os dois bancos da frente para que pudéssemos deixá-los um pouco mais confortáveis para nós, fizemos até mesmo uma cama improvisada pra Judith também ter uma noite de descanso. Fechamos as duas únicas portas que havia no carro e finalmente relaxamos — bom, relaxamos o máximo que conseguíamos já que dormir em um banco de carro era um pouco desconfortável —, Carl tirou o chapéu de xerife e o deixou sobre a barriga e mexeu rapidamente no cabelo tirando ele dos olhos.

— Você precisa cortar essa juba. — Falei o olhando. — Se eu achar uma tesoura por aí é melhor se preparar, porque eu vou passar a tesoura nesse seu cabelo.

— Vai fazer isso só se eu deixar que faça! — Ele me olhou. — Você nem pense em fazer isso ou pode ter certeza que corto o seu também!

Eu ri.

— Se você quiser perder a sua mão... Pode até tentar fazer isso.

Carl me olhou arregalando os olhos mostrando espanto com o que eu havia dito segundo atrás, quando vi o quanto ele pareceu realmente se assustar com a minha ameaça, comecei a rir baixo para amenizar aquele clima um pouco tenso que se formou dentro daquele carro. Eu não iria fazer isso com ele, já havia matado pessoas antes, mas, era algo que realmente foi necessário ser feito. Mas fazer isso com Carl estava completamente fora de cogitação.

— Você não toca no meu cabelo e eu não toco no seu. O que você acha disso? — Perguntei entendendo minha mão na sua direção.

— Acho que temos um trato então. — Ele apertou minha mão como se tivéssemos fechado algum acordo e voltamos a rir um pouco mais, paramos quando nos lembramos de que Judith estava bem no nosso meio e estava já adormecida e como não queríamos que ela acordasse, resolvemos dormir também.

...

Eu não sei quanto tempo que passou, mas Carl e Judith já estavam dormindo e eu parecia ser a única dentro daquele carro que não conseguia fechar os olhos para finalmente descansar depois de um dia um tanto agitado que tivemos. Revirei-me no banco do carona tentando encontrar alguma posição boa para que eu conseguisse dormir e tudo o que consegui foi absolutamente nada.

Por mais que eu quisesse dormir parecia que alguma coisa não me deixava fazer isso, eu estava com sono, não, eu estava com muito sono e mesmo assim não conseguia fazer algo tão simples quanto fechar os olhos para dormir. Qual era a droga do meu problema naquele momento?

Virei para o lado e forcei a mim mesma para fechar os olhos, fiquei desse jeito durante uns minutos sentindo aos poucos meu corpo começar a finalmente relaxar, porém como tudo o que é bom dura pouco aquele momento também durou por poucos minutos. Ouvi alguém bater no vidro do carro me assustando de imediato, levantei na mesma hora olhando para o outro lado e vi um homem um pouco gordo com as duas mãos no vidro me olhando com um sorriso besta estampado no rosto.

— Carl! — Chamei por ele dando um leve empurrão nele e notei que ele também havia acordado por causa daquele homem que agora nos olhava como se nós dois fosse dois pedaços de carne.

— Ayla tem mais... — Ele falou com a voz baixa, quase como um sussurro para que apenas eu conseguisse ouvi-lo ali dentro.

Olhei para o lado vendo mais um homem do lado de fora e depois olhamos juntos para frente, onde Rick e Michonne estavam e vimos mais alguns homens em volta deles os cercando.

— É aquele grupo que nos pegou antes... — Respirei fundo sentindo meu corpo ficar totalmente tenso com aquilo. — A gente se ferrou!

Será que aquela sensação de estar sendo seguida que eu sentia antes era porque realmente tinha gente nos seguindo?

— Tirem os pirralhos de dentro do carro!

Não tivemos tempo para reagir, em questão de segundos os dois homens que estavam do lado de fora do carro abriram a porta com rapidez e até mesmo um pouco de desespero obedecendo a ordem do seu líder. O gordo começou a me puxar pelos braços me forçando a sair do carro, tentei dar um chute nele e quando o fiz ele segurou minha perna apertando-a com extrema força a machucando um pouco.

Vi Rick e Michonne tentarem reagir, mas foi em vão, ambos foram parados por várias armas apontadas para suas cabeças alertando-os do que poderia acontecer a eles se caso tentassem alguma coisa. O mesmo homem que antes fazia as visitas no quarto onde eu e Carl haviam sido amarrados estava lá também e, esse me olhou sorrindo de um jeito muito malicioso que me fez sentir um arrepio percorrer por todo meu corpo no mesmo segundo. Eu me senti completamente desconfortavel ao receber aquele tipo de olhar e temi pelo que poderia vir a seguir.

— Ora, ora, ora quem a gente acabou encontrando por aqui pessoal! — O homem que provavelmente era o líder daquele grupo olhou para mim e depois para Carl exibindo um sorriso largo no rosto. — Ficamos realmente surpresos por vocês terem conseguido escapar... Foram bem espertos!

Ele segurou o rosto de Carl forçando para que ele o olhasse e depois o soltou.

— Eu não sei a porra que aconteceu naquela casa, mas vi um dos meus mortos naquela maldita sala. — Ele me olhou novamente e depois voltou sua atenção para Rick. — Perdemos um dos nossos cara... E isso não foi nada legal.

— Joe! — Todos olhamos para o lado juntos vendo alguém finalmente dar as caras, não escondi a minha surpresa ao ver que era Daryl caminhando do lado do carro ficando na frente do líder chamado Joe.

Daryl também estava vivo!

— O que foi Daryl? Acabou de me interromper!

— Essas pessoas... São gente boa. — Daryl caminhou um pouco mais ficando na nossa frente ainda olhando para o líder daquele pequeno grupo. — Eu entendo o que você quer fazer, mas, eles são boa gente!

Joe o olhou sem entender nada.

— Acho que o nosso amigo discorda completamente disso já que, alguém daqui o matou! — Joe gritou balançando sua arma na direção do rosto de Daryl o ameaçando. — Está dizendo uma mentira Daryl. E você sabe o quanto eu odeio ouvir o porra de uma mentira!

Houve um breve momento em que o silêncio prevaleceu naquele lugar, todos olhavam diretamente para Daryl que não parecia estar nem um pouco desconfortável em receber tantos olhares, olhei brevemente para Carl que mantinha seu olhar surpreso e até mesmo um pouco assustado e como se percebesse que eu estava o olhando ele logo virou o rosto em olhando também. Ele moveu os lábios como se estivesse dizendo algo como vai ficar tudo bem e por mais que ele havia tentado me acalmar, eu não me senti nem um pouco calma.

— Eu quero que vocês ensinem a ele uma lição!

Tudo aconteceu rápido demais, Daryl já estava cercado por alguns homens que começaram a bater diversas vezes nele, Carl foi puxado para trás e eu não consegui ver o que estava acontecendo com ele.

Fui empurrada para o lado sendo segurada pelo menos cara gordo que havia me tirado do carro, ele me segurou pela cintura me forçando a ficar com todo o meu corpo colado no dele e imediatamente senti um enorme nojo dele. Senti sua boca nojenta tocar o meu pescoço fazendo com que eu me contorcesse de nojo com aquilo, ouvi sua risada baixa soar em meu ouvido fazendo-me estremecer e temer pelo que viria a seguir.

— Solta eles! — Ouvi Rick gritar num tom feroz e quase ameaçador olhando diretamente para o líder que ria alto de tudo aquilo que acontecia bem diante de seus olhos. — Foi apenas eu, nenhum deles tem envolvimento com isso!

Tentei me soltar e quando consegui fazer isso tentei pegar minha faca que mantinha presa no meu cinto, mas logo senti seus braços gordos me envolverem novamente fazendo com que a faca caísse no chão e eu não conseguisse pegá-la. O vi chutá-la para longe do meu alcance e quando pensei que aquilo não tinha como ficar pior do que já estava, fui jogada no chão e bati todo meu corpo na estrada sentindo uma dor tomar conta de mim.

Para um homem gordo, ele se colocou com extrema rapidez em cima de mim e começou a passar aquela mão nojenta pelo corpo rindo cada vez mais alto conforme eu tentava me esquivar dele. Eu comecei a me debater e a sacudir meus braços e pernas tentando me soltar daquele desgraçado que estava em cima de mim, tentei bater nele usando os punhos e ele logo os segurou com uma força que não parecia sequer ser de um humano.

Quando pensei que toda aquela situação não poderia ficar ainda pior do que já estava, aquele monstro desgraçado me virou de costas fazendo eu bater meu corpo novamente no chão, comecei a sentir várias lágrimas em meus olhos sabendo que aquilo que viria a seguir iria acontecer mesmo eu tentando impedi-lo a todo custo.

Assim que ouvi seu cinto ser desfivelado e logo o som do zíper se abrir, foi então que meu desespero ficou ainda maior. Comecei a bater minhas pernas tentando desesperadamente chutá-lo, mas ele nem mesmo parecia estar incomodado com aquilo

— Shhh... — Ele sussurrou em meu ouvido me segurando com força contra o chão duro abaixo de mim. — Se ficar quietinha não vai doer nada!

Senti suas duas mãos na minha cintura me obrigando a ficar com todo o meu corpo naquele chão duro, meu coração já estava batendo de uma forma que parecia que iria saltar de meu peito naquele mesmo instante. Ouvi Rick gritar e alguns tiros e me desesperei ainda mais com tudo aquilo.

Quando senti que aquele desgraçado estava começando a querer tirar a minha calça consegui reunir força para dar um chute entre suas pernas e fazê-lo se contorcer por causa da dor do meu chute — finalmente havia conseguido fazer alguma coisa que desse certo —, aproveitei a oportunidade de ver ele saindo de cima de mim por alguns segundos e comecei a me arrastar pelo chão tentando ficar o mais longe possível dele.

Enquanto fazia isso comecei a tatear o chão na procura de alguma pedra ou alguma outra coisa que eu pudesse usar como arma para acertá-lo, passei a mão por uma pedra com o tamanho perfeito para conseguir machucá-lo e quando finalmente a peguei senti todo o meu corpo ser violentamente jogado para o lado acompanhado com uma dor insuportável na minha barriga que me fez gritar alto. Levei minhas duas mãos para o local onde a dor vinha e nem tive tempo para ver o que havia acontecido, levei outro chute forte no mesmo lugar e gritei outra vez por causa da forte dor.

Vi aquele homem de pé parecendo nem um pouco abalado por causa do chute que eu dei nele, na verdade ele estava sorrindo ainda mais que antes e isso me deixou ainda mais assustada. Vi sua perna se mover rápido para o meu corpo e novamente fui chutada com a mesma força de antes; conforme eu gritava cada vez mais alto ele parecia se divertir mais com aquilo. Senti algumas lágrimas já começando a escorrerem dos meus olhos por causa daquela forte dor que sentia.

O homem se jogou em cima de mim novamente colocando seus dois joelhos sobre minhas pernas impedindo que eu fizesse ou tentasse qualquer coisa naquele momento, ele então começou a me bater, primeiro me deu vários tapas na cara; um mais fortes que o outro me machucando e depois começou a depositar vários socos pelo meu corpo.

— Para!... — Gritei quase sem força alguma, tentei mexer meu corpo para sair dali, mas nada adiantava, tudo o que eu conseguia era ganhar mais tapas e socos fortes que já estavam me deixando completamente fraca e machucada.

Ouvi um grito alto que fez com que o homem parasse de me machucar, ele virou o rosto olhando para o lado mostrando-se completamente espantado com o que via, movi meu rosto para o lado e eu finalmente vi o que estava acontecendo.

Carl estava no chão também, mas ele parecia não ter sofrido quase nada, Michonne estava com sua katana já manchada de sangue e Rick estava segurando o líder daquele grupo com seu rosto coberto de sangue. O choro alto de Judith também começou a ecoar na minha mente e me senti completamente confusa ali.

Eu olhei completamente assustada para Rick, seu olhar parecia algo mortal e o jeito como ele olhou para o cara que estava em cima de mim fez com que meu coração começasse a disparar num ritmo quase que descomunal.

O cara me olhou novamente e riu sem parecer se preocupar por ter visto o líder do seu grupo caído morto no chão, ele voltou a me tocar e então, um disparo alto ecoou pelo meu ouvido me deixando surda por alguns segundos. O disparo me pegou totalmente de surpresa, quando me dei conta do que havia acontecido muito sangue havia espirrado no meu rosto e pescoço me deixando completamente imunda naquele momento, o rosto do homem que tentava abusar de mim desfigurado de uma forma que foi impossível reconhecê-lo. Senti todo o peso do seu corpo morto cair sobre mim não me deixando outra escolha além de ficar ali parada sem qualquer tipo de reação.

Meu coração batia ainda acelerado, eu estava assustada, não, na verdade eu estava apavorada pelo que tinha acabado de ver e presenciar ali. Minhas mãos tremiam enquanto mais sangue escorria daquele homem me deixando ainda mais suja.

Eu forcei meus braços a tirarem aquele sujeito de cima de mim e rapidamente recebi a ajuda de Michonne, que logo me ajudou a me levantar do chão. Assim que notei que estava já de pé abracei Michonne evitando que meu rosto sujo tocasse sua roupa. Senti mais lágrimas escorrerem dos meus olhos e usei uma mão para limpá-las, mas não adiantou muito. Continuei sentindo mais lágrimas saírem e dessa vez não as limpei.

Olhamos para Rick que parecia totalmente fora de si, seus olhos azuis estavam pousados sobre o corpo sem vida do homem que tentara abusar de mim e seu olhar era algo sombrio e completamente diferente de Rick Grimes. Ele não parecia aquele mesmo homem que havia me aceitado a fazer parte do seu grupo, não parecia o mesmo homem que me mostrou que mesmo estando num mundo de merda como aquele em que estávamos ainda sim poderia existir pessoas boas. Aquele homem que olhava para o corpo morto sobre o chão não era e não pertencia a Rick Grimes.