Hell on us
22 Aposta
Notas iniciais
[...]
Árvores e mais árvores, tudo o que eu via durante aquela caminhada não passava disso. Aquele cenário repetitivo já havia começado a me deixar entediada, estávamos caminhando havia algumas horas já e tudo o que eu vi durante todo aquele trajeto foi apenas árvores e alguns errantes que encontramos numa outra hora. Fora isso, aquele cenário não mudava.
O dia já estava quase no fim e ainda estávamos na estrada, desde que começamos a caminhar não havíamos encontrado um único lugar que pudesse ser seguro o suficiente para podermos passar pelo menos aquela noite em segurança, eu percebi o quanto Rick parecia estar preocupado sobre isso e acho que ele não estivesse tentando esconder essa preocupação do resto do grupo.
Quando eu ainda estava com David, Alex e a sua falecida-namorada Anna, passamos por algo semelhante ao que eu estava vivendo naquele momento; havíamos perdido nosso antigo lar para um grupo muito maior que o nosso e acabamos ficando sem ter onde viver seguros.
Não estávamos encontrando nenhuma casa para invadir ou nem mesmo algum carro que pudesse nos manter a salvos dos mortos que caminhavam sobre a terra, claro que sempre encontrávamos um jeito de conseguir passar a noite sem ter que se preocupar com alguma horda ou grupos hostis; mas se aquilo para nós já era difícil e na época éramos em apenas quatro pessoas, para o grupo de Rick que agora se encontrava com dezesseis pessoas.
Rick tinha mesmo que se preocupar; estávamos agora um grupo realmente grande e passar a noite ao ar livre poderia ser um pouco perigoso. Mesmo que tivéssemos gente o suficiente para fazer turnos de vigia.
Paramos assim que ouvimos grunhidos, o ruivo que parecia um guarda roupa com músculos se juntou a Rick, Daryl, Michonne e Glenn na frente e rapidamente se posicionaram esperando pelos mortos que estavam se aproximando.
Demorou alguns segundos para que eles aparecessem e logo exibissem sua quantidade: era uma horda de mortos que havia se aproximado. Os cinco começaram a matá-los o mais rápido que eles podiam e logo começamos a fazer o mesmo, eu estava junto com uma moça que se chamava Tara e juntas começamos a matar alguns errantes que surgiram do meio da mata.
Um deles pareceu tropeçar em alguma pedra que havia na estrada e acabei não me dando conta de quando ele começou a vir na minha direção, por pura sorte Tara foi mais rápida e me puxou para o seu lado e rapidamente deu um fim no morto.
Não tive nem mesmo tempo de agradecer, Rick já estava gritando para que todos nós saíssemos dali antes que aquilo pudesse piorar ainda mais e apenas obedecemos.
Corremos entrando na floresta e encontramos mais mortos por lá e tivemos que usar quase a mesma tática para conseguir matar os errantes que apareceram ali, fomos obrigados a evitar usar nossas armas para matá-los, ou iríamos acabar atraindo mais deles para nós e não queríamos que isso acontecesse naquele momento.
Matar com as facas era silencioso? Sim, não estávamos chamando a atenção desnecessária para nós, porém, quanto mais matávamos mais deles pareciam aparecer e não iria demorar muito para que as facas logo se tornassem inúteis ali.
Minha mão já estava ficando suja de tanto sangue que respingava dos mortos, eu já nem sabia mais dizer o que estava mais sujo: se era a lâmina da minha faca ou se era minhas mãos. Estava ficando cada vez mais complicado de conseguir dar conta daquele monte de errante ali.
— Eu acho que não é novidade nenhuma que estamos numa situação ruim aqui! — O grandão de nome Abraham gritou nervoso. — Precisamos de um plano!
Eu não sei bem o que aconteceu em seguida já que, eu não estava prestando a minima atenção no que estava acontecendo a minha volta, estava tentando matar o máximo de errantes possiveis quando alguém me puxou me afastado deles.
Ouvi Tara gritar para que corressemos e foi isso o que eu comecei a fazer. Ouvi alguns tiros vindo logo atrás de nós e me preocupei um pouco, não sabia quem estava atirando e pensei em olhar para trás e ver o que estava acontecendo, assim que fiz essa grande estupidez senti uma dor forte no meu pé e quando me dei conta eu estava caida no chão.
Senti todo o meu corpo doer por causa da queda e me assustei quando ouvi outro tiro ser disparado. Tentei me apressar para me levantar e recebi a ajuda de Tara — era a segunda vez que ela me ajudava só naquele dia — e ela me ajudou a voltar a correr.
Corremos até chegar perto de um pequeno riacho que encontramos e paramos ali mesmo, os outros chegaram logo em seguida chegaram também.
Todos estavam cansados e ofegantes e suados, até eu estava; além é claro de estar com minhas mãos sujas de sangue de morto.
Os disparos continuaram por mais um tempo e depois da chegada de Glenn as coisas pareceram ficar um pouco mais claras; Rick, Michonne, Daryl, Ty e Abraham estavam atraindo os mortos para outro lugar para que pudéssemos correr e escapar deles.
— Acho que seria uma boa se ficassemos por aqui durante essa noite. — Glenn respirava com um pouco de dificuldade por causa da longa corrida que haviamos feito. — Daqui a pouco vai escurecer e se não encontramos nenhum lugar seguro até agora não vamos encontrar quando estiver escuro!
— Eu acho isso uma ótima ideia. — O rapaz com cara de cientista nerd respondeu nervoso. — Mas... se ficarmos aqui não vamos estar expostos? Aquelas coisas podem nos pegar!
— Vamos fazer turnos, — Respondeu Glenn o olhando. — Vamos ficar bem aqui, Eugene.
Eu olhei para o tal Eugene e mesmo depois do que Glenn havia dito ele ainda parecia um tanto receioso sobre ficarmos ali, na verdade, ele parecia estar realmente com medo por saber que talvez fossemos passar a noite ali no meio da mata.
É, ele realmente parecia ser um cara medroso. Sentei no chão para descansar um pouco e me lembrei do tombo que levei, olhei para o pé que teve o grande azar de ser acertado contra a pedra ou sei lá o que foi que eu tropecei e tirei a bota, tirei a meia e dei uma examinada no meu pé; ele não estava machucado e mesmo que estivesse doendo um pouco ele parecia estar quase ileso. Eu não havia torcido ele nem nada.
Eu estava torcendo para que fosse mesmo isso.
...
Já havia anoitecido e Daryl havia saido para tentar caçar alguma coisa para comermos, eu já estava com minhas mãos limpas e meu pé havia parado de doer, claro que meu corpo ainda doía um pouco por causa da queda mas não era nada que eu pudesse me preocupar.
Rick e os outros haviam voltado depois que conseguiram desviar a horda e concordaram e passar aquela noite ali para podermos descansar um pouco. Depois daquela longa corrida que fizemos estavámos realmente precisando de um bom descanso mesmo.
Passou um longo tempo até que Daryl finalmente deu as caras, ele não parecia muito animado e disse que não havia dado sorte na caça, ou seja, ele não havia conseguido caçar absolutamente nada.
Não vou mentir, eu estava com fome, ainda sentia o gosto horrível da barra de cereal que Martin havia me dado de manhã e só estava com ela no estômago, ou seja, depois que eu a comi eu não havia comido mais nada. Isso era uma coisa muito legal mesmo.
Vendo que não tinha muito o que fazer ali resolvi deitar, eu ainda estava cansada por causa da caminhada longa que fizemos e queria aproveitar o máximo para conseguir descansar, tirei minha blusa e a coloquei no chão e deitei minha cabeça sobre ela.
Fiquei olhando para o céu vendo aquele grande manto escuro e fechei meus olhos, ouvi o som de galho sendo pisado e os abri rapidamente, era Carl se deitando ao meu lado mantendo é claro uma distância boa entre nós. Eu o olhei por um tempo vendo-o tirar aquele chapéu sujo de xerife e o colocar sobre seu colo como se fosse um adulto — eu ri mentalmente daquilo —, ele não disse nada.
Apenas ficou ali deitado olhando também para o céu e estrahei aquele silêncio todo dele. Vindo de Carl aquilo não era algo normal.
— O gato comeu a sua língua ou o quê? — Virei meu rosto novamente para o céu voltando a olhá-lo e como eu já esperava, Carl me respondeu apenas com o silêncio dele. — Se você continuar me ignorando eu juro que pego uma faca para cortar esse seu cabelo!
Carl se levantou tão rápido que eu quase me assutei quando o vi sentado.
— O que você tem contra meu cabelo? — Perguntou.
— Nada, só gosto de ver como você reage quando eu faço a ameaça de cortá-lo. — comecei a rir. — Mas não pense que eu não vou fazer isso, pode ter certeza que assim que eu encontrar uma tesoura por ai eu vou dar um jeito nessa sua juba.
O olhei e o vi voltar a ficar deitado.
— Você só ameaça, duvido que vai mesmo ter coragem de cortar meu cabelo. — Falou num tom de desafio. — Você nem é louca a esse ponto, Ayla!
Arqueei uma sobrancelha.
— Eu só vou te dizer uma coisa Carl Grimes, nunca, em toda a sua vida duvide de uma palavra vinda de Ayla Stevens. — Respondi ainda o olhando. — Eu sempre cumpro com o que eu digo!
Carl virou o rosto me olhando também.
— Eu duvido que você tem essa coragem toda para cortar meu cabelo. — Ele falou duvido lentamente me encarando como se me desafiasse. — Eu sei que você não tem coragem de fazer isso.
— Está bem, — Falei. — Continua duvidando, Carl. Mas quando me ver com uma tesoura na mão é bom que você corra tanto quanto corremos hoje, porque eu vou te achar e seu cabelo não vai nem perceber quando eu o cortar!
Ele riu como se debochasse da minha cara e voltou a me encarar, dessa vez ele não disse nada e nem mesmo precisou, seu olhar parecia ter mudado e eu estranhei aquilo.
Já estava há um tempo com o grupo de Rick e sempre quando estive com Carl nunca havia o visto com aquele olhar antes. Eu não soube exatamente como reagir com aquilo, senti meu coração acelarando um pouco e logo minhas mãos pareceram começar a ficar suadas; aquilo realmente era algo estranho.
Nunca havia sentido nada daqule tipo antes e por mais que eu não soubesse o que era exatamente, eu estava gostando da sensação que aquilo estava me causando.
Era algo difente de tudo o que eu já havia sentido na minha vida, não sei dizer exatamente o que era, mas, era realmente algo muito bom mesmo.
Era um tipo de ansiedade, mas aquela ansiedade boa, aquela que sempre sentiamos quando alguma coisa iria nos acontecer ou quando sentiamos quando coisas boas iriam acontecer conosco, era quase isso, mas um pouco mais diferente.
Não sei dizer bem o que era mas, eu estava mesmo gostando daquilo. Mesmo sem saber o que era exatamente.
— Aposto uma barra de chocolate que eu corto o seu cabelo. — Finalmente consegui falar.
— Aposto uma barra de chocolate que você nem consegue encontrar uma tesoura.
Eu me levantei ficando sentada e o vi fazer o mesmo.
— Feito. — Estiquei minha mão na sua direção e ele fez o mesmo e logo apertamos nossas mãos concordando com a aposta.
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