Helena

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Foi inspirada num poema lindo ("A morta", de Cecília Meireles) e numa música linda "Bittersweet".A Persephonne me deixou melancólica quando eu precisei (no fim da fic). Thanks, sugar.O poema do final da fic é MEU. O único verso que não me pertence é o "Perdido nos braços do destino", que é da música Bittersweet.
Helena

Sentado à mesa, seus olhos verdes fitavam o resto da pasta de amendoim no vidro. Havia dias que não sabia mais distinguir tristeza de vida. Ela o deixara.

Fora um casamento tão curto!

Deitou a cabeça no encosto da cadeira. Deu um longo suspiro.

Não sentia fome.

Foi ao quarto do filho. Ele havia chutado o cobertor, que caíra no chão, e agora encolhia o corpo. Cobriu-o e beijou-lhe a testa.

Caminhou lentamente pelo corredor e entrou em seu quarto.

Um aperto no coração fez lágrimas rolarem pela face. Levou as mãos à cabeça, passando os dedos entre os fios de cabelo, brutalmente.

As pernas estavam fracas. Encostou-se na parede. Escorregou por ela até cair sentado. Com as mãos na cabeça, entregou-se ao choro.

Ela não estava lá. Tão pouco tempo, mas os vestígios ficariam para sempre. Onde quer que ele fosse.

Chorou até as lágrimas secarem e a cabeça doer muito. Com dificuldade, levantou-se. Foi ao banheiro lavar o rosto.

Abriu a porta do guarda-roupa. Os vestidos ainda estavam lá. Passou a mão sobre um preto e vermelho, o preferido dela. Ele dizia que era de luto. Ela sempre viveu entre lutos.

Abaixo, um par de sapatos pretos, muito macios, com fitas pretas que davam algumas voltas em sua perna. O cheiro de Helena permanecia neles. Apertou-os contra o rosto e guardou-os novamente.

A água morna caía sobre sua pele.

Seus movimentos eram lentos. Tudo doía. Como ele queria Helena para confortá-lo! Escorregar suas mãos pelo corpo dele, fazê-lo sentir-se vivo.

Antes de dormir, foi ver o filho novamente. Era tão parecido com Helena. Apenas o nariz e o cabelo eram dele. O resto: Helena.

Deitou-se na cama. Sentia-se morto. Passou a mão lentamente no lado vazio do colchão, onde sua amada dormia todas as noites.

Dor que me mata!

No dia anterior à sua morte, Helena disse-lhe: “Gerard, prometa que se eu morrer, você cuidará de nosso filho e lhe dará todo o carinho que merece”.

Ele a olhou com ódio e tristeza.

“Não diga isso! Por que há de morrer?”.

“Um dia irei, sim; quando acontecer, quero ir com paz no coração”.

“É claro que vou cuidar do nosso filho. E não diga nunca mais que vai me deixar!”, disse com lágrimas nos olhos.

Adormeceu.

Na manhã seguinte, a primeira coisa que fez foi olhar o filho, que estava dormindo.

Voltou para a cama. Passou as mãos no rosto e cruzou os braços atrás da nuca. Fechou os olhos.

Ela caminhou lentamente até a cama, de camisola preta e vermelha, provocante. Deitou-se sobre ele e o beijou.

Suas mãos corriam pelo corpo dela...

- Mãe! Mãe!

Gerard levantou-se num pulo e correu para o quarto do filho. Ele ainda se debatia, gritando pela mãe.

- Calma, Billy, o papai está aqui – disse, alisando seu cabelo.

Aos poucos, Billy foi se acalmando.

- Eu quero a mamãe – disse o menino de olhos verdes, abraçado ao pai, chorando.

- A mamãe não vai voltar...

Até quando teria de suportar isso? Dizer que a mamãe foi para um lugar melhor, sem poder contar a verdade?

Gerard permaneceu com o filho até este adormecer.

* * *

Os vestígios de Helena estavam matando-no. A casa exalava tristeza. O filho era a encarnação da mãe.

Em frente ao espelho do banheiro, Gerard fazia a barba. Via seu reflexo sem emoção, fazia movimentos automáticos.

Enxaguou o rosto. Pegou a toalha vermelha-cor-de-sangue e enxugou sua pele macia.

Sobre a pia, uma lâmina. Olhou fixamente para o objeto cortante. Pegou-o. Uma lágrima escorreu pela face.

Levou a lâmina para perto do pulso, lentamente...

A campainha tocou, trazendo-o de volta.

Deixou o objeto brilhante sobre a pia e foi ver quem era.

- Oi, Frank.

- Oi. Posso entrar?

- Claro... – não era isso que ele queria dizer.

Abriu passagem para o amigo, que olhou ao redor da sala, tendo tristes lembranças da amiga, certamente.

- Como vão as coisas?

- Caminhando... eu diria.

- E o Billy?

- Está dormindo. Tem pesadelos toda noite, acorda gritando pela mãe.

Frank suspirou, sentindo por ele.

Sentaram em sofás opostos.

- E você?

Dessa vez foi Gerard quem deu um longo suspiro.

- Eu... estou tentando sobreviver.

* * *

Era sexta-feira.

A mãe de Gerard foi visitá-lo. Iria levar Billy para passar o fim de semana em sua chácara.

Antes de sair pela porta da frente, ela disse ao ouvido do filho:

- Talvez seja melhor vocês se mudarem desta casa. Este lugar só lhe traz tristeza.

- Não se preocupe, mãe. Eu vou ficar bem.

Gerard havia parado de tomar anti-depressivos desde a morte de Helena. Mentira para a mãe sobre isso minutos antes desta cena.

Observou o carro sumir pela rua e entrou novamente.

Foi à cozinha, pegou um copo d’água.

Caminhou lentamente até o quarto. Abriu o guarda-roupa e tirou uma caixa de dentro. Lá eram guardados os remédios, bem no alto, pois Helena temia que Billy tomasse algum.

Pegou a caixinha de anti-depressivos. Sentou-se na cama.

A imagem da amada veio-lhe à mente. Deitada no chão do quarto, algumas pílulas espalhadas ao seu redor.

- Você disse que estava tomando! – disse ele, com voz falhada.

Chorando e implorando para que ela acordasse, ligou para o hospital. Deixou o telefone cair no chão assim que terminou.

Tomou-a em seus braços.

- Helena, não faz isso comigo! Acorda, não me deixa só!

“Perdido nos braços do destino

Eu choro.

Ela está morta,

Mas eu preciso dela!

Não vou aceitar que esse seja o fim.”

Em movimentos lentos, tirou a tampa da embalagem. As lágrimas cessaram.

“Sob a escuridão da noite,

Irei encontrá-la.

A brisa tocará nossas faces,

A lua iluminará seus olhos

E terei seus doces lábios novamente.”

Tomou quantos comprimidos pôde até deitar-se na cama, sentindo a cabeça girar; tudo ficou embaçado.

“Em breve,

Muito em breve,

Estaremos juntos.

Eu vou cantar sua canção favorita

Segurando suas mãos.

Meu rosto próximo ao seu.

Vou sentir sua respiração

Na minha pele

E dizer as coisas lindas

Que você ama.”

O copo se espatifou no chão em mil pedaços.

“Posso ouvir a música melancólica

Adentrar o quarto...

Só quero que o tempo passe rápido

Para eu estar, finalmente,

Perdido nos braços do destino.”

Logo uma dor no peito muito grande e um último suspiro.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!