Aquele ano correu. E mais um inverno, mais um outono se passara. A sensação de que a morte se aproximava cada vez mais contagiava a minha nostálgica sensação de que eu não deveria estar ali.

– Ei. O que isso quer dizer? – Uma voz estridente e pouco conhecida ecoou e me descentrou.

– Desculpe? – Perguntei arqueando levemente as sobrancelhas. A menina sorriu para mim, parecendo muito mais bondosa do que a vida deveria ter sido para ela.

– Sabe. Aqui diz que Lodwood é um lar para mulheres órfãs.

– Realmente. – Fechei o livro. – Todas as garotas aqui residentes tiveram ao menos um dos pais mortos por causas naturais ou não. Aí depende da sua sorte. – Ri de minha piada. A garota mais nova do que eu porém pareceu não entender. Tossi baixinho tentando abafar ao máximo o som que minha garganta involuntariamente produzia.

– Ah. Perdão. Sou Jane. Jane Eyre. – A garotinha sorriu.

– Sou Helen, Helen Burns. – Suspirei tossindo de novo. Esperava que ela ficasse quieta o que foi em vão.

– Quer dizer que ninguém que estuda aqui paga? – Ela perguntou.

– Não. Seu pai, ou mãe, ou guardião paga uma pequena pensão de quinze libras anuais, e ricos doadores mantem o grosso da escola. – Sorri pesando em Madame Norrah.

– Ah... Você sabe muito daqui. – Ela sorriu para mim, deixando-me um pouco mais solta perto dela.

– É a convivência. Vivo aqui há seis anos.

– Entendi... – A garota parou de falar. Viu meu livro e retornou. – Posso dar uma olhada? – Ela sorriu. Passei o livro em francês para ela. Ela pareceu dar uma olhada mas logo me devolveu.

– Já leu? – Perguntei. Ela descordou.

– Não sei francês. – Afirmou.

– Não se preocupe. – Sorri. – A comida não é das melhores, nem os quartos e muito menos os uniformes. Mas será bem educada.

A garota sorriu pondo-se novamente de pé e caminhando para a volta da escola. Olhei para o céu abrindo novamente o livro. Infelizmente em dez minutos Miss Temple se aproximou.

– Vamos. Deve voltar. – Ela sorria. Aquele sorriso não mais me alegrava. Ela era só mais uma que fazia tudo por obrigação... Ou quase.

Naquele mesmo dia durante a aula de história Miss Scatcherd fez-me responder uma pergunta, que apesar de ser a resposta certa para ela não estava na exatidão desejada. Passei uma hora do jantar no centro do salão, com um livro apoiado sobre a cabeça. Vi Jane Eyre fitando-me. Ela parecia preocupada. Para mim porém aquilo não era nada além do comum. Com os olhos e os sentimentos apáticos continuei cumprindo o que devia. Um dia a dor cessa, os olhos fecham, se cansam. Não suportam mais as injustiças do mundo. E, por fim, finalmente, o fim chega.

Infelizmente para mim, esse ainda não era o dia.