Heiress of Shadows
1 𝕻𝖗𝖔́𝖑𝖔𝖌𝖔
, º15
7 1981
manhã havia começado tão tranquila quanto todas as outras, com o som dos pássaros visitando seu jardim, alguns poucos carros passando pela rua dos Alfeneiros e o som dos passos de George Brown se arrumando para mais um dia de trabalho. George era um homem de aparência um tanto comum, com cabelos escuros e suaves entradas, olhos azuis um tanto cinzas e um corpo bem cuidado, não havia muito em si que o destacasse entre as demais pessoas e gostava disso. Enquanto se olhava no espelho em seu banheiro, passava os dedos em sua barba por fazer e suspirava vendo os cabelos um tanto desgrenhados pelo tempo em que esteve dormindo. Ainda se tratava de seis horas da manhã, havia sido acordado pelo despertador para que pudesse se preparar para mais um dia de trabalho no centro do condado de Surrey. — George, querido, estou descendo para preparar o café. — Ouvia a doce voz de sua esposa mas não houve tempo para resposta, ouvindo o som da porta se abrindo e tão logo se fechando enquanto os passos de Marta Brown se afastaram do quarto de casal.
Marta era uma mulher de aparência gentil, com seus cabelos loiros já tendo algumas mechas grisalhas, os olhos verdes e pele clara, parecia sempre ter um sorriso caloroso nos lábios rosados e finos. Enquanto seguia pelo curto corredor do segundo andar, Marta não pôde deixar de olhar para a porta de cor branca perto da escada, fazendo seu olhar se entristecer suavemente. Na porta ainda havia uma linda placa em detalhes rosa com desenhos de coelhos brancos e o nome “Dominique” entalhado em uma bela e delicada caligrafia. Com um suspiro pesaroso, arrastou suas pantufas brancas e felpudas pelo chão de madeira de lei e passou a descer as escadas, tentando afastar de sua mente o recente aborto que sofreu ainda em seus quatro meses de gestação.
George, no segundo andar, terminava sua ducha quente e seguia em direção ao closet que dividia com a esposa. A organização de Marta ainda o impressionava mesmo após vinte e três anos de casamento. Não demorou para estar vestido em um terno de cor cinza, sapatos pretos e muito bem engraxados e o reflexo no grande espelho lhe ajudava a garantir que seus cabelos estavam muito bem penteados para trás. Era exatamente seis e meia da manhã quando desceu as escadas tendo sua maleta de couro preto em uma de suas mãos, o delicioso cheiro de café adentrando suas narinas a cada passo que se aproximava da cozinha e um sorriso bobo tomou seus lábios ao ver a esposa ainda vestida em seu pijama em frente ao fogão. — Depois de tanto tempo, não acredito que ainda me impressiona o fato de cozinhar tão bem. — O homem comentou ao se aproximar por trás da esposa e lhe depositar um beijo carinhoso em sua bochecha pálida, tratando de se sentar à mesa logo em seguida.
A mesa já estava posta com pães frescos, geleia de framboesa, bolo caseiro e uma jarra de suco natural de laranja, mas claro, ainda faltava o café que George sempre tomava enquanto lia o jornal da manhã. — Ainda me impressiona o fato de gostar tanto assim de minha comida. — Marta lhe respondeu com um sorriso singelo, não demorando a servir uma xícara de café para o marido e o observar colocar açúcar. — Veja, conseguiram pegar os malditos que estavam responsáveis por aquelas ondas de assalto na cidade. — George comentou, os olhos azuis passeando pelas páginas do jornal e Marta somente assentiu enquanto se servia de café.
Às sete e meia da manhã, George já havia se despedido de sua esposa com um beijo carinhoso e se encontrava a caminho do centro de Surrey, em seu carro popular, assim como os demais homens de sua idade. O dia da família Brown se iniciou com tranquilidade e sua rotina seguiu de igual forma, com George ocupando-se em seus afazeres dentro da empresa onde trabalhava como gerente de vendas e Marta cuidando da casa e de seu belo jardim. Porém, foi às nove da noite que ouviram o som da campainha tocar, não sabendo que aquele som era o indicativo de que suas vidas mudaram naquele momento em que Marta abriu a porta e se deparou com uma cesta branca quase que completamente coberta com lençóis brancos, deixando a mostra somente o pequeno rosto de um bebê. — Oh céus. George, venha rápido. — Gritou pelo marido enquanto pegava a cesta em suas mãos com cuidado, verificando o estado da criança.
A reação de George foi um tanto mais preocupada ao ver a situação, saindo do interior da casa, mesmo já em seu pijama, para verificar se ainda havia algum vestígio de quem poderia ter deixado aquela cesta em sua porta. Não havia, porém, qualquer sinal de alma viva naquela rua, nem mesmo carros, pessoas ou animais, somente o vento frio e a suave chuva que começava. — Há um bilhete. — Marta comentou ainda, não esperando pelo marido ao entrar em casa e colocar a cesta sobre a mesinha de centro na sala de estar, diminuindo ainda o volume da televisão. — O que diz? — A voz de George foi seguida pelo som da porta se fechando e seus passos se aproximando, não demorando para que o homem de um metro e oitenta surgisse no portal da sala de estar. — Aos cuidados da família Brown… — Marta leu em um tom baixo, deixando o bilhete de lado e puxando com cuidado os lençóis brancos, revelando mais do bebê que se encontrava adormecido.
— Ela é grandinha. Olhe, George, ela tem algumas sardas nas bochechas. — A mulher falava já encantada, não tardando a pegar a menininha em seus braços. George, por sua vez, tinha o bilhete em uma de suas mãos e estava pronto para ligar para a polícia quando seu olhar se direcionou para a esposa, suspirando ao ver o sorriso iluminando o rosto pálido e cheio de sardas de Marta, os olhos verdes em um brilho que a tempos não via. Foi neste exato momento que ambos pareciam ter concordado em algo que nem mesmo foi proposto.
Naquele momento, dia 7 de Novembro de 1981, Dominique Brown surgiu dentro da família como filha do casal. Não houve protestos por parte das famílias, os vizinhos não precisavam saber e colegas de trabalho somente desejavam parabéns para George, não haviam perguntas nem julgamentos. A família Brown simplesmente havia aumentado e a casa antes silenciosa agora havia se tornado mais alegre com a pequena Dominique aos cuidados de George e Marta. Seus primeiros anos de vida naquela casa foram repletos de cuidados e mimos, crescendo com todo o amor que merecia e aos poucos, apesar de adotada, Dominique parecia ter alguns traços dos pais, como os cabelos pretos e altura de George, olhos verdes e as sardas de Marta.
Ninguém ali precisava saber de onde a menina havia surgido e nem mesmo o motivo de ter sido deixada ali. Tudo que importava era que finalmente tinham sua Dominique e os dias naquela casa eram alegres. O que importava era que Marta estava completa com sua menininha crescendo saudável, mesmo que tendo a personalidade cada vez mais curiosa e difícil de lidar. Nada mais importava.
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