Hecatombe
1 Prólogo
Notas iniciais
Era uma vez, sobre os altos dos céus, uma pradaria formada por nuvens. As flores eram como cristais de neve brilhando pela luminosidade solar. Esse era o império dos deuses, um reino que perdurara pelos séculos. Porém, numa disputa pelo trono, os deuses dividiram-se instaurando pela primeira vez, o conceito de guerra.
Trovões, água, gelo, fogo, terra, ar,… Os elementos pelejavam contra si.
Porventura, foi entre as chamas tórridas e água pura, interrompendo pelo ciclo dos opostos, que surgiram novas criaturas. Designadas por deuses da natureza, os elfos. Dotados de poder mágico, contribuíram para o fim daquela batalha apolítica.
Porém, as maravilhas estavam longe de acabar. O conflito entre os deuses originou várias espécies mitológicas que num planeta aprenderam a coabitar. Uma união por interesse, sem sentimento, poderia perdurar? Iria a ganância voltar a perfurar os laços, instaurando o caos?
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Naquela noite, a melhor notícia tornar-se-ia num lamento. Os sorrisos converter-se-iam em lágrimas.
— Estou grávida, Akira. — Akira Inoue, rei elfo da zona leste, encarava sua esposa com um sorriso enquanto as gotas salgadas escorriam por sua face.
— Tem certeza disso, querida?
— Sim… — Os cabelos ruivos caíram do coque engenhoso, cobrindo sua face pesarosa. As mãos envolta do ventre, num abraço carinhoso, um calor longe de ser sentido pelo pequeno embrião.
O casal mergulhou num silêncio sufocante sobre o significado oculto daquela notícia. As chamas ávidas sugavam a rigidez dos troncos de lenha, aquecendo a habitação do casal. No entanto, nem o calor que emanava desse processo era o suficiente para acalorar o vazio do peito de cada um deles.
Terrivelmente bárbaro, obrigar um pai a sorrir quando este enxergava um futuro que não estaria presente, todas as ocasiões inovadoras que perdia, todo o crescimento que não enxergaria… Tudo para poder salvar seu filho.
Esconder. Fugir. Proteger.
Sacrificar-se-iam pelo filho de ambos. Era uma escolha de amor, não um fardo.
Morrer sem acompanhar seu bebé era doloroso, porém sobreviver sem ele era impensável.
— Quando pretende partir Kaoru?
— Será mesmo necessário? Não haverá outro jeito Akira?
— Nós sabemos que não. Eles virão atrás de você, Kaoru… e da nossa pequena Hime. — A futura mãe, sorriu enquanto encarava os olhos cintilantes do esposo, sobre sua barriga.
— Como sabe que é menina?
— Um pressentimento de pai. — Um riso presunçoso curvou seu rosto envelhecido pelas rugas de preocupação, mas nem assim escondia sua beleza.
Daquela noite em adiante, nunca mais houve paz no território Inoue. Akira não confiava inclusive em sua sombra, tudo para resguardar quem amava. Escondera Kaoru num calabouço, sempre transportando tudo o que esta necessitava para sobreviver e para viver o mais comodamente possível. Apesar das circunstâncias dramáticas, o casal real era feliz. Deleitavam-se com a mínima ocorrência, riam sempre que Orihime chutava a barriga da mãe, revelando seu interesse pelo exterior, quando Kaoru cantava músicas de embalar o rei simplesmente ficava quieto num canto observando-a, apaixonado. Numa cela, o casal narrou e realizou as experiências que almejavam com o pequeno ser que ainda não viram, mas com certeza era profundamente amado.
Suas expressões demonstravam a sua ansiedade de poderem ser pais. Uma felicidade que fora duramente arrancada de seus rostos.
O preliminar começara pelo ataque ao palácio. Amaldiçoados pela história dos deuses, elfos guerreavam entre si, em busca de glória. Um intuito puramente ganancioso e egoísta, que pusera um termo a centenas de vidas, junto de ideais como a paz e o amor.
Contudo, até nos instantes mais desconcertantes da história, há um ponto de esperança. Um pequeno feixe de luz. Numa noite sem estrelas, quando foi descoberta a gravidez de Kaoru, também ocorrera o nascimento de Orihime Inoue. A rainha permaneceu estática encarando o rosto pequeno com a boca entreaberta, em seu seio. Akira, preso num manto inconsolável, apenas decorava cada traço do rosto da filha que nunca veria crescer. Apertando a mão da única mulher que amou, pedindo perdão com esse simples gesto, por não a poder proteger.
Aquela criança…Tinha o dever de proteger. Uma missão extremamente dolorosa para uma menina inocente suportar. Kaoru, beijou a testa da filha que abrigou durante nove meses em seu ventre, colocando em suas pequenas mãos duas presilhas azuladas.
A profecia estava cumprida.
Pequena e inofensiva, era assim que Orihime foi entregue a um jovem moreno -seu guardião- que escapou dos destroços provocados. Sem nunca olhar para trás, não assistiu à queda dos monarcas junto de seu reino.
Naquela noite, as estrelas não brilhavam. Estavam mortas, assim como os sonhos de todos os que padeceram.
O sonho que desfigurara-se num pesadelo sangrento, arrebatara a rainha Kaoru de seu sono profundo assistindo o marido dormir calmamente sobre o seu leito. Aquela era a profecia? A sua morte junto com o marido? A fuga da princesinha com aquele rapaz?
A chegada da madrugada, os raios solares iluminando os telhados coloridos, num cenário pacífico e harmonioso não encantou a ruiva naquele dia, as lágrimas semelhantes a cristais desceram pelo seu rosto, com as imagens da previsão vagueando em frente de seus olhos, como se estivesse presa a uma ilusão.
O rei despertou com pelo corpo feminino irrequieto ao seu lado, um sorriso rasgava sua face, no entanto o olhar avelã opaco com as mãos enrolando seu ventre, murchou a linda curvatura em sua face.
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No prelúdio do conflito, intermédio a batalha, Akira receoso por ter abandonado sua esposa, que encontrava-se em trabalho de parto, a fim de combater, preservando as futuras gerações em seu império.
Queria acolher sua filha nos braços, aconchegar sua esposa. Enfim, trazer paz ao seu vasto reino.
Ao término da guerra, sua pequena filha, Orihime viria ao mundo. O choro da criança cujo salvaria, futuramente, o seu império. As lágrimas da princesa, cujo destino, ninguém saberia, ou ao menos, decifraria.
— Orihime, minha pequena. Bem-vinda ao nosso reino. — A ruiva acariciava o pequeno rostinho que se encontrava à sua frente. Frágil… esta seria a nobre palavra para descrevê-la. Logo, em seus braços, estava a salvadora dos reinos.
— Kaoru?! — O rei elfo correra pelo vasto corredor, empenhado em chegar à última porta, cuja habitação onde se encontrava sua esposa, e filha.
O moreno finalmente chegara ao seu destino. Ensanguentado pelas cores da guerra, uma lágrima caíra sobre o chão ao contemplar a vista que tivera. Esposa e filha. As duas razões de sua existência.
— Akira, querido… — As pálpebras encheram-se de lágrimas, prontas a cair. — Venha ver sua filha. — Completou, permitindo a água em seus olhos fluir por sua face.
O rei adentrou ao quarto, a felicidade agora escondera os raios de preocupação que eram presentes na face do moreno.
— Kaoru… — Observou atentamente cada detalhe de sua bela esposa. — Então é uma menina…
— Sim, esta é Orihime. Sua pequena princesa.
— Orihime.. — O rei decorou minuciosamente cada detalhe do pequeno corpinho, enrolado no manto bordado, ao sons dos elfos. Era a menininha perfeita.
Os olhinhos castanhos claros encaravam curiosamente cada característica do grande elfo presente ao seu lado. Estendeu a mãozinha aguardando para enfim, acolher o rosto do grande rei.
Assim o grande fez, abaixou-se permitindo que a pequena lhe encostasse. Acolhendo ambas em um caloroso abraço, por um momento, ambos esqueceram a dor que teriam após o décimo nono aniversário de Orihime.
Nessa postura permaneceram, até escutar-se o segundo choro. Fome.
Passado três anos . . .
O centro do palácio era decorado com diversificadas espécies de flores. Todas as cores, de todos os habitats vivendo em harmonia… A rainha sempre sensibilizada para com os pequenos seres imóveis, apaixonada pelo seu cheiro doce. Um amor e respeito que transmitiu para os restantes habitantes do palácio.
As flores, naquele instante, testemunham uma reunião secreta entre os monarcas com o seu cavalheiro mais fiel, Kyoraku Shunsui, acompanhado por seu filho de três anos.
— Orihime, esse é o Sora. — A rainha elfo abaixara a pequena ruiva, para que observasse melhor o moreno. Entre gestos fofos e baba, a princesa sorria ao encarar o portador de uma pequena armadura junto de seu pai.
— Sora, apresente-se à sua princesa Orihime. — Proferiu o grande senhor de cabelos acastanhados.
— I...hime? — Os reis e cavalheiro riam pela pronúncia torpe da criança.
— Sim Sora, Orihime. — A loira sorrira, observando atentamente cada expressão do pequeno.
O moreno, por sua vez, tímido à frente da pequena, levantou-se do chão, observando os pequenos lábios da ruivinha se abrirem ao vê-lo. Tomou coragem, aproximando-se e por fim, acariciando a pequena cabecinha ruiva.
Retribuído com um grande olhar amoroso, a pequena estendera os braços gordinhos, tentando alcançar ao máximo o cabelo do seu guardião.
— Filha este é o Sora, e ele será seu guardião. Sua função será protegê-la sempre, sem hesitar. — Proferiu o grande elfo a sentença que anunciaria a chegada de um futuro pouco distante e desastroso.
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