Heaven's Door

1 Prólogo - Quando a morte encontra o morto


Notas iniciais
Dois personagens importantes aparecem nesse prólogo. Divirta-se.Se preferir, leia ouvindo: https://www.youtube.com/watch?v=l2S4GTD-AAw Créditos a beta Aprendiz1. Se houverem erros, a culpa é dela.

Prólogo

Quando a morte encontra o morto

20h37min

Estava escuro.

Milena não conseguia enxergar muita coisa. O pouco de luz que havia ali provia de pequenos buracos espalhados por entre as tábuas que formavam as paredes e o teto. Estava amarrada a uma espécie de maca e amordaçada com um pedaço de pano velho e fedido a cimento. Chorava silenciosamente, ainda com medo do seu raptor, que amolava uma faca na mesa ao lado e possível ver faíscas sendo lançadas pelo atrito da faca com a pedra.

Cantarolava uma música famosa nos anos 90, mas Milena não conseguia se lembrar qual era e nem ao menos se deu importância. Estava aflita e só pensava em sair daquele lugar horrível e encontrar seus familiares e seu namorado.

–I all ever wanted... Is here in my arms... Words are very unecessary- algumas palavras eram ocultas pelo som que a pedra e a faca faziam quando ele encostava as duas. A voz era áspera e pingava psicopatia.

Ele se virou e andou até ela, dando a volta na maca. Pela primeira vez ela o viu de frente, mas seu rosto estava escondido sob uma máscara totalmente branca, exceto pelo desenho de uma lágrima abaixo do olho esquerdo. Era possível ver os olhos castanhos que a encarava com apreciação e a boca, que exibia um sorriso doentio, pelos buracos da máscara

Debateu-se, tentando soltar as amarras, mas foi inútil.

–Você não vai conseguir escapar- tocou uma mecha de cabelo e a enrolou no dedo, então aproximou o seu rosto ao dela. Era possível sentir um odor de cigarro- Você é minha.

Virou-se e foi até uma pequena mala de ferramentas. Pegou uma seringa já com agulha, deu pequenas batidas com o dedo e empurrou o êmbolo. Algumas gotas foram expelidas. Era um poderoso sedativo a base de benzodiazepina. Gostava de fazer cortes com precisão quase cirúrgica e precisava que a vítima estivesse imóvel.

Voltou-se para Milena, mas ouviu latidos quando ia aplicar o injetável. Foi até uma das paredes e observou por entre as tábuas, porém não conseguiu ver nada. Foi até outra parede e fez o mesmo. Nada ainda.

A única maneira de chegar na cabana era a pé. Ela ficava em meio a um antigo e pequeno bosque e pertenceu a um velho falecido em 2007. Desde então ficara desocupada, até começar a ser usada para os assassinatos há três meses.

Começou a suar frio. Precisava tomar medidas. Não queria ser preso e não tinha como escapar do flagrante, mas podia fugir. Foi até sua mesa e pegou um revolver RT-838 que havia comprado de um traficante. Não era uma das melhores armas e não se comparava a artilharia da policia, mas continuava sendo uma arma de fogo e poderia ser bem útil. Assim que Milena viu a arma, ficou nervosa. Tentou chacoalhar a maca, ainda com esperança de soltar os braços. O agressor pegou um pedaço de tecido e o molhou com clorofórmio. Segurou contra a face de Milena por uns segundos até que ela perdesse a consciência.

Alguém bateu na porta. O assassino apontou sua arma, mas não respondeu. Houve mais batidas.

– Abra a porta- ouviu um homem gritando- É a policia.

Para onde iria? Não tinha como fugir. Resolveu permanecer em silêncio. Eles não poderiam invadir uma propriedade privada sem um mandato. Resolveu permanecer em silêncio.

Alguma coisa pesada atingiu a porta, fazendo as dobradiças cederem um pouco. Iriam derrubá-la. Mirou, esperando o momento certo. Outra batida forte e a velha porta caiu, revelando dois policiais vestindo um uniforme marrom claro sob um colete a prova de balas.

– Solte a arma e ponha as mãos na cabeça- falou um deles, o mais alto, pronto para disparar se fosse preciso. Seu nome era Jake Benner e, apesar de jovem, ficou bem conhecido nos últimos meses pelos repetidos sucessos em pequenas investigações. O outro policial, Hank Mayer, possuía muitos anos de profissão e se aposentaria dentro de algumas semanas.

O assassino disparou e em seguida pulou em uma das paredes que era mais frágil, sumindo na mata. A bala perfurou o ombro de Hank, que caiu tonto no chão. O uniforme marrom logo ficou vermelho.

–Não foi nada grave- disse Hank, pressionando o ferimento com uma mão- Vá atrás dele.

–Entendido- acatou Jake- Preciso de uma ambulância no Bosque Saint Peter, primeira entrada a direita depois do Hotel Kunigan- falou ao rádio da polícia. Não demoraria muito para que a ajuda chegasse.

Levantou-se e examinou Milena. Aferiu o pulso, que apesar de fraco, ainda estava presente. Procurou por corte ou incisões e não achou nada. A garota ficaria bem depois que o efeito do sedativo passasse. Passou pelo buraco deixado na parede e correu para a mata densa. A lua brilhava logo acima da copa das árvores, mas sua luz era impotente naquele ambiente. Jake segurou uma lanterna com uma das mãos e a arma na outra, de modo que cruzasse os pulsos. Apontava a luz para qualquer sinal de movimento, mas o bosque era repleto de raposas procurando por tocas de indefesos coelhos.

Um galho quebrou logo atrás de Jake. Ele se virou lentamente e mirou uma árvore. Esperou algum movimento, mas não houve nada, até que uma bala passou por ele e penetrou em algum tronco, ouvindo estalos da madeira em seguida. Apagou a lanterna. Ela era extremamente útil, mas também condenável. Poderia denunciar sua localização e transformá-lo em um alvo fácil.

Outro tiro. Esse acertou de raspão o seu braço, abrindo um rasgo na manga de sua camisa e um ferimento considerável.

Um click ecoou. A arma estava sem bala. Jake teria um momento para agir, mas foi atingido na perna e caiu. Seu revólver sumiu em meio a escuridão e galhos secos. Tateou a terra úmida a sua volta e então viu a silhueta parada diante dele.

–Você não tem medo, policial? Posso ver em seus olhos. Você está morto e não aguenta mais esperar a bela morte bater em sua porta. Encare isso como uma ajuda- engatilhou a arma.

Jake sorriu.

–Desculpe, mas não posso aceitar.

Um único disparo. Uma única morte.

20h55min

Milena já havia recuperado a consciência. Sua ambulância estava parada do acostamento na entrada da trilha para a cabana. Ela respondia algumas perguntas dos policiais recém chegados. Hank também estava sendo examinado, embora estivesse bem. A bala não ficou alojada no ombro e depois de algum tratamento estaria pronto para voltar as investigações policiais. Ele havia mandado outros oficiais atrás de Jake e estava parcialmente receoso pela vida do parceiro. Tinha ouvido tiros e embora não tivesse nada pessoal contra o jovem policial, ele já havia tirado algumas oportunidades de Hank. A morte dele não seria tão ruim.

–Hank-chamou Jake, saindo da trilha acompanhado pelos oficiais.

–Graças a Deus- agradeceu, juntando as mãos como se fosse rezar. Era apenas falsidade- E onde está o filho da puta?

–Morto.

–Morto?

–Sim, morto. O corpo está na floresta. Mandarei alguém dar um jeito nele.

Hank conhecia Jake, ou pelo menos achava que o conhecia. Não costumava ser violento e sempre pensava muito antes de agir. Qualidades estas que o fizeram chegar onde está rapidamente.

–Claro. E quanto a esse ferimento?

–Não foi nada, preciso só de um curativo.

–Entendo. Preciso me reportar ao Capitão Mills- Hank pegou o rádio da polícia- Por que não aproveita que os médicos ainda estão aqui?

–Certo.

Jake foi até a ambulância e se sentou ao lado de Milena. Mostrou o ferimento no braço para os enfermeiros e aguardou enquanto o curativo era feito.

–Obrigada- disse Milena, ainda fraca.

Jake apenas sorriu.

–Ele machucou você?- perguntou, tentando imaginar o trauma que a garota sofrera.

Ela fechou os olhos no momento em que uma lágrima correu pelo seu rosto e passou por sua boca. Sentiu o gosto salgado.

–Não, graças a vocês. Eu tive tanto medo- desabou em prantos.

O jovem policial a abraçou, tentando reconfortá-la.

–Está tudo bem agora- foi só o que conseguiu dizer.

Foi então que o subtentente Hank o chamou. Entregou o telefone.

–Policial Benner? Arrume suas coisas, você vai para Heaven's Door.

Notas finais
Por enquanto é só. E então?