Heavenly Oblivion I -The Fate-

3 III - A Noite Manchada de Escarlate


Notas iniciais
Este é o terceiro capítulo, e particularmente, o que eu mais gosto! Desculpem-me pelo fato de ter inserido tantos termos novos; prometo que farei um grande glossário ao final de cada capítulo para que vocês não fiquem perdidos~
Boa leitura! ♥

– Hope, feche os olhos!


Sem pensar duas vezes, obedeci o que a entidade alada dizia; sua voz masculina era levemente familiar. Ele rapidamente se aproximou e evitou minha queda ao segurar-me com extrema delicadeza. Abri os olhos por um breve momento quando percebi que estava sendo carregado em seu colo: pude ver o par de longas asas negras que se movimentavam em suas costas proporcionando os impulsos do vôo. O decorrer de tais ações misturou-se com o turbilhão de hipóteses fantasiosas que passeavam agitadas em minha mente. "Eu estaria sendo carregado por um anjo? Mas...anjos não existem!" pensei eu enquanto tentava-me abster de qualquer julgamento precoce. Tentei visualizar seu rosto, mas não consegui o fazer. Apesar disso, sua identidade já era evidente; sua voz, suas roupas, sua obscuridade serena... Aquele era o Homem das Vestes Negras que eu encontrara horas atrás no Parque Redlight. Só me restava saber o que ele era.


– Você... — as palavras fugiram através da garganta. Minha voz era trêmula, a respiração falha. — Você é o homem que me deu este colar que está em meu pescoço, certo?


Mesmo sem poder enxergar por trás das sombras do capuz, era possível sentir a seriedade de seu olhar fixo em meu rosto. Um leve sorriso escurecido pela penumbra noturna ficou visível graças ao pequeno feixe de luz emanado por uma lâmpada na rua.


– Sim. Eu sou...


Antes que terminasse a frase algo o desequilibrou. Um grito de dor ressonou e as asas cessaram o movimento; ele virou-se no ar deixando-me sobre seu corpo e subitamente colidimos com o chão. Por sorte, estávamos próximos ao telhado plano de um pequeno edifício e eu acabara ganhando apenas alguns arranhões com a queda. Levantei-me o mais rápido possível e pude ver uma grande quantidade de sangue no chão. Meu coração acelerou ainda mais: o Homem das Vestes Negras estava imóvel, o líquido vermelho era liberado devido a um punhal que perfurara sua nuca. O ar ganhou um aspecto doentio, a escuridão pareceu ainda mais densa. A noite acabara de ser manchada de sangue, manchada de escarlate.


– Você errou Velvetia! — Uma voz ecoou. Era jovial, provavelmente de um garoto da minha idade. — Não sabia que era tão inútil assim.


– Cale a boca, Ion! — uma segunda voz, esta feminina e agressiva, retrucou — Eu não queria acertar o garoto, e sim o Lightbringer! Ao invés de ficar parado aí você deveria me ajudar a capturar o fragmento de Alma Zero.


A garota estava parada atrás de mim a aproximadamente 6 ou 7 passos de distância. Virei-me em sua direção, ela continuou estática. Embora pouca luz no ambiente, foi possível observar seus olhos: eram cruéis, sádicos, sanguinários. O outro estava sentado no parapeito de uma janela localizada à minha direita, parecia desfrutar de meu desespero em silêncio enquanto chacoalhava levemente as pernas. Meu corpo não passava de uma carcaça tomada pelo medo, o nível de raciocínio era nulo. Toda aquela cena desenrolava-se de uma forma assustadora demais para ser verdade, e mesmo sendo capaz de sentir o leve ardor dos pequenos machucados em minha pele, eu repetia mentalmente frases como "Isso é só um sonho ruim" ou até mesmo "Voce está delirando, Hope. Delirando!", mas aquele cenário obscuro, o chão banhado com sangue, a garota excêntrica que fuzilava-me com os olhos... tudo era de fato real. E eu estava inteiramente incluso em tal realidade.


– Ah! — a garota quebrou o silêncio de repente. Sua voz soou dócil, irônica. — Hope, Hope, Hope... Vejo que ganhou alguns arranhões, não é mesmo? — neste instante seu tom tornou-se sombrio. Senti uma gota de suor frio escorrer pela lateral esquerda de minha face — Sinto um aroma adorável vindo de você. Oh, É seu sangue! Seu sangue puro, imaculado, único. Você é um banquete e tanto para os Darkstalkers, sabia?


Meu corpo recuou automaticamente. A garota riu e passeou com seus dedos pelos curtos fios de seu cabelo castanho escuro. Observei-a se aproximar em passos lentos. Ela usava uma regata preta que contrastava com sua pele alva, uma calça cinza rasgada que deixava suas pernas a mostra e um par de tênis com cano médio. Olhei disfarçadamente para os lados em busca de uma rota de fuga, mas não havia como escapar. Ao mesmo tempo, eu tentava decifrar o significado do que a garota dissera. Lightbringer, Darkstalkers, fragmento de Alma Zero... Minha mente questionava o significado de tais palavras.


De repente a garota já estava tão próxima que nossos rostos ficaram distantes apenas por poucos centímetros. Havia diversos piercings em seus lábios e em suas orelhas; a íris de seus olhos apresentava-se na cor vermelha intensa.


– Que olhos lindos! — exclamou. O garoto, que até então observara a cena calado, iniciou um riso histérico. — Tão azuis e gentis, diferente dos meus que são vermelhos e cruéis. Lembro-me de quando meus olhos eram tão belos quanto os seus, quando eu ainda não sabia o quão doloroso é residir no Inferno. — uma expressão nostálgica dominou seu rosto — Um menino tão lindo com um destino tão trágico... Eu, Velvetia Oathcall, terei imenso prazer em retirar o brilho inocente que encontra-se em suas janelas da alma, Hope.


Ela lambeu lentamente um arranhão em meu rosto; o calor e umidade de sua língua conjuntos com o frio do metal de seus piercings despertaram em mim uma sensação aterrorizante. Eu estava preparado para morrer, minha única esperança era que alguém aparecesse e me salvasse, mas, por algum estranho motivo, não havia ninguém por perto. Não havia vozes, nem ruídos, nenhum carro, nenhuma movimentação. Definitivamente eu não estivava mais na Montreal que conhecia.


– Delicioso, como imaginei. — declarou ela — Acho que você vai adorar Ion!


O garoto cessou o riso, saltou do parapeito e em questão de segundos já estava ao meu lado. Usava uma espécie de poncho cinza que cobria apenas uma parte de seu corpo, deixando seu abdômen descoberto, uma bandana vermelha na testa, uma bermuda e botas pretas. Seus cabelos espetados eram descoloridos na frente e naturalmente pretos atrás. Ficaram ambos a me observar, pareciam sedentos. Num ato de euforia tentei correr para longe dali, mas Velvetia segurou meus braços e me puxou violentamente em sua direção; virou-me de costas e ergueu-me pelo pescoço, quase deixando-me sem ar. Ion estava impaciente.


– Vamos acabar logo com isso. — disse ele enquanto retirava uma espécie de bisturi do bolso — Afinal, não é todo dia em que se encontra um fragmento de Alma Zero tão frágil e patético.


Fitei o céu, implorei mentalmente por ajuda uma última vez e cerrei os olhos. Pensei em Luke, em meu pai, em Nina e em todos aqueles que eram importantes para mim. Por algum motivo, achei que merecia tudo aquilo. Finalmente eu iria sentir o que minha mãe sentira; finalmente eu pagaria por meu pecado sentindo uma agonizante e dolorosa morte.


Um grito vindo da garganta de Velvetia ecoou e sua mão desprendeu-se de meu pescoço no mesmo instante. Assim que me recompus deparei-me com o Homen das Vestes Negras, que até então estava inconsciente. Ele retirou seu sobretudo e sua estrutura física ficou visível. Era um homem magro e pálido; seus cabelos negros ficavam na altura dos ombros e eram um pouco bagunçados, porém, extremamente belos. Usava um colete de gola alta, preto com detalhes cinzas e púrpuros; luvas da mesma cor das vestes cobriam seus membros superiores e terminavam próximas a seu antebraço. Sua calça ligeiramente justa também era preta e combinava com os coturnos, os quais eu já vira antes no Parque Redlight.


Velvetia e Ion assistiam estupefatos, assim como eu. O rosto de ambos refletia frustração. Eu simplesmente não entendia como alguém poderia sobreviver após ter tido a nuca perfurada por um punhal e cogitar tal possibilidade deixou-me apreensivo. Para mim, ele era muito mais assustador que os outros dois juntos.


Suas asas majestosas abriram-se como um leque. Eram belíssimas, embora tivessem uma aparência fantasmagórica: quando retirou seu sobretudo momentos atrás, este atravessou-as como se não houvesse nada ali. Recordei-me das palavras do professor Gillian explicando que "Dois corpos maciços não podem ocupar o mesmo lugar no espaço" em uma aula de química. De acordo com essa teoria, aquilo que eu vira desafiava não só minha sanidade como também as leis da natureza. Afinal, o que poderia ser mais inacreditável do que um homem alado ser apunhalado na nuca, levantar-se como se nada tivesse acontecido e depois lançar uma peça de roupa que pode atravessar as asas que estavam em suas costas?! Isso já era loucura demais para um garoto comum como eu, mas comparado com o que eu presenciaria dali em diante, essa cena poderia ser classificada como "corriqueira". Acredite se quiser, ou melhor, acredite se for capaz.


– Desculpe por tê-lo deixado sozinho, Hope. Esse punhal me deixou inconsciente por um tempo. — nesse instante, o Homem das Vestes Negras direcionou sua mão até a nuca, retirou o objeto que até então o perfurava e o jogou no chão, próximo a mim. Meu estômago revirou ao vê-lo fazer aquilo, mas o alívio que eu sentira em saber que ele não estava morto amenizou tal fato. — Meu nome é Zelpher e a partir de hoje sou seu guardião e tutor, muito prazer.


Minha mente tornava-se ainda mais confusa com o passar do tempo. A situação ia de mal a assustadoramente boa e eu não sabia o que dizer ou fazer. Murmurei um "Muito prazer" que mal saiu de minha boca e rapidamente posicionei-me atrás dele.


– Vou te proteger destes Darkstalkers, Hope. Essa é a minha missão como enviado do Céu, protegê-lo e... — ele estendeu o braço esquerdo para cima: um anel prateado reluziu com a luminosidade da Lua. Havia um pequeno cristal incrustado nele, semelhante ao de meu pingente, porém violeta. Pausou por um instante e retomou. — ensiná-lo, fragmento de Alma Zero, o necessário para que torne-se o maior Lightbringer que o Céu, a Terra e o Inferno já viram!


Assim que proferiu tais palavras o cristal resplandeceu tão intensamente que mal consegui manter meus olhos abertos; pude apenas ver que os outros recuavam afugentados pela iluminação originada no anel. Algumas coisas começavam a apresentar o mínimo de sentido em minha mente. De acordo com tudo que ouvira até então pude concluir que Ion e Velvetia eram Darkstalkers, moradores do Inferno; Zelpher era um Lightbringer, enviado do Céu. Eu era um fragmento de Alma Zero, e... Não fazia a mínima idéia do que isso significava.


Os conceitos de vida real e fantasia misturavam drasticamente. De repente eu estava ali, numa situação totalmente nova, onde precisava sobreviver a qualquer custo. A sensação estranha de quando ganhei o pingente talvez indicasse isso. Os vultos, os passos, os sentimentos libertadores ao tocar o colar e a dor aguda sem explicação... Provas de que algo estranho acontecia e de que eu me envolvera nisso. Por um lado, eu não desejava vivenciar aquilo; por outro, meu interior celebrava o grandioso número de emoções novas a cada instante. Só me restava acreditar e aceitar tudo aquilo. Era necessário acreditar em mim mesmo.


– Recue, Velvetia! Recue! — bradava o garoto.


– Não! Eu não vou fugir!


Ion grunhiu e desapareceu através das sombras num piscar de olhos. Velvetia retirou duas facas que estavam presas em seu cinto e avançou ferozmente para cima de Zelpher; um aspecto selvagem havia tomado conta de seu corpo.


– Acha que essa luzinha vai ser o suficiente?! Você vai ver só, Lightbringer nojento!


As palavras pareceram atingir Zelpher tão forte quanto a facada que recebera anteriormente. A luz originada do anel crescia ainda mais forte e intensa. Sua voz, até então calma e serena, tornou-se sombria e cruel.


– Já que não se contenta com a "luzinha" acho que posso lhe mostrar algo mais interessante.- ele posicionou sua mão contra a garota; o rosto de Velvetia contorcia-se de ira. — Ungues Noctis, Tincidunt!


A luz violeta condensou-se e cobriu seu braço esquerdo. Aos poucos, o anel, que até então possuía poucos centímetros, expandiu e transformou-se em uma espécie de garra prateada proporcional à mão de Zelpher. Suas extremidades pareciam afiadas e possuíam vários segmentos pontudos que iniciavam-se na ponta de seus dedos e terminavam próximas ao seu ombro; um grande orbe violeta, o antigo cristal, localizava-se exatamente na parte superior de sua mão.


Com apenas um gesto, Zelpher conseguiu repelir o ataque da garota, que foi brutalmente jogada para cima com a potência do golpe. Assim que colidiu com o chão, soltou as facas que empunhara e permaneceu caída, inconsciente. Não pude conter um "Uau!" que refletia o quão satisfeito estava eu com aquilo. O Homem das Vestes Negras virou-se e sorriu com minha reação.


– O que foi isso? – eu esfregava os olhos incessantemente. O vislumbre de tal cena tão incrível impedia-me de esboçar qualquer outra reação sutil. – Foi... incrível!


– Eu liberei minha Aura. — ele olhou diretamente para a mão na qual as garras se localizavam – É o nome dado ao poder dos Lightbringers e Darkstalkers, uma espécie de magia. Você também possui uma Aura, Hope. Meu dever é ensinar-lhe como a controlar e — ele suspirou, parecia desanimado — Espero que acredite em mim. Pode parecer insano, mas tudo que lhe digo é verdade, Hope.


A cada palavra de Zelpher, embora parecesse levemente inseguro, um sentimento esperançoso e agonizante surgia em mim. Eu queria saber mais e mais. Apesar de perigosa, aquela realidade novíssima era também cativante. Ele era o tipo de pessoa em que, querendo ou não, eu poderia confiar cegamente.


– Se eu não tivesse visto isso com meus próprios olhos poderia dizer que voce é louco. — falei decontraídamente. Zelpher sorriu aliviado.


– Talvez eu seja realmente louco.


– Acredito que não. Voce me parece extremamente são e consciente em relação ao que diz. Confio em você, Zelpher.


– Espero que sim. Em breve poderei explicar todos os detalhes a você.


As garras tornaram-se luz novamente e voltaram ao estado de anel. O ambiente ficou em silêncio por um tempo. Zelpher observou a Lua por um instante e percebeu que minhas mãos tremiam como uma britadeira.


– Logo essa noite terrível irá acabar. — Ele segurou minha mão e sorriu ao olhar para meu rosto — Não tenha medo, vou te proteger enquanto puder. Por favor, não se renda à insanidade, tudo bem?


Estremeci. As palavras ressonaram tão melancólicas e tristes que hesitei em responder algo. Zelpher fitou o pingente acorrentado em meu pescoço. Senti um leve arrepio.


– Isso que você carrega no pescoço é um Auratelum. — Ele levantou o braço e deixou o anel que utilizava no dedo médio da mão esquerda visível aos meus olhos — Vê essa pedra violeta semelhante à pedra azul de seu colar? Isso é o que chamamos de Auralveus, uma espécie de contensor de sua Aura. Todos os Lightbringers possuem uma dessas.


– São lindas... — minha voz falhou quando o olhei para a face de Zelpher. Seus olhos eram vermelhos como os de Velvetia e quase não consegui conter meu espanto. Apesar de ter estabelecido confiança, ele ainda era tão misterioso quanto os Darkstalkers. Não... ele absolutamente era ainda mais enigmático.


– Sim, são extremamente belas — continuou ele — porém são importantes também. Você necessita do Auralveus para utilizar seus poderes de Lightbringer. Isso envolve possibilidade de utilizar Cânticos, uma espécie de encantamento, e também fazer com que consiga liberar a forma real do seu Auratelum.


– Então este pingente pode modificar sua forma assim como seu anel? É isso?


Pela lógica apresentada, seria correto afirmar que aquela representação em miniatura de espada fosse capaz de se tornar uma espada real caso eu a "libertasse". Quando vi o anel de Zelpher pude perceber que possuía uma forma exatamente igual a garra prateada, porém em menor tamanho.


– Exatamente, Hope! Voce aprende rápido. O meu Auratelum, este anel, transforma-se em uma garra quando o ativo. Creio que seu pingente torne-se uma espada...



Não agradeci o elogio. Meu olhar buscava uma resposta mais complexa a tal questão fizera. Zelpher parecia hesitar em explicar a indagação com mais detalhes.


– Sim, isso eu já reparei sozinho! — meu tom era impaciente — Como eu faço para ativá-lo? isso é primordial! Eu estou correndo perigo, e mesmo sem saber o motivo não quero depender de você. Preciso me proteger de alguma forma.


Zelpher desviou o olhar e passou a fitar o chão. Era evidente que ele não desejava explicar mais coisas para mim além daquele ponto. Talvez quisesse apenas me poupar de futuras preocupações, mas minha personalidade sempre foi curiosa demais para entender uma linha de raciocínio desse tipo.


– Não vamos apressar as coisas, Hope. Acho melhor não se preocupar em como usar seu Auratelum por enquanto.


– Mas eu poderei lutar também se aprender a libertá-lo! E afinal, o que é Alma Zero? Por favor, me explique...


– Não! — ele negou em alto e bom som. — Quando chegar a hora, tenha certeza, eu vou lhe explicar tudo o que quiser. Por enquanto cale-se e mantenha-se perto de mim.


Silenciei. A voz do Lightbringer ecoou tão poderosa e inflexível na última frase que senti-me humilhado, com razão. Antes que pudesse me desculpar pela insistência, Zelpher abaixou-se após um gemido agudo; estava ofegante, o ferimento em sua nuca permanecia aberto e uma generosa quantidade de sangue ainda escorria dali.


– Zelpher, você ainda está ferido! Precisamos fazer um curativo!


– Não é necessário! — sibilou ele enquanto pressionava os olhos com a mão direita — Logo chegarão reforços para nos ajudar.


– Reforços? Então existem mais Lightbringers por aqui?


Assim que finalizei a indagação, escutei leves resmungos. Velvetia, até então nocauteada, levantava-se lentamente.


– Zelpher! Zelpher! Ela está se levantando! Velvetia está se levantando! — envolvi meus braços em seu corpo que parecia cansado. A Darkstalker, já de pé, olhava em nossa direção — Precisamos fazer algo!


– Fique calmo, Hope. Nada de mal irá te acontecer. — ele levantou a cabeça e olhou para o vasto céu negro — Pelo visto teremos uma adorável surpresa. Olhe para o céu...


Olhei. Uma silhueta alada e feminina voava em nossa direção de forma tão elegante quanto uma pétala de flor que dança no vento. Um aroma doce, o mesmo que eu sentira há pouco tempo atrás nas proximidades do Parque Redlight, se propagou pelo ambiente e, ao mesmo tempo, uma voz desconhecida ressonou:


– Carmine caelum, globus flammae!


Uma grande bola de fogo se materializou e direcionou-se para Velvetia, que desviou e por pouco não foi atingida. Assim que as labaredas atingiram o chão, a mesma voz recitou as palavras “flammae carcere” e uma grande parede de chamas surgiu, deixando a Darkstalker isolada.


Escutei algo aterrissar delicadamente ao meu lado. Era a entidade que acabara de nos ajudar: uma garota magra de cabelos repicados castanhos na altura do pescoço. Ela observava a prisão de fogo crescer cada vez mais com um belo sorriso no rosto.


– Isso vai atrasá-la um pouco. — disse ela enquanto aproximava-se delicadamente — Vou ajudar o Zel, pode soltá-lo agora.


Nossos olhares encontraram-se por um mero segundo que pareceu durar horas. Era uma linda garota aparentemente da minha idade. Sua face tinha características físicas semelhantes aos asiáticos: olhos amendoados e puxados, lábios finos e pele clara; uma beleza incrível, uma beleza celestial. Usava um fraque preto, um lenço branco amarrado no pescoço, luvas semelhantes as de Zelpher e uma saia xadrez vermelha. vestia também uma bota de couro cujo cano terminava acima de seus joelhos. Longas asas rosadas localizam-se em suas costas. Definitivamente ela era uma Lightbringer.


Gentilmente posicionamos Zelpher de costas; o grande corte em sua nuca era aterrorizador. Desviei o olhar do ferimento e a garota riu.


– Então você sente-se mal ao ver sangue? — ela sorria como se toda aquela situação fosse normal. — No começo é estranho, mas logo você se acostuma. Meu nome é Lunette.


– Sou Hope. Hope Nightingale.


Minha voz soou ríspida. A aflição que aquele momento proporcionava-me era tão grande que apenas mantive-me oscilando entre a seriedade e o pavor. Lunette estava calma, provavelmente já havia vivenciado momentos como aquele ou até mesmo piores. Para mim, tudo era novo. Assustadoramente novo, assustadoramente incrível.


– Hope é um nome bem simbólico sabia? Você é a esperança dos Lightbringers e — ela silenciou-se bruscamente — Acho melhor deixar o Zel te explicar isso direito em outro momento.


– Não, continue! E se ele... e se ele não sobreviver?


– Esqueça o que eu disse. Por enquanto você não deve se preocupar. — sua expressão tornou-se séria e ela continuou — Ele não vai morrer apenas com esse ferimento leve. Zel é um Lightbringer muito forte.


– Ferimento Leve?! — não pude conter a exaltação. Afinal, uma apunhalada na nuca com certeza não era apenas um "ferimento leve" — Ele perdeu sangue demais! E o corte é extremamente profundo! Precisamos fazer algo o mais rápido possível...


– Hope, se acalme! Eu vou curar o Zel e ele vai ficar bem, confie em mim.


Lunette piscou para mim e fechou os olhos. Calei-me e fiquei a observar suas ações: ela estendeu ambas as mãos sobre o ferimento e uma luz serena e pálida estendeu-se sobre a nuca de Zelpher.


– Carmine caelum, redintegratio!


Como num passe de mágica a pele se refez, o sangue parou de escorrer e o corte estava totalmente cicatrizado em poucos segundos. Parecia-me que aquelas palavras, assim como as que originaram a esfera de fogo antes, eram um Cântico, a espécie de encantamento que Zelpher mencionara. Lunette parecia cansada, mas sorria gentilmente para mim. O homem, já de pé, agradecia os cuidados da garota.


– Obrigado por me curar, Lunette. Tive que fazer este pequeno sacrifício para salvar Hope, caso contrário...


– Tudo bem, Zel. – disse Lunette interrompendo a fala do outro. – Já entendi.


Assisti o diálogo calado, meus olhos arregalados fitavam os dois Lightbringers intensamente. Pelo visto, o “Caso contrário...” seria seguido de um “... Ele estaria morto”, e isso não era nada agradável. Nesse instante reparei que Velvetia tentara me ferir e Zelpher acabar se ferindo para me proteger. Senti-me culpapo e feliz ao mesmo tempo.


– Hope, desculpe-me por tê-lo deixado sem proteção. Isso não acontecerá novamente. — disse o Lightbringer enquanto certificava-se de que a parede de fogo prendia a Darkstalker. – Lunette chegou na hora certa.


– Sim, Lunette nos ajudou muito.


– Pode me chamar de Lune, Hope.


– Ah, tudo bem... Lune. – apertei sua mão formalmente, acumulei coragem e fiz um comentário indiscreto, porém necessário – Esse perfume que encontra-se em voce, eu acho que já o senti antes...


– Sim! – ela sorriu. Um sorriso amigável e sincero. – Eu te segui após sair daquele parque quando Zelpher entregou seu Auratelum... Ele já explicou a voce o que é isso?


– Explicou sim, mas... por que estava me seguindo?


– Não havíamos rastreado os Darkstalkers até o momento, então achei melhor certificar-me de que voc~e se manteria seguro.


– Ah! – sorri enevergonhado. Um vento gélido passeou pelo ambiente fazendo com que os cabelos e as roupas se movimentassem – Obrigado, Lune.


– Não há de que.


A cena repentinamente tornou-se amigável e eu enfim senti-me completamente seguro e aliviado.


A prisão de fogo que envolvia Velvetia parecia estar se extinguindo aos poucos. Zelpher e Lune olharam-se e antes que eu e assentiram algo com um gesto. A garota segurou com firmeza minha mão e puxou-me na direção oposta a do Lightbringer.


– Venha, vou te tirar daqui.


– Mas e quanto ao Zelpher? Tenho algumas perguntas para ele...


– Já disse que responderei todos seus questionamentos depois, Hope. – disse o homem enquanto nos distanciávamos pouco a pouco – Se cuide!


– Mas...


– Ele vai nos dar cobertura e ficará bem, tenha certeza. – sibilou Lune. — Agora vamos embora!


Zelpher acenou uma última vez enquanto a garota puxava-me na direção de uma escada que conectava o edifício em que estávamos a um prédio próximo. Vi o fogo apagar-se por completo e a Darkstalker libertar-se das chamas em fúria. Corremos até a porta que ligava o teto do prédio ao seu interior e entramos. As paredes eram acinzentadas e sujas, o chão possuía pisos quebrados e grande parte da estrutura estava podre. Era o cenário perfeito para um filme de terror, e como esperado, não havia ninguém por perto.


– Que lugar é esse? — pausei por um instante para recuperar o fôlego — Está completamente destruído...


– Isso é uma Metropolis abandonada. Geralmente, as almas das pessoas que morrem antes de seu Destino vem para lugares como este para viverem o que lhes resta de vida.


– Almas? Quer dizer que existe vida após a morte? — eu estava realmente surpreso. Mesmo após vivenciar tantos momentos extraordinários naquela noite, cada descoberta era uma sensação única.


– Bem... — ela suspirou como se buscasse as palavras certas para responder minha pergunta — É algo realmente complexo. Vou tentar te explicar de uma forma simples. Digamos que a alma de uma pessoa esteja destinada a viver sessenta anos, porém, algum fator, como por exemplo, um acidente ou um assassinato acaba por levar à morte da pessoa aos cinqüenta anos, ou seja, antes de seu Destino. A alma dela será julgada e a partir desse julgamento será decidido se a alma irá para o Inferno ou permanecerá no Mundo Espiritual para viver o restante de sua "vida"... Entendeu?


Todo o conceito explicado fazia sentido para mim, embora faltassem algumas informações, como por exemplo o que seria o Mundo Espiritual e o Mundo Material. Parecia-me justo o sistema de julgamento das almas.


– Então, "Destino" é a data estipulada para nossa morte?


– Sim, é a data estipulada da morte dos seres vivos, inclusive plantas, animais e microorganismos. Se você sobreviver até o dia de seu Destino descansará em paz por toda eternidade em um local sagrado chamado Locus Solus, porém, não viverá no Mundo Espiritual.


– Mas essa história de Mundo Espiritual... O que é isso? – hesitei em continuar por um instante, mas meu corpo não se controlou – Eu não estou mais no mundo em que sempre vivi, não é mesmo?


– A Terra possui o Mundo Material e o Mundo Espiritual. Humanos vivem no Mundo Material. As almas que não completaram seu Destino, os Lightbringers e os Darkstalkers vivem no Mundo Espiritual. As almas que não completaram seu Destino podem tornar-se Fragementos se desejarem. Assim, elas irão para um rio feito de almas, o Vita Flumen, onde se tornarão matéria prima para outras vidas. — Lune olhou para cima e depois fitou-me — Este aqui é o Mundo Espiritual. Nós, Lightbringers, estamos conectados em ambos os mundos, por isso você pôde atravessar de um para outro.


– Mas eu não me lembro de ter atravessado em momento algum. Nem sei como posso fazer isso! – parei repentinamente no meio de lance de escadas; já havíamos descido em torno de 4 ou 5 andares. — Recordo-me muito bem que eu estava em meu quarto, havia acordado de um pesadelo. De repente, quando me aproximei da janela, senti uma grande vertigem...


– Foi nesse momento. – disse Lune. Meu rosto contraiu-se. – Provavelmente voce estava em transição entre os dois mundos devido ao colar e a Darkstalker se aproveitou disso para trazê-lo ao Mundo Espiritual. Não aconteceu nada de estranho antes disso?


– Senti uma forte dor nas costas, como se estivessem sido cortadas. E a propósito, não foi aquela garota que me puxou para fora de meu quarto. Acho que foi o garoto que estava com ela, mas ele acabou fugindo quando Zelpher ativou seu Auratelum... É esse o nome não é?


Lune empalideceu. Seu olhar tornou-se sombrio, assim como sua voz:


– Hope, precisamos sair daqui agora mesmo!


Assim que terminou a exclamação, a palavra “fragor” ecoou histericamente pelo prédio e uma grande explosão aconteceu no andar térreo, onde nos localizávamos. Por pouco não fomos atingidos pelos grandes pedaços de concreto que voaram em nossa direção. Lune agarrou meu braço e corremos o mais rápido possível através da porta de saída. O que vi foi aterrorizador, tão aterrorizador quanto tudo que eu já havia presenciado naquela noite.


– Há quanto tempo! O que acha de brincar um pouquinho comigo e com meus amiguinhos?


Era Ion.


Lune permaneceu estática enquanto ele ria ainda mais estridentemente do que antes. Havia ali dezenas de pessoas pálidas, deformadas e cobertas de sangue; algumas andavam em nossa direção, outras arrastavam-se. O fétido cheiro de decomposição invalidou imediatamente o doce aroma da Lightbringer ao meu lado.


Aquela noite já não era apenas peculiar. Era a mais inacreditável e aterrorizante que eu já vivera antes.

Notas finais
Pequeno Glossário:
Lightbringer: "Trazedor de Luz", em inglês. São aqueles que residem no Céu.
Darkstalker: "Seguidor da Escuridão", em inglês. São aqueles que residem no Inferno.
Alma Zero: ~em breve será explicado~
Aura: A força espiritual que Lightbringers e Darkstalkers possuem.
Auratelum: É um objeto que possui a capacidade de se transformar em uma arma; utilizado pelos Lightbringers.
Auralveus: É uma espécie de cristal que contem a Aura do Lightbringer. Geralmente apresenta-se junto com o Auratelum.
Cântico: Palavras que servem como um encantamento, uma magia, e podem realizar vários atos, desde curar pessoas feridas até mesmo criar objetos ou elementos da natureza.
Ungues Noctis: "Garras da Noite", em latim.
Tincidunt: "Ativar", em latim.
Carmine caelum: "Cântico do céu", em latim.
Globus flammae: "Bola de fogo", em latim.
Flammae carcere: "Prisão de fogo", em latim;
Redintegratio: "Restauração", em latim.
Vita Flumen: "Rio da Vida", em latim.
Locus Solus: "Lugar Único", em latim.
Fragor: "Explosão", em latim.
Hey! espero que tenham se divertido lendo este capítulo. Muita ação não é mesmo? Ele foi definitivamente o mais complicado de se escrever até agora. Mas tudo isso vale a pena. Afinal, o que Ion estará tramando? E quem são esses seres assustadores?
No próximo capítulo, "Marionetes e Titereiros": Mais informações sobre os Darkstalkers, novos personagens e uma eletrizante batalha.
Deixem um review com suas críticas, isso é muito importante pra mim, e por favor continuem lendo ! ♥