Heaven and Hell
51 Epílogo
Notas iniciais
Eram quase seis horas da manhã e Mia se mexia constantemente na cama, atormentada por um pesadelo horrível. Nele, um Impala preto, placa CNK 80Q3, a perseguia por uma estrada que parecia não ter fim. Era madrugada, Mia estava à pé, descalça, com as roupas sujas e rasgadas. Na medida do possível, ela corria e tentava evitar o seu próprio atropelamento.
Em alguns momentos, Mia corria para o meio do mato, que ficava no entorno do acostamento, procurando refúgio. Mas, misteriosamente, ela sempre acabava voltando para o meio da estrada. Em outras vezes, Mia olhava para trás e o carro havia desaparecido. Mas, no instante seguinte, lá estava ele de novo e a garota voltava a correr desesperadamente, ziguezagueando pela estrada, enquanto o vento batia em seu rosto e bagunçava os seus cabelos.
Em nenhum momento, Mia conseguiu ver com nitidez quem dirigia o Impala, mas ela sabia que havia duas pessoas nele porque conseguia ver os seus vultos ameaçadores.
De repente, ela perdeu o equilíbrio e caiu no meio da estrada, suas mãos bateram com força no asfalto, bem como um dos seus joelhos, lhe causando dor e a deixando desnorteada. Não o suficiente para que Mia não tentasse se levantar, afinal ela tinha que sair dali o mais rápido possível.
No entanto, infelizmente, o Impala estava muito perto. Mia não ia conseguir escapar a tempo. O carro estava chegando. Os barulhos dos pneus cantando no asfalto. Aquela placa ganhando foco de novo. Mia estava desesperada. Ela ia morrer. Eles iam matá-la!
XXX
Ofegante, com o coração acelerado, suando frio e sentando na cama com um impulso. Foi assim que Mia acordou naquela manhã.
O quarto estava ligeiramente escuro, já que o Sol só estava começando a nascer naquele momento, lutando para vencer os resquícios da noite.
Após se recuperar um pouco da sensação horrível que aquele pesadelo lhe causou, Mia passou as mãos pelo rosto e disse para si mesma:
— Pelo menos não foi tão ruim quanto o pesadelo da noite passada...
Em seguida, ela se virou na direção do criado-mudo, esticou a mão e acendeu a luz do abajur.
Foi quando o seu pé esbarrou em alguma coisa e ela olhou rapidamente para o final da cama. E o susto do pesadelo não foi nada comparado ao susto de ver aquela pessoa desconhecida sentada na sua cama, imóvel como uma estátua, olhando para ela. Muito bizarro.
Antes que Mia pudesse dizer ou fazer qualquer coisa, o homem estreitou o olhar sobre ela e perguntou:
— Sonho ruim, Sweetie?
Ele tinha um sotaque. Um sotaque refinado. Parecia escocês, britânico ou algo assim. Devia ter em torno de cinquenta anos e estava vestido com roupas pretas. Um terno perfeitamente alinhado arrematava o visual sombrio. Seus cabelos eram curtos e escuros. Uma barba bem feita contornava o seu rosto ligeiramente arredondado. Seu olhar era intenso, firme e ameaçador. Maligno. Quase diabólico.
Em uma situação como aquela, o normal seria gritar, espernear, chutar, sair correndo ou até desmaiar. Tinha um estranho dentro do quarto de Mia, sentado em sua cama, falando com ela e, no entanto, ela estava completamente sem reação, como se estivesse presa em um pesadelo. Em outro, talvez.
De repente o homem rompeu o silêncio que havia se instalado e alertou:
— Está chegando a hora.
— Hora? — repetiu Mia, finalmente conseguindo dizer algo. — Hora de quê?
— De se juntar a mim e cumprir o seu destino. — respondeu o estranho simplesmente, observando a feição de Mia em busca de qualquer reação.
Mas, ao ouvir aquilo, um alerta se acendeu em algum lugar da mente dela e Mia hesitou. Tinha alguma coisa errada. Algo lhe dizia que aquilo não era real. Não podia ser real.
Confusa, ela olhou em volta e reconheceu o seu quarto. Ele estava exatamente igual à noite anterior, quando ela chegou meio bêbada de uma festa e se jogou na cama. Ric, seu melhor amigo e colega da faculdade, havia a levado até ali e saído minutos depois.
Mas, apesar de se lembrar da noite anterior, aquele dia estava parecendo muito estranho para Mia. Era como se ela já tivesse o vivido antes. E era como se uma parte dela soubesse exatamente o que ia acontecer. Ou o que deveria ter acontecido. E, com certeza, não era aquilo.
— Não foi assim que aconteceu... — murmurou ela, passando as mãos pelos cabelos e percorrendo o quarto com um olhar atordoado. — Não foi assim que aconteceu. — repetiu para si mesma. E depois de olhar na direção do estranho, se levantar e se afastar da cama, ela indagou ferozmente: — Quem diabos é você?!
— Um amigo. — respondeu ele, observando a expressão de Mia novamente. — Mas algo me diz que você não acredita em mim, não é? — previu frustrado.
Ouvir aquilo fez aquele alerta crescer dentro de Mia, até que a imagem de Castiel veio com força total em sua mente. O dia em que ela o viu pela primeira vez, quando o anjo entrou no seu quarto, naquele mesmo quarto, lhe deu um baita susto, disse que era um amigo e que estava chegando a hora dela cumprir o seu destino.
Agora mais do que nunca Mia estava convencida de que estava certa. Aquele dia já tinha acontecido e aquela repetição não era real. Era uma encenação para alterar suas memórias. Para substituí-las por outra coisa. Para criar uma nova Mia.
As lembranças dos últimos dois anos e meio vieram na sequência e Mia sabia exatamente quem era aquela pessoa em seu quarto.
— Saia da minha cabeça, Crowley! — ordenou ela entredentes, fitando o demônio com um ódio profundo. — Saia da minha cabeça agora, seu desgraçado!
Com uma expressão impassível, o Rei do Inferno se levantou da cama e disse tranquilamente:
— Feito.
Em seguida, ele estalou os dedos e Mia abriu os olhos de novo. Desta vez, ela tinha mesmo acordado, mas, a realidade em volta não era nem um pouco animadora.
Mia estava em uma sala sombria, com portas de madeira escura e paredes de pedra. Velas estavam espalhadas em vários castiçais pelo lugar e a garota podia sentir a presença de algumas pessoas ali. Não necessariamente pessoas, mas sim demônios.
Mia encontrava-se presa em uma cadeira que lhe lembrava aquelas de consultórios de dentistas, já que era bem inclinada e grande o suficiente para acomodar todo o seu corpo. Correntes prendiam os seus pés e suas mãos na tal cadeira. E por mais que tentasse se mexer e escapar de alguma forma, ela não conseguia qualquer progresso. O seu poder de telecinesia também não funcionava ali.
Mia sentia-se zonza, enjoada e com uma forte dor de cabeça, mas mesmo assim ela fez um esforço e conseguiu enxergar dois demônios perto da porta e mais dois perto de Crowley, que a encarava desafiadoramente a cerca de um metro e meio da cadeira.
Mia sabia exatamente o que estava acontecendo ali porque já tinha acordado daquele pesadelo inúmeras vezes. Mas, para se certificar de que não havia imaginado os últimos dias, ela olhou na direção do seu braço direito e estremeceu ao reconhecer a intravenosa em sua veia. Ela estava conectada a um aparelho semelhante aqueles usados em hospitais, para transfusões de sangue. E Mia sabia exatamente o motivo. E apesar de saber, ela acabou olhando na direção de Crowley e perguntando com a voz fraca:
— Por quê? Por que você está fazendo isso comigo?
— Você sabe muito bem. — replicou Crowley. — Porque para que você seja totalmente leal a mim, a vida que você levava tem que ficar para trás. E isso significa que você tem que esquecer certas coisas e acreditar em outras. Mas, infelizmente, você continua resistindo, Mia. E, por isso, não me dá outra escolha, a não ser continuar tentando e tentando fazer esse feitiço funcionar.
Ao ouvir a última frase, Mia sentiu a tensão enrijecer cada músculo do seu corpo e um arrepio percorrer a sua coluna, seguido por uma onda de ódio.
— Não se atreva! — esbravejou, tentando se soltar mais uma vez, porém novamente sem sucesso.
— Você precisa de mais sangue para que ele funcione, Mia. — insinuou Crowley, enquanto se aproximava e sentava em uma cadeira ao lado dela. — E já que você se recusa a beber direto da fonte...
— Não! Não... Por favor, não... — implorou Mia, sentindo o desespero crescer dentro de si, à medida que um dos demônios se aproximava do Rei do Inferno e começava a prepará-lo para uma nova transfusão.
Mia já tinha perdido a conta de quantas vezes aquilo se repetiu. Tudo o que ela sabia é que tinham sido várias vezes e que nunca houve tanto sangue de demônio em seu corpo como naquele momento.
Ela já até começava a se sentir diferente por conta disso. Como se houvesse algo maligno dentro de si. E de fato, havia. Algo que fazia o lado ligado à Crowley ganhar força a cada instante. Mia estava se tornando mais parecida com ele, estava cada vez mais ligada a ele. Em consequência, o seu lado maligno lutava para emergir e subjugar o seu lado humano. Era desesperador, mas parecia inevitável.
Anteriormente, em um dos inúmeros momentos em que Crowley entrou em sua mente, Mia acabou perdendo o controle sobre si mesma, confiando nele e confidenciando o que Kevin tinha traduzido da Tábua dos Anjos. Mas em seguida, ela se deu conta do que havia feito e se desesperou. No entanto, já era tarde demais. Crowley sabia sobre o selo.
Desde então, Mia tentava a todo custo se agarrar as lembranças de Castiel, dos Winchester, de Claire, Natalie... Mas estava cada vez mais difícil se lembrar dos seus rostos e do que eles significavam para ela. Estava cada vez mais difícil para Mia se lembrar dela mesma.
Sentindo uma desolação e uma tristeza profunda, Mia fechou os olhos com força e deixou que as primeiras lágrimas molhassem o seu rosto. Também já tinha perdido a conta de quantas vezes havia chorado desde que foi levada para aquele lugar.
Então Mia sentiu o sangue de Crowley entrando em suas veias mais uma vez e estremeceu. Abriu os olhos, se debateu e tentou se soltar. Dois demônios se aproximaram e a seguraram contra a cadeira. Mas ela continuou resistindo, se debatendo, gritando e chorando. Não podia deixar que Crowley entrasse em sua mente de novo, não podia deixar que ele vasculhasse as suas memórias e as alterasse, não podia confiar nele novamente, não podia deixar ele vencer. Tinha que ser forte. Mais forte do que ele e aquele sangue maldito! Tinha que ser mais forte do que o seu lado que queria ceder... Àquela escuridão...
Exausta e sem saber por quanto tempo a mais conseguiria resistir à escuridão que se alastrava dentro dela, Mia foi parando de se debater aos poucos. Seus olhos estavam vermelhos de tanto que chorou, suas pálpebras inchadas e sua garganta queimava de tanto que gritou.
Algum tempo depois e lentamente, um demônio retirou a agulha do braço de Crowley. Em seguida, o Rei do Inferno se levantou e fez sinal para que os dois outros se afastassem de Mia. Eles obedeceram, mas com certa cautela, temendo que a garota tentasse se soltar de novo. Mia não tentou. Permaneceu imóvel e com o olhar vidrado no vazio em que se encontrava mergulhada. Não tinha mais forças ou esperança e sabia que qualquer resistência seria em vão.
Uma última lágrima escorreu pelo canto do seu olho e, em seguida, Crowley estava inclinado sobre ela. O demônio segurou o seu rosto, obrigando Mia a fitá-lo nos olhos e então pronunciou as palavras do ritual mais uma vez.
E mais uma vez, Mia apagou ao final delas. E mais uma vez foi parar naquele pesadelo, com um Impala a perseguindo. Nunca mais ela conseguiria confiar em alguém que dirigisse um carro como aquele. Ainda bem que ela não conhecia ninguém assim...
XXX
Ofegante, com o coração acelerado, suando frio e sentando na cama com um impulso. Foi assim que Mia acordou naquela manhã.
O quarto estava ligeiramente escuro, já que o Sol só estava começando a nascer naquele momento, lutando para vencer os resquícios da noite.
Após se recuperar um pouco da sensação horrível que aquele pesadelo lhe causou, Mia passou as mãos pelo rosto e disse para si mesma:
— Pelo menos não foi tão ruim quanto o pesadelo da noite passada...
Em seguida, ela se virou na direção do criado-mudo, esticou a mão e acendeu a luz do abajur.
Foi quando o seu pé esbarrou em alguma coisa e ela olhou rapidamente para o final da cama. E o susto do pesadelo não foi nada comparado ao susto de ver aquela pessoa desconhecida sentada na sua cama, imóvel como uma estátua, olhando para ela.
Antes que Mia pudesse dizer ou fazer qualquer coisa, o homem estreitou o olhar sobre ela e perguntou:
— Sonho ruim, Sweetie?
Ele tinha um sotaque. Um sotaque refinado. Parecia escocês, britânico ou algo assim. Era engraçado e, de certa forma, acolhedor. Sem saber exatamente por que, Mia gostou do estranho. Não entendia o que ele estava fazendo ali, muito menos quem era, mas queria muito descobrir. Ele merecia uma chance de se explicar, afinal.
De repente, Crowley sorriu amigavelmente para ela. E naquele momento, Mia soube que podia confiar inteiramente nele. Ela sorriu de volta.
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