Heaven and Hell
41 Até logo?
Notas iniciais

Kevin e Chloe estavam na antiga casa de Bobby, sentados à mesa onde tantas vezes o caçador fez suas pesquisas sobre criaturas sobrenaturais e ajudou Sam e Dean em inúmeras caçadas.
Atrás deles, havia uma enorme estante com incontáveis livros. À frente, no centro da sala, acomodados em dois sofás, Sam, Dean e Natalie carregavam suas armas com balas contra anjos. Eles esperavam que não fosse necessário puxar o gatilho, mas se o plano de Castiel desse certo, logo Metatron estaria ali e todo o cuidado era pouco. Eles precisavam dar cobertura a Castiel e a Kevin, já que Metatron, com certeza, não ia aceitar aquela situação tão fácil.
— Por que nós estamos aqui mesmo? — indagou Chloe, tentando disfarçar a tensão que sentia enquanto olhava tudo em volta, achando o lugar muito vulnerável comparado ao bunker.
Kevin, que estava do outro lado da mesa, com a Tábua dos Anjos de um lado e, do outro, uma folha de papel com o ritual traduzido do artefato, lendo cada palavra em enoquiano mentalmente, como uma espécie de último ensaio, ergueu o olhar na direção da namorada e explicou:
— O Metatron está mais poderoso do que os anjos comuns. Isso significa que o Cas vai precisar de ajuda para trazê-lo. O Sam e o Dean só querem manter a localização do bunker em sigilo. Mas não se preocupe, aqui também é seguro. Não tanto quanto lá, mas quando o Metatron estiver preso no quarto do pânico, ele não vai escapar. O Bobby e a Claire estão reforçando o lugar com alguns símbolos que ele descobriu em um dos arquivos dos Homens das Letras. Isso vai me dar algum tempo para proferir o ritual.
— Eu sei... Eu sei de tudo isso, mas... — balbuciou Chloe, passando a mão pela nuca, ainda mais inquieta.
Kevin estranhou aquilo, já que Chloe tinha lidado muito bem com todos os acontecimentos sobrenaturais dos últimos meses, sempre demonstrando uma coragem que chegava a assustá-lo e deixá-lo com vergonha da época em que ele quis fugir de tudo aquilo.
Depois de observá-la por alguns instantes, Kevin segurou a outra mão dela sobre a mesa, entrelaçou os seus dedos, fazendo com que a hacker se acalmasse um pouco e o olhasse nos olhos, e então o profeta tentou tranquilizá-la:
— Ei... Não precisa ficar com medo. Ele não vai chegar nem perto de você.
Chloe suspirou, colocou a outra mão sobre a de Kevin e esclareceu:
— Não é por mim que eu tenho medo. Você é o profeta, Kev. Você tem noção de como o Metatron vai ficar furioso quando descobrir o que você vai fazer?
— Problema dele. — disse Kevin, dando de ombros. — Finalmente, depois de tanto tempo, eu tenho a chance de fazer alguma coisa boa e útil. Então aquela droga de anjo megalomaníaco pode ficar com raiva o quanto quiser, porque enquanto ele fica furioso e pensa em uma forma de me matar, eu vou jogar cada uma das palavras desse ritual naquela cara feia dele! Nem que seja a última coisa que eu faça! — acrescentou, alterando-se um pouco. Mas ao perceber que aquilo não estava acalmando a namorada, ele respirou fundo, se recompôs e assegurou: — Chloe, vai dar tudo certo, ok? E eu não pretendo morrer, não se preocupe. Mesmo porque eu não morreria antes de te fazer uma pergunta muito importante.
A hacker franziu o cenho e indagou curiosa:
— Que pergunta?
— Uma coisa por vez. — desconversou o profeta, dando um meio sorriso e a deixando ainda mais intrigada. — Agora vem aqui. — chamou, indicando a cadeira ao seu lado.
Embora Chloe quisesse muito saber o que Kevin tinha a lhe perguntar, naquele momento, ela achou melhor se concentrar na questão do anjo megalomaníaco. Então, ela deu a volta na mesa e sentou ao lado de Kevin. Ele passou um dos braços em volta dos ombros da namorada e começou a proferir o ritual baixinho.
Como tinha acompanhado Kevin quando Castiel lhe ensinou aquele ritual, Chloe corrigiu o namorado algumas vezes, lembrando a pronúncia correta de determinadas palavras em enoquiano, o ajudando mais uma vez.
No centro da sala, Natalie terminou de carregar a sua arma e olhou para um ponto qualquer do chão, com um olhar distante, pensativa, compenetrada em algo que, de repente, a intrigou.
— O que foi, Baby? — quis saber Dean, que estava ao lado dela no sofá e havia reparado naquela mudança de comportamento.
Como resposta, Natalie franziu o cenho e questionou confusa:
— Por que eu vim no seu carro mesmo?
— Eu não sei. — admitiu Dean, que no fundo, também não tinha entendido aquilo, embora tivesse gostado. — Talvez porque você não resista ao charme do motorista. — supôs em seguida, arqueando as sobrancelhas, cheio de si, e dando um meio sorriso na direção da loira.
Natalie retribuiu com um sorriso desdenhoso e resmungou:
— Convencido.
Sam, que estava no outro sofá, de frente para o casal, conteve um riso, checou a sua arma, e também a que tinha preparado para Claire, e então mudou de assunto:
— Cadê o Cas?
— Lá fora, se despedindo da Mia. Ou tentando, pelo menos. — respondeu Dean.
Depois de assimilar a informação e imaginar como Mia e Castiel deviam estar se sentindo com toda aquela situação, Sam levantou com um impulso, levando as armas consigo, e começou a se afastar ao mesmo tempo em que comunicava:
— Bem, eu vou ver se o Bobby e a Claire precisam de ajuda com o quarto do pânico.
— Ok. — assentiu o Winchester mais velho, e instantes depois um riso escapou de sua garganta.
Natalie, que estava dando uma última checada na sua arma, olhou na direção do marido sem entender e perguntou:
— O que foi?
Dean riu mais um pouco antes de conseguir se recompor e replicar:
— Sério que só agora você notou que veio na minha Baby?
— Cala a boca. — resmungou a loira, sentindo-se meio idiota diante daquela distração, principalmente porque o motivo disso estava estampado no seu rosto ligeiramente vermelho. Aliás, o motivo estava bem ali, ao lado dela.
Achando melhor não pegar no pé da esposa por causa disso, mesmo porque ele estava contente em saber que tinha contribuído para o seu estado de distração e, portanto, aquilo não era um motivo para eles discutirem, Dean colocou sua mão sobre o joelho dela e desejou:
— Ei... Boa sorte.
Natalie olhou para o caçador novamente e, entendendo que ele estava se referindo àquela missão contra Metatron, se aproximou, colou seus lábios nos dele, lhe dando um beijo suave e, ainda com a mão em seu rosto, redarguiu:
— Para todos nós, Sr. Awesome.
Em seguida, Natalie se afastou e Dean checou a sua arma, fechou o compartimento das balas com um movimento rápido e preciso, fazendo um ruído mecânico se propagar pela sala.
XXX
Do lado de fora, entre alguns carros do ferro velho, Mia e Castiel estavam de frente um para o outro, mas evitando o contato visual direto.
— Eu preciso ir. — avisou o anjo pela milésima vez desde que ele e Mia saíram do interior da casa de Bobby, minutos antes.
— Eu sei, você já disse isso. — assentiu a garota, tentando transparecer tranquilidade diante do que Castiel estava prestes a fazer, mas no fundo, sentindo-se apavorada com tudo aquilo e com a possibilidade de que tudo desse errado. Muito errado.
— E você respondeu praticamente do mesmo jeito todas as vezes. — observou o anjo, finalmente olhando na direção do rosto de Mia.
Pela primeira vez desde que parou ali entre aquelas carcaças de veículos, ela também fitou Castiel nos olhos. E depois de soltar um suspiro pesado, finalmente conseguiu mudar o repertório:
— É que... Bem, você me conhece, eu odeio despedidas, anjo.
— Isso não é uma despedida, Mia, é apenas um até logo. — corrigiu Castiel.
A garota abriu a boca para protestar, para dizer que ele não tinha como afirmar aquilo com tanta certeza, mas então abortou essa ideia. Preferiu acreditar em Castiel, se agarrando na fé e confiança que tinha nele. Afinal, que outra escolha Mia tinha? Enlouquecer?
Não, ela não podia enlouquecer. Castiel podia fazer aquilo dar certo. Ia dar certo. Tinha que dar. Era mais fácil acreditar nisso do que continuar sofrendo como ela estava sofrendo.
Então, tentando ser otimista, mesmo diante dos riscos que aquela missão envolvia, Mia respirou fundo, colocou as mãos nos bolsos da calça jeans, afastando um pouco a camisa xadrez que vestia por cima de uma blusinha branca, forçou um meio sorriso e, tentando transparecer calma e confiança, assentiu:
— Ok, então... Até logo, anjo.
Castiel inclinou a cabeça e franziu a testa, fazendo as suas sobrancelhas se unirem enquanto ele observava Mia, sensibilizado diante do esforço que ela visivelmente estava fazendo. Ao vê-la engolindo em seco e seus olhos ganhando um brilho de lágrimas, ele deu um passo a frente, segurou em sua nuca com cuidado, trouxe o rosto dela para junto do seu e a beijou.
Mia, por sua vez, deixou que suas mãos encontrassem e agarrassem as lapelas do sobretudo, trazendo Castiel para mais perto enquanto apertava seus lábios contra os dele com mais força.
Por fim, suas bocas se afastaram, mas seus rostos continuaram próximos, seus olhares fixos um no outro.
— Eu vou voltar. — assegurou Castiel.
— Eu vou estar te esperando. — replicou Mia com a voz embargada.
Os dois se olharam por mais alguns instantes. Em seguida, Castiel soltou a nuca de Mia e deu um passo para trás. Ela começou a soltar o sobretudo, seus dedos diminuindo a força com que agarravam as lapelas pouco a pouco, até se soltarem completamente.
Então Mia deu um passo para trás também. E mais um. E outro. Parou e olhou para Castiel uma ultima vez antes dele assentir com um meneio de cabeça e desaparecer subitamente, fazendo um vento suave balançar os cabelos de Mia e o som de asas batendo se propagar pelo ferro velho.
Já que não era mais necessário se fazer de forte, Mia deixou que uma lágrima teimosa escorresse por seu rosto. Seu coração, até então acelerado, pareceu parar por um instante, destroçado por um enorme e doloroso vazio que sentiu, que a sufocou, que a fez fechar as mãos com força ao lado do corpo.
Seus olhos se fecharam e mais lágrimas percorreram seu rosto. Seus dedos se comprimiram com mais e mais força até ficarem doloridos. Sua respiração estava ofegante quando o barulho brutal de vidro se quebrando a fez abrir os olhos sobressaltada e se afastar imediatamente do carro ao seu lado.
Assustada, Mia passou as mãos pelo rosto, enxugando as lágrimas às pressas e depois pegou a sua arma, presa até então em um coldre em sua cintura. Se afastou mais um pouco e mirou a arma na direção do carro enferrujado e sem pneus. Parte do vidro da janela, ao lado do banco do motorista, estava no chão e os outros cacos tinham se espalhado pelo interior do veículo.
Mia olhou em volta procurando uma explicação para o ocorrido. Por um momento chegou a pensar que talvez aquilo tivesse sido causado por um espírito, mas descartou essa possibilidade imediatamente. A temperatura não havia caído e só um fantasma muito burro para assombrar um lugar que pertencia a um caçador. Não que fantasmas fossem muito inteligentes.
Confusa e apreensiva, Mia deu mais alguns passos para trás enquanto se perguntava se algum anjo ou demônio estaria por perto. Pensou em gritar e chamar Sam e Dean, mas então suas costas se chocaram com um carro em pior estado do que aquele na sua frente. Mia se assustou com isso e virou-se rapidamente. Apontou a arma para o seu próprio reflexo na janela do veículo.
De alguma forma, isso pareceu significar alguma coisa para ela. Alguma coisa que Mia se recusou a acreditar no mesmo instante. Não podia ser, não fazia sentido. Ou talvez fizesse e ela só não conseguia admitir para si mesma.
Mia sacudiu a cabeça afastando aquela possibilidade e aos poucos sua respiração voltou ao ritmo normal. Olhou em volta mais uma vez e se atentou ao estado dos veículos espalhados pelo ferro velho. Como era de se esperar, eram carros muito velhos, que estavam ali há anos, tomando chuva e sol, se deteriorando dia após dia. Com certeza foi isso que fez aquela janela se espatifar. O tempo, o desgaste natural e não... Não ela. Ela não poderia ter feito aquilo... Não poderia ter quebrado aquela janela se nem tocou no vidro.
Tentando se convencer disso, Mia guardou a arma no coldre e se afastou rapidamente daquele trecho do ferro velho, com passos trôpegos e sem olhar para trás. Com medo de si mesma e confusa. Muito confusa.
XXX
Castiel apareceu em um praça de uma cidade no interior do Colorado. O lugar estava praticamente deserto, exceto por duas pessoas que se encontravam ali. Uma menina loira, de aproximadamente doze anos, em um balanço, e uma mulher ruiva, de aparentemente trinta anos, sentada em um banco de frente para o balanço, folheando uma revista.
Assim que viu as duas, Castiel as reconheceu. Elas eram bem mais velhas do que seus receptáculos aparentavam. Tão velhas quanto Castiel era. Eram anjos, Purah e Asariel, e tinham a missão de proteger a escada para o Céu, que ficava bem ali.
Há poucos dias, Castiel havia conversado com as duas em um lugar longe dali. Na ocasião, ele se explicou e contou toda a verdade sobre Metatron e o feitiço da queda dos anjos. Tinha chegado a conseguir o benefício da dúvida, mas depois que se desentendeu com Sophia, ele perdeu todo o apoio que tinha conseguido e os anjos voltaram a vê-lo com desconfiança e desprezo.
De repente, Purah ergueu o olhar na direção de Castiel, a alguns metros, e se levantou do balanço. Depois disso, caminhou até o outro anjo e chamou discretamente:
— Asariel.
Logo esta seguiu o olhar de Purah e também avistou Castiel. Em seguida, as duas se aproximaram dele, mas sem se afastarem muito de uma espécie de banco de areia que havia na praça. Dentro dele, linhas e símbolos enoquianos se interligavam em um emaranhado simétrico. Podia até não parecer, mas aquilo era, de fato, a famosa escada para o Céu. Ou pelo menos, o primeiro degrau dela.
— Purah, Asariel. — cumprimentou o anjo, olhando ora para uma, ora para a outra.
— O que você está fazendo aqui, Castiel? — questionou Asariel. — O Metatron está te procurando em toda a parte. Ele quer fazer de você um exemplo para todos nós. Se você sabe o que isso significa, então vá embora.
Ao invés de seguir aquele conselho, Castiel permaneceu ali, parado, olhando para Asariel e Purah um tanto intrigado. As duas pareciam preocupadas com ele, o que fez Castiel entender que talvez ele não tivesse perdido todo o apoio que havia conseguido antes. Talvez os anjos ainda lhe dessem o benefício da dúvida. Talvez tivessem se rendido ao Metatron apenas por medo.
Pensando nisso, Castiel encarou as duas com firmeza e avisou:
— Eu não vou embora. Eu preciso conversar com o Metatron. Então, se depois disso ele quiser fazer de mim um exemplo... Que assim seja.
Purah abriu a boca para argumentar, mas então se deteve quando uma forte luz branca emanou do banco de areia. Logo a luz se extinguiu e Castiel reconheceu Sophia no centro do lugar.
— Deixem o Castiel passar. — ordenou ela, secamente. — O chefe quer falar com ele.
Purah e Asariel se entreolharam por algum tempo antes de abrirem passagem para Castiel. Logo ele passou por elas e começou a se aproximar de Sophia, entrou no banco de areia e parou ao lado dela. A olhou de soslaio, mas ela não retribuiu. Ao invés disso, Sophia continuou olhando para a frente, com uma expressão impassível e fria.
Naquele momento, Castiel entendeu que aquele era um apoio que ele nunca mais iria recuperar. Na verdade, talvez ele nunca tivesse tido o apoio de Sophia. Surpreendentemente, Castiel não estava triste por isso.
Uma forte luz branca os envolveu e os dois olharam para cima quando o chão estremeceu um pouco e o ar em volta se aqueceu.
Segundos depois, quando a luz cessou, Asariel e Purah estavam sozinhas na praça.
XXX
As portas de um elevador no Céu se abriram, Castiel e Sophia saíram dele e caminharam por uma enorme sala onde vários anjos se encontravam. Alguns olharam para Castiel. A maioria com desprezo.
— Por aqui. — orientou Sophia, indicando um corredor à esquerda.
Castiel a seguiu enquanto olhava para trás, na direção dos seus irmãos. De repente, um movimento brusco de Sophia o fez deter o passo. Antes que ele pudesse reagir, ela já havia afastado uma parte do sobretudo do anjo e arrancado a espada angelical que Castiel trazia sempre consigo. Então ela deu alguns passos para trás e fez um gesto com a mão, orientando que ele não tentasse se aproximar.
— Sophia... — começou a dizer Castiel mesmo assim.
— Aproveite a estadia. — disse ela, o interrompendo.
Então o chão foi sacudido por um grande tremor e tudo em volta começou a mudar rapidamente. Paredes cinzas e altas cercaram o lugar em volta de Castiel e, quando ele deu um passo a frente, tentando escapar daquilo, grades se ergueram bem diante dele, o prendendo naquela cela pequena e desoladora.
Outras celas surgiram na frente e em volta de onde Castiel estava, mas todas estavam vazias. Aparentemente, Metatron havia libertado todos os prisioneiros. Talvez tivesse feito acordos com aqueles que pareciam úteis e eliminado aqueles que se opuseram ao seu plano de liderar o Céu como o novo Deus.
Castiel segurou nas grades da cela, estreitou o olhar na direção de Sophia e exigiu:
— Eu quero falar com o Metatron.
— Ele também quer falar com você. Mas agora não será possível, já que ele é um anjo muito ocupado. Ele não fica perdendo tempo com humanos imundos, por exemplo. — retrucou Sophia, e Castiel a fuzilou com o olhar. — Então, eu sugiro que você espere até que ele possa falar com você. — disse e logo depois lhe deu as costas.
Castiel a observou se afastando e logo o silêncio dominou a prisão do Céu. Sem outra escolha, ele olhou para a sua cela, sentou no chão e esperou.
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