Heaven and Hell
14 A Missão - Parte 2
Notas iniciais
Sam acordou um tanto sobressaltado e ergueu a cabeça. Passou as mãos pelo rosto e olhou para os livros sobre a mesa da sala principal do bunker. Era ali que ele tinha dormido sem perceber, depois de ter passado horas procurando uma forma de ajudar Castiel.
Por mais que o anjo dissesse que não havia o que se fazer em relação à sua graça, Sam decidiu que não desistiria dele. Dean já tinha ido dormir há algumas horas, mas antes tinha ajudado o irmão com aquela pesquisa também e prometido que retomaria logo pela manhã.
Sam estava sozinho na sala e não sabia explicar por que, mas estava sentindo algo muito estranho. Um aperto dentro do peito, uma sensação de que tinha alguma coisa errada, uma espécie de pressentimento ruim.
Tentando espantar aquele sentimento, ele passou as mãos pelo rosto mais uma vez e fechou os olhos por alguns instantes.
Em seguida, pegou o celular sobre a mesa e procurou pelo número de Claire. Ficou olhando para a foto dela, que aparecia na tela do aparelho, e se perguntando se deveria ou não ligar para saber como estava indo a missão para recuperar a Tábua dos Anjos. E claro, para perguntar como ela estava, se estava bem e, principalmente, se estava a salvo.
No entanto, em seguida Sam se lembrou da conversa que os dois tiveram no quarto, pouco antes de Claire pegar a estrada. Lembrou-se dela o chamando de paranóico. E dele dizendo que queria confiar mais nela e na sua capacidade como caçadora.
Pensando em tudo isso, o Winchester colocou o celular sobre a mesa e murmurou para si mesmo:
— Paranóico.
Depois disso, ele se esticou um pouco na cadeira e levantou. Achou que o melhor que poderia fazer naquele momento era descansar um pouco. Então deixou a sala e foi para o quarto.
No entanto, aquele pressentimento ruim não o abandonou quando Sam deitou na cama. E não deixaria que ele dormisse aquela noite...
XXX
Enquanto isso, no subsolo da Biblioteca do Congresso, Metatron estava parado diante da Testemunha de Jeová, que segurava a Tábua dos Anjos e parecia relutar em entregar o artefato. Com a outra mão, o homem mantinha a arma apontada para o anjo, que em dado momento tentou tranquilizá-lo:
— Tudo bem, Jeremias. Está tudo bem. Agora me entregue isto.
— Não matarás... — murmurou o homem, visivelmente nervoso, dando um passo para trás enquanto a arma tremia em sua mão.
Metatron arqueou as sobrancelhas e indagou:
— O quê?
— O Senhor disse que eu deveria proteger este artefato como a minha vida, mas não que pessoas se machucariam por causa disso. — respondeu a Testemunha de Jeová. E um tanto transtornado, o homem indicou Claire caída no chão e esbravejou: — O Senhor a matou!
Apesar de Claire não ter morrido, todos ali sabiam que aquilo era apenas uma questão de tempo. A caçadora estava perdendo muito sangue, tinha sido ferida gravemente e por mais que Mia conversasse com ela, tentando mantê-la consciente, Claire não conseguia responder. Mal conseguia respirar direito.
Metatron olhou para trás, na direção das duas, depois voltou a olhar para Jeremias e disse tranquilamente:
— Ela estava contra os planos de Deus. No caso, eu. — e demonstrando certa impaciência, exigiu: — Agora entregue o artefato.
Enquanto a Testemunha de Jeová continuava relutando em fazer aquilo, Mia colocou a cabeça de Claire em seu colo e pediu aos prantos:
— Claire, por favor, não morra... Fique comigo, não feche os olhos, por favor... Claire, fale comigo!
Com muito esforço, Claire conseguiu dizer:
— Diga para o Sam... Que eu o amo.
— Para com isso! — protestou Mia inconformada. — Você mesma vai dizer isso para ele. Quando nós duas sairmos daqui, entendeu?
Ignorando o que a amiga havia dito, Claire reuniu forças para prosseguir:
— E ao meu pai... Que eu fiquei muito feliz por tê-lo conhecido... E que eu o amo também...
— Claire, pare! — ordenou Mia tentando conter o choro. — Você não vai morrer! Você não pode morrer! Você é forte, vai superar isso! Você tem que superar isso... Por favor...
Claire mantinha a mão sobre o ferimento e ao perceber que ela estava sangrando demais, Mia tirou a camisa que vestia por cima de uma blusinha e pressionou sobre o corte, tentando estancar o sangramento. O gesto fez com que Claire gemesse de dor e perdesse o ar por alguns instantes.
— Desculpe... — lamentou Mia. Mas sabendo que aquela era a única forma de salvar Claire, ela manteve a pressão sobre o ferimento. — Você vai ficar bem. Vai ficar tudo bem. — afirmou querendo convencer a si mesma.
Claire sentia arrepios percorrendo o seu corpo e um suor frio encharcar as suas roupas. Sua pressão estava caindo drasticamente. Seu corpo estava entrando em choque. Ela não aguentaria por muito mais tempo. Mal ouvia os ruídos ao seu redor.
Então ela olhou para Mia, embora não estivesse enxergando o rosto dela com nitidez, e balbuciou com a voz fraca:
— Eu sinto muito... Eu não consigo...
Mia percebeu que a caçadora estava fechando os olhos e a sacudiu, tentando mantê-la acordada, enquanto a chamava desesperada:
— Claire! Não! Se você morrer, eu te mato! Você me ouviu?! Não morra!
Mesmo fraca e com muita dor, a caçadora abriu os olhos e esboçou um sorriso ao ouvir a ameaça sem sentido de Mia, que continuou:
— Olha... Você não pode morrer. Lembra do meu sonho? Aquele sobre a Rachel?
Claire se lembrava muito bem daquele sonho. Não tinha como esquecer, aliás. Nele, ela e Sam tinham uma filha com aquele nome. O mesmo nome de sua mãe.
Sentindo lágrimas percorrendo o seu rosto, Claire assentiu com um meneio de cabeça e Mia continuou:
— Então... É por isso que você não pode morrer agora. Não faz sentido, entende? Você vai ficar boa, vai se recuperar, vai viver muitos e muitos anos e então, um dia vai ter uma filha com Sam Winchester.
— Você disse que tinha sido só um sonho... Que devia ser um sonho sem importância... — lembrou Claire.
— Não... Era real! Eu sei, eu vi! Era real demais para ter sido só um sonho. Eu só não quis que você ficasse impressionada na época, mas era real. Eu tive uma visão do futuro. Eu tenho certeza. — assegurou Mia, embora no fundo não soubesse se aquilo ia mesmo se realizar algum dia.
O importante era convencer Claire de que sim. Desta forma, ela se manteria firme e teria mais chances de sair daquela situação.
Mia esperou que ela dissesse alguma coisa, mas Claire permaneceu em silêncio. Por mais que quisesse acreditar naquilo, por mais que quisesse ser forte, aquilo era demais para ela. A caçadora estava morrendo e não havia nada que Mia ou qualquer outra pessoa pudesse fazer naquele momento. A não ser... Deixá-la morrer.
Ao ver Claire tossir e a cor sumir do seu rosto, Mia pediu já quase sem esperança:
— Claire, por favor... Não...
A caçadora tentou responder, mas sua voz não saiu. Aos poucos, ela sentiu como se estivesse se desligando daquele lugar e do seu corpo. Do mundo. Não ouvia mais nada. Não sentia mais Mia segurando uma de suas mãos com força. Não conseguia respirar e a dor a envolveu por completo. Até passar lentamente, lhe arrancando um último suspiro e deixando os seus olhos estáticos, fitando o vazio.
— Não... — murmurou Mia sem acreditar que Claire tinha morrido bem diante dela.
Aos poucos, a incredulidade deu lugar ao choque. E o choque deu lugar a revolta. Metatron tinha matado Claire. Covardemente e sem explicação aparente. Era absurdo demais. Era difícil de acreditar que aquilo realmente tinha acontecido. Parecia um pesadelo. Mas infelizmente, não era.
Foi quando Mia olhou para as suas próprias mãos e viu que elas estavam manchadas com o sangue de Claire. Uma ideia passou pela sua cabeça, mas ela não sabia se teria auto controle naquele momento para executá-la.
XXX
Enquanto isso, do lado de fora, Bobby e Natalie continuavam tentando abrir a porta de entrada daquela área, porém sem sucesso. A loira resolveu então ligar para Chloe, que naquele momento, também tentava entender o que estava acontecendo no interior do prédio. Mas por algum motivo, ela não estava conseguindo acessar as câmeras de vigilância daquela área. Alguma coisa estava bloqueando o seu acesso. Ela não podia imaginar, mas aquilo também tinha a ver com os poderes de Metatron.
Enquanto ela tentava encontrar uma solução para aquilo e Kevin tentava acalmá-la, dentro do prédio, Metatron deu um passo na direção de Jeremias e lentamente aproximou uma das mãos de seu rosto.
O homem deixou-se ser tocado daquela forma, porque embora estivesse confuso, uma parte dele ainda acreditava que aquele anjo era na verdade Deus. O seu Deus, o seu Senhor.
No entanto, logo o homem entendeu que havia se enganado. E da pior maneira possível.
— É uma pena, Jeremias. — começou o anjo. — Eu realmente pensei que você tinha fé, que era um dos meus escolhidos, mas... Eu estava errado.
Então, num gesto rápido Metatron, moveu a mão na direção da testa da Testemunha de Jeová e uma luz branca e extremamente forte emanou dos olhos daquele homem. Ele gritou de dor enquanto seus olhos eram queimados nas órbitas e soltou a Tábua dos Anjos, que caiu no chão e se partiu em dois pedaços.
Mia olhou para trás e viu o corpo do homem cair no chão. Ficou ainda mais chocada com a frieza de Metatron. Não esperava que ele fosse fazer aquilo. Ele era capaz de tudo. Chegava a ser pior do que o Crowley. Mais frio, mais cruel.
Incapaz de entender o que se passava na cabeça daquele anjo megalomaníaco, Mia voltou a se concentrar em algo que desenhava no chão. Precisava terminar logo. O tempo todo ela tentava não se atentar ao fato de que estava desenhando aquilo com o sangue de Claire, mas estava cada vez mais difícil. Tudo a sua volta lhe dizia que sua amiga estava morta. Era desesperador.
O que ela diria para o Bobby e para o Sam? Considerando que ela conseguisse sair daquela situação, é claro. Aquela era uma notícia que Mia não queria dar de jeito algum. Claire Singer estava morta.
Enquanto Metatron observava com certa indiferença o corpo do homem aos seus pés, ele ouviu Mia perguntar:
— Por quê? Por que você matou a Claire?
O anjo refletiu um pouco e respondeu ainda de costas:
— Eu não gostava dela. Ela ajudou a libertar um exército de demônios que matou muitos dos meus aliados, sabia?
— Ela não teve culpa. — esclareceu Mia sentindo um ódio profundo ao ouvir aquela justificativa tão fria e sem fundamento.
Metatron deu de ombros e respondeu:
— Desculpe. Eu devo ter entendido errado então.
Em seguida, ele se virou devagar e olhou na direção de Mia, que tentava disfarçar o quão tensa estava.
A garota estava sentada sobre os joelhos, de costas para o corpo de Claire. Tinha se virado há poucos instantes, quase ao mesmo tempo em que Metatron, e mantinha a mão direita fechada, ao lado da perna.
— Bem, eu adoraria ficar e conversar mais um pouco com você, Mia. — recomeçou Metatron enquanto olhava o chão em volta, procurando pela Tábua dos Anjos. — Saber como o Castiel está, o que vocês fizeram com o Haziel... Mas eu preciso ir e encontrar outro esconderijo para...
— Sabe de uma coisa? Eu também adoraria que você ficasse mais um pouco. — interrompeu a garota com ironia. — Mas você tem razão. Você realmente precisa ir.
Metatron se deteve por alguns instantes sentindo que tinha alguma coisa errada na forma como Mia disse aquelas palavras. Então ele olhou para ela e viu que a garota estava com uma das mãos fechadas e ensanguentada. Prevendo o que Mia planejava, Metatron arregalou os olhos surpreso e deu alguns passos em sua direção enquanto dizia enfurecido:
— Nem pense em fazer isso, sua aberração...
Mas antes que o anjo se aproximasse mais ou terminasse o que dizia, Mia abriu a mão e a colocou no centro de um sigilo enoquiano que havia desenhado com o sangue de Claire, logo atrás de si.
Então o subsolo foi iluminado por uma forte luz branca e a caçadora protegeu o rosto com a outra mão. Quando ela a afastou, Metatron não estava mais lá. Havia sido banido e com isso, a porta de entrada finalmente cedeu e Bobby e Natalie conseguiram adentrar o ambiente.
— Chloe, conseguimos. — avisou Natalie ao telefone enquanto corria com Bobby pelo corredor. — Tente conseguir mais algum tempo para a gente sair daqui.
Em seguida, a caçadora desligou e desceu a escada que levava ao subsolo, ao lado de Bobby. Os dois muito apressados e sem entender o que estava acontecendo.
Chloe conseguiu restabelecer as imagens das câmeras de vigilância e ela e Kevin viram, em choque, Claire caída no chão, imóvel, e Mia ajoelhada perto dela.
— O que aconteceu? — indagou Kevin.
— Eu não sei... — murmurou Chloe atônita.
Embora ela quisesse entender o que tinha acontecido com Claire, outras imagens que apareciam na tela do notebook, indicavam que a segurança do prédio estava começando a se aproximar daquela área. Então Chloe decidiu se concentrar em desviar a atenção deles mais uma vez e começou a acionar alarmes em setores distantes de onde Mia e Claire estavam. A estratégia funcionou. Pelo menos naquele momento.
Enquanto isso, Mia fechou as pálpebras de Claire com cuidado, ainda sem acreditar que aquilo tinha mesmo acontecido.
Bobby e Natalie chegaram ao subsolo e detiveram o passo ao verem o segurança morto, logo na entrada do lugar. Chocados, os dois passaram pelo corpo e reconheceram as bolsas de Mia e Claire perto dele.
— Balls! O que diabos aconteceu aqui? — questionou Bobby adentrando mais o ambiente com Natalie ao seu lado, igualmente confusa.
Em seguida, eles pararam mais uma vez e olharam na direção de Mia, que ainda estava no chão, a alguns metros da entrada. A garota ergueu o olhar na direção deles e lágrimas escorrerem por seu rosto. Automaticamente, Bobby e Natalie olharam para Claire perto da garota e o espanto ficou visível em suas expressões.
Ao ver a amiga desacordada no chão e com a camiseta toda ensanguentada, Natalie correu até ela dizendo:
— Claire?! Ai meu Deus! O que aconteceu aqui? O que aconteceu com ela?
Mia não conseguiu responder e apenas tentou conter a dor e a vontade de chorar que sentia, enquanto observava Natalie se ajoelhar ao lado de Claire e tentando acordá-la em seguida. Sem sucesso.
Bobby por sua vez, estava tão abismado com aquela imagem e com o seu provável significado, que não conseguiu correr. Ele caminhou lentamente até parar bem próximo do corpo da filha.
— Claire... Acorda! Claire, fala comigo! — chamou Natalie enquanto procurava pelos sinais vitais da amiga e se desesperava ao chegar a mesma conclusão que Bobby temia.
Os dois olharam para Mia, que enxugou o rosto e finalmente conseguiu dizer algo:
— Foi o Metatron... Eu sinto muito... — e depois de uma pausa, completou com pesar: — Ela está morta...
— Morta? — repetiu Bobby relutando em acreditar no que tinha ouvido. — Minha filha está morta?
Natalie olhou para Claire e sentiu um nó crescer em sua garganta. Sentiu seus olhos ficando cada vez mais úmidos. Horrorizada, ela se afastou um pouco, caindo para trás, e sentou no chão. Não conseguiu mais conter o choro quando Bobby se ajoelhou perto do corpo de Claire e colocou a cabeça dela em seu colo.
— Minha filha está morta? — questionou o caçador com um olhar vazio e distante, mas que simbolizava toda a dor que ele estava sentindo naquele momento. — Como? Como isso foi acontecer? Ela está morta? Minha filhinha... Morta?
Mia voltou a chorar enquanto ela e Natalie viam Bobby acariciando os cabelos de Claire suavemente. Ele simplesmente não conseguia acreditar naquela tragédia que havia acontecido.
Com cuidado, o caçador trouxe o corpo da filha para mais perto do seu e a envolveu entre os braços. Apoiou o queixo em sua cabeça e, enquanto sentia os seus olhos ficando úmidos até um ponto insuportável, ele repetiu com a voz embargada pela dor:
— Morta?!
De repente, um assobio foi ouvido no subsolo e os três olharam na direção da entrada. Crowley terminou de descer os degraus e passou por cima do corpo de Jeremias enquanto olhava tudo em volta e dizia:
— Nossa! Que bagunça. O que aconteceu aqui?
Em seguida, ele parou, colocou as mãos nos bolsos da calça, afastando um pouco o terno que usava, e olhou na direção dos caçadores que o fitavam com uma mistura de surpresa, receio e revolta.
— Olá, todo mundo. — cumprimentou o Rei do Inferno. E ao notar que Claire estava morta, ele acrescentou: — Nossa... O Moose vai ficar arrasado.
Incomodado com aquela presença maligna, Bobby acomodou Claire no chão, se levantou rapidamente e, enquanto se aproximava do demônio, perguntou com raiva:
— O que você está fazendo aqui?!
Antes que Bobby se aproximasse mais, o Rei do Inferno moveu a mão e o caçador foi arremessado contra uma das paredes do subsolo, na qual ficou preso pela força invisível e demoníaca que Crowley controlava.
Quando Natalie se levantou e abriu a bolsa, pensando em pegar uma arma com balas contra demônios, ele fez outro gesto com a mão e a loira foi de encontro a mesma parede e não conseguiu mais se mexer.
Em seguida, ele olhou para os dois e para Mia, que o encarou com ódio. Então o demônio deu um meio sorriso e disse com sarcasmo:
— Eu também senti falta de vocês.
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