Heaven & Hell

4 Chapter 3. Friends


Notas iniciais
Bem vindos de volta o/ Hoje temos alguns personagens novos. Espero que vocês gostem :3 Boa leitura~

Simples assim, como que por impulso, as palavras saíram. Caroline não acreditava realmente tê-las dito, parecia mais que haviam fugido de sua boca enquanto sua guarda estava baixa. Mas, por bem ou por mal, sua decisão havia sido feita e ela não voltaria atrás.

Agora, começava a acalmar-se, sua respiração tornando-se mais leve e seus batimentos cardíacos voltando ao normal. Fechou seus olhos por alguns breves segundos, questionando-se quanto àquilo que acabara de fazer, mas rapidamente abriu-os novamente, cessando seus pensamentos.

Sua escolha havia sido feita e ela não se arrependeria — pelo menos, não antes de começar a sofrer suas consequências.

— Então, todas vocês aceitam. — a professora tinha uma expressão genuinamente surpresa, mas feliz: claramente, os resultados haviam sido melhores do que ela esperava. — Isso é muito bom pois, a partir de agora, precisarão se unir. Isso as fará mais fortes.

As meninas se entreolharam por um momento. Amy esboçava um olhar determinado, certamente era a que tivera mais certeza de sua decisão. Sam tinha um ar mais preocupado, mas sua postura era séria, pronta para enfrentar o que viesse. Caroline, por sua vez, mesmo que agora menos tensa, ainda sentia-se um pouco incerta. No fundo, dizia para si mesma que tudo ficaria bem, embora não tivesse certeza disso. Mas, no momento, sua maior preocupação era sobre como contaria isso a Firestarter.

— Bem, é claro que não as lançarei nessa jornada de mãos vazias. — a mais velha deu uma piscadela com seu olho direito, logo dirigindo-se até a mesa que possuía dispositivos ao invés de tubos de ensaio. Seus pequenos pokémons a seguiram, prontos para ajudá-la de qualquer maneira possível.

Em apenas alguns segundos, Juniper virou-se de volta para o grupo segurando uma caixa de tamanho mediano em seus braços, enquanto seu Phantump carregava uma segunda, idêntica a primeira, e Minccino ajudava Lillipup a empurrar uma terceira pelo chão.

— Acredito que esses aparelhos são muito úteis em sua jornada. — a cientista continuou, apanhando um objeto de formato similar ao de um tablet. — Esse é, provavelmente, um dos mais importantes. É uma PokéDex que eu mesma programei, aqui no laboratório. — abriu um sorriso de orgulho antes de prosseguir: — É a mais moderna que existe, portanto, conseguirão identificar a maioria dos pokémons registrados.

Caroline observou atentamente o objeto retangular, de cerca de 15cm de altura. Ele possuía uma tela e, na parte de trás, era vermelho com alguns detalhes em preto, como círculos que adornavam suas quatro pontas. Em seu centro havia um quinto círculo, maior, com uma faixa percorrendo seu eixo — nesse aspecto, lembrava muito uma pokébola.

— Já ouvi falar desses dispositivos. — comentou Sam, apanhando o objeto. — Podemos descobrir as características de pokémons específicos com ele, certo? — indagou.

— Sim. E, além de obterem uma breve descrição do monstrinho para o qual apontarem a PokéDex, ela também lhes fornece todos os movimentos conhecidos por aquele pokémon, além de dados como sua altura, peso, habitat e, é claro, uma imagem do mesmo. Observem. — a cientista explicou, apontando o aparelho para seu Minccino em seguida.

Minccino, o pokémon Chinchila. — uma voz robótica soou, oriunda da PokéDex. — Minccino adora objetos brilhantes e usará sua cauda para limpá-los, caso estejam sujos.

Mostrando a tela do dispositivo para as meninas, Juniper explicou-lhes cautelosamente sobre cada uma de suas funções, adicionando também dicas de como utilizá-la de maneira correta e rápida para satisfazer suas necessidades.

— Interessante. — murmurou Caroline, seus olhos azul-marinho brilhando com curiosidade. Achava incrível como um aparelho tão simples era capaz de armazenar e fornecer tantos dados; mal podia esperar para utilizá-lo.

— Ah, eu também adicionei uma função “mapa”, para vocês conseguirem se localizar de forma rápida e via satélite. — a mulher de cabelos roxos continuou, tocando em um aplicativo no dispositivo, que logo abriu a figura de um mapa. — Esse é o mapa da região de Unova. Marquei em cada uma das Déx de vocês pontos de interesse, como a localização de ginásios pokémon e mercados negros. — ela deu um “zoom out” no mapa, mostrando todos os pontos marcados e explicando suas legendas e anotações.

Parecia haver um grande número de Mercados Negros espalhados por diversas cidades e rotas abandonadas, o que seria útil caso precisassem de algum item para seus pokémon ou refúgio improvisado.

— Mas não paramos por aí! — Juniper sorriu, entusiasmada, apanhando mais alguns objetos. — Estes são chamados XTransceiver.

A mulher ajudou a ajustar no pulso de cada uma das jovens o objeto, que em muito assemelhava-se a um relógio com touchscreen. Todos eram majoritariamente pretos com alguns detalhes em vermelho, e apresentavam dois pequenos botões de mesma cor em sua lateral.

— Além de executar a função básica de mostrar as horas, o XTransceiver pode ser utilizado para comunicação. — a cientista explicou: — Será útil para que possamos manter contato. Dessa forma, poderei informá-las sobre quaisquer eventos que venham a acontecer em certa cidade e coisas do tipo. Também poderão conversar entre si, é claro. Basta apertar o botão superior para atender uma ligação, e o inferior para fazer uma chamada. — ela fez uma pausa, como se tentasse lembrar-se de algo. — Ah, a melhor parte é que, diferentemente de celulares, programei esses dispositivos para não guardarem dados sobre as ligações. Desse modo, vocês não poderão ser rastreadas.

A cada momento, as jovens pareciam mais admiradas e curiosas com tudo aquilo. Parecia até mesmo que qualquer resquício de incerteza ou arrependimento presente nelas havia desaparecido completamente. No momento, só desejavam sair logo dali para desfrutar dos novos aparelhos que lhes seriam concedidos.

— E, por último, temos o que eu considero mais interessante. — ela retirou uma pequena cápsula em formato esférico da caixa, deixando-a completamente vazia. — Este dispositivo é um transportador, que vem em pares. Basta colocar o que deseja enviar dentro dessa cápsula… — ela fez uma pausa, entregando uma segunda esfera para Phantump e colocando um anel, que retirara de seu dedo, dentro da cápsula. — … e ele será enviado para a pessoa que possuir o equivalente. — fechando o aparelho, logo um som similar a um apito foi ouvido e, assim que o pokémon fantasma abriu a cápsula em suas mãos, esta revelou o anel que estava antes na cápsula segurada por Juniper.

A demonstração arrancou exclamações de surpresa e maravilha de todas as meninas.

— Isso é incrível! — exclamou Amy, animada. — Podemos transportar qualquer coisa através deles?

— Sim, qualquer coisa. — assentiu a mulher, ainda sorrindo. — Eu estarei com o par de cada um de seus transportadores, assim poderei enviar-lhes certos artigos que precisarem, e vocês podem fazer o mesmo. Até mesmo pokébolas podem ser transferidas por aqui, sem prejudicar o pokémon dentro delas.

Ao finalizar sua detalhada explicação, a cientista dirigiu-se a cada uma das meninas, entregando-lhes cinco pokébolas.

— Esses dispositivos vocês já devem conhecer, são pokébolas. — continuou Juniper. — Podem ser úteis quando precisarem retornar seus pokémons ao passar por cidades ou outros lugares, onde não seria seguro deixá-los à vista. No entanto, recomendo que não as utilizem para capturas “à moda antiga”, batalhando com um pokémon antes de capturá-lo. Isso pode ser fatal na época que estamos, já que o sistema imunológico dos pokémons está bem fraco. Recomendo que apenas batalhem quando necessário ou como forma de treinamento, sempre em ambientes controlados e supervisionados.

Ao guardar as esferas vazias em sua bolsa, Caroline começou a imaginar que tipos de pokémon encontraria em sua jornada. Estava muito animada com tudo aquilo: ter um time e conhecer novas espécies daquelas intrigantes criaturas era algo que imaginara apenas em seus sonhos, jamais achou que aquilo um dia se tornaria sua realidade.

— Obrigada. — disseram as três, quase em uníssono, ao terminar de guardar seus presentes.

— Bem, agora sim estão prontas para ir. — a cientista sorriu e estufou o peito, como uma mãe que finalmente entrega suas filhas ao mundo. — Vocês devem seguir para a Rota 1 ao cair da noite. Tentem sempre viajar pela mata e locais pouco usados por pedestres, para não ficar sob o olhar de pessoas perigosas. Procurem também fazê-lo de noite, sob a proteção do escuro, ou antes do sol raiar, quando a maior parte das pessoas ainda está dormindo. — ela suspirou, fazendo uma breve pausa. — Lembrem-se, estarei aqui para qualquer coisa que precisarem. Não hesitem nunca em me contactar.

As garotas assentiram, determinadas. Agora, todas mantinham uma postura determinada, deixando transparecer também a alegria que sentiam, sem importar-se com como isso parecia errado — afinal, no fundo, sabiam que aceitar a proposta de Juniper poderia ser o maior erro de suas vidas.

***

Estava frio, uma vez que o sol não mais estava no céu. Em seu lugar, jazia a lua cheia que, embora extremamente radiante, não podia ter sua luz comparada à intensidade do astro. Felizmente, a chuva já havia passado e as nuvens deixaram o céu, revelando várias estrelas salpicadas pelo manto azul marinho, o mais próximo que as jovens teriam de um teto. Apesar da iluminação dos astros, era difícil enxergar o caminho naquela floresta negra, composta por árvores altas e mata densa.

A Rota 1, assim como todas as outras rotas e florestas, havia sido desmatada e cedido lugar para cidades — uma maneira de reduzir os habitats dos pokémons restantes e encontrá-los mais facilmente. No entanto, o espaço verde ainda era bem amplo, o que fez Caroline pensar sobre o quão demorado deveria ser atravessar aquele caminho nas épocas passadas.

A garota de cabelos negros olhou para seu pulso, fitando seu novo relógio e identificando as horas: meia noite e sete. Não havia caminhado muito até chegar ali, mas parecia já estar tão dentro da floresta densa que não se lembrava nem mesmo de onde havia vindo. Embora estivesse cansada, sua ansiedade a mantinha ativa, mesmo que ainda estivesse um pouco receosa com relação ao que estava acontecendo.

Finalmente parou, em um local que parecia ser uma clareira: um círculo contornado por árvores, onde a única vegetação era a grama baixa. Ali era mais iluminado, uma vez que as folhas não bloqueavam a iluminação da lua e das estrelas. Olhou para os lados, receosa, para ter certeza de que ninguém a havia seguido. Logo após, retirou uma pequena pokébola de sua mochila, lançando-a ao ar.

Depois de irradiar um feixe de luz intenso, o dispositivo libertou o cavalo de crinas de fogo azul. Percebendo que sua treinadora tinha os braços cruzados em uma tentativa de se aquecer, o monstrinho respirou fundo e bufou, aumentando facilmente a intensidade das chamas que percorriam seu corpo.

— Obrigada, Fire. — a menina sorriu, acariciando o pescoço do pokémon.

— Então esse é o seu pokémon? — indagou uma voz conhecida, a qual Caroline reconheceu ser de Amy.

Por um breve momento, a menina de cabelos negros havia esquecido-se completamente de que estava junto das duas outras garotas. Diferentemente de algumas horas atrás, quando conversavam sobre as estratégias e rumos que deveriam tomar após sair da casa de Juniper, estavam agora mais caladas. Por isso, talvez houvesse sido mais fácil esquecer da presença das outras.

— Sim. — Caroline respondeu, abrindo um meio sorriso tímido. — Este é Firestarter. — abanou a mão em direção ao Ponyta, que assentiu.

O cavalo virou-se para observar os outros a sua volta, um pouco confuso. Não havia conversado com sua treinadora desde aquela manhã, quando estavam no hotel — agora, pareciam estar bem longe dele, em uma rota desconhecida pelo pokémon. Analisou então as outras duas jovens a sua frente, perguntando-se quem eram e por que estavam ali, junto de sua treinadora. Geralmente, Caroline preferia ficar sozinha. Embora cheio de dúvidas, o monstrinho optou por não começar um interrogatório naquele momento; ele deixaria para tirá-las mais tarde, quando estivesse sozinho com a garota.

— Ele é Shiny? — Sam arqueou uma das sobrancelhas em surpresa, intercalando seu olhar entre a imagem de sua PokéDex, que mostrava um Ponyta de chamas alaranjadas, e as chamas azuladas que dançavam nas costas e cabeça do pokémon.

— Uh, sim. — Caroline deu de ombros. Pensou em explicar que Fire havia sido o primeiro Ponyta Shiny nascido em sua fazenda. Mas, lembrou-se que, para fazê-lo, precisaria contar às outras de onde vinha e ainda não confiava nelas o suficiente para isso.

— Ah, tem alguém que eu quero que vocês também conheçam! — Amy abriu um sorriso animado, mexendo em sua mochila e retirando de dentro dela uma esfera bicolor, prontamente lançando-a ao ar. — Esta é… — ela fez uma pausa misteriosa, esperando o brilho emitido pelo dispositivo cessar e revelar a criatura que antes estava dentro dele. — Kairi!

O corpo da criaturinha recém-libertada era majoritariamente de um azul marinho levemente acinzentado, exceto por uma máscara negra em seu rosto e marcas de mesmo tom em suas quatro patas. Além disso, possuía um colar de pêlos creme, cor que descia até sua barriga. Em sua cabeça, cresciam longos pêlos que mais se assemelhavam a cabelos, de um tom um pouco mais claro do que o resto de suas marcas pretas. Ela vestia longas luvas de um azul levemente mais escuro do que o de sua pele, que iam até um pouco depois de seus cotovelos e deixavam seus dedos visíveis. Utilizava também uma saia azul marinho rodada e um sarashi, espécie de blusa composta por faixas brancas que envolviam seu peito.

A pokémon estava de braços cruzados e olhos fechados, não aparentando ter qualquer intenção de abri-los para observar os estranhos a sua volta. Ao invés disso, mantinha uma postura séria, demonstrando não se importar com o que estava a seu redor.

— É uma Riolu, certo? — Sam indagou, observando novamente sua PokéDex.

Amy assentiu alegremente, tentando algum contato com sua pokémon, que parecia satisfeita em ignorá-la.

— Uh… E o seu pokémon, Sam? — indagou Caroline, falhando em mascarar sua ansiedade.

— Ah, claro! Já ia me esquecendo. — a garota de peculiares cabelos brancos soltou uma risadinha antes de prosseguir. — Pode aparecer, Omen.

Com aquele simples pedido, uma silhueta azulada apareceu próximo ao ombro direito de Sam, logo revelando um pokémon de corpo roxo-azulado. Sua cabeça tinha um formato oval, com uma espécie de longo chifre saindo de seu centro. Seu corpo era curto, terminando como uma saia — na verdade, o monstrinho parecia estar coberto por um lençol, levemente rasgado em suas pontas. Seus olhos penetrantes eram amarelos com um grosso contorno azul escuro, sendo adornados por marcas negras que em muito lembravam um óculos. Ele deu uma risadinha sinistra ao fitar as outras duas jovens presentes.

— Um pokémon fantasma. — Caroline murmurou surpresa, observando as informações em sua PokéDex.

— Eles são bem difíceis de se encontrar, porque… Bem, se escondem. — Sam deu de ombros, logo virando-se para o companheiro. — Mas esse aqui adora aparecer para causar uma desgraça, né?

A garota pálida encarou seu pokémon, como se o repreendesse, mas o mesmo apenas soltou uma leve gargalhada. A atitude do pokémon fez Sam revirar os olhos, mas não pôde evitar o sorriso que escapou de seus lábios.

— Bem, já que estamos aqui, finalmente podemos começar a treinar para enfrentar o governo! — Amy cantarolou, mas logo levou as mãos à boca, percebendo o que havia feito.

Um silêncio estranho se instaurou no ar por alguns segundos. Pokémons e treinadores se entreolhavam, sem graça.

— Enfrent- Estão malucas?! — rosnou a Riolu que, até então permanecera calada, enfim abrindo seus olhos verdes como esmeraldas, iguais aos da treinadora. — Vocês vão se matar! Vão nos matar! — gritou, encarando furiosamente sua treinadora.

— Ah, eu sempre falo na hora errada. — Amy repreendeu-se, arrependida pelo que acabara de dizer.

— Vocês vão… O que? — Firestarter virou-se para Caroline, como se esperasse respostas. Não acreditava no que acabara de ouvir.

Omen, o Shuppet, parecia ser o mais animado dentre os pokémons presentes. Começou a rodopiar em volta da treinadora e gargalhar.

— Calma! — disse a garota de cabelos negros, enfim, tentando manter a paz no local. — Nós não faremos isso. Vamos treinar, nos fortalecer, conseguir ajuda… E, talvez, nos tornar fortes o suficiente para enfrentar o governo. Mas não agora. — ela esclareceu.

— Isso! — Amy concordou e assentiu agilmente. — É apenas uma ideia, não um plano fixo. — complementou.

— Quer saber? Façam o que quiserem! — resmungou a Riolu, evidentemente ainda irritada, virando-se de costas para o grupo. — Mas, se quiserem sobreviver para concluir essa “ideia” de vocês... — ela fez aspas no ar com as patas — ...É melhor montarem acampamento e acenderem uma fogueira. Está ficando cada vez mais frio.

A pokémon certamente tinha razão. As três jovens se entreolharam, verificando se todas concordavam — afinal, eram um grupo agora e precisavam tomar decisões de forma conjunta. Estavam em um bom lugar para montar acampamento: a clareira era larga o suficiente para todos se deitarem, sobrando espaço ainda para uma fogueira no centro.

— Eu vou procurar lenha. — ofereceu Caroline, quase imediatamente.

Se não conhecesse a menina, Firestarter diria que a mesma estava apenas querendo ser gentil e prestativa mas, no fundo, sabia que ela só queria um momento sozinha com ele para lhe explicar a situação.

— Vamos, Fire. — a menina de cabelos negros chamou, comprovando a hipótese do cavalo.

“Tão previsível”. O Ponyta balançou sua cabeça, rindo levemente, mas não hesitando ao seguir a garota. Realmente queria ouvir o que ela teria a lhe dizer, queria explicações quanto ao que havia ocorrido enquanto ele estava em sua pokébola.

— Tudo bem, obrigada! — agradeceu Amy enquanto sentava-se no chão, seguida por Sam e seu Shuppet.

***

Com a ajuda de Firestarter, a garota já havia recolhido uma quantidade considerável de gravetos e galhos mais grossos. Milagrosamente, conseguira encontrar alguns mais secos, apesar da chuva que caíra mais cedo. Após juntar uma boa quantidade de madeira, terminou de explicar toda a história a seu companheiro, que nada havia dito até então, apenas concordando com a cabeça às vezes.

— Espero que você não esteja bravo comigo. — sussurrou a menina, fitando o chão. Não ousava olhar para o Ponyta ao seu lado.

— Bravo? Por que? — indagou o pokémon, confuso.

— Por estar te colocando em risco. — seu tom era de culpa. — Eu deveria ter te perguntado antes. Mas imaginei que você fosse querer… Você sempre disse que queria se aventurar pelo mundo. — ela pausou por um momento, suspirando. — Essa é a nossa chance.

— Eu sei que você jamais me colocaria em risco. — o cavalo respondeu, sorrindo e olhando com sinceridade para a treinadora. — Confio em você, Care. Sei que fará o melhor por nós.

— Obrigada por entender, Fire.

A menina acariciou o topo da cabeça do pokémon, passando sua mão por entre suas chamas azuis. Embora já estivesse familiarizada com a sensação, nunca deixava de ser surpreendida por não ser queimada ao tocar no fogo.

Assim que Caroline virou-se para retornar o caminho pelo qual viera, percebeu o cavalo estremecer. Suas orelhas mexiam-se em todas as direções, como se captassem algum som. Mas, antes mesmo que pudesse perguntar o que estava acontecendo, pôde ouvir uma voz masculina infantil chamar sua atenção.

— Ei, vocês! — o desconhecido gritou.

Virando-se para trás, a garota de cabelos negros se deparou com um monstrinho que nunca vira antes. Estava de pé em suas patas traseiras e balançava alegremente sua longa cauda que, perto do fim, dividia-se em duas. Embora fosse difícil enxergar na escuridão da noite, era possível dizer que a maior parte de seu corpo ela de um tom caramelo alaranjado, exceto por uma grande marca mais clara, que começava em seu focinho e descia até sua barriga — as pontas da sua cauda possuíam essa mesma cor. Duas pequenas listras negras, como aquelas pintadas no rosto antes de uma guerra, decoravam suas bochechas. Tinha uma longa franja de pêlos bagunçados que cobria parcialmente um de seus olhos, os quais lembravam pérolas negras de tão reluzentes. Na lateral de seus braços estavam duas nadadeiras azuis, fator que fez a menina pensar tratar-se de um pokémon do tipo aquático. Em volta de seu pescoço, vestia uma gravata borboleta preta.

Admirada e surpresa por finalmente encontrar um pokémon após tantos dias de viagem, a menina quase se esqueceu do dispositivo que lhe havia sido entregue pela cientista. Curiosa para identificar a nova espécie, Caroline vasculhou sua mochila rapidamente, segurando a PokéDex e apontando-a para a criaturinha à sua frente.

Buizel, o pokémon Doninha do Mar. — começou a voz robótica do aparelho, logo continuando. — Buizel é capaz de armazenar ar na bóia em seu pescoço e utilizá-la para flutuar sobre a água.

— Bóia? Que bóia? — o pokémon arqueou uma de suas sobrancelhas, girando em torno de seu próprio corpo ao procurar pela característica. — Acho que esse negócio está errado. — exclamou após constatar que, de fato, não possuía nada do tipo.

Observando com cautela o Buizel, podia-se perceber que ele era diferente daquele mostrado e descrito pelo dispositivo. Em seu pescoço, não havia nada além de uma gravata borboleta.

— Quem é você? — Firestarter deu um passo à frente, colocando-se entre o desconhecido e sua treinadora, mas foi logo repreendido pela menina. Apesar da treinadora murmurar que não havia necessidade para tanta proteção, o cavalo ali permaneceu, teimoso.

— Eu? Sou Leroy.— a lontrinha sorriu e estufou o peito orgulhosamente, colocando as mãos em sua cintura. — E vocês?

— Eu sou Caroline. E esse é Firestarter. — a garota sorriu. Estava realmente animada por conversar com um novo pokémon.

Por um instante, estranhou a atitude do Buizel de se aproximar dela de maneira tão extrovertida. Pokémons não deveriam ter medo de humanos? A maioria das criaturinhas fugiria ou atacaria na primeira chance que tivesse, mas o Buizel não parecia encaixar-se em nenhuma das opções.

— O que estão fazendo por aqui? Vocês têm comida?— Leroy perguntou lambendo os beiços e aproximando-se um pouco mais, com um olhar curioso.

Caroline assentiu, rindo de leve, sendo seguida por seu Ponyta, que teve de abandonar sua postura séria para juntar-se à treinadora. O cavalo branco perguntou-se como aquele ser havia sobrevivido até o momento comportando-se daquele modo. Afinal, ele mesmo havia vivido nas sombras durante toda sua vida e aprendera que deveria ficar o mais longe possível dos humanos. Como um pokémon selvagem poderia não saber disso?

— Você pode vir conosco até nosso acampamento. Lá, temos um pouco de comida. — respondeu a garota, esperando o Buizel assentir animado para finalmente virar-se e seguir de volta ao local onde as outras esperavam.

Não tiveram de andar muito para chegar, uma vez que Caroline não quisera se distanciar muito do local onde montaram acampamento para minimizar as chances de perder-se do caminho. Na clareira, deparou-se com Amy deitada sobre a grama, sonolenta, com sua Riolu ainda de braços cruzados ao seu lado. Sam parecia conversar alguma coisa com Omen, o qual parecia ainda bem animado.

— Ah, você foi rápida. — murmurou a jovem de cabelos brancos, fazendo com que Amy acordasse e se sentasse, fitando Caroline. Os olhos da mais alta estavam tão cansados que mal pôde ver o borrão alaranjado ao lado da menina que acabara de chegar. Tendo uma ideia do que seria, esfregou seus olhos com as mãos e, ao enxergar com clareza, confirmou sua hipótese.

— Um pokémon?! — exclamou, surpresa, fitando o Buizel. — Achei que não fosse tão fácil encontrá-los! — ela sorria, animada.

— Ele que me encontrou, na verdade. — a menina de cabelos negros deu de ombros. — Ele está com fome.

— Muita fome, na verdade. — corrigiu o pokémon, aproximando-se do grupo e apresentando-se. — Meu nome é Leroy!

— Ótimo, mais uma boca para alimentar. — resmungou Kairi, revirando os olhos. Parecia ser do tipo solitária, que detestava a presença dos outros à sua volta.

— Kairi, comporte-se! — repreendeu a garota de cabelos castanhos ondulados, logo virando-se para o Buizel. — Eu sou Amy!

— Me chamo Samantha, e esse é Omen. — ela apontou para o pequeno fantasma que flutuava ao seu lado.

Enquanto todos conversavam, Caroline colocou os gravetos que segurava no chão, começando a montar a fogueira. Observou o quão extrovertido era Leroy perto do grupo, o que achou surpreendente. Será que já havia visto treinadores por lá? Talvez elas não fossem as únicas que ainda tentavam lutar pelos pokémons.

— Fire, pode me ajudar aqui? — a menina sussurrou para seu Ponyta, que prontamente assentiu.

Estufando o peito, o cavalo disparou algumas brasas em direção à fogueira, acendendo-a com facilidade. O calor irradiado por ela não era muito, mas serviria para manter o grupo aquecido durante a noite.

Ao terminar seu trabalho, a jovem juntou-se às outras duas meninas e seus pokémons. De dentro de sua mochila pegou um saco zip-lock, o qual continha comida seca natural para pokémon, produzida em sua própria fazenda. Entregou a refeição para o Buizel faminto, que prontamente começou a comer, dizendo ser “a melhor coisa que já havia comido em sua vida”.

Leroy parecia ter muitas perguntas e afirmou nunca ter encontrado humanos por aquela rota, o que apenas deixou a menina mais intrigada.

— Vocês são treinadoras? — o pequenino perguntou. — Digo, do tipo que treinam pokémons, de verdade?

— Uh… Agora, oficialmente, sim. — respondeu Caroline.

— Eu também queria tentar ser Coordenadora. — disse Sam, sorridente, mostrando conhecer do assunto.

Caroline não sabia muito sobre Contests, apenas o que sua mãe lhe contara sobre as vezes que participara desses eventos ilegais, antes da menina nascer. Tinha curiosidade para assistir a um ao vivo, mas não sabia se experimentaria participar um dia.

— Legal! — murmurou o Buizel, interessado.

Contrariando as expectativas de Caroline, suas primeiras horas de jornada estavam sendo incríveis. Não achava tão ruim ter as outras duas garotas por perto, embora ainda não confiasse muito nelas, e agora, acabara de conhecer um pokémon diferente. Ela realmente estava feliz.

A conversa do grupo foi interrompida pela Riolu que, repentinamente, pôs-se de pé no meio do grupo. Dois apêndices saíram das laterais de sua cabeça — aparentemente, estavam escondidos por seus cabelos — e seus olhos começaram a brilhar, enquanto a chacal parecia sentir o ambiente à sua volta.

— O que está acontecendo? — indagou Sam.

— Ela está usando sua aura. — murmurou Amy, um pouco confusa.

— Tem mais alguém aqui. — Kairi murmurou, sua voz extremamente baixa. — É um pokémon. — completou, surpreendendo aos outros.

As meninas, assim como Firestarter, olhavam em volta, mas não conseguiram identificar nada além das altas árvores que rodeavam a clareira. Omen ria animado, enquanto Leroy continuava a comer com extrema tranquilidade, sem demonstrar muita surpresa, até que o mesmo resolveu quebrar o silêncio.

— Eu disse que elas não eram perigosas, Kah. — disse com um sorriso vencedor estampado em seu rosto.

— Mas poderiam ser. O que você fez foi extremamente idiota. — uma voz feminina ecoou.

Em um salto, a criaturinha jogou-se da árvore na qual se escondia, dando uma cambalhota no ar e caindo sobre três patas no chão, segurando uma espécie de bastão de madeira comprido em sua mão livre. A maior parte de seu corpo era cor de carvão, exceto por sua cabeça e a ponta de suas patas, que apresentava uma coloração negra. Possuía também uma listra alaranjada em sua longa cauda, a qual balançava de um lado para o outro. Seu focinho era comprido e achatado, seus olhos púrpura pareciam verdadeiras ametistas. Na parte traseira de seu pescoço, cresciam dois apêndices e, da mesma altura, nascia um moicano violeta que terminava em uma franja, a qual caía por sua testa. Utilizava uma espécie de colete de metal bem curto, que encobria uma cicatriz em seu tórax. De pé, ela beirava um metro de altura.

Caroline estava prestes a pegar sua PokéDex para analisar a pokémon desconhecida, mas Sam fora mais rápida, sacando o dispositivo e apontando-a na direção da recém chegada.

— Salandit, o pokémon Lagarto Tóxico. Salandits são muito perigosos, pois lançam ao ar um gás venenoso antes de atacar.

Assim que o aparelho terminou sua análise, foi arrancado das mãos da menina de cabelos brancos e arremessado contra o chão com um movimento rápido de bastão da Salandit.

— Não apontem essas suas máquinas para mim! — rosnou a pokémon, enfurecida.

— Relaxa, Kah! — o Buizel se levantou, aproximando-se da amiga para tentar conter a situação. — Elas não fazem nada.

Repentinamente, a Riolu se virou para a recém chegada, seus olhos se arregalando ao fitá-la por longos segundos.

— Kahira…? É… É você mesmo? — indagou a chacal, sua voz trêmula e incrédula.

Pela primeira vez, a reptiliana tornou sua atenção para a Riolu, tendo sua expressão irritada completamente substituída por uma surpresa.

— Kairi?! — respondeu, boquiaberta, correndo em direção à Riolu antes mesmo de ouvir uma resposta.

E, surpreendendo a todos os presentes, as duas se abraçaram calorosamente, como melhores amigas que não se viam há anos.

— Vocês… Se conhecem? — indagou Amy, arqueando uma das sobrancelha.

Caroline observava toda a situação um pouco confusa. Poucos segundos atrás, a Salandit havia trocado palavras com Leroy, então certamente o conhecia. Isso não era muito estranho, já que os poucos pokémons restantes deveriam se unir para se proteger e cuidar um do outro. Mas, como ela conhecia Kairi? Virou-se para o Buizel, procurando respostas, mas este parecia entender ainda menos do que a menina.

— Nós… Nós somos… — começou a Riolu, com lágrimas escorrendo de seus olhos.

— Irmãs. — completou Kahira, ainda abraçando a outra.

As duas afastaram-se por alguns segundos, mantendo os braços nos ombros uma da outra, para que pudessem se observar. Não muito tempo depois, desataram a conversar, ignorando o resto do grupo. Exclamavam coisas como “você cresceu tanto” e “senti sua falta”. Pareciam ter muito o que colocar em dia.

— Irmãs? Você nunca me disse que tinha uma irmã! — surpreendeu-se a treinadora da Riolu, como se esperasse respostas, mas fora praticamente ignorada.

Caroline também estava perplexa. Não somente pela coincidência de ambas se conhecerem, era seu parentesco que a deixava confusa agora. Podia não entender muito sobre aquelas criaturas misteriosas, afinal, nunca os estudara de fato — sabia apenas o básico. Mas como pokémons de espécies diferentes podiam ser da mesma família? Não parecia fazer sentido algum.

A menina fez uma nota mental para pesquisar sobre aquilo assim que tivesse a chance. Enquanto isso, observava atentamente os outros, tentando recolher informações.

— Bem, vocês parecem ter muito o que conversar. — Amy exclamou, mas não sem antes lançar um olhar ameaçador para a Riolu, como se exigisse explicações. — Por que não se senta conosco, Kahira?

A pokémon negra se virou para a menina de cabelos castanhos ondulados, depois para Leroy, que assentiu. Ela suspirou mas, por fim, concordou.

As três jovens e seus pokémons, agora com a adição de Leroy e Kahira, sentaram-se ao redor da fogueira, conversando sobre diversos assuntos. O Buizel fazia algumas piadas de vez em quando, sendo muitas vezes repreendido pela Salandit, mas ele a ignorava. O grupo parecia ter se esquecido completamente do cansaço e não mais ansiavam por seu descanso. Os sacos de dormir estavam estendidos no chão, mas ninguém queria ser o primeiro a ir dormir.

Passou-se uma hora, talvez duas — não havia alguém de fato contando — antes do falatório cessar e todos adormecerem. Naquela noite, pela primeira vez em muitos anos, Caroline tivera bons sonhos. E eles eram tão doces quanto sua realidade — pelo menos, por enquanto.

***

A manhã chegou rápido e, mesmo tendo dormido pouco, Caroline sentia-se revigorada. Abriu seus olhos lentamente, observando o resto de seu grupo já acordado. Amy conversava animadamente com sua Riolu e a Salandit, enquanto Sam guardava seus pertences em sua mochila. Leroy conversava com Firestarter, o que colocou um sorriso no rosto da menina; estava tão feliz por seu companheiro estar finalmente conhecendo outros pokémons e pessoas, assim como ele queria. Levantou-se, disposta, passando suas mãos sobre suas roupas para desamassá-las, refazendo também o nó de sua gravata vinho, a qual retirara para dormir. Murmurou um animado “bom dia” para as meninas e os pokémons, que alegremente a responderam.

— Já vamos seguir? — indagou Caroline, observando a garota de cabelos brancos colocar sua mochila nas costas.

— Quanto mais cedo, melhor. — respondeu. — Pensei que podíamos chegar em Accumula ainda hoje e dormir em uma cama.

— É uma boa ideia. — a menina de cabelos negros riu, de leve.

De repente, Caroline ouviu uma reclamação de Kairi e rapidamente virou-se em sua direção, para ver o que estava acontecendo. A chacal estava de braços cruzados enquanto sua suposta irmã a encarava, franzindo a testa. Parecia que estavam discutindo.

— Você é minha irmã! Como assim não vai seguir viagem conosco? — falou, frustrada, a Riolu.

— Justamente por causa disso! — contra atacou a réptil. — Isso nos faz rivais por nascença. Eu me recuso a ser parte do seu time.

— Amy, faça alguma coisa! — Kairi rosnou para sua treinadora.

— E-eu não vou obrigá-la a vir conosco, Kairi… — respondeu a menina, encolhendo os ombros.

— Hmm, bem… — Sam entrou na conversa, mostrando-se presente. — Você pode seguir comigo, se quiser. — deu de ombros, mas sorria, falhando em tentar esconder seu entusiasmo.

— Com… Você? — a Salandit tornou-se pensativa por alguns instantes. — Tudo bem, eu aceito. — Sam nem pôde comemorar antes que a reptiliana continuasse: — Se você se provar uma treinadora forte. Vença de mim em uma batalha e seguirei com vocês! — ela disse, colocando-se em posição de ataque.

— Quê?! — a menina arqueou uma das sobrancelhas, surpresa.

Em tempos como aqueles, a maioria dos pokémons preferiria evitar ao máximo batalhas, já que elas poderiam ser fatais. Por que Kahira queria se submeter a tal risco? Talvez quisesse se mostrar forte, mas isso ainda era imprudente. Além disso, a própria Sam não queria correr o risco de machucar Omen, seu único pokémon. Mas, por outro lado, se quisesse sobreviver àquela aventura insana, teria de se tornar mais forte, e o jeito mais eficiente de fazê-lo seria batalhando.

— Você é tão imatura. — a Riolu bufou, revirando os olhos, mas a Salandit a ignorou por completo, ainda aguardando a resposta de Sam.

— Tudo bem. — a garota suspirou. — O que você acha, Om-... — antes mesmo que pudesse completar sua frase, o Shuppet já havia se posicionado de frente para a réptil.

Sam não sabia muito sobre batalhas — na verdade, aquela seria sua primeira. Porém, havia estudado sobre os tipos de pokémons e suas vantagens em livros que havia lido, era seu maior passatempo desde mais nova, na época em que morava em orfanatos — e, mesmo depois de adotada, continuou estudando, em segredo. Também tivera certa ajuda de um “treinador” que conhecera anos atrás, o qual lhe ensinara o básico. Ainda assim, estava receosa. Tinha medo de que seu Shuppet ficasse ferido, ou que, por nunca terem treinado, algo pudesse dar errado. No entanto, resolveu afastar esses pensamentos de sua mente e concentrar-se na batalha. Era sua primeira vez fazendo algo do tipo mas, para Omen, certamente não.

Os outros se afastaram, dando espaço para a batalha ocorrer, mas ainda observando tudo curiosamente. Caroline estava ao lado de seu Ponyta; ambos queriam prestar atenção em tudo que acontecia. Seria sua primeira vez assistindo uma batalha e queriam aprender o máximo possível.

— Eu começo. — anunciou a Salandit, abrindo um sorriso de lado.

Sem hesitar, estendeu seu bastão e começou a correr em direção ao Shuppet. Assim como a PokéDex havia ressaltado, ela liberava de seus apêndices uma espécie de gás venenoso, com o intuito de envenenar o adversário.

Temendo pela saúde de seu pokémon, Sam teve de pensar rápido. Precisava que o fantasma não fosse afetado pelo gás e contra-atacasse antes que a oponente conseguisse chegar até ele.

— Omen! — a treinadora gritou, aflita, mas acalmou-se ao ver o pokémon desaparecer logo antes da nuvem de fumaça chegar até onde ele estava, reaparecendo um pouco ao lado. — Rápido, use Night Shade! — comandou.

Os olhos do Shuppet brilharam em um tom de rosa e logo seu corpo foi envolvido por uma aura de mesma cor. Em seguida, o fantasma liberou diversos anéis de energia rosados em direção à adversária.

Observando o fantasma preparar seu ataque, Kahira prontamente fincou seu bastão de madeira contra o chão de terra, conseguindo impulso para desviar do golpe desferido pelo Shuppet, passando agilmente por cima dele. Ao cair atrás do mesmo, abriu seu longo focinho e disparou brasas contra a sua direção.

Atingido, o pequeno Shuppet gemeu de dor, mas sacudiu sua cabeça e recuou, mantendo a distância de sua adversária. Em seguida, colocou-se em posição e aguardou o comando seguinte de sua treinadora.

— Você está bem, Omen? — indagou a treinadora, preocupada, mas relaxou ao ver seu pokémon assentir. — Então vamos continuar. Siga com o Shadow Sneak!

Concentrando-se, o fantasma criou uma sombra de si mesmo, a qual se estendeu pelo chão em direção à Salandit. Essa, no entanto, apenas manteve sua calma, novamente pressionando seu bastão contra o chão. Dessa vez, no entanto, apenas equilibrou-se em cima do mesmo, fazendo com que o golpe atingisse o objeto ao invés dela. Em seguida, agarrou o bastão com sua longa e habilidosa cauda, saltando em direção ao Shuppet com a boca aberta. Suas duas presas dianteiras pareciam ter crescido, tornando-se envoltas por uma aura roxa. Em poucos segundos, fincou as presas venenosas no corpo do pequeno fantasma que, dessa vez, sentiu a dor mais forte.

Omen urrou com a dor causada pelos afiados dentes da reptiliana, mas foi esperto o suficiente para livrar-se delas desmaterializando-se. Agora mais cansado, não conseguiu ir muito longe até que precisasse reaparecer. Percebendo a preocupação de sua treinadora, o Shuppet abriu seu característico sorriso, indicando que ainda estava apto a continuar.

Sam ficou impressionada com a agilidade da Salandit. Quando vira o bastão que a mesma carregava, acreditou tratar-se de uma arma para atacar seus inimigos, não um acessório para ajudá-la a se movimentar durante combate. Foi então que percebeu que, enquanto Kahira tivesse o objeto, estaria em vantagem. Em um ato de nervosismo, a garota de cabelos brancos mordeu o lábio inferior, tensa e pensativa. Como poderia se livrar do bastão ao qual a reptiliana aparentava ser tão apegada?

Por um segundo, foi como se uma luz tivesse se acendido em sua cabeça.

Ela rapidamente bolou uma estratégia, agradecendo por ter aproveitado para aprender sobre os golpes conhecidos por seu Shuppet na noite anterior.

— Omen, Knock Off! — gritou, abrindo um leve sorriso.

Compreendendo os planos de sua treinadora, o fantasma roxo também sorriu, soltando uma leve gargalhada. De modo a confundir sua oponente e garantir o sucesso de seu ataque, tornou-se invisível e correu em sua direção, aparecendo novamente poucos centímetros à sua frente. Todo o seu corpo era envolto por faíscas negras quando ele, agilmente, investiu contra a barriga da Salandit, o impacto do ataque sendo o suficiente para fazê-la derrubar seu bastão e cair a alguns metros de distância do objeto.

Após alguns segundos, Kahira levantou-se. Colocou a mão sobre sua barriga, sentindo o local onde havia sido atingida. Ao perceber que havia sido separada de seu bastão, Kahira ficou um pouco inconformada. Franziu o cenho em direção ao Shuppet e estufou o peito, preparando suas brasas novamente. Mas, contrariando os pensamentos de Sam, ela não tentou atingir o pokémon, mas sim o chão — logo a garota entendeu o porquê.

Ao atingir a terra, as brasas levantaram uma nuvem de poeira ao redor do Shuppet. Seu objetivo era tirar a visão do oponente para que pudesse chegar até seu bastão e recuperar a vantagem.

— Omen, não deixe que ela pegue o bastão! — ordenou a menina de cabelos brancos. — Use Screech!

O fantasma não enxergava nada mas, felizmente, não precisava de sua visão para executar aquele golpe. Abrindo sua boca, soltou um poderoso grito que criou ondas de som tão potentes que chegavam a ser visíveis. Ao ouvir o terrível som, Kahira teve de parar sua corrida e forçar as palmas da mão contra os ouvidos, tamanho era seu incômodo.

Percebendo que a poeira começava a baixar e seu pokémon recuperava a visão, Sam comandou:

— Aproveite para usar o Shadow Sneak novamente!

Atordoada pelo barulho, a Salandit nem ao menos percebeu que seu oponente preparava o próximo golpe. O corpo do fantasma brilhou em roxo enquanto sua sombra se estendia pelo chão, em direção à reptiliana. Dessa vez, a pokémon fora incapaz de desviar e foi atingida em cheio pela sombra, sendo arremessada alguns centímetros para cima antes de cair no chão.

A lagartixa se contorceu sutilmente com a dor, mas logo se colocou de pé. No entanto, enquanto preparava um novo Ember, seu ataque foi interrompido pela garota de cabelos brancos.

— Já chega! — exclamou Sam, perplexa pela determinação da Salandit de lutar até vencer. A batalha já estava indo longe demais e, devido à sua inexperiência, sentia-se aflita de continuar. — Vocês dois já estão cansados e machucados. Eu e Omen não iremos mais atacar.

Kahira pareceu surpresa, além de um pouco desapontada — queria continuar a batalha. No entanto, embora achasse um pouco audacioso, admirou-se pela preocupação de Sam com sua saúde, embora fossem completas estranhas. Por um segundo, até mesmo pensou em como seria haver alguém que cuidasse dela e se importasse com o que sente.

— Tudo bem, vocês me convenceram. — a Salandit suspirou, deixando escapar um meio sorriso. — Eu seguirei com vocês.

Com a afirmação, Sam sorriu alegremente, apanhando uma das pokébolas entregues pela Professora e mostrando-a para a pokémon. A mesma observou o dispositivo curiosamente por alguns segundos, como se tentasse entendê-lo, mas logo pressionou o botão central do objeto. Imediatamente, um feixe de luz vermelho irradiou da esfera, envolvendo a Salandit e materializando-a para dentro. Logo após, a jovem libertou-a novamente

— Foi uma ótima batalha! — exclamou Amy com um sorriso animado.

Caroline apenas sorriu, mas também achara muito interessante a primeira batalha que assistira. Não gostaria de ver Firestarter ferido, mas parecia estar considerando a ideia de batalhar.

Ao longe, a Riolu fitava a irmã com certa frieza, como se reprovasse suas ações. A Salandit não se importava, no entanto. Estava animada com a ideia de fazer parte de um time e chutar a bunda de vários oponentes — além da de sua irmã.

— Bem, acho que devemos seguir agora, antes que fique tarde. — Caroline deu de ombros.

As outras concordaram e terminaram de arrumar suas coisas. Caroline despediu-se de Leroy, o qual parecia um pouco desanimado por ver o grupo e seus novos amigos partirem. Até mesmo o Ponyta parecia ter desenvolvido laços com o Buizel e a menina de cabelos negros também gostara dele. Mas não o obrigaria a vir — ela nem mesmo sabia se teria capacidade de cuidar de mais um pokémon e protegê-lo durante sua arriscada aventura.

O grupo precisou caminhar por mais algum tempo antes de chegarem a uma parte menos densa da floresta, onde as árvores tornavam-se mais escassas. Ainda não era possível ver a cidade mas, de acordo com o mapa digital, estavam próximas dela. Agora, precisavam retornar seus pokémons — que até então, andavam livres — para evitar serem vistos por outros.

— Quando estivermos no hotel, te liberto novamente, Fire. — comentou a menina de cabelos negros, apontando o dispositivo bicolor para seu Ponyta. Entretanto, antes que pudesse retorná-lo, foi surpreendida por uma voz conhecida.

— Esperem! — era Leroy, que gritava de não muito longe e arfava.

Caroline e Firestarter se viraram para o novo amigo, ambos contentes, mas confusos. Por que o Buizel havia retornado?

— Será que eu… — ele tinha as mãos no joelho, ainda recuperando seu fôlego. Parecia que ele havia corrido até lá apenas para fazer uma pergunta. — Será que eu posso ir com vocês?

A garota ficou ainda mais surpresa; não esperava por aquilo. Na verdade, ela mesma havia pensado em fazer a proposta para o pokémon, mas não achou que ele fosse aceitar. Ele, porém, parecia determinado a seguir com ela e seu Ponyta.

— Claro. — sorriu a menina, sem precisar pensar muito.

O Buizel retribuiu o sorriso, observando enquanto a menina vasculhava sua mochila em busca de uma pokébola. Ao ver o dispositivo esférico, Leroy aprontou-se para apertar seu botão central mas, antes, virou-se para o cavalo:

— É, pônei. Parece que somos um time agora. — ele sorriu calorosamente.

— Bem vindo ao time, rato d’água. — brincou o Ponyta, retribuindo o apelido que eles já haviam criado. Empurrou o novo companheiro com seu focinho, em uma brincadeira.

— Agora que nós dois temos treinadoras, eu vou querer uma luta depois! — anunciou Kahira animada, observando o amigo assentir.

Logo em seguida, as três jovens retornaram seus antigos e novos pokémons e prepararam-se para seguir viagem. Em poucos minutos, já podiam ver a cidade.

Caroline não poderia estar mais feliz. Acabara de fazer um novo amigo em seu primeiro dia oficial de jornada e sabia que seria ótimo ter Leroy em seu time. Isso a fez pensar que deveria começar a treinar o mais breve possível, para ser capaz de proteger a si e seus pokémons quando precisasse.

Sua felicidade, no entanto, não durou muito.

Ao finalmente chegar à cidade, as três jovens pararam e estremeceram. Algumas pessoas começavam a se reunir em volta de um pequeno palco de pedra, onde pôde identificar dois homens altos de terno — agentes do governo, provavelmente. Entre eles, havia um rapaz musculoso de longos cabelos negros bagunçados e, a sua frente, um homem algemado de joelhos e uma pequena bolinha de pelos cinza, extremamente familiar — um pokémon.

Caroline, assim como as outras duas, arregalou os olhos, permanecendo estática. Não sabia o que iria acontecer, mas tinha um pressentimento de que não seria bom.

Notas finais
AAAA tem desenho dos novos pokémons, caso vocês queiram ver: https://www.deviantart.com/heavenhellpkm É isso pessoal, espero que tenham gostado! Vejo vocês terça que vem :D