Heaven & Hell
13 Chapter 12. Words
Notas iniciais
A escuridão absoluta cedia lugar para a luz alva, que indicava um novo começo. Intensos e grandiosos, os raios do sol começavam a surgir no horizonte, manifestando-se por toda e qualquer pequena brecha entre a folhagem das majestosas árvores de copa alta. Seu calor encarregava-se de amenizar o clima frio da densa mata, tornando-o mais agradável e confortável. O silêncio característico do local permanecia, sem que fosse possível ouvir qualquer canto ou murmúrio.
Sutilmente incomodado pela claridade oriunda do sol, o canídeo de longos pelos brancos foi forçado a abrir lentamente os olhos serenos. Permitiu que seus pulmões se deliciassem com o cheiro matinal, identificando o inconfundível cheiro de orvalho fresco. Ainda deitado, Louis admirou toda a venustidade da manhã, sorrindo para a vegetação esmeraldina que parecia lhe desejar um aconchegante e casual “bom dia”. Entretanto, parte de sua tranquilidade se esvaiu ao notar que o gatinho de pelos claros, ao lado do qual adormecera, não mais estava presente.
Entristecido, o Furfrou colocou-se de pé, constatando que o grupo de jovens e seus pokémons já haviam deixado o acampamento. Suas coisas não mais estavam dispostas sobre o chão e as cinzas da fogueira que os aquecera durante a noite começavam a misturar-se ao vento. Melancólico, o cachorro suspirou; gostaria de ao menos ter tido a chance de se despedir de Augustus, com quem já criara laços apesar do curto tempo em que se conheciam. Por passar a maior parte do tempo sozinho, ignorado ou dispensado pelos poucos outros pokémons que conhecia, a companhia do Meowth lhe trouxera certo reconforto.
Conformando-se com a partida do único amigo que tivera em anos, o poodle estava preparado para dar as costas ao local onde dormira e retornar à sua miserável vida solitária. Contudo, ao dar seu primeiro passo em direção ao coração da floresta, foi surpreendido por uma doce voz feminina, a qual passara a conhecer recentemente.
— Ah, Louis! Você acordou. — murmurou a menina de peculiares cabelos brancos, fitando o canídeo desolado. — Os outros foram embora há algum tempo, mas decidi ficar para te avisar. Não queríamos acordá-lo apenas para dizer que estávamos de partida.
Em seguida, a garota apanhou um recipiente transparente contendo ração especial — que havia preparado minutos atrás — e estendeu-o para o cachorro que, um pouco hesitante, aceitou o alimento.
— Todos se foram? — Louis indagou, degustando calmamente de seu café da manhã. — Imagino que tenham de continuar suas jornadas. — reconheceu, falhando em tentar esconder a tristeza em sua voz.
— Sim. — assentiu a garota, arrumando alguns de seus pertences que ainda encontravam-se dispostos sobre a grama. — Não estamos muito longe de Nacrene e pretendemos nos instalar na cidade ainda hoje, para continuar com nossos planos.
— E quanto a Augustus? — o pokémon desviou sua atenção da ração por um momento, dedicando-se à resposta de Sam. Queria ter a chance de reencontrar-se com o felino, mesmo que apenas para despedir-se do mesmo.
— Augustus? O Meowth da Caroline? — a jovem arqueou uma das sobrancelhas, incapaz de compreender a preocupação do Furfrou com aquele pokémon em específico. — Ele foi junto com ela e o resto de seu time. — informou, esperando uma explicação de Louis que não veio.
O canídeo assentiu soturno, convencendo-se de que nunca mais encontraria o gatinho novamente. Perdeu sua fome completamente, deixando o pouco que restava da ração de lado. Sam não demorou a perceber os sinais de tristeza do poodle, embora não a compreendesse, e perguntou-se se sua reação seria devido ao fato de estarem partindo. Não se conheciam há muito tempo, mas talvez o pokémon tivesse criado apego pelo grupo. Um pouco hesitante, a jovem decidiu aproximar-se do cãozinho cabisbaixo, agachando-se ao seu lado e conseguindo sua atenção.
— Bem, Louis… — ela começou, meio sem jeito. Retirou uma esfera bicolor vazia de sua mochila, mostrando-a ao Furfrou, que analisou o objeto um pouco confuso. — … Se você quiser, pode vir comigo. — propôs, fitando o pokémon.
— Ir… Com você? — repetiu as palavras em um tom baixo, como se as testasse.
Pensativo, o Furfrou analisou cautelosamente a proposta que lhe havia sido feita. Não conhecia muito bem Sam ou as outras jovens e seus companheiros. Porém, durante o pouco tempo que haviam passado juntos, o grupo constituiu a família que nunca havia tido, fornecendo-lhe a atenção e carinho dos quais nunca antes dispusera. Ainda não confiava plenamente nas jovens, mas Augustus parecia inteiramente convicto de que aqueles humanos estavam dispostos a ajudá-los e arriscar-se por eles — e a certeza do Meowth era suficiente para que ele também acreditasse nas treinadoras.
O canídeo fitou a treinadora por mais alguns segundos antes de fazer sua decisão. Havia crescido livre e selvagem, pertencente à grande e majestosa floresta que fora seu ninho durante toda sua existência. Deveria ser assustador ter de abdicar de sua liberdade e morar dentro de uma esfera de metal, sendo liberto apenas quando possível. Em contrapartida, uma série de vantagens parecia estender-se à sua frente: não teria mais de procurar alimento ou abrigo, estaria seguro e conseguiria a companhia que tanto lhe fizera falta nos últimos anos de sua vida. Além disso, tornar-se parte do time da garota de cabelos brancos garantiria que o cachorro pudesse rever e conviver com seu amigo felino. E não havia nada no mundo que o Furfrou desejasse mais do que aquilo, no momento.
— Aceito a proposta. — assentiu o poodle por fim, esboçando um sorriso de canto nervoso e tímido.
— Ótimo. — Sam deixou parte de sua alegria transparecer através do novo brilho em seus olhos amarelos. — Será incrível tê-lo no time. — afirmou, aproximando-se um pouco mais do pokémon para tocar-lhe a cabeça, acariciando-o delicadamente.
A jovem estendeu o dispositivo esférico na direção do cachorro, que o tocou com seu focinho ainda um pouco receoso. Naquele momento, a pokébola se abriu e emitiu uma forte luz vermelha que envolveu o Furfrou, sugando-o para dentro. O botão central da esfera piscou uma única vez antes de emitir um som eletrônico, indicando que a captura havia sido feita com sucesso.
Sam fitou o dispositivo por alguns segundos, sorrindo para o mesmo como se o cachorro que agora ali residia pudesse vê-la. Embora já tivesse conhecido novos pokémons desde o início de sua jornada, a sensação de alegria que a invadia continuava a mesma. Estava ciente de que, no mundo tão caótico no qual vivia, o encontro com aquelas magníficas criaturas era um evento incrivelmente raro. Por isso, agradecia um ser superior todas as vezes que lhe permitiam a sorte de conquistar a confiança de um novo amigo, que a acompanharia durante o resto de sua vida.
Por fim, a garota teve de deixar seus devaneios ao lembrar que deveria reencontrar seu grupo. Guardou cautelosamente a pokébola de Louis dentro de sua mochila, junto aos outros membros de seu time, esperando ansiosamente pelo momento em que lhes contaria sobre o novo companheiro que teriam.
Sam caminhou a passos largos e rápidos, seguindo na direção que havia sido tomada por suas amigas e Matthew, cerca de vinte minutos atrás. Eles disseram que a esperariam, portanto não deveria ter problemas para encontrá-los.
Como esperado, não precisou correr por mais de dez minutos até que a garota de cabelos brancos avistasse o trio. Os pokémons não mais estavam com o grupo, provavelmente haviam sido recolhidos para sua segurança, uma vez que se aproximavam de Nacrene. Ao ouvir os passos pesados da terceira amiga, Amy prontamente se virou sorrindo.
— Bem vinda de volta, Sam. — cumprimentou a mais alta de cabelos castanhos, enquanto Matt e Caroline se dirigiram à recém chegada com um aceno de cabeça. — Você se despediu de Louis?
— Não precisei. — a garota abriu um sorriso de puro êxtase. Ao perceber a confusão dos outros com sua resposta, viu-se obrigada a explicar: — Louis decidiu seguir comigo.
— Ah, isso é incrível! — comemorou Amy, com alguns leves pulinhos de alegria. Aquele comportamento combinava perfeitamente com sua aparência infantil, embora a garota já houvesse provado a todos ser muito mais madura do que uma criança. — Quanto mais, melhor. — acalmou-se, tornando a caminhar.
Durante o resto da viagem, o grupo permaneceu calado, exceto por Amy e Matt. Os dois amigos ainda pareciam ter muito o que conversar, desde histórias sobre o passado até seus objetivos e planos futuros. Sam continuava presa em seus próprios pensamentos alegres e, a cada minuto que se passava, sua vontade de rever o cachorro de pelos brancos tornava-se maior. Ela tentou interagir com Caroline algumas vezes, mas acabou desistindo após perceber que a jovem de cabelos negros estava distante.
A verdade era que, devido à sua crescente paranóia, Caroline fora impedida de descansar após o longo trajeto que haviam percorrido e estava completamente exausta. Havia olheiras abaixo de seus olhos azul-marinho — que haviam escurecido para um tom quase negro — e a jovem mal era capaz de caminhar sem tropeçar ou cambalear.
Felizmente, não tiveram de caminhar por mais de duas horas até que chegassem a uma pequena trilha de terra que se destacava por entre a grama, indicando que aquela área recebia visitantes com mais frequência do que o resto da rota abandonada. Não muito longe, encontrava-se o definitivo fim da vegetação que cedia espaço para um declive de relevo, com uma estrada de descida cimentada.
Sobre os últimos centímetros quadrados de grama verde fresca, o grupo parou para observar a cidade que se encontrava logo à frente. Nacrene aparentava ser sutilmente menos movimentada do que Striaton, o que significava certo alívio para as jovens. Havia automóveis simples cruzando as ruas da área urbana, que era constituída por casas e prédios, em sua maioria de pequeno porte. Se comparada a outras cidades, podia até mesmo ser considerada pequena, embora ainda fosse cerca de três vezes maior do que Nuvema.
— Podemos ir logo? — a voz grave e rouca da menina de cabelos negros soou, evidenciando seu cansaço. Caroline apenas conseguia pensar em estabelecer-se em um hotel para aproveitar a noite de sono que merecia e da qual fora privada por cerca de uma semana.
A atenção do grupo se voltou para a garota exausta e todos logo concordaram. Não hesitaram ao descer calmamente a rampa que os levaria direto ao portão que saudava visitantes da cidade: um letreiro de madeira cravado com as palavras “Bem vindo à Nacrene”. Aquele era mais um detalhe que diferenciava a cidadezinha dos outros centros urbanos que haviam visitado; ela parecia muito mais convidativa.
À medida que caminhavam por entre as ruas da cidade, suas peculiares características tornavam-se mais notáveis. Não era uma mera massa cinzenta de poluição, tão amontoada de edifícios e construções mórbidas que seria capaz de estressar qualquer um apenas pelo ambiente preto e branco. Pelo contrário, apresentava uma perfeita harmonia entre natureza e urbanização, mostrando-se equilibradamente desenvolvida. A concentração de prédios era menor e entre as ruas asfaltadas percorriam longos corredores de gramados verdes e flores multicoloridas, além de algumas árvores bem podadas de pequeno porte. Até mesmo o céu aparentava ter um tom azul mais vívido e limpo, mesclado por finas e delicadas nuvens brancas que tendiam a ganhar uma coloração dourada devido aos raios do sol.
E, embora environmental friendly, não deixava de irradiar sua capacidade tecnológica. As construções eram, em sua maioria, constituídas por um material espelhado ou vidro, alguns destes de tom verde claro, combinando perfeitamente com a natureza abrigada pela cidade. Moinhos brancos, especialmente preparados para transformar correntes de vento em energia eólica, estendiam-se estrategicamente pelos pontos de menor concentração de prédios. Muitos dos edifícios também possuíam placas solares em seu topo.
— Essa cidade é incrível. — Amy foi a primeira a comentar algo. Seus olhos verdes brilhavam, refletindo a cidade.
— Eu sei. Nunca me canso daqui. — concordou Matt.
Caroline e Sam pareciam ocupadas demais admirando cada inovação de Nacrene para ao menos dedicar sua atenção aos comentários dos outros dois. A jovem de cabelos negros parecia deixar parte de seu cansaço e preocupação esvair-se, pensando em como sentia-se mais confortável naquele local do que em Striaton. Talvez por ter crescido rodeada por natureza em uma fazenda, passar muito tempo entre prédios e ruas tumultuadas a deixava enjoada.
— Vou mostrar a cidade toda para vocês. — exclamou o ruivo, dirigindo-se também às outras duas jovens atrás de si. — Há lugares incríveis aqui e, claro, levarei vocês também ao local onde eu gosto de treinar e… — o rapaz parecia animado, mas foi interrompido por Caroline antes que pudesse continuar.
— Podemos ficar um pouco no hotel antes, por favor? — pediu a menina, um tanto quanto mal-humorada.
— Ah, bem… Certo. — ao notar o cansaço da menina, Matthew acabou por concordar, dando de ombros e continuando pelo caminho que os levaria ao hotel.
Sam e Amy ficaram um pouco desapontadas ao saber que não poderiam explorar aquela magnífica cidade no momento. No entanto, compreendiam a exaustão da amiga e respeitavam-na. Assim, contentaram-se em esperar um pouco antes de finalmente poder desbravar as ruas de Nacrene.
A paz da tranquila cidade, entretanto, não reinou por muito tempo. Ao caminhar por uma das calçadas em busca da hospedagem citada por Matthew, o grupo se deparou com um vulto quadrúpede de pelos roxos cruzando apressadamente as ruas. Antes que o grupo pudesse compreender o que ocorria, quatro viaturas vermelhas e brancas — nas laterais das quais podia-se ler “Pkm. Control — Nacrene” — cercaram a ágil criatura que, incapaz de escapar, encolheu-se amedrontada.
Não demorou muito para que a multidão de curiosos cercasse o palco do conflito, murmurando e discutindo algumas teorias sobre o que ocorria. Quatro homens vestidos com uniformes vermelhos retiraram-se de seus veículos. Um deles carregava uma rede, outro apressava-se em retirar uma grande gaiola de barras reforçadas da traseira de uma picape, enquanto os outros dois portavam armas. Ao identificar os objetos nas mãos das autoridades, Caroline recuou alguns passos, assustada — apenas não correu por sentir-se presa entre as pessoas ao seu redor. Porém, logo percebeu que os rifles empunhados pelos homens não eram como aquelas responsáveis por centenas de mortes durante o Contest: possuíam dardos tranquilizantes. Não hesitaram ao disparar contra a criatura aflita.
Quando o pokémon finalmente acalmou-se, os outros dois homens rapidamente colocaram-no dentro da gaiola de metal. Agora sendo possível observar com mais nitidez, notava tratar-se de um felino. A maior parte de seus longos pelos apresentava uma coloração roxa, exceto por seu peito, patas e maxilar inferior, que possuíam um tom creme. Marcas em formato de diamante estavam salpicadas por todo o seu corpo, sendo da mesma coloração roxo-escuro de suas pontudas orelhas triangulares. O medo e apreensão estavam evidentes em seus olhos dourados, embora ele não tentasse escapar de sua prisão — provavelmente por saber que seria inútil.
— Tudo sobre controle. — informou um dos policiais através de um walkie talkie, abaixando sua arma. — Estaremos levando o monstro para ser abatido. — com essas palavras finais, guardou o rádio em um bolso de seu cinto, aproximando-se dos outros três homens para ajudá-los a colocar o leopardo na caçamba da picape.
Uma pontada de tristeza e dó atingiu as três jovens ao ouvir as palavras do oficial. Naquele momento, era possível afirmar que todas tinham um desejo comum: libertar o inocente felino aflito e poupar-lhe de sua morte injusta. No entanto, poderiam apenas assistir à cena, sem nada fazer. Sam parecia já haver se acostumado com tais mortes, de modo que testemunhar uma situação como aquela a deixava melancólica, mas reagia melhor que as outras duas amigas. Amy parecia controlar-se para não chorar, seus olhos já ficando vermelhos e marejados. Já Caroline tinha seus olhos fixos na criatura, um misto de raiva e medo em seu semblante.
A multidão começava a dissipar-se, percebendo que a situação já havia sido resolvida e não havia nada mais para se fazer naquele local. No entanto, perceberam estar enganados quando uma mulher correu apressadamente até o círculo formado pelas viaturas estacionadas, dirigindo-se até a gaiola. Alguns olhares e suspiros surpresos se sucederam enquanto os moradores de Nacrene pareciam reconhecer a mulher, que possuía uma postura séria e profissional. Seus cabelos negros estavam presos em um coque alto e seus lábios pintados de um tom de vermelho sangue, o mesmo que coloria suas unhas. Vestia uma saia negra que cobria seus joelhos e um casaco de botões de mesma cor, por cima de um suéter bege de gola alta.
— Senhora Arrington. — um dos oficiais rapidamente tornou sua atenção para a recém chegada, cumprimentando-a com um gesto de cabeça; ele a respeitava.
A mulher nada respondeu, nem ao menos desviou seu olhar para fitar o homem que lhe dirigira a palavra. Ela mantinha toda sua atenção no leopardo encolhido em sua prisão, examinando-o com os olhos e demonstrando imenso interesse pela criatura, que parecia temê-la.
— É um belo espécime que vocês têm aqui. — a peculiar mulher rodava o pokémon engaiolado. — Eu o quero. — anunciou, virando-se para o homem que a saudara. — Empalhá-lo-ei para colocar à mostra em meu museu. Isto é, se os senhores autorizarem. — estufou peito, cruzando as mãos por trás do corpo.
— Quem é ela? — perguntou Amy fitando o ruivo, que sorria para a mulher como se a conhecesse.
— Margareth Arrington. — revelou Matthew, passando as mãos por seus cabelos embaraçados. — É a dona do grande Museu de Nacrene, o mais famoso de toda Unova. — após dizer tais palavras, aproximou sua boca do ouvido da amiga, sussurrando: — Ela é a Líder de Ginásio de Nacrene.
A menina de cabelos castanhos arregalou os olhos, surpresa com a descoberta. Por outro lado, sentia-se aliviada; se aquela era a líder de ginásio, ela deveria proteger os pokémons. Ou seja, o indefeso felino não estava condenado.
— C-Claro, senhora Arrington. — o oficial assentiu para a mulher prontamente, gesticulando para que os outros homens colocassem o leopardo no veículo novamente, ordenando que deixassem-no na porta do Museu de Nacrene.
— Obrigada. — Margareth sorriu, satisfeita. — Tenham um bom dia. — com aquela frase final, desapareceu novamente entre a multidão.
Os presentes pareciam já esquecer-se do ocorrido, retornando à suas atividades normais enquanto as autoridades organizavam o trânsito. Em uma questão de segundos, tudo já estava sob o controle, como se nada houvesse acontecido. Uma vez sozinhos novamente, Matthew pôde explicar às outras jovens sobre a mulher.
— Creio que estejam ansiosas para enfrentá-la. — sugeriu o ruivo, liderando o trio de garotas. — Quanto mais rápido chegarmos ao hotel, mais rápido poderão fazê-lo.
— Mas nós nem ao menos nos preparamos ainda! — protestou Sam, cuidando para não se exaltar demais.
— É por isso que as levarei até o melhor local de treinamento que vocês poderiam ter. — Matthew virou-se para fitar a jovem, abrindo um sorriso.
Mais algumas ruas foram atravessadas pelo grupo até que finalmente se encontrassem à frente do hotel recomendado por Matthew. O prédio não era tão alto, apresentando cerca de oito andares apenas, a altura média das construções da cidade. Seu exterior possuía um belo design, majoritariamente de vidro esverdeado e em seu topo havia uma espécie de estufa, onde eram cultivadas plantas e flores variadas. Talvez isso explicasse o fato de o hotel se intitular “Greenhouse”.
As três jovens e o rapaz não perderam muito tempo admirando a fachada do prédio, logo passando pela porta giratória. Seguiram por um tapete de tom verde claro, disposto sobre o chão de mármore branco, que os guiava até a recepção. Amy, Caroline e Sam apanharam suas chaves e preencheram os papéis que lhes haviam sido entregues. Matt, porém, disse que não se hospedaria, uma vez que já tinha abrigo.
— Creio que vocês precisem de um pouco de descanso. — sugeriu o ruivo, dirigindo-se às três mas fitando apenas Caroline, como se sua frase fosse uma indireta. — Encontro com vocês aqui, na recepção, às seis em ponto. — ele lançou um último sorriso antes de dar as costas e desaparecer.
Em seguida, as garotas foram até o majestoso elevador do estabelecimento. Daquela vez, as três acabaram por ficar em andares diferentes, devido à pouca quantidade de quartos vagos no hotel. Amy ficou com o quarto 203, no segundo andar, e Sam com o 506, no quinto. Caroline estava no último andar e, portanto, foi a última a descer do elevador.
A garota de cabelos negros caminhou pelo único corredor do andar até deparar-se com a porta branca que procurava, na qual estava estampado o número 807, em prateado. Não hesitou ao colocar o cartão que segurava no leitor, que emitiu um som agudo e uma fraca luz verde antes de destrancar a porta.
O quarto era bem luxuoso; não era tão grande quanto o do hotel no qual se hospedara em Striaton, mas tão confortável quanto. A suíte de paredes verde-claro era decorada com vasos de plantas de tamanhos e formas diferentes, todos de vidro, contendo flores das cores mais variadas. De frente para a cama de casal, forrada por lençóis brancos com estampa de vinhas verde-menta, havia uma bancada de vidro, sob a qual jazia uma televisão de trinta e duas polegadas. A parede que constituía a extremidade do quarto era inteiramente feita de vidro, sendo responsável por iluminar o local e demonstrar uma bela vista de Nacrene. Caroline rapidamente dirigiu-se até a mesma, fechando as cortinas para que tivesse maior privacidade e segurança.
A jovem deitou-se na cama e fechou seus olhos por breves segundos, deixando que a fadiga se fizesse ainda mais presente. Respirou fundo, tentando afugentar todos os pensamentos ruins que percorriam sua mente. Ela não tinha vontade alguma de acompanhar Matthew e suas outras amigas até o local de treinamento; queria apenas permanecer ali deitada, esperando acordar somente quando aquela confusão toda tivesse fim. Mas, como ocorria sempre que pensava em desistir, lembrava-se dos rostos alegres de seus pokémons durante combates e treinos e como aquilo parecia saudável para eles. Ela estava em um dilema, sobre o qual não mais queria pensar.
Dentro de poucos minutos, a garota se rendeu ao cansaço e adormeceu. Desejou não ter nenhum pesadelo até que a inevitável hora de acordar chegasse, para que pudesse ao menos descansar por algumas horas. E, felizmente, ela conseguiu.
***
Altos pilares rochosos forneciam sustento ao teto de pedra, do qual pendiam diversas estalactites longas e pontiagudas, que causariam um estrago considerável caso viessem a cair. Apareciam, crescendo através do solo, reluzentes cristais de formas, cores e tamanhos diferenciados, mostrando-se também presentes nas paredes. A única iluminação que o local possuía era fornecida por uma claraboia, que permitia que os últimos raios dourados do dia atravessassem. Estes eram refletidos pelas formações cristalinas, de modo a iluminar igualmente cada área da caverna subterrânea. O local era frio e úmido, mas sua beleza o tornava agradável. O silêncio do subsolo era quase completo, exceto pelo som dos passos e da respiração das jovens, que eram amplificados pelo eco.
— Nossa, Matt! Esse lugar é… — a menina de cabelos castanhos sorria enquanto observava a grandiosidade indescritível do local. Após alguns segundos vasculhando sua mente por uma palavra que fosse capaz de caracterizar com honra a caverna, acabou por desistir.
— Não há palavras para descrevê-lo, não é? — o ruivo riu, passando as mãos por seus fios avermelhados. — Foi assim que me senti na primeira vez que vim aqui.
— Como você descobriu esse lugar? — indagou Sam, igualmente atônita e maravilhada.
— Eu e Zack acabamos chegando até aqui sem querer enquanto fugíamos de agentes do governo que nos perseguiam. — informou o jovem, trocando olhares com o enorme lobo negro ao seu lado. — Durante os dias que passamos aqui, tivemos de trabalhar juntos para sobreviver e formamos uma grande dupla.
— De fato. — concordou o Zoroark, abrindo um leve sorriso.
— E quanto a… — Caroline iniciou, mas foi interrompida por Matthew.
— Segurança? — o garoto completou, como se já soubesse das dúvidas da menina. Estava seu medo tão evidente? — Não se preocupe, ninguém jamais achou esse local. Passei um bom tempo aqui e retornei muitas vezes, sem ser descoberto. — afirmou, tranquilizando a jovem antes de mudar de assunto. — Bem, não irei atrapalhar o treino de vocês. Além disso, tenho uns assuntos a resolver. — disse, trocando olhares com o lobo. — Nos vemos depois. Ah e, caso tenham um tempo, visitem o Mercado Negro daqui. É um lugar bem interessante. — sorriu.
Assim, o jovem despediu-se, abraçando Amy uma última vez antes de retraçar o caminho que tomara para chegar à caverna subterrânea. Novamente sozinho, o trio resolveu libertar seus pokémons para dar início ao treino.
Sam teve de explicar aos outros dois integrantes de seu time sobre a mais nova adição, Louis, que foi recebido com muita hospitalidade. O cachorro de pelos brancos ainda estava um pouco inseguro quanto a seguir jornada com a garota que mal conhecera, mas todas as suas preocupações se esvaíram quando ele se deparou com Augustus.
O gato e o cão passaram certo tempo conversando, à certa distância da área utilizada para os treinos, já que suas treinadoras os haviam liberado. Sam havia decidido não forçar demais o poodle em seus primeiros dias juntos, optando por treinar algumas técnicas novas com Omen e Kahira. Caroline, por outro lado, tinha nula vontade de treinar com seus companheiros. Dessa forma, Leroy e Firestarter tiveram a ideia de travar uma batalha amistosa para passar o tempo e treinar sua força, enquanto Louis e Augustus observavam o grupo e trocavam palavras.
O local era amplo o suficiente para que cada uma das jovens possuísse sua própria área de treino, de modo a não ficarem próximas demais umas das outras para evitar acidentes. A garota de cabelos negros encontrava-se sentada em uma rocha mais ao fundo, vez ou outra repreendendo o cavalo de crinas flamejantes por estar esforçando-se demais. O Ponyta shiny por vezes resmungava, mas acabava parando para descansar por um momento antes de voltar a confrontar a lontra caramelo.
Mais próximos do centro, Sam comandava algumas ordens a seus dois pokémons, usando como alvo os cristais que saiam do solo da caverna. Kahira treinava a potência e distância de seu Ember, enquanto Omen tentava manter sua invisibilidade enquanto lançava Night Shades, algo que lhe traria enorme vantagem.
Em uma das extremidades do local, Amy dava continuidade aos treinos de escrita com Iki, enquanto Kairi praticava uma sequência de chutes e socos contra uma das estalactites. O Totodile estava evoluindo muito bem com suas habilidades de escrita, já tendo memorizado inúmeras palavras e conseguindo até mesmo formar algumas frases, mesmo que sem conjugar propriamente verbos.
— Bom Iki, pensei que hoje podíamos começar com algumas palavras relacionadas ao que estamos fazendo: treinar. O que você acha? — a menina sorriu, esperando o jacarezinho assentir para continuar: — Vamos tentar escrever “treinador”, “batalhar”, “vencer” e “perder. — sugeriu, apoiando o bloco de notas sobre sua mochila no chão, para não sujar as folhas.
Amy escreveu cada uma das palavras, sendo observada cautelosamente por Iki. Em seguida, o Totodile começou a escrevê-las, uma a uma, segurando a caneta com sua pequena pata. Por mais que o jacaré azul não fosse muito rápido, era extremamente dedicado e não desistia até conseguir quebrar todas as barreiras. Aquela atitude deixava a treinadora extremamente orgulhosa, reconhecendo a capacidade do pequeno e desejando que, em breve, ele fosse capaz de se comunicar da forma como gostaria.
Ao terminar, Iki fitou uma última vez a folha de papel, certificando-se de que havia feito tudo corretamente. Então, estendeu o bloquinho de notas para Amy, mostrando-lhe seu trabalho.
— “Hoje treinar muito”... Sim Iki, está certo! Hoje vamos treinar muito. — Amy riu, acariciando o queixo do pokémon enquanto lia as outras frases. — Está tudo perfeito, garoto. Você está aprendendo muito rápido.
Com um sorriso radiante, o Totodile apanhou o bloco e a caneta novamente, escrevendo um “obrigado” para a garota de cabelos castanhos, que sorriu. Esperava que ela entendesse que estava agradecendo por tudo o que Amy havia feito por ele, não somente pelo elogio.
Mais alguns minutos de escrita se passaram antes que a menina convidasse seu Totodile para confrontar Kairi, com o que o pequeno alegremente concordou. Estava gostando muito de aprender a escrever, mas nunca recusava uma oportunidade de aprimorar suas habilidades físicas.
Após pouco mais de uma hora de treino, as jovens decidiram fazer uma pausa para que seus pokémons recuperassem as energias. Já passava das oito horas da noite e a lua havia assumido completamente o lugar do sol no céu, tornando a iluminação na caverna subterrânea um pouco mais fraca. As três sentaram-se ao centro, discutindo sobre seus planos para os próximos dias, como quais dias deveriam trabalhar, qual seria o melhor horário para treinar, entre outras coisas.
Caroline, no entanto, estava mais distante. Seu olhar pairava sobre as duas outras jovens, mas sua mente vagava sem rumo por milhares de outros pensamentos. A garota, ainda tomada por receios e incertezas, não possuía qualquer intenção de continuar sua jornada por muito tempo e cada segundo que passava pensando sobre isso a trazia mais melancolia. Por isso, optava por manter-se parcialmente ausente na conversa.
Terminada a discussão, as três decidiram deixar o local de treinamento e seguir até o Mercado Negro de Nacrene, onde poderiam inscrever-se para batalhar contra a líder de ginásio; quanto mais rápido o fizessem, menos tempo precisariam passas na cidade. Assim, retornaram todos os seus pokémons para que pudessem transportá-los em segurança e começaram a refazer o caminho mostrado por Matthew.
Deixando a área principal — mais ampla e adequada para que realizassem seus treinos -, as jovens seguiram por um caminho terroso que se tornava cada vez mais estreito, o qual tinha cerca de 100 metros de comprimento. Ao fim do pequeno túnel, depararam-se com uma parede de aproximadamente três metros de altura, contra a qual estava apoiada uma escada de madeira. Utilizaram-na para sair do subsolo e, uma vez já na superfície, uniram suas forças para empurrar uma pedra de tamanho considerável sob o buraco que as levara até o centro de treinamento. Aquele esconderijo, como havia sido confirmado por Matthew, era realmente perfeito; nenhum desinformado seria capaz de encontrá-lo por acaso.
As três garotas fizeram seu caminho por entre as árvores, desviando de pedras e raízes em seu percurso. Precisaram de cerca de vinte minutos para retornar ao centro urbano. Àquela hora da noite, a cidade já era iluminada por luzes brancas, que adquiriam um tom esverdeado ao refletir as cores das áreas verdes. Nacrene era, de fato, uma cidade muito agradável, mesmo à noite. Entretanto, a intenção do grupo era manter-se afastado dos centros comerciais, onde havia maior concentração de pessoas.
Após andarem mais um pouco, fugindo de olhares alheios e tentando não chamar muita atenção, as três finalmente encontravam-se em uma área onde a urbanização era bem menos presente. As estradas não eram asfaltadas, não havia prédios ou casas e a iluminação era parcialmente ausente. À sua frente, estendia-se uma peculiar construção, diferente de qualquer outra que houvessem visto. Era completamente feita de vidro — ou outro material transparente -, possuindo um formato esférico e abrigando diversas plantas que, a julgar por seus aspectos e cores exóticas, não deveriam crescer naturalmente na região. Era no subsolo daquela estufa que se encontrava o famoso Mercado Negro de Nacrene, sobre o qual Matt tanto lhes falara.
— E como entramos? — sussurrou Sam, preocupando-se em não ser ouvida mesmo que não houvesse qualquer alma viva por perto.
— Matt disse que só precisamos colocar a chave eletrônica no leitor e a porta se abrirá. — explicou Amy, retirando de sua mochila um cartão que lhe fora entregue pelo ruivo.
— Funcionou. — sorriu a jovem de cabelos brancos ao ouvir o beep emitido pelo leitor da porta que começava a se abrir.
Virando-se para trás mais uma vez, apenas para ter certeza de que ninguém as observava, as garotas adentraram o local apressadamente. Com certa dificuldade, esgueiraram-se entre a flora do interior da estufa, buscando uma espécie de armazém onde, supostamente, eram guardadas as ferramentas necessárias para o trabalho diário no local. Não tiveram problemas para achar a pequena construção de madeira, localizada bem ao centro. A casinha era completamente coberta pela vegetação, tornando impossível que qualquer um do lado de fora as enxergasse.
Para abrir a porta do armazém, tiveram de utilizar novamente o cartão eletrônico, que rapidamente lhes permitiu entrar. Seu interior era bem rústico, possuindo algumas pás e ancinhos pendurados em paredes e baldes e regadores sobre o chão. No entanto, o que realmente interessava as jovens era o alçapão de madeira, escondido por um tapete retangular listrado. Ao levantar a tampa, depararam-se com uma escadaria, pela qual desceram até encontrar uma única porta de metal. Ao lado da mesma, havia a familiar cápsula esférica, onde Amy apoiou uma de suas pokébolas. Após escanear o dispositivo, a porta enfim começou a se abrir.
O mundo por trás da mesma era, entretanto, muito diferente daquele com o qual estavam acostumadas.
O chão era inteiramente de mármore branco e as paredes eram feitas de gesso e pintadas de um tom de verde com estampas florais douradas. Não era como os outros mercados que já haviam visitado, muito mais rústicos e simples, sem maiores acabamentos e majoritariamente esculpidos no próprio solo e paredes rochosas. As instalações de vendedores desse luxuoso estabelecimento apresentavam-se também diferentes, sendo fixas e de vidro, não de madeira e panos. Outra peculiaridade era o menor número de pessoas, talvez decorrente da pouca divulgação, por segurança. Era consideravelmente menor do que o Mercado Negro de Striaton, mas ainda possuía espaço suficiente — e de sobra — para abrigar os cerca de sessenta visitantes da área e seus monstrinhos.
— Nossa… — suspirou Sam maravilhada, mais como um pensamento alto.
— É… Muito diferente do que já vimos antes. — afirmou Sam, esboçando um sorriso. Logo voltou sua atenção para as pokébolas em sua mochila, as quais apanhou rapidamente. — Kairi, Iki! Vocês precisam ver isso. — exclamou, libertando ambos os monstrinhos de bolso.
— Vocês também! — disse a garota de cabelos brancos, liberando seus três companheiros.
Caroline foi a última a apanhar os dispositivos esféricos que possuía, apertando seus botões centrais sem pressa. Ao serem libertas, as criaturinhas olharam ao redor, encantadas; jamais haviam colocado os pés em um lugar tão luxuoso quanto aquele.
— O que é esse lugar? — indagou Leroy, com um brilho em seus olhos negros.
— O Mercado Negro de Nacrene. — informou a jovem de cabelos negros, sorrindo para a lontrinha. Em seguida, virou sua atenção para as duas amigas. — Quanto tempo acham que devemos ficar aqui?
— Apenas o suficiente para comprar o que precisamos… Creio que não mais de uma hora. — respondeu Sam, dando de ombros.
— Sam! — a Salandit chamou animada, puxando o braço da treinadora enquanto apontava para o local que mais lhe interessava no novo ambiente. — O campo de batalhas está vazio!
— Será que você pensa em alguma outra coisa além de lutas? — a Riolu revirou os olhos, desaprovando o comportamento da meio-irmã.
— Você só não faz o mesmo por que não é tão boa quanto eu. — provocou a Salandit, arrastando a treinadora para o campo.
— Como?! Você nunca conseguiria me derro… Kahira? — a chacal começou a rosnar mas, ao observar a reptiliana ao longe, intimando outros pokémons a confrontarem-na, levou sua mão ao rosto em um “facepalm”.
— Err… Acho que vou comprar alguns mantimentos. — informou Caroline, observando a estranha cena.
— É, eu vou com você. — concordou Amy.
Sam já estava no campo, em frente a outro treinador. Seu Shuppet estava com ela, mas o Furfrou pareceu estar distraído demais em uma conversa com Augustus para notar o sumiço da garota. Amy deixou que Kairi fosse assistir a luta, junto ao Buizel da outra menina, mas Iki preferiu acompanhar a treinadora. Caroline suspirou, chamando seu Meowth e Ponyta para que fossem até a barraca onde eram vendidos medicamentos especiais.
— Eu gostaria de seis poções, por favor. — pediu a jovem de cabelos negros à amigável vendedora ruiva.
— Eu quero quatro. — pediu Amy, logo em seguida.
Após colocar o dinheiro sobre a mesa, a garota de cabelos negros precisou conter sua preocupação ao notar que não lhe restava muito. E, diferente de Sam e Amy, não possuía qualquer talento do qual pudesse usufruir para receber certo salário. Teria de pensar em algo logo.
— Care. — a voz suave do Ponyta de chamas azuladas soou, chamando a atenção da garota. — Olha só.
O cavalo estava próximo a uma parede onde havia diversos cartazes. Estava em frente a um de cerca de um metro, no qual estavam estampados um Ponyta e um treinador, que atravessavam uma faixa dourada. Era um anúncio sobre uma corrida que ocorreria na cidade. Interessada, Caroline guardou os frascos medicinais em sua mochila, aproximando-se de Firestarter para que pudesse ler as informações junto a ele.
— É hoje à noite. — observou a jovem, identificando a data e o horário dispostos no rodapé do cartaz.
— Talvez ainda possamos nos inscrever. — exclamou o Ponyta, deixando um sorriso animado iluminar seu rosto. — Care, se nós vencermos, conseguiremos dinheiro suficiente e…
— Não, Fire. — a menina o interrompeu imediatamente, fitando-o com um olhar sério. — Lakota disse que você não deveria se esforçar, e nós dois sabemos como as corridas são exaustivas. — explicou.
— Mas, Care, eu já estou bem… — novamente o cavalo começou, sendo rapidamente cortado pela treinadora.
— Eu disse que não. — repetiu firmemente, fazendo o Ponyta bufar em irritação. — Agora, vamos. Preciso comprar mais comida para vocês também.
Decepcionado, o cavalo acabou por seguir a menina. Augustus e Louis, porém, permaneceram em frente ao grande pôster, fitando-o por mais algum tempo.
— Caroline precisa das corridas para ganhar dinheiro. — o gatinho esclareceu, observando o amigo canino com certa tristeza em seu olhar. — Como Fire ainda não se recuperou completamente, ele não pode correr. E, consequentemente, ela não pode ganhar dinheiro. — encarou o chão, melancólico.
— Bem, talvez você possa ajudá-la a conseguir mais. — sugeriu o Furfrou, sentando-se ao lado do pequeno Meowth que agora possuía uma expressão confusa. — Você costumava roubar para sobreviver, não?
— Você acha que eu devo roubar para ajudá-la? — indagou Augustus, ainda um pouco incerto. — Mas Caroline disse que eu nunca mais deveria fazer isso, que é errado. — encolheu-se, como se repreendesse a si mesmo por seus atos passados.
— Às vezes, o certo é fazer a coisa errada. — Louis deu de ombro.
O Meowth permaneceu pensativo por mais alguns segundos, como se analisasse a ideia do amigo. Certamente seria capaz de furtar algumas notas para que sua treinadora obtivesse o suficiente para sobreviver até que pudesse correr com Fire. Talvez Louis estivesse certo e roubar fosse mesmo a melhor opção que possuía no momento. Augustus assentiu e agradeceu, levantando-se para seguir Caroline.
— Ah, uma parede de anúncios! — Amy surgiu após pagar pelas poções que comprara, olhando para o local que o gato e o cachorro deixavam. — É um bom lugar para eu oferecer minhas fotografias.
Colocando seu Totodile no chão por um momento, a garota de cabelos castanhos retirou o bloco de notas de sua mochila, arrancando uma das folhas e anotando nela seu número, detalhando um pouco sobre o serviço que oferecia. Havia acabado de pendurar o anúncio entre diversos outros, quando sentiu o jacarezinho puxar a barra de seu vestido freneticamente.
— O que foi, Iki? — ela se virou para o pokémon, que apontava para um panfleto em especial. Nele havia a foto de um rapaz que aparentava ter a sua idade, possuindo cabelos negros bagunçados e um sorriso radiante. Abaixo da imagem podia-se ler “desaparecido” e algumas informações para contato. — É bem triste mesmo… — Amy disse por fim, sendo dominada por certa melancolia.
Entretanto, o Totodile não pareceu satisfeito com a reação da garota. Ele tentava fazer gestos, como sempre tentava quando sentia a necessidade de se comunicar, embora de uma forma um pouco mais desesperada. Ao ver que uma lágrima começava a escorrer pela face do pokémon, Amy assustou-se.
— Você quer tentar escrever, Iki? — a garota perguntou, abaixando-se para ficar na altura do jacaré e entregando-lhe o bloco e a caneta, os quais ele apanhou ferozmente.
Por alguns segundos o Totodile tentou escrever, levando um pouco mais de tempo do que o normal por suas mãos estarem trêmulas. Ao acabar, mostrou o papel para a garota, fitando-a com seus olhos cinza marejados.
— “Treinador”... — Amy leu em voz alta, tornando sua atenção para o jacaré que apontava para si mesmo. — Espera, esse garoto desaparecido era seu treinador? — murmurou, em choque, observando o pequeno assentir.
Saber que seu pokémon tinha outro treinador foi de certa forma surpreendente. Entretanto, aquilo explicaria o motivo pelo qual ele conhecia golpes como Blizzard e Protect, os quais sua espécie apenas aprendia por TM de acordo com a pokédex. Então, a garota finalmente lembrou-se de que o garoto estava sendo reportado como perdido e, em um ato de choque, levou as mãos à boca.
— Iki, você se perdeu dele? — a menina indagou. — Nós podemos tentar encontrá-lo!
O Totodile fitou a nova treinadora por mais alguns segundos, deixando que duas outras lágrimas escorressem por seu rosto. Em seguida, ele fez um sinal de negação com a cabeça e começou a escrever em seu bloquinho novamente.
— “Ferido”... — Amy leu a palavra escrita pelo jacaré. — Ele está ferido em algum lugar?
Com aquelas palavras, o pokémon desabou em prantos. Foi naquele momento que Amy percebeu, horrorizada, o que Iki estava tentando dizer através de seu curto vocabulário: o garoto não estava ferido.
Estava morto.
Desatando a chorar junto ao Totodile, a garota de cabelos castanhos abraçou-o o mais forte que conseguia. A história que o pequeno tentara lhe contar com poucas palavras era extremamente trágica e ela só queria confortá-lo da melhor forma que pudesse. Entretanto, não pôde evitar que uma profunda tristeza a invadisse no processo. Era horrível imaginar que o antigo companheiro de Iki houvesse falecido e, ao que tudo indicava, o jacaré estava presente no momento.
— Q-quem fez isso, Iki? — a garota perguntou com a voz trêmula. — V-você s-sabe? — soluçou.
Enxugando as lágrimas por um momento, o Totodile apanhou novamente o bloco de notas, escrevendo somente a palavra “pokémon”. Em seguida, apontou para sua garganta, onde estava uma enorme cicatriz.
— Eles também te atacaram… — a garota constatou, sem cessar o choro. — Está tudo bem, garoto. — ela pegou o pokémon no colo, tentando esboçar um sorriso. — Eu estou com você agora. Você me protegeu e eu vou te proteger. Não vou deixar que nada aconteça a nós dois.
Assentindo, o Totodile retribuiu o abraço da treinadora e afundou o rosto em sua barriga, tentando livrar-se das lágrimas. Apesar de tudo que sofrera, Iki era grato por ter encontrado uma nova treinadora que cuidaria dele. E, dessa vez, ele não deixaria que a situação se repetisse. Ele iria treinar muito e ficar forte, para ser capaz de proteger todos que ama.
Os dois permaneceram abraçados no chão por mais algum tempo, esperando que todas as memórias e pensamentos ruins fossem levados pelas lágrimas e substituídos por esperança.
***
— Quem é o próximo?! — a Salandit gargalhava, beirando a loucura.
Após sua primeira batalha, seu corpo já apresentava alguns cortes rasos e hematomas. Algumas gotas de sangue escorriam de seu nariz, devido a um soco direto desferido pelo Buneary que acabara de enfrentar. No entanto, aqueles ferimentos frívolos não significavam nada para alguém que havia conquistado a vitória.
— Kahira, acho que é melhor pararmos… — Sam sussurrou, incomodada com os olhares alheios que fitavam sua pokémon como se fosse maluca. Faltavam poucos segundos para a garota começar a concordar com eles.
— Parar por que? A noite está apenas começando! — ela riu novamente.
— Ela finalmente enlouqueceu. — a Riolu cobria o rosto com as mãos, observando a irmã ser arrastada para fora do campo por uma Sam encabulada.
— Deve ser genética, né? — sugeriu o Buizel ao seu lado.
Kairi precisou de alguns segundos para que conseguisse entender o que Leroy havia dito. E o comentário não a agradou nem um pouco. Sem nada dizer, a Riolu apenas desferiu um soco contra a lontra, arremessando-o alguns metros ao ar.
— Leroy, o que você fez dessa vez? — exclamou uma Caroline desapontada, fitando o Buizel ao chão.
A garota de cabelos negros havia acabado de sair da barraca onde comprara alguns pacotes de ração, além de outros tipos de alimento. Percebeu que o combate de Sam já havia acabado, notando a amiga cuidando dos ferimentos da sua Salandit ao lado do campo. Esperava que o próximo confronto não fosse entre Kairi e Leroy.
— Eu não fiz nada, ué. — o Buizel fingiu inocência, tocando o queixo no local onde a chacal o atingira.
— Estávamos apenas tendo uma discussão racional. — a Riolu deu de ombros, dirigindo-se à garota de cabelos negros. — Onde está Amy? — indagou, notando a ausência da treinadora.
— Ela estava comprando algumas coisas comigo, mas não a vejo desde que saí da barraca de poções. — Caroline observou, percebendo que a garota não estava ao redor.
— Se você já estiver pronta, podemos procurá-la para ir embora. — sugeriu Sam, aproximando-se do grupo após finalmente conter a competitividade de sua pokémon.
No entanto, quando estavam prontas para começar sua busca, depararam-se com a amiga à sua frente. Ela não estava do mesmo jeito de antes, no entanto; seu vestido estava amarrotado e seu rosto vermelho, especialmente seus olhos, assim como os do Totodile em seu colo.
— O que houve, Amy? — perguntou Sam, preocupada.
— Está tudo bem agora. — respondeu simplesmente a garota de cabelos castanhos. Ela e Iki já haviam esquecido o assunto e, para a saúde emocional de seu pokémon, ela preferiu não reviver os detalhes contando-os para as amigas.
As outras duas apenas assentiram, compreendendo que, o que quer que houvesse deixado Amy abalada, já havia sido resolvido e não deviam continuar perguntando.
— Vamos, então? — indagou Caroline, recebendo respostas afirmativas das outras.
Após retornar seus pokémons, o trio voltou a esgueirar-se pela noite até que chegassem ao hotel.
***
— Boa noite, gente. — murmurou a jovem de cabelos negros, sonolenta, cobrindo-se com os quentes lençóis verdes da cama de casal.
As luzes estavam apagadas no quarto de Caroline, as cortinas da ampla janela devidamente fechadas e a porta trancada. Sob o carpete verde listrado descansava serenamente o cavalo branco de crina azul flamejante; desde o incidente no Contest, passara a dedicar-se mais a suas noites de sono, aproveitando-as para recuperar sua energia perdida durante o dia. Leroy acomodava-se aos pés da treinadora, na borda da cama, enrolado em seu próprio corpo para se manter aquecido. Já o Meowth preferia dormir próximo à garota, pela qual começava a criar grande apego.
Naquela noite, porém, ele não dormia. Apenas aguardava.
Exausta, Caroline não demorou a cair no sono. Sua respiração pesada tornava-se mais leve e seus batimentos cardíacos mais lentos, enquanto seu corpo se entregava ao cansaço. Ao perceber que a garota havia adormecido, o gatinho levantou-se, saltando da cama e movimentando-se pela suíte sem fazer qualquer tipo de barulho — aprendera a ser sorrateiro nas noites que passara com o grupo de ladrões que o abrigava. Dirigiu-se até o banheiro, esgueirando-se por um duto de ventilação cujo a proteção havia sido quebrada. Movimentou-se silenciosamente pelos tubos, que o levaram ao lado de fora do quarto.
Uma vez nos corredores pouco iluminados do hotel, o gatinho identificou sua saída mais próxima, dirigindo-se até esta sem hesitar. A sensação de voltar a fazer aquilo que tanto amava era maravilhosa; relembrava-se dos velhos tempos, antes de separar-se dos amigos que haviam lhe ensinado a sobreviver. E, com aquele pensamento em mente, uma nova música ecoou pela cabeça de Augustus, que involuntariamente começou a cantarolar.
— Na na na na na na na, — iniciou, baixinho para não atrair atenção. — All dressed up for a hit and run.
Naquela noite, ele voltava à ativa.
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