Heaven
6 V
O som das patas se chocando contra o chão fez minha pulsação se acelerar. A vampira ruiva correu em direção à casa, alertando Emmett e Carlisle.
Virei-me em direção à floresta, tentando identificar se a matilha inteira viera para o ataque.
— Acredito que não. — Edythe surgiu novamente ao meu lado, seguida por uma vampira baixinha de cabelos pretos espetados em várias direções. — Eu consigo ouvi-los, mas suas mentes estão caóticas demais para que eu compreenda.
Deixei escapar um suspiro de alívio — Sam não trouxera a matilha para lutar ainda.
— Eu não consigo ver nada, Edy. — a baixinha, que permanecera em silêncio até então, puxou a ruiva pela barra da camisa.
— Ver? — pisquei.
— Alice é uma vidente... Droga, isso não importa agora. Ouça. — ela indicou a floresta — Estão diminuindo.
— Devem estar bem perto do riacho agora. Eu vou até lá.
Uma mão pálida prendeu-me no lugar.
O choque térmico era de enlouquecer. No primeiro segundo, a minha pele pareceu borbulhar, ou ferver, quase como se fosse chumbo entrando em combustão. Em seguida, uma corrente elétrica atravessou o meu corpo — todos os meus ossos tremiam — e eu me libertei de seu aperto, extasiada.
— Pode ser perigoso. — Edythe encarou-me, os olhos brilhando exatamente como a luz do sol que nasci no horizonte.
— Eu vou... Interceptá-los. — tossi, ainda meio tonta depois de tantas sensações.
— Irei com você.
Neguei.
— É melhor que fiquem aqui, caso tudo isso seja só uma distração. Eu irei sozinha.
A ruiva me encarou contrariada, mas a baixinha concordou.
— Ela tem razão, Edythe. É mais prudente que fiquemos de prontidão para defender a casa. — Alice afirmou, encarando-me. Um sorriso de canto pendia em seus lábios, mas havia um vinco de claro incômodo entre suas finas sobrancelhas.
Assenti para ela, que apertou o ombro da ruiva correu em direção à casa — os outros vampiros posicionavam-se, prontos para um combate.
— Cuide-se. — a ruiva se afastou sem esperar uma resposta.
Eu respirei fundo, entrando na floresta e procurei um lugar para distante o suficiente da casa para me despir.
Não fazia ideia de quem era a blusa de mangas escuras com a qual eu havia acordado, mas planejava devolvê-la intacta — ou quase — mesmo sabendo que era bobagem, já que os vampiros pareciam ser algum tipo de família multimilionária.
Embolei a blusa e o meu jeans, enfiando-os em um pequeno vão entre os galhos mais baixos de uma árvore.
Segundos depois, deixei o calor tão familiar subir pela minha coluna, os tremores tomando conta de cada pedaço do meu corpo. Já estava correndo quando mudei de forma, ainda estranhando o silêncio em minha mente.
Soava tão... Solitário.
Afundei as patas na lama, acelerando a corrida. A floresta parecia calma, silenciosa, como em todas as outras noites. Se realmente Sam planejava um ataque e essa era a distração... Eu teria tempo de voltar e avisar aos vampiros?
Voltei a realidade com a percepção de que os lobos pareciam ter parado completamente de se moverem. Eu finquei as patas no chão, desacelerando em dúvida, farejando ao meu redor.
Ainda hesitante, comecei a trotar lentamente evitando me aproximar muito do local onde os lobos deveriam estar parados. Tentei farejar o ambiente novamente, confusa.
Eu reconhecia os cheiros.
Uma súbita animação me dominou. Eu comecei a correr a toda velocidade, sem hesitação agora, ansiosa por finalmente encontrá-los. Cruzei o riacho sem me importar com a água gelada ou com as pedras afiadas que rasgavam minhas patas — estariam curadas em segundos. Eles estavam do outro lado, parados rente às arvores iluminadas pela luz da manhã.
Leah e Embry.
Meus dois irmãos também pareceram animados ao me ver e eu corri em direção à eles, nós três caindo na relva, lambendo-nos como filhotes de cães selvagens. Eu sentia que poderia pular de felicidade, cantar e talvez até dançar sob duas patas — não podia explicar a sensação de reencontrar meus irmãos depois da forma que nos separamos, o modo como os deixei pensando que me odiariam pelas minhas escolhas.
Quando nossa cena espalhafatosa finalmente acabou, eu fiquei sob as u=quatro patas novamente; o silêncio mental ainda nos dominava, o que era estranho depois de passar tantos anos conectados.
Embry e Leah aparentemente ainda se comunicavam, eu era a mente de fora da jogada. O lobo bufou, trotando ao meu redor e grunhindo provavelmente vários xingamentos. Leah apenas revirou os olhos, colocando-se sob as patas traseiras, focinho erguido para o céu, e deixando seu corpo humano vir à tona.
O corpo nu coberto de lama se aproximou de mim, o rosto indecifrável.
— Precisamos conversar.
Enfiei a cabeça pelo buraco da blusa, vestindo-a completamente enquanto saía da floresta. O sol brilhava fracamente através das densas nuvens e refletia-se nas paredes e janelas de vidro da mansão dos vampiros.
Respirei fundo uma última lufada de ar limpo antes de cruzar a entrada da casa. Pra ser bem sincera, o cheiro — ou fedor, chame como quiser — não era mais tão incômodo quanto no início, mas toda essa liberdade para circular por aí ainda me era estranha.
Intimidade e o mal que ela trás...
O bando — família, corrigi mentalmente — estava reunida na sala, todos espalhados em diversos afazeres.
Renée acenou para que eu me juntasse a ela em um dos grandes sofás que deveriam ser bem macios para não machucar a bunda de mármore do seu adorável marido. Segui até lá em passadas lentas, analisando o ambiente que parecia calmo, mas era possível notar uma certa tensão no ar.
A loira boxeadora conversava animadamente com a baixinha vidente, as duas deslizando os dedos na tela de um iPad. O grandalhão e um outro magrelo esquisito estavam sentados na frente de uma TV gigante, jogando o que parecia ser algum jogo da franquia God Of War. Eu pude ouvir a vampira-mãe cantarolar enquanto mexia algo metálico, talvez talheres e pratos, em um outro cômodo da casa.
Carlisle voltou-se para mim assim que eu sentei ao lado de Renée, que deitou-se e jogou as pernas em meu colo. Folgada.
O maravilhoso marido da minha mãe depositou um beijo delicado no cabelo da esposa e afastou-se de nós, desaparecendo entre as paredes da mansão.
— Eram apenas Leah e Embry... Eles apenas, hã, juntaram-se a mim. A nós. — franzi a testa com a última afirmação. — Eles preferem... Ficar lá fora, sabe. — apontei com o polegar sobre o ombro — Por causa do cheiro...
Eu me senti totalmente culpada ao tentar explicar uma coisa tão banal a um vampiro que provavelmente tinha a idade pra ser avô do meu bisavô. Caramba, Swan. Imagine se Paul me visse agora.
O loiro assentiu parecendo pensativo — desviou seu olhar em direção à parede de vidro que ficava atrás do sofá onde estávamos.
— Isso quer dizer que estão conosco agora? — minha mãe questionou.
Conosco. Eu fora incluída na família. Ótimo.
Uma gargalhada preencheu a sala — era Edythe, que eu ainda não havia notado. Estava sentada no chão, no canto mais distante da sala, lendo aquele livro estranho novamente.
— Bella é engraçada. — ela respondeu a uma pergunta que eu não ouvi.
— Bem... — Carlisle retomou — Envie nossos agradecimentos aos garotos.
Eu saíra da casa poucos minutos depois, quando Renée finalmente conseguira dormir. Eu não pretendia conviver com os vampiros mais do que o necessário, assim como meus irmãos, então desci as escadas da entrada principal e circulei a casa, encontrando Embry recostado casualmente em uma árvore fina, na beira de um lago que cortava o quintal dos Cullen.
— E Leah?
— Dormindo. — ele deu de ombros — Acho que ela não descansa desde a última ronda com o Uley.
Assenti, encarando a água cristalina.
— Bella...
Embry pousou seus olhos em mim, sua expressão entregando um tipo de pertubação que eu não havia notado antes. Eu ergui a sobrancelha em um questionamento silencioso, indicando que continuasse.
Ele suspirou, o olhar caindo para o chão.
— Tem... Tenho um recado para você. É a Quinn.
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