Heaven
4 III
Notas iniciais
O som pesado dos meus sapatos contra a grama cortava o silêncio daquele início de madrugada. A minha respiração constante e as batidas aceleradas do meu coração me mantinham alerta, pronta para encarar uma situação de perigo.
Eu detestava correr na forma humana.
A familiaridade com as quatro patas já me era algo tão natural que eu quase podia esquecer que era humana por um tempo. Além disso, convenhamos, ser uma loba era muito mais fácil. Quais eram as preocupações? Alimento, frio, o cansaço. Tudo isso era fácil de administrar, instintos naturais que se sobressaíam acima das preocupações mundanas.
A Bella-loba não tinha dores de cabeça constantes como a Bella-humana.
Mas, eu lembrei a mim mesma, eu não podia me arriscar a mudar de forma nesse momento.
Saltei sobre um tronco caído enquanto as lembranças de horas antes me preenchiam. A conversa que tivera mais cedo com Embry, a discussão com Quinn, a sensação de me sentir sem chão, a dor de me encontrar perdendo algo e permanecer impotente...
— Merda! — eu praguejei para a noite enquanto a primeira gota de chuva tocava a minha pele em chamas. Eu não estava tão longe do meu destino agora, mas ainda me sentia estranhamente receosa.
Perguntei-me se a chuva poderia varrer o meu cheiro, pelo menos um pouco, mas duvidava disso — o próprio Sam seria capaz de encontrar meu rastro com facilidade, apenas com uma fungada naquele focinho preto brilhante.
Aumentei a velocidade da corrida, ainda pensando. Minha cabeça ainda rodava pelas palavras de Quinn. Sam havia conseguido fazer a cabeça dela, ludibriando-a a tentar me convencer de que a coisa na barriga de Renée era um monstro — é claro, como se eu já não soubesse disso. Então, o desgraçado convocou uma reunião para essa noite, que provavelmente deveria estar prestes a começar. Ele faria o seu discurso fascista aos anciãos, iria tentar convencê-los de que deveriam fazer algo e os velhos Quileutes não diriam “não” ao menino de ouro da reserva.
O que havia de tão errado nisso? Sam queria guerra. Ele não hesitaria em atacar os vampiros — e isso inclui a minha mãe — só para tentar satisfazer a sua sede de sangue.
Não havia nada que eu pudesse fazer a respeito, nem confrontá-lo diante dos anciãos.
Eu ofeguei quando finalmente voltei à trilha, praticamente já fora da floresta. Não parei de correr enquanto observava a pequena casa de madeira, os dois andares pintados de um azul fosco que desbotava mais a cada gota de chuva. Dei a volta, encontrando a familiar porta dos fundos e entrei sem hesitação.
O par de olhos negros varreu meu rosto por um segundo apenas, assenti em seguida e ordenando que eu entrasse. Eu me ajoelhei em sinal de respeito, ainda em silêncio. A figura debilitada afagou meu cabelo úmido por alguns instantes, soltando uma risada em seguida — o som me lembrava os trovões que eu tanto temia quando era criança, mas, de alguma forma meio torta, isso me acalmou.
— Estava a sua espera, criança. — ela disse solenemente, enquanto eu me pus de pé.
— Sra. Ateara...
— Quinn. — seu rosto enrugado desenhou um sorriso e eu assenti, perdendo as palavras.
O que eu faria agora? A ideia de vir pedir ajuda a única anciã mulher ainda viva — aquela que era conhecida por suas previsões, sua sabedoria e seu grande coração — me parecera boa em um impulso, mas agora, de frente para seus olhos, eu me sentia como uma criança assustada.
A idosa maneou a cabeça de uma forma que me fez concluir que analisava minha expressão, ou meu silêncio.
Engoli em seco. A neta de Quinn Ateara era, de certa forma, minha sogra e a insegurança de pensar que talvez ela compartilhasse das ideias de Quinn Neta nessa questão, me assustavam.
— Já deve imaginar porque estou aqui.
Ela assentiu. — Eu soube a respeito... Sua mãe.
— Ela... Ela está doente e eu não sei como ajudar.
— Ela não está doente, criança. — a risada de trovões encheu o ambiente — Mas essa não é a prioridade agora. Sei que está aqui porque Uley deseja violência.
Eu suspirei. — Ele vai pedir ao conselho que permitam que a matilha ataque os Cullen. Minha mãe está lá, Sra. Ateara. Posso não dar a mínima para todos aqueles sugadores de vida, principalmente pelo que fizeram à ela, mas ela vai se machucar. Ou pior.
A mulher à minha frente ficou em silêncio, os olhos nunca abandonando meu rosto. Sua expressão era séria, intimidante, o que me obrigou a desviar o olhar para meus sapatos sujos de lama que manchavam o tapete — eu esperava que a velha não ficasse braba por isso.
— Sabe, Isabella... Eu vi você nascer. — a anciã começou — Eu estava lá, em uma noite quente de verão, com estrelas e vagalumes brilhando na escuridão, onde você deu seu primeiro suspiro de vida. Minhas mãos se sujaram com o sangue da sua mãe, e meus olhos presenciaram a dor e o amor que você trouxe a ela naquela noite.
— Essa história parece ser muito bonita, mas eu preci...
— Eu vi os seus olhinhos se abrirem, tão azuis quanto a água de uma de nossas praias. — ela me ignorou — Eu vi a felicidade de Isaac e Renée, a expressão do quanto os dois se amavam e o quanto amavam você, a pequena garotinha deles. Eu vi você crescer, eu vi você e minha neta... Hã... Se encantarem com a ideia de amar... Também vi você se transformar pela primeira vez, na mesma noite em que sua mãe se apaixonou.
A mulher falava de forma calma, os olhos nublados se afogando em lembranças. Eu desisti de tentar pular a parte da história — especialmente evitar falar do meu relacionamento com a neta dela — e me mantive em silêncio, tentando entender o sentindo por trás de toda a ladainha.
— Você... Sempre teve algo especial. Você é teimosa, impulsiva, mas é determinada. Você tem um bom coração, criança. — os olhos escuros focalizaram meu rosto novamente — Seu pai sabia disso e sua mãe sabe disso. Não a decepcione. Se tiver que fazer sacrifícios... Então os faça. Mas jamais abandone sua mãe, criança.
Ela fez um sinal de que havia finalizado e apenas me encarou enquanto eu absorvia o peso de suas palavras.
Eu havia entendido o que ela quis dizer. Eu teria que fazer uma escolha e, obviamente, eu escolheria proteger Renée e não seguir Sam. Mas isso implicaria abrir mão de, possivelmente, tudo. A aldeia, meus irmãos. Eles me encarariam como uma traidora.
Eu me uniria a vampiros para lutar contra os meus irmãos.
A súbita decisão me atingiu como um soco no estômago, me tirando o ar por alguns segundos. Eu trairia todos ao meu redor, mas era o certo a se fazer. Não era?
— Você precisa ir! — a anciã reagiu repentinamente — Vá, criança!
Um segundo depois de pronunciar as palavras, um baque surdo foi ouvido e a porta da frente foi aberta com violência. A figura, praticamente nua e encharcada, me encarava com olhos brilhando em fúria. Seu corpo inteiro tremia e era possível ver as gotas de água evaporando em seu peito.
Droga.
— Está conspirando contra mim, Swan? — o homem rugiu. Ele sequer fez a saudação a Sra. Ateara, o que era apenas mais uma amostra do quão desrespeitoso ele era.
— Conspirando? É, claro que sim, eu planejo um motim com muita cerveja e algumas espadas. Isso aqui não é Far Cray 5, idiota.
Ele entrou na casa, ignorando seu corpo descoberto e apontou o dedo trêmulo na minha direção.
— Cale a maldita boca, Swan! Você virá conosco, atacar os Cullen, agora!
A anciã me encarou, seus olhos denunciando surpresa e um pouco de medo. Sam já estava visivelmente descontrolado e, em um espaço tão minúsculo, isso não acabaria bem.
— Não vou a lugar algum com você, mas nós dois vamos sair e deixar a...
Minha frase foi interrompida quando o punho fechado do Uley me acertou em cheio, tirando-me o ar. Eu cambaleei para trás, enquanto ouvia ele me amaldiçoar e toquei o local que — eu esperava — não estar quebrado.
O calor cobriu meu corpo e minha visão foi tingida de vermelho, mas, droga, eu tinha que leva-lo para fora. A última coisa que poderia acontecer agora era que eu deixasse a anciã ser machucada.
Eu respirei fundo, seguidas vezes.
— ...Uma porra! Nós vamos acabar com isso agora! Agora! — o homem me agarrou pelo pescoço e me arrastou em direção a porta, totalmente descontrolado. Eu tentei gritar para que ele não me tocasse, mas já era tarde.
Meu joelho atingiu algum lugar perto de seus malditos rins e ele caiu ajoelhado, urrando de dor. Eu lancei um último olhar à anciã e bati a porta da pequena casa com força, enquanto o Uley se contorce de dor na lama.
— Tem que honrar a tribo, tem que protegê-los! Você é uma traidora!
— Você não quer proteger ninguém, seu idiota. Só está pensando em si mesmo. — disparei — Não vou permitir que a sua sede por sangue inicie uma guerra.
Ele apertou os punhos com força, levantando com dificuldade, seu rosto se transformando uma máscara de ódio. — Saia do maldito caminho. Não estou brincando. Se não estiver conosco, estará conta nós.
— Ela é minha mãe...
— Uma mãe negligente! Ora, Swan, ela te trocou por um sanguessuga!
Eu rosno e meu corpo se contorce — no segundo seguinte, e estou sobre quatro patas. À minha frente, ele também explode em um lobo completamente negro e me amaldiçoo mentalmente por toda essa situação.
“Você vai com a gente e vai nos ajudar a acabar com todos eles”, Sam ordena e minhas patas tremem. Não posso ir contra uma ordem direta do alfa. Não posso negar, não posso não fazer o que ele manda. Meus olhos queimam com lágrimas, mas eu não as deixo cair.
Não farei isso, penso com convicção. De repente, algo desperta em meu peito. Não ficarei aqui, não serei mais uma dos submissos que ele orgulhosamente comanda. Sua sede por poder não vai me dominar. Eu não preciso e não farei isso.
“O que você está fazendo?”, ele rosna, mas é tarde demais. O peso sumiu, sua autoridade sobre mim sumiu.
Liberdade, penso. Estou livre de você, e sinto uma nova onda de energia me dominar. Estou fora.
“Eu não vou seguir você. Você não é um líder, Sam Uley. É só um garoto.”
O lobo à minha frente rosna e por um segundo ele considera me atacar. Meu pelo fica eriçado com a possibilidade de uma ameaça e minhas presas parecem mais afiadas do que jamais foram.
“Eu não nasci pra seguir você. Terá que passar por cima de mim se quiser tocar naquela família.”
Ergo a cabeça e me preparo para o combate enquanto o lobo à minha frente avança para me matar.
Eu desvio de seu primeiro golpe e avanço sobre seu flanco esquerdo, onde eu o feri enquanto estávamos na forma humana. O lobo negro uiva de dor e cai, mas avança sobre mim novamente. Sam projeta seu corpo sobre o meu, me prendendo e desferindo mordidas em minha cabeça e pescoço.
Minha mandíbula continua dolorida e é inútil tentar movimentá-la, então tudo que me resta é desviar o máximo possível de seus golpes.
Eu atinjo seu flanco machucado novamente, sentindo a carne sendo rasgada pelas minhas garras. O líquido quente molha minha pata e desfiro outro golpe, tirando-o de cima de mim. As gotas espessas de chuva lavam o sangue dos meus olhos e eu observo o lobo negro levantar-se novamente, mesmo seriamente ferido, pronto para atacar.
Eu não consigo ouvir a sua voz na minha cabeça e eu me perguntei se havíamos quebrado nossa conexão — éramos irmãos e estávamos tentando nos matar. Isso deveria ter consequências, certo?
O uivo sofrido de Sam rompeu a noite enquanto ele avançava novamente para atacar. Acertou o meu ombro direito com uma mordida tão forte que eu pude sentir o osso se partindo sob seus dentes afiados. A dor excruciante me deixou tonta, mas eu não recuei enquanto nós rolávamos pela lama fria novamente.
— Sam! — a voz humana cortou o ar, surpreendendo a nós dois. Um Embry desesperado começou a correr em nossa direção, se transformando logo em seguida.
O lobo negro me largou e pulou pra longe, gemendo de dor por conta do ferimento. A adrenalina da luta ainda me dominava e eu mal conseguia sentir a chuva gelada me tocando, mas eu sabia que estava coberta de sangue.
Embry-lobo foi em direção a Sam, agora humano, e observou com exaspero os pedaços de carne que caíam de seu abdômen — ele estava ficando cada vez mais pálido.
Eu balancei a cabeça em desespero pensando na merda que acabara de acontecer. Embry se movia diante dos meus olhos, tentando falar algo, mas sua voz estava muda em minha cabeça. Ele parecia não saber o que fazer com Sam que estava mais e mais lerdo no chão, com gemidos agora quase inaudíveis.
A culpa começava a me corroer lentamente, porque, droga, e se eu o tivesse matado?
Embry ganiu alguma coisa em minha direção, mas era inútil — nossa comunicação estava cortada. Tudo que eu consegui fazer no momento fora apenas joguar o focinho para o alto e uivar.
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