Heaven
8 Outubro, 1990.
Notas iniciais
Já estava no final do ano, e fazia duas semanas que eu consegui ficar livre das drogas mais pesadas, apelando para o cigarro. Kate havia me dado vários conselhos sobre como suportar as crises que haveriam de vir, mas já me dava os parabéns por eu ter ficado, duas semanas “limpo”.
Como em toda tarde de domingo, tardes tediosas por sinal, eu estava tocando minha guitarra, meu bebe, e então Anth entra em meu quarto ofegante. Havia acabado de receber uma ligação e veio me contar sobre o que era. Ele parecia muito animado com aquilo, seja lá o que for.
- John! John! A gravadora confirmou a data do lançamento do Blood Sugar!
Eu parei de tocar na hora, dei um pulo de minha cama.
- Ta brincando? Minha nossa! Estou muito feliz. Quando será?
- Terá duas datas e em diferentes locais. Dia vinte e três será na União Européia, e aqui, será dia vinte e quatro do ano que vem!
- Cara, estou muito orgulhoso, minha nossa! – A animação, esperança e todos os sentimentos bons estavam concentrados em mim naquele momento, e quando fizemos o CD realmente colocamos nossa alma, o fizemos com todo o cuidado, amor, e dedicação. E finalmente isto seria reconhecido, e mostrado para todos.
- O que acha de uma festa? Uma festa para comemorarmos esta estréia?
-Claro, adorei a idéia! Mas, não vou agüentar ficar sem festas até dia 23 de setembro do ano que vem ainda...
- Podemos dar uma festa semana que vem? O que acha?
- Claro... Vai ter o que eu estou pensando certo?
- Se for à mesma coisa, que eu estou pensando... Com certeza terá, você esta falando com Anthony Kiedis cara, obviamente terá isto. Mas... Já não faz duas semanas que você esta limpo? – Ele me indagou, com um olhar desconfiado.
- Sim, faz... Mas foda-se cara, é o Blood Sugar, é uma festa de comemoração... Uma coisa ali, outra aqui não ira fazer diferença. – Sorri.
Ele fez uma pausa. — Você ira chamar Kate?
Pergunta difícil não? Afinal, se eu for realmente usá-las, Kate não poderá ver isso de jeito nenhum, estava orgulhosa de mim, e eu iria foder com tudo.
- Ah, anth... Kate? Acho que não.
- Por causa delas John? – Ele pegou em meu ombro, e sentamos no chão.
- Sim, por causa delas... Sei que ela esta orgulhosa de mim, mas parece que uma crise já esta chegando e eu não tenho capacidade para ignorá-la. Eu necessito Anthony.
- John, você foi vitorioso por não utilizar nada delas durante duas semanas, eu já não tenho essa mesma capacidade. Admiro muito você, por pelo menos estar tentando, já eu? Bom, eu sou um fracassado neste sentido. – Ele abaixou sua cabeça e, realmente estava incomodado com toda aquela turbulência que estava fazendo parte de nossas vidas.
- Anthony, não fale assim de si próprio. Você sabe que consegue, se pelo menos tentar.
- Não, John... Não consigo, eu sempre arranjo uma desculpa para que volte a consumir, pelo menos um cigarro. Sabe... Eu realmente sonho que um dia eu estarei totalmente limpo, e nem os cigarros irão fazer parte disto, mas não sei se isso pode ocorrer do jeito que as coisas estão andando.
Ele se levantou, e a alegria que estava irradiando sua face quando entrou no quarto, havia desaparecido. Caminhou até a porta e disse.
- A festa ainda continua de pé... E, por favor, vamos esquecer este assunto até lá.
Saiu de meu quarto, e me deixou pensando nas coisas que ele havia dito. Uma parte de mim sabia que o que eu faria seria completamente errado, e a outra parte dizia: Vá, você sabe que não ira agüentar tanto tempo limpo. Eu realmente não sabia o que fazer. Não liguei para Kate para pedir conselhos aquela noite, e infelizmente segui o meu pior pressentimento.
Peguei minhas coisas, e sai de casa. Era quase duas horas da manha, e então fui em direção ao beco. Comprei heroína e cocaína, mas esperei chegar em casa para consumi-las.
9h00 A.M
Fui acordado por um estrondo, vindo da parte debaixo da casa, gritos de: “DEIXE-ME ENTRAR, PRECISO VER COMO JOHN ESTA”.
Ela sabia que se ocorresse alguma coisa fora de nossos planos, eu não iria ligar. E na noite passada, eu não liguei para ela. Foi aí que então ela descobriu que eu havia tido uma crise e veio correndo ver como eu estava. Infelizmente, eu não pude mentir, pois as provas concretas estavam dentro do meu quarto. Seringas e mais seringas.
Ela bateu na porta, na verdade surrava a porta. Eu estava espantado, tentei esconder as coisas, mas não seu tempo. Ela foi mais rápida, e encontrou a chave reserva do meu quarto, abriu a porta e entrou.
- JOHN! Eu não acredito que você fez isso, não acredito! Como? Por quê? Você já estava há duas semanas sem nada John! Como pode? Você... Você prometeu!
- Oh meu Deus Kate, me desculpe! Aquilo foi mais forte que eu, eu necessitava mais do que tudo, minhas forças haviam acabado. Perdoe-me!
- Não John, o que você fez não tem desculpa, posse te perdoar sim, mas não confiarei em você como antes.
Seus olhos estavam cheios de lagrimas, esperando uma brecha para finalmente caírem em seu rosto. Ela se ajoelhou e começou a pegar as seringas que estavam no chão, umas três. Pegou-as me mostrou e disse:
- Isso John? O que isso traz a você? Satisfação momentânea?
Eu não falava nada, travei naquele momento.
- Pois é mais tarde isso ira trazer coisas muito piores, e quem sabe sua morte. Acho que você deveria continuar com isso, já que não se importa com mais ninguém na sua vida, alem de você mesmo e sua guitarra estúpida.
A ira tomou conta de mim após aquele comentário, mas eu não tive coragem de levantar sequer um dedo contra Kate, de alguma forma suas palavras eram verdadeiras. As lagrimas escorriam sobre seu rosto, e então ela jogou as seringas no chão, aproximou-se de mim e disse:
- Eu ainda estou disposta a te ajudar, se você realmente quiser ser ajudado. Já sabe o meu numero, e se me ligar eu saberei que você estará pedindo por socorro, e irei correndo ajudá-lo. Tchau John.
Ela saiu do quarto com as lagrimas ainda escorrendo sobre seu rosto. Chad que assistia a tudo aquilo fez uma cara nada legal e logo após saiu com Kate, acompanhando-a a até a porta. Quando todos saíram do meu quarto após aquela cena terrível eu me tranquei lá dentro, e a mesma tristeza que Kate sentia, eu também comecei a sentir, e as mesmas lagrimas que escorriam pelo rosto de Kate, agora escorria pelo meu.
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