Heartless
1 Until Forever Comes
Heartless
escrita por unicornic
“UNTIL FOREVER COMES”
Com as mãos enfiadas dentro de um bolso fundo e quente de um sobretudo já desgastado pelo tempo e as costas apoiadas em uma placa de “pare”, Sirius Black erguia a cabeça para conseguir olhar completamente o enorme edifício à sua frente. Acima da porta giratória, que não parava, por conta da grande quantidade de pessoas que entravam e saíam, as palavras “La Rose Hotel” estavam fixadas em uma espécie de metal em tom rosé brilhante.
Sirius havia viajado por cerca de onze horas pelas estradas, desde a Suíça, até chegar ali, em Londres. Sua reserva no La Rose já estava feita há meses, pois ele havia conseguido informações importantes de que aquele lugar era um ponto quente de aglomeração dos seres que Black mais estudava: vampiros. Era verdade que ninguém em sua família, ou em qualquer outro lugar, acreditava que os sobrenaturais de fato existissem, contudo, ele tinha plena convicção de que os sugadores de sangue estavam por toda a parte e certamente estariam aos montes naquele hotel.
Atrás de Sirius, um táxi preto estava parado e o motorista retirava todas as suas bagagens do porta-malas e as colocava na calçada. Quando finalmente terminou, Black tirou uma das mãos do bolso, sentindo-a congelar pelo frio insuportável do inverno londrino, e cumprimentou o taxista.
— Muito obrigado, amigo! — disse, sorrindo. O homem sorriu de volta, pois a viagem havia sido realmente boa, uma vez que eles conversaram sobre os mais diversos assuntos dentro do carro.
— Precisa de alguma ajuda para levar as malas para dentro?
— Oh! Não, muito obrigado. Pode deixar que eu me viro daqui — agradeceu, vendo o taxista sorrir novamente e entrar no carro com certa pressa para ir embora e fugir do trânsito caótico da capital.
Sirius abaixou-se e deu um jeito de pegar as suas quatro malas amarronzadas. Ao olhar novamente para o letreiro rosado, ele respirou fundo, preparando-se para entrar. Black simplesmente tinha uma sensação mais forte do que a certeza de que seu coração batia de que coisas grandes e jamais vistas por ele antes estavam prestes a acontecer no momento que colocasse os pés dentro do La Rose Hotel.
[...]
No momento em que abriu os olhos naquela manhã, Marlene McKinnon soube que seu dia seria complicado.
Sentada em uma das mesas do enorme salão de refeições do hotel La Rose, a jovem com os cabelos loiros amarrados em um rabo de cavalo bem feito sorvia o seu chá e lia, com atenção, uma lista de afazeres do dia em seu tablet. O falatório dos hóspedes presentes no salão incomodavam-na e a impediam de se concentrar no que estava fazendo, por isso, ela estava equipada de fones de ouvidos com uma música lenta do Ed Sheeran no último volume.
Sua lista estava simplesmente enorme e isso a deixava um pouco preocupada. Não que todos os seus dias não fossem agitados, mas aquela era uma semana especial. Além dos encontros normais que ocorriam, nos pequenos salões do subsolo, durante sete dias, uma grande festa aconteceria apenas para um seleto grupo de pessoas da alta sociedade mundial. Todo o tipo de pessoa estaria presente. Desde que socialites mimadas até empresários donos de multinacionais extra multimilionárias. E Marlene precisava organizar tudo para que absolutamente todos os convidados gostassem da festa e, principalmente, se sentissem seguros para serem quem eles, de fato, eram.
Sem que ela esperasse, uma mão fria pousou em seu ombro desnudo. A loira tirou os fones rapidamente e olhou para cima, encontrando os olhos azuis claríssimos de seu pai. Michael estava sério, como sempre, mas quando deu a volta na mesa e sentou-se à frente dela, ele abriu um sorriso de orelha a orelha que há muito tempo que ela não via.
— Essa alegria toda é por causa da festa que teremos hoje, e amanhã, e depois de amanhã, e depois, e depois… — perguntou ela, ficando exausta só de pensar no tanto de trabalho que teria para coordenar todos aqueles eventos.
— Ah, querida! Eu sei a quantidade de trabalho que você está tendo nas últimas semanas por conta dessa minha ideia extravagante — ele disse, fazendo sinal para que o garçom não se preocupasse em atendê-lo, pois não iria comer nada.
— Se é para te ver feliz, pai, tudo vale a pena.
— E foi você que pediu por esse trabalho — ele lembrou, uma vez que jamais quis que ela fosse obrigada a trabalhar no que quer que fosse dentro do hotel.
— E fui eu que insisti muito por esse trabalho — concordou Marlene, pensando nas diversas horas que gastou, tentando convencer o pai a deixá-la tomar rédea de alguma coisa nos negócios da família. Após algum tempo de silêncio, ela continuou: — Você está pronto para hoje à noite?
— Pronto? — riu ele. — Claro que estou pronto! Mal posso esperar por isso! Você sabe, querida, eu já mandei trazer da nossa casa de veraneio aquele terno que eu gosto e…
— Pai — ela chamou atenção —, você sabe o que eu quero dizer. Você está realmente pronto para aparecer para toda a alta sociedade novamente? Depois do tempo que você passou recluso de tudo e de todos em Hogsmeade, eu fiquei muito preocupada que você jamais fosse estar pronto para se inserir nesse mundo cheio de traminhas e políticas novamente. Eu preciso que você me diga que está pronto, pois se não estiver eu cancelo tudo agora mesmo pelo meu celular!
O homem de meia idade suspirou e ergueu as duas mãos sobre a mesa. Marlene, com o olhar cheio de carinho e pena, colocou as mãos sobre as dele e sentiu-as serem apertadas com força.
— O que aconteceu me enfraqueceu muito mesmo, mas a minha vida ainda vai ser muito longa — Michael piscou para a filha. — Eu não posso continuar sofrendo pelos erros de outra pessoa. Eu preciso seguir com a minha vida. Você se lembra que, nos tempos idos, lá pela década de setenta, tudo o que eu mais gostava eram essas semanas que o hotel recebia magnatas do mundo todo para as nossas festinhas sem censura. Eu preciso disso de novo. Eu sinto que isso é tudo o que eu preciso para ser feliz novamente.
— Já que é assim… Então você vai ter as suas festas. E eu espero que você apareça em grande estilo!
Os dois riram e Marlene começou a mostrar para o seu pai todo o plano que tinha preparado há semanas para fazer a magia acontecer e, principalmente, o esquema que tinha para manter os hóspedes humanos longe das escadas para o subsolo.
[...]
A recepção do La Rose estava caótica. Muitas pessoas chegavam com grandes malas e os funcionários estavam em polvorosa, passando pelo salão com carrinhos e atrás do enorme balcão do check-in, tentando atender a todos com a maior eficiência possível. Sirius, debruçado sobre o balcão em uma brecha que os inúmeros hóspedes haviam dado, observava com complacência aqueles recepcionistas, que pareciam estar prestes a enlouquecer com tanto trabalho.
Até que finalmente um dos empregados aproximou-se de Black, pronto para atendê-lo.
— Bom dia, senhor, em que posso ajudá-lo?
Sirius leu o nome escrito no crachá dourado preso ao colete dele.
— Eu preciso fazer o check-in, hã… James, certo? — indagou, olhando novamente para o crachá. Por alguns segundos, o recepcionista pareceu um pouco confuso sobre como o hóspede havia descoberto seu nome, mas depois fez uma expressão esclarecida.
— Oh! Sim, James Potter, senhor…
— Sirius Black.
— Me desculpe, como o senhor pode ver, hoje nós temos muito trabalho e eu acho que estou ficando um pouco lento — James abriu um sorriso amarelo e Sirius acompanhou-o. Após alguns segundos de silêncio, o recepcionista prosseguiu, como se caísse em si novamente de que deveria trabalhar: — O check-in, não é? — Black confirmou e Potter passou a olhar para baixo e digitar alguma coisa em um computador de ponta. — A reserva está no nome de Sirius Black mesmo?
Sirius assentiu novamente, olhando ao redor, começando a ficar muito interessado naquele movimento todo que tinha a recepção. Ele tentou se lembrar de algum evento importante que pudesse estar acontecendo em Londres naquela semana, mas nada lhe ocorreu. Por que o La Rose estava tão cheio?
James levantou as mãos para o balcão onde Black estava apoiado e colocou sobre ele uma caneta e um papel com as informações pessoais dele impressas.
— O senhor pode assinar aqui e aqui — disse, marcando com a caneta duas linhas distintas no papel.
Black pegou a caneta e debruçou-se o papel. Após assinar, entregou o papel para Potter e não conseguiu se conter. Ele tinha de perguntar. Afinal, era para isso que estava ali, para entender melhor como aquele mundo mágico, que ele tinha certeza de que existia, funcionava.
— Esse hotel é sempre agitado assim? Eu digo, o movimento de hóspedes é sempre caótico dessa maneira?
— Normalmente não, senhor, mas essa semana nós recebemos uma quantidade absurda de reservas — respondeu o recepcionista, enquanto digitava mais algumas coisas no computador.
— Há algum motivo especial para isso?
— Não. Não que eu saiba. Mas… o La Rose é assim mesmo. Nem sempre as coisas tem explicação, senhor Black. Depois de cinco anos trabalhando aqui, eu percebi. Esse hotel é único. O que acontece aqui eu te juro que não acontece em nenhum outro lugar do mundo.
— Como o quê? — indagou, sentindo a sua curiosidade começar a corroê-lo por dentro.
— Eu assumo que, com… — ele olhou para a tela do computador novamente — … as três semanas que vai passar aqui conosco, o senhor vai descobrir.
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