Notas iniciais
Bom, gente... Esse é mais um daqueles capítulos de arrasar corações e nos fazer refletir. Acho que nessa caminhada da Ellie, estamos nos deparando com tantos discursos dela e do Tony sobre ser quem somos que nesse podemos ter uma visão final (ou não) do ponto que define quem realmente é a Ellie. É um capítulozão (longo e muito bom), pós-acidente e teremos uma conversa (mais uma) intensa. Na verdade quase será um monólogo do Tony que tenho fé (como leitora) que colocará um ponto final nessa história de "Ellie ou Lilly". Antes de partirem pro capítulo, queria desejar apenas um FELIZ DIA DOS NAMORADOS pra vocês ♥ Apesar do meu estar meio merda, porque estou em processo de término de namoro (risos). Enfim, aproveitem esse capitulozão!

A vida é, na verdade, uma incansável luta para não cair; não fraquejar; não perecer.

O mal que assombra o nosso universo sempre consegue um jeito de provar que viver é simplesmente mais difícil do que apenas existir.

A vida daqueles que não lutam é pura e simplesmente mais fácil. Nada os abala, nada os deixa surpresos. Eles já estão esperando por tudo e, talvez por isso, a vitória seja sempre deles, quando se trata de uma luta contra o acaso, já que surpresas não possuem um peso muito forte em suas vidas.

Infelizmente, nunca tive a intenção de optar por uma vida assim, afinal, não era do meu feito escolher o caminho mais fácil. Eu sempre, mesmo que inconscientemente, acabava elegendo a porcaria do caminho mais difícil e cheio de montanhas para escalar.

Por que não simples pedras no meu caminho? Por que não galhos?

Por que algum desgraçado, filho de uma vagabunda tinha que ter jogado uma garrafa de cerveja na estrada, especificamente na qual um carro em extrema velocidade passaria, esmagaria a embalagem e, por sua vez, capotaria e destruiria boa parte de uma pequena floresta da região?

Claro que, a essa altura, eu me fazia estas perguntas enquanto puxava o corpo de Stark para longe do carro, no meio do breu da madrugada, depois de sabe-se lá quanto tempo desacordada. Não tinha tempo para um momento exclusivo de dramas. O caso era grave e temia pela vida do meu amigo mais do que pela minha própria que, para ser franca, não estava nem perto de ser ameaçada.

O som do coração de Stark era o que mais me assustava e, portanto, assim que consegui um local seguro, longe do carro e de qualquer possibilidade de uma explosão surpresa, deitei-o no chão repleto de neve e averiguei o estado do reator que impedia que os destroços malditos que ainda estavam em seu corpo o matasse.

A energia ainda fluía muito bem e não parecia haver dano algum à peça iluminada em seu peito. O que era um ponto positivo, já que seria um trabalho maior restaurar o reator Ark no meio da floresta, sem nenhuma possibilidade de tecnologia presente. Agora, minha única preocupação era com todo o restante. E quando digo todo, é porque todo o corpo de Tony estava ferido ou quebrado. E isso, sinceramente, era extremamente preocupante.

Antes de qualquer ação ante aos seus ferimentos, optei por pegar alguns galhos ainda secos ao meu entorno e fazer uma fogueira, usando uma pequena chama que fluiu facilmente pelos meus dedos e crepitou de maneira forte entre os galhos que rapidamente selecionei.

O simples fato de usar meu fogo trouxe à nota uma nova perspectiva de tudo.

Eu era uma fênix.

Eu era uma fênix!

Realizar o que eu estava prestes a fazer havia, consideravelmente, alguns riscos, como, por exemplo, o de ser tarde demais. Quando este pequeno pensamento de falha veio a tona, não perdi tempo: respirei fundo e concentrei-me ao máximo até que algumas gotículas bem-vindas se formaram na ponta de meus olhos e, em pouco tempo, inundaram minha face enquanto deslizavam até alcançarem o limite do rosto e se desligaram de mim, rumo ao destino certeiro: a cabeça de Stark, agora usando minhas coxas como apoio.

As feridas em sua face me assustavam e faziam mais lágrimas descerem e alcançarem sua pele sem demora.

Tive receio de ser uma deusa fajuta e minha ideia não dar certo, portanto fechei meus olhos e esperei por qualquer sinal do universo que indicasse que tudo ficaria bem.

Claro que, como eu disse anteriormente, a vida é uma constante luta e, apesar de eu possuir o real poder da cura, cabia à Stark aceitar ou não essa bênção.

Essa ideia era uma concepção formada na vida de Ignis, portanto, eu sabia que isso realmente era real, mas não sabia bem de onde havia aprendido essa nova informação. Só o fato de conhecer algo que não sabia a verdadeira fonte foi o suficiente para aumentar potencialmente meus temores e forçarem uma apelação.

ㄧOlha, Stark, eu juro por tudo que é mais sagrado que se você não sobreviver à isso, eu vou para o outro lado e te trago à força, ouviu bem? ㄧcomecei a falar enquanto passava a mão por seu cabelo desgrenhado e úmido pelo sangue que havia escorrido pela sua testa, mas agora já estava coagulado.

Esperei alguns segundos, na expectativa de que ele acordasse e risse da minha cara, mas nenhum movimento, além do fraco exercício de pulsar do seu coração e os movimentos falhos dos seus pulmões que olhares humanos nunca perceberiam.

ㄧVocê não pode morrer, ouviu?? Fala sério!!! Você precisa acordar e destruir o Mandarim! Precisa lutar para vingar o Happy ao meu lado, Tony! ㄧforcei um tom mais bruto e encarei-o irritada enquanto ainda persistia alisando seu cabelo, na expectativa de que aquele sangue todo saísse num passe de mágica.

Foi então que, mais alguns segundos tenebrosos de espera, resolvi apelar:

ㄧTony, por favor... por favor. ㄧsussurrei enquanto aproximava minha face o máximo que conseguia da sua.

Mais lágrimas caíam e molhavam sua face ensanguentada.

ㄧEsse não pode ser o fim, por favor. ㄧprossegui com os sussurros desesperados ㄧTony, eu faço o que você quiser, eu juro! Volto a trabalhar pra você, me torno até sua escrava. Só preciso que volte. Não vou conseguir. Eu juro que não vou conseguir superar nada disso se você não estiver aqui.

Foi aí que ouvi a primeira tosse.

Endireitei minha postura e joguei as mechas de cabelo que atrapalhavam minha visão para trás e fiquei espiando o corpo de Stark se recuperar. Uma pequena parcela do meu cérebro ainda acreditava que tudo isso não passava de um sonho e eu ainda me encontrava presa nos destroços do carro, como realmente estava há alguns minutos atrás.

Mas milagres acontecem.

Era isso que parecia no momento em que encarei melhor suas feições e não consegui mais encontrar nenhum corte ou arranhão em seu rosto. Se não fosse toda a sujeira de sangre, sequer alguém poderia dizer que aquele rosto sofrera alguma coisa. E se eu ainda tinha alguma dúvida de que era uma deusa fajuta, logo foi embora, pois sua respiração voltou a fluir novamente, bem como seus batimentos cardíacos seguiam um ritmo saudável. O restante do seu corpo, que outrora pareciam também repletos de cortes nas partes expostas, agora seguia o mesmo rumo que sua face: cada pedacinho de si estava impecável, era impossível detectar qualquer possibilidade de contabilizar uma existência de ferimentos ㄧclaro que, desconsiderando totalmente o sangue ressecado em diversas áreas do seu corpo.

Num filme mágico da Walt Disney, muito provavelmente Stark despertaria bem lentamente, dando diversas piscadelas e abrindo seus olhos tão devagar que esta cena passaria em câmera lenta no cinema, só para dar um efeito mais dramático ao momento. Além disso, assim que desperto, ele me olharia no fundo dos olhos e agradeceria por ter uma amiga tão amável e por ter salvo a sua vida.

Mas, francamente e, pela maldita terceira vez, a vida mostrou-se nem um pouco similar aos filmes encantados.

ㄧAAAAH! ㄧerguendo-se de maneira assustada, Tony não demorou a ficar de pé e encarar todos os lados, como se esperasse que alguma avalanche surgisse do nada e o carregasse para o fim da vida.

ㄧMeu Deus, você tá vivo! ㄧgritei de volta enquanto o encarava pasma.

ㄧÉ. ㄧele prosseguia com os olhos arregalados e encarando ao seu redor, buscando algum erro ㄧEu acho que sim.

ㄧAh, nossa! Não faz ideia do meu alívio. ㄧsuspirei e deixei-me sentar mais confortavelmente na neve fofa ㄧPor um segundo cheguei a pensar...

Apesar de eu não ter finalizado minha frase, Stark sequer parecia se preocupar com minha presença. Ele estava mais preocupado com o próprio corpo, pois começou a se apalpar e encarar as próprias mãos, abdome e coxas. Logicamente havia muito sangue presente em seus trapos que outrora foram peças decentes de roupa, mas isso não parecia o chocar mais.

ㄧComo? ㄧe me olhou, ainda estupefato ㄧComo?

ㄧO que? ㄧindaguei, agora preocupada com sua reação.

ㄧLilly... de quem é esse sangue? ㄧe apontou para a própria roupa. ㄧBatemos em algum servo no meio do caminho ou...

Franzi o cenho com a possibilidade e aí entendi que Stark não fazia ideia dos meus poderes.

Se eu fosse alguém muito exibida, provavelmente iria me gabar por meu feito, mas, num momento tão catastrófico e delicado como aquele, pensei melhor no que dizer.

ㄧÉ melhor você se aproximar mais da fogueira. Está muito frio aqui embaixo. ㄧsugeri e apontei para o amontoado de fagulhas que eu ousei chamar de fogueira para dispersar o assunto.

Tony ainda me olhava de forma acusatória e buscando explicações inalcançáveis, mas, apesar de ainda parecer desnorteado, nunca lhe faltavam ideias melhores para solucionar problemas.

ㄧFicar aqui não vai adiantar nada. ㄧele concluiu logo após meu pedido ㄧPrecisamos dar um jeito de voltar para a estrada e conseguir um carro.

ㄧNão acha melhor esperar um pouco, Tony? Você praticamente acabou de voltar dos mortos?

Colocando as mãos na cintura, Tony encarou o espaço mal iluminado à nossa volta e pareceu fazer uma vistoria meticulosa no que acabara de acontecer.

ㄧEu gostaria. Gostaria mesmo de ficar aqui sentado, olhando para esse resto de fogueira e para a merda que ficou nosso carro. Gostaria de ouvir sua explicação para o fato de eu estar vivo e sem um arranhão sequer, apesar do sangue todo na minha roupa. Ah, claro! Eu adoraria comer um donnuts de chocolate com caramelo e tomar um whisky, mas há dez horas de distância de onde nós estamos, tem um cara louco que está ameaçando o meu país e ameaçou a vida do meu melhor amigo. Então, Lilly, não. Eu não vou esperar um pouco. Você pode ficar aí ou me acompanhar, mas eu vou dar um jeito de subir nessa droga de montanha e encontrar um jeito de ir para Miami com ou sem você. ㄧe dito tudo isso, o homem começou a se movimentar.

Partindo em direção ao que parecia ser os destroços do carro, ele começou a vasculhar as coisas, buscando algo que pudesse ser recuperável. Enquanto ele mexia numa coisa ou outra, ergui-me do chão e comecei a me aproximar dele, com o objetivo de usaras labaredas de fogo que escapavam de meus dedos para iluminar melhor o espaço.

ㄧAh, achei! ㄧele gritou, assim que me aproximei mais e tirou debaixo do que parecia ser a parte de um dos bancos do carro algo retangular e preto ㄧPorcaria de celular vagabundo. ㄧe aquele mesmo objeto voou para alguns metros de distância ao nosso lado quando ele o arremessou com toda raiva possível.

ㄧPelo jeito temos que dar um jeito de comprar outro celular. ㄧsibilei, tentando provocar alguma descontração e falhei abertamente.

ㄧÉ, com que dinheiro, por acaso? Todos os últimos putos que eu tinha no bolso acabaram e as drogas dos cartões daquele assassino desgraçado estão perdidos no meio dos destroços.

ㄧE se a gente-

ㄧNão! Não temos tempo, Ellizabeth. Temos que sair daqui e rápido.

✤✤✤

A verdade mesmo era que nenhum de nós tinha um plano.

Bom, eu não tinha um plano.

Stark, agora revigorado graças ao poder de minhas lágrimas ㄧ não que ele saiba disso ㄧ, decidiu que, após concluir que nenhum carro passaria por aquela estrada naquela hora, o melhor seria caminhar até encontrar algum posto de gasolina ou alguma cabana na beira da estrada. O frio começou o incomodar tremendamente e, apesar dos meus esforços para tentar ajudá-lo, ele simplesmente se recusou a aceitar qualquer tipo de aquecimento que eu pudesse proporcionar. Até mesmo o casaco que, sabe-se lá como, sobreviveu ao acidente.

Era estranha demais sua atitude com relação aos últimos fatos. Nós havíamos acabado de sofrer um tremendo acidente e tudo o que importava era conseguir um meio de transporte.Tudo bem que, aparentemente todos dos Estados Unidos da América corriam perigo com Mandarim à solta em Miami, contudo, ainda sim, era de se esperar um pouquinho de calma e perguntas sobre sua atual situação: vivo, porém repleto de sangue grudado na pele.

Depois de pouco mais que dois quilômetros andando, finalmente avistamos algo similar a uma civilização. Uma espécie de bar na beira da estrada, com as luzes ainda acesas, começou a surgir no horizonte repleto de neves e aquilo nos animou tanto ao ponto de aumentarmos nossos passos.

ㄧJá decidiu o que vai fazer quando chegar lá? ㄧresolvi perguntar, logo que faltavam poucos metros para alcançarmos o local.

ㄧEu não faço ideia, Lizzie. Roubar um carro, ligar para o Rogers e pedir uma carona... Seja o que for, precisamos entrar e nos aquecer.

Ele ainda prosseguia bons passos a minha frente e preferi manter assim, pois sua distância era sinal para que eu prosseguisse afastada.

O bar era completamente revestido por madeira e, apesar das luzes prosseguirem acesas, não parecia haver um cliente sequer no lugar. Assim que entramos, pude confirmar minha teoria do espaço vazio, pois, tirando o único homem atrás do balcão, a única coisa que fazia barulho ali era a televisão ligada num canal de filmes antigos.

ㄧOh, Deus... ㄧassim que o camarada atrás do balcão colocou os olhos em nós dois, ele deixou escapar as palavras ㄧVocês estão bem? Querem que eu chame uma ambulância?

O homem aparentava ter uns 50 ou 60 anos, principalmente com o bigode grisalho tapando quase toda sua boca e o cabelo longo amarrado num rabo de cavalo baixo. Suas roupas eram bem estereotipadas da região, graças à camisa de xadrez e o suspensório de couro preto.

ㄧNão, mas valeu. O que eu quero agora é um conhaque com mel e limão para era e um whisky do mais barato para mim. ㄧStark foi logo falando enquanto se aproximava de um dos bancos disponíveis à frente do homem.

ㄧVou acompanha-lo no Whisky. ㄧinformei antes que ele alcançasse a garrafa de um conhaque qualquer na sua prateleira mais alta.

Segui Tony por falta de opções e sentei-me exatamente ao seu lado, enquanto aguardava o barman nos servir com as bebidas.

ㄧO que aconteceu com vocês? ㄧele perguntou enquanto terminava de completar o copo de Stark.

ㄧSofremos um acidente de carro. Nada grave. ㄧTony respondeu simplesmente.

ㄧEstão esperando por alguém vir busca-los? ㄧinsistiu em perguntas.

ㄧNa verdade não. A ideia é continuar caminhando ou conseguirmos roubar um carro.

Arregalei os olhos para o homem ao meu lado e dei uma cotovelada em sua costela.

ㄧEle quis dizer pegar um carro e não roubar. ㄧcorrigi enquanto tentava sorrir para o homem, totalmente ciente de que aquele comentário despertaria alguma desconfiança no senhor. ㄧTalvez consigamos alugar um carro ou coisa assim.

ㄧNão há nenhum amigo que possa vir busca-los? Eu posso passar o endereço daqui e vocês usam para-

ㄧNão, nada de amigos. Somos só eu e minha irmã. ㄧTony passou a mão entorno do meu ombro e apertou forte, imaginando que estaria, assim, retribuindo a minha cotovelada.

ㄧO senhor pode me dizer onde é o banheiro? ㄧresolvi perguntar logo após ele colocar o copo de whisky na minha frente.

ㄧÉ ali, óh! ㄧe apontou com seu dedo gorducho.

Enquanto eu descia do banco, pude ver Stark sussurrar com os lábios para mim.

“Vai me deixar sozinho aqui com esse velho?” Foi o que ele tentou dizer no momento em que fitei-o antes de me afastar.

Como resposta, revirei os olhos e vire-me de costas, pronta para seguir o caminho sugerido pelo homem.

Não planejava demorar muito no banheiro, pois meu único objetivo era lavar as mãos, limpar o rosto e tentar ajeitar minhas roupas. Contudo, no momento que fitei-me no largo espelho grudado na parede, fiquei surpresa com o que estava vendo.

Não era o cabelo loiro e desgrenhado ou o rosto sujo de terra e um pouco de sangue. Também não era a camisa que outrora fora branca, mas agora parecia bege e muito menos a jaqueta de couro que surpreendentemente havia sobrevivido melhor do que eu esperava. O problema ali eram meus olhos.

Olhando-os bem, eu podia perceber a extrema diferença de coloração de um para o outro.

Stark tinha razão quando mencionou a diferença de cores. Só não podia imaginar que era tão diferente assim.

Infelizmente, a cor em si não me assustava tanto quanto o fato de reencontrar Steve.

Sim, aquela era a maldita verdade e veio a tona exatamente no momento em que olhe-me no espelho e percebi meus olhos. Tudo, no fim das contas, me levaria ao momento em que o ouvi dizer que salvaria a Lilly.

O quão decepcionado ele ficaria ao perceber que eu não era mais a mulher pela qual ele se apaixonou e que, agora, uma nova mulher voltou à Terra.

Eu o amava e isso era um fato mais que evidente, contudo... o quanto ele me amaria ao descobrir tudo o que eu era agora e todas as novas coisas que vieram comigo de Asgard? Eu não era mais apenas Ellizabeth, meta humana, ex-agente da S.H.I.E.L.D..

Tudo bem que não era mais Ignis também, claro. Eu não era mais a ex-noiva de Thor, filha de Haz e Semha.

Quem.

Eu.

Sou?

A frustração só cresceu e fez-me sentir mais perdida e confusa do que toda a minha vida. Num ímpeto crescente de raiva, soquei o espelho à minha frente, quebrando-o em diversos pedaços que voaram direto para o chão.

Minha mão não sangrava, pois nenhum estilhaço do espelho me cortou, o que era um ponto positivo a ser considerado. Encarei por uns instantes meus dedos, buscando qualquer sinal de resposta para as mil perguntas que brotara, de repente, na minha mente. Em seguida, olhei para a frente novamente, procurando observar o estrago que fizera. O que restou do espelho agora refletia minha imagem apenas em pequenas partes, fazendo-me sentir ainda mais assustadora. Minhas feições estavam franzidas em uma cara de ira. Meus olhos possuíam um brilho diferente, um pouco desconhecido e extremamente assustador. Até meu tom de pele parecia mais pálido e meu cabelo mais bagunçado. Eu parecia um monstro.

Era isso, não era?

Eu estava com medo de quem eu estava me tornando.

Quem é Ellie, afinal?

Ouvi sons de algo se quebrando do lado de fora e só então lembrei do mundo que existia a parte da minha confusão interna. Precisei reunir muita energia para controlar minha respiração e meus nervos, enquanto molhava meu rosto com a água gelada da pia logo à minha frente. Levei um tempo além do esperado para molhar todo o meu rosto e procurar me acalmar o suficiente para sair do lugar. Aproveitei também para umedecer minha nuca e um pouco do pescoço, acabando que por molhar a gola da camisa. Não que isso um problema tão grave assim, claro.

Quando senti que havia recuperado circunstancialmente minhas forças, saí do banheiro, com o rosto já seco pelas toalhas de papel e me deparei com uma versão engraçada de Tony Stark, abraçado com uma garrafa de Whisky, sentado numa das mesas no fundo do bar e encarando o próprio copo à sua frente.

O barman não estava mais ali para que eu me sentisse receosa de querer conversar sobre qualquer coisa, então pude me aproximar com mais tranquilidade e firmeza da mesa de Stark. Puxei a cadeira para me sentar, sem esperar por um convite e terminei de tomar o whisky do seu copo.

ㄧEu esperei você. ㄧele falou, de repente, mas sem deixar de encarar o vazio da mesa, onde seu copo esteve segundos antes ㄧUm mês após sua partida para Asgard, iniciei uma busca com Banner sobre como poderíamos ir atrás de você. Tínhamos o apoio da S.H.I.E.L.D. e de vários cientistas prontos para conhecerem um outro mundo.

“Consegue se lembrar das semanas antes de Loki vir à Terra? Aqueles dias em que você não dormia com medo dos seus pesadelos, Lizzie. Bom, eu fiquei assim também. Na primeira noite, você voltou à Terra, ao lado de Loki e matou a todos. Aquilo me fez buscar com mais afinco um meio de te tirar de lá e Steve concordou comigo que talvez você corresse perigo. Num outro sonho, você voltava para a Terra, mas... não era mais você. Não havia você. Tudo o que restara fora uma mulher violenta, com potencial o suficiente para destruir nosso planeta num estalar de dedos. Matei você. Era o único jeito. Aquilo me fez surtar com Banner, Fury e com todos, acreditando que ninguém se empenhava o suficiente para salvá-la. Foi aí que comecei a criar armaduras e mais armaduras, com o objetivo de me fazer atravessar o espaço e ir salvar você.

“Todas as noites, durante dois anos, vim sonhando com você. Ou você morria ou nos matava. Nunca havia um outro caminho, um outro... destino. Era sempre assim. ㄧStark finalmente ergueu sua cabeça para me encarar nos olhos e, franzindo o cenho, prosseguiu: ㄧE aí você voltou dizendo não ser mais você. E isso só me apavorou ainda mais. E se... Foram essas duas palavras que ficaram me perseguindo a todo instante durante nossa viagem. E se você fosse uma ameaça? E se, de repente, você surtasse e resolvesse me matar? E se eu te irritasse tanto a ponto de você decidir me matar?

ㄧFoi isso o que você fez na estrada, então? ㄧindaguei, sem julgamentos, apenas buscando entender ㄧEstava me forçando a revelar quem eu realmente era? Se eu realmente era... Ellizabeth? Ou se tinha me tornado algo pior?

ㄧOuvi sua voz. ㄧignorando minha pergunta, ele prosseguiu ㄧEu estava numa sala escura, cheia de luzes roxas brilhando e... ouvi sua voz. Ouvi seu pedido. Você queria que eu voltasse. Você implorou para eu voltar. E eu segui sua voz e voltei, Lizzie. Segui você. Não foi Ignis ou Ellie. Aquela era você. Minha Lizzie, minha amiga. Minha irmã.

ㄧTony...

Não sabia bem o que dizer naquele momento, mas parecia que ele não precisava que eu falasse, pois, sem esperar, ele continuou:

ㄧRogers estava errado quanto à eu ter desistido de te salvar, Lizzie. Eu não desisti. Só busquei outros meios. Não existe uma fenda na Terra que poderia nos levar à Asgard. Mas existe tecnologia nova. Os Chitauris trouxeram esse monte de novas tecnologias que passei a usar em diversas armaduras até que uma fosse capaz de me levar até você e salvá-la... ou ficar lá para te apoiar enquanto arrancavam de você a única coisa que poderia te impedir de ser humana: Ignis.

Algumas pequenas gotículas de lágrimas se formaram entorno dos meus olhos, mas eu fiz o máximo de força que pude para impedi-las de escaparem.

ㄧMas você voltou. Não precisei ir atrás de você. E não foi a Ignis que voltou. Foi você. A minha Ellizabeth. ㄧum sorriso quase que fraco fugiu de seus lábios ㄧTudo bem, com certeza você ainda se imagina como Ellie, mas Lilly, ainda é você. Não conheço essa Ellie, mas tenho certeza de que ela jamais teria força o suficiente para me apoiar num momento como esse. Ela nunca optaria por salvar a vida de uma nação inteira ao invés de correr e viver uma vidinha normal. Essas são escolhas da minha Ellizabeth. Da mesma mulher que me fez mudar de ideia e lutar contra Loki, ao lado da S.H.I.E.L.D.. Da mesma mulher que me apoiou em momentos delicados como ao ataque do Vanko, e que agora está aqui, exatamente ao meu lado, pronta para destruir Mandarin, que está sei lá quantos quilômetros de distância de nós.

“Então, por favor. Para com essa coisa insuportável de achar que você não é mais você. Eu já tô de saco cheio desse papo e não cola mais essa história.

Se eu fosse uma mulher extremamente frágil, iria me comover tanto com aquelas palavras ao ponto de chorar no ombro de Tony e agradecer por ser tão bom amigo, porém eu não era assim. Era claro que, simplesmente havia um quê maior dentro de mim que adorava causar discórdia e discussões.

ㄧVocê simplesmente não sabe pelo o que eu passei, Tony.

ㄧNão, não sei. ㄧele concordou, aumentando um pouco seu tom de voz ㄧE você, sabe pelo que passei, Ellizabeth?

ㄧSei que as coisas não devem ter sido fáceis aqui após a guerra, mas-

ㄧNão. Não estou falando disso. ㄧele discordou freneticamente com a cabeça. ㄧVocê sabe tudo o que passei até chegar aqui? Tudo o que perdi, tudo o que sofri. Quantas ameaças recebi só por carregar o sobrenome Stark. Eu quase fui morto por um homem que acreditava ser da família. Eu tenho estilhaços no meu peito e carrego isso diariamente comigo. Você me vê mudar? Me vê reclamando? Ou me vê lutando e procurando uma forma de vencer todos os dias? É isso que é ser humano, Ellizabeth. Não dá para simplesmente dar as costas para o passado. Você precisa enfrenta-lo. Está chateada porque não é mais uma meta humana qualquer? Supere. Está enjoada do seu nome? Aceite. É o que você é e ponto final. Aceite sua realidade. Eu aceitei a minha, anos atrás, quando percebi que precisava conviver com minhas escolhas e mudar. Evoluir. Você me viu mudando de sobrenome quando decidi não fabricar mais armamento pesado? Me viu tornar-me um Stan, Austin ou Daniel Scott da vida? Não. Eu aceito minhas raízes, aceito quem eu sou. Eu sou Anthony Stark. Isso é o que eu sou. E você, Ellie. Quem você é?

ㄧEu não faço a menor ideia.

ㄧVocê é Ellizabeth Fury. É essa quem você é.

Notas finais
Ela. É. Ellizabeth Fury. O que acharam desse capítulo?? Eu tô sentindo que a cada passo nos aproximamos de um desfecho surpreendente dessa coisa de ser ou não ser, né? E aí, o que será que esses dois farão logo após essa conversa intensa? Tony abriu seu coração e mostrou que dá pra viver uma nova vida, assumindo quem realmente somos, não é mesmo? Eu acho que não existiria alguém melhor para abrir os olhos da Lilly do que o Tony, gente. De verdade. Nos vemos nos comentários? ♥