Heart and Soldier

23 Capítulo 23 - Realidade


Ela abriu os olhos e viu estar sendo carregada pelos braços de um homem. Eles andaram até chegarem num acampamento por perto e ele deixou-a se sentar perto de um riacho do lado de uma barraca. Frisk viu que ela foi parar num acampamento de alpinistas e todos tinham equipamentos próprios para escalar o monte. Ela viu a vista do monte Ebbot e tentou se lembrar do por que ela estava ali, porém, sua mente estava completamente vazia. Ela não estava conseguindo se lembrar da ultima vez onde ela esteve. Quando ela colocou as mãos no rosto, eles se sujaram com terra molhada e Frisk se sentiu fraca e com sede. Minutos se passaram e uma mulher se aproximou dela, trazendo um copo de água e segurando uma toalha em suas mãos. Ela entregou o copo para Frisk e se aproximou do riacho para molhar a toalha e limpar o rosto de Frisk.

Frisk: ... Onde eu estou?

Mulher: Nós vimos um grupo de alunos fazendo um passeio perto do monte e vimos que você se perdeu deles.

Homem: O que estava fazendo por aqui sozinha?

Frisk: Eu...

Ela estava tentando se lembrar, mas algo estava bloqueando a mente dela. Por mais que ela tentasse, ela não conseguia se lembrar de forma alguma e ela sabia que era muito importante.

Mulher: O que era?

Frisk: Eu... Não me lembro...

Mulher: Bem, parece que foi só um sonho, não é?

Frisk: Mas... Era muito real para ser um sonho...

A mulher terminou de limpar seu rosto e foi pegar faixas para enfaixar suas feridas. O que ela sentiu foi algo tão nostálgico, imediatamente ela tentou se lembrar de alguém, mas novamente, sua mente estava bloqueada. Ela começou a tremer, frustrada.

Mulher: Não se preocupe, vou curar você.

Frisk: Não é isso... Obrigada por me ajudar.

Aquelas palavras... Ela sabia que havia ouvido isso de algum lugar. Após a mulher terminar de enfaixar as feridas, ela deixou o lugar e Frisk ficou ali, sozinha. Ela passou esse momento de silêncio chorando silenciosamente, como se soubesse que alguém que ela conhecia tinha deixado-a.
Após se recuperar, Frisk foi guiada pelo casal que a ajudou até chegar a sua turma de excursão. Ela andou pela floresta e viu os alunos procurarem por vários cantos da floresta por onde ela estava. Quando todos a viram, eles correram até ela, preocupados e aliviados em ver que ela estava bem. Seus professores não a repreenderam, eles inclusive mostraram preocupação quando a abraçaram. Porém mesmo cercada, Frisk se sentia sozinha naquele lugar, não era ali onde ela sentia que devia estar. As palavras deprimentes ecoaram em sua mente.

Frisk: “Uma hora, todos temos que acordar.”

Voltando para casa, seus tios receberam a notícia e se desesperaram perguntando-a se ela estava bem, eles também notaram ela estar machucada e com faixas. Eles a abraçaram como se não tivessem visto-a faz meses. Frisk não hesitou e abraçou-os também, sem vontade, ela se sentiu estranha naquele lugar. Eles perguntaram se ela queria comer algo, porém, ela recusou e foi ao seu quarto.
Ao se deitar na cama, Frisk não conseguia dormir, mesmo virando para os lados e abraçando seu travesseiro com força, ela queria desesperadamente tirar seu tormento e conseguir dormir. Ela continuava se perguntando como tudo isso aconteceu, repetindo para si mesma que não era ali onde ela devia estar. Depois de algumas horas lutando contra seus pensamentos, ela finalmente conseguiu dormir.
Quando Frisk acordou, ela viu sua cama e seu quarto ao redor e ela ainda se sentia estranha naquele lugar. Toda essa dúvida que preenchia sua mente deixou-a muito desanimada e ela teve que juntar o pouco de ânimo que restava, indo para a escola. Durante a aula, ela somente ficou fazendo rabiscos pelo caderno, sem prestar atenção na aula. Ela continuava tentando se lembrar do que havia acontecido durante o passeio no monte Ebbot, mas a unica coisa que ela e lembrava era de ter se perdido no caminho e caído no chão após tropeçar tentando escalar um muro. Realmente era apenas isso que havia acontecido? Ela não se sentia satisfeita, mas o que ela podia fazer? Ela não sentia que pertencia a esse lugar e não havia ninguém que a entenderia. A insegurança e a depressão começaram a se manifestar e Frisk se recusava a conversar com qualquer um, até mesmo com seus tios.
Já seus tios viram que Frisk estava diferente e tentaram se aproximar dela, conversando mesmo contra sua vontade. Ela não podia continuar assim, e Frisk sabia disso. Conformada com o que eles falaram, realmente não era justo ela continuar pensando em algo que ela não irá se lembrar, ela havia voltado à realidade e só isso importava agora. Aos poucos Frisk decidiu fazer isso e focar somente onde ela estava agora. Não restava mais nada, uma hora ela iria encontrar um lugar onde se encaixaria. Pensando nisso, ela foi ver animes de noite e caiu no sono em sua escrivaninha.
Em seu sonho, ela começou a ter vários flashbacks. Ela viu um lugar coberto de neve, com várias casas de madeira e pedra ao redor, e ela podia ouvir pessoas rindo e conversando entre si. Frisk podia sentir algo forte e nostálgico ali, ela conhecia esse lugar. Ela decidiu averiguar mais e de repente alguém a chamou pelo nome. Quando ela se virou para ver quem a chamou, ela viu um monstro negro com olhos brilhantes e garras, tentando pegá-la. Imediatamente ela pulou atrás e caiu numa masmorra construída com tijolos roxos e vários enigmas tinham que ser resolvidos naquele local. Ela saiu daquela masmorra e se deparou com um grande abismo á frente dela. Antes que ela percebesse, várias vinhas empurraram-na e ela caiu naquele abismo profundo, fazendo-a acordar assustada.
Ela logo percebeu que não tinha ido dormir na cama e, intrigada, ela não tinha ideia do por que ela havia sonhando com isso. Aquele sonho fez ela se lembrar do monte e por alguma razão, ele estava fixo em sua mente. Ela se perguntou se realmente aconteceu algo que a fez pensar tanto assim no monte Ebbot, e se tinha, ela sentiu que deveria saber.
Frisk começou a pensar sobre o que aquele monte tinha de tão importante. Com muito esforço, ela se lembrou dos seus professores dizerem que aquele monte guardava uma lenda. Isso a fez pular da escrivaninha e se arrumar para sair de casa rapidamente. Ela não teve tempo de explicar a seus tios sobre sua correria. Ela sentiu que não havia nada no mundo que fosse mais importante do que saber a verdade agora. Frisk saiu dali, com urgência até a biblioteca central da cidade. A biblioteca tinha dois andares, preenchidas de estantes e livros de todos os tipos, cada estante classificada em categorias. Frisk procurou na parte de histórias e lendas e começou a procurar os livros. Após um tempo, ela encontrou um livro com a foto do monte estampado na capa, Pensando que esse poderia ser o livro que ela procurava, ela pegou e se sentou em uma mesa para folheá-lo. Abaixo da foto tinha sua descrição geográfica e mais a frente ela achou a descrição da lenda:

“Dizia a lenda que havia um reino onde humanos e monstros viviam em paz...”

Enquanto lia essa frase inicial, ela sentiu ter descoberto algo: “monstros”. Quando ela viu as ilustrações contidas, Frisk sentiu que eles não eram como os artistas imaginaram que eram: feios e agressivos, com garras, chifres e mandíbulas que desfiguravam-os; Ela sentiu que os conhecia como criaturas com distintas personalidades assim como os humanos. Mesmo não sabendo de onde ela tirou isso, ela continuou a ler.

“No reino humano, havia um rei que governava seu povo com sabedoria, todos o admiravam pela forma que ele governava, ele inclusive criou uma aliança com os monstros e permitiu que eles andassem livremente pelos dois reinos. Um dia, o rei concebeu um filho, na noite em que ele nasceu o céu se encheu de estrelas, sendo um sinal que ele seria o escolhido a receber o presente sagrado, a herança que os magos guardavam, estando a chegar a seu reino e entregá-lo. Ansioso, o rei recebeu os magos e o povo festejou a chegada de um milagre.”

Frisk se perguntou que tipo de presente o filho do rei receberia, se era algo divino, ela imaginava as cenas passando pela sua cabeça enquanto continuava lendo.

“Ao chegar a seu aposento, os magos olharam nos olhos da criança e ficaram intrigados, eles previam uma maldição que chegaria a esse lugar se o filho do rei recebesse a herança. Por conta disso, eles decidiram não entregar o presente destinado. O rei, vendo isso, entrou em desespero e implorou aos magos que entregassem o presente, em vão. Eles deixaram o lugar e foram buscar outro herdeiro.
Andando pelo reino dos monstros, eles encontraram uma família que acabara de conceber um filhote. Ouvindo o choro, eles entraram na casa para conhecer a criança e eles viram um semblante de pureza e luz nos olhos dela. Encantados, eles decidiram abençoá-lo para ser o próximo “monstro chefe”, tendo a promessa de que ele seria o novo governante. Quando o rei soube da notícia através de um espião, ele ficou cego de ira e declarou guerra aos monstros, quebrando a aliança. Os humanos venceram a guerra e expulsaram os monstros no subsolo. Vendo essa situação desesperadora, os magos decidiram esconder o artefato acima do monte onde estavam os monstros e selaram-no através de uma barreira mágica, selando os monstros nesse destino. Eles também decidiram selar suas almas para proteger o artefato e guiar quem viesse a ser o escolhido. Aqueles que ouviram sobre a lenda e tentaram escalar o monte, nunca mais retornaram.”

Frisk ficou preocupada após ler isso, pensando no que os monstros sentiram após a guerra. E ela logo entendeu porque o artefato era tão desejado. Por ser um presente divino, ela queria mais explicações sobre o que era aquele artefato. Frisk folheou o resto do livro e ele não explicava mais nada sobre o artefato com mais precisão. Insatisfeita, ela devolveu-o na estante e procurou outro livro que explicasse melhor. Durante algum tempo, ela ficou procurando e se sentindo desesperada por não encontrar nada, ela não se deu conta de que havia alguém do lado dela. Ele a interrompeu gentilmente.

Senhor: Olá... Imagino que esteja procurando por este livro.

Assustada, ela se virou para olhar o senhor que estava segurava um livro e ele estendeu-o até ela. Era um livro velho que tinha a imagem de uma estrela de oito pontas atrás e um coração estampado, ela encarou o livro de tal maneira que a deixou sem resposta, aquela imagem era muito familiar.

Senhor: ... É esse que você está procurando?

Frisk: ... Onde o encontrou?

Senhor: Eu estava lendo ele mais cedo e já terminei. É bom ver uma jovem que goste tanto de ler histórias, este com certeza é uma de minhas favoritas.

Ela pegou o livro e sentiu que o tempo havia parado. Ela finalmente estava muito perto de descobrir a verdade sobre o artefato. Ela olhou com tamanha alegria e se virou para agradecer o senhor, porém ele não estava mais lá, parecia ter desaparecido. Atônita, Frisk não tinha tempo para pensar nisso e decidiu levar o livro para ler em casa, estava ficando tarde e ela estava morrendo de fome.
Ao chegar, seus tios perceberam que ela estava mais feliz, segurando um livro. Eles a convidaram para jantar e perguntaram que livro era esse. Ela fingiu dizendo que estava estudando história e terminou de jantar para ir até seu quarto. Quando ela se sentou na escrivaninha e colocou o livro sobre a mesa, ela respirou profundamente antes de abrir, ela sentia que não era apenas pelo artefato que esse livro estava ali. Dentro dele podia ter a razão a qual ela esteja passando por tudo isso e estava na hora de descobrir. Folheando-o, ela viu uma pequena história, antes da criação da terra.

“Existe uma lenda em que dois seres supremos competiam pela herança. Eles eram os mais fortes dos herdeiros e lutaram incessantemente durante dias, meses e anos. Vendo que um não iria vencer o outro, um deles decidiu criar um acordo em dividir a herança, assim, eles governariam o universo e ambos se tornariam um, completando o poder do artefato. Ambos concordaram e fizeram o juramento de governar o universo com um unico propósito e vontade. O primeiro se nomeou Governador do Dia, o Deus da luz. O segundo se nomeou Governador da Noite, o Deus da Escuridão.
Ao criarem a Terra, o Deus da Luz criou a espécie humana, cheios de vitalidade, força e tinham a imagem e semelhança do seu Deus. E o Deus da Escuridão criou os monstros, seres sobrenaturais e miscigenados, dotados do uso da magia. As duas raças não podiam viver unidas por suas diferenças e instintos e para que cada raça vivesse em paz, o governante do dia propôs que a humanidade acordasse ao amanhecer e que os monstros evitassem a luz. Quando o sol se punha, o governante da noite colocará a lua no céu como um sinal que os humanos devem descansar e dali, os monstros despertarão de seu descanso e admirarão a lua. Assim surgiu o equilíbrio da vida no universo, um Deus não existe sem o outro.
Porém esse equilíbrio começou a ser afetado, os humanos descobriram os monstros e os consideraram criaturas inferiores à sua grandeza. Como resultado, eles começaram a exterminá-los, provocando a ira do governante da noite. Um dia, Ele colocou a lua sobre o sol e amaldiçoou a criação de seu irmão. Quando o governante do dia descobriu o que ele havia feito, ele o exilou na Terra, punido por ter amaldiçoado-os sem seu consentimento, por desobediência à lei e afetado o equilíbrio. Seus poderes foram selados ao artefato e sem o governador da Noite, as trevas se afastaram da luz, trazendo desequilíbrio.
Todo o universo girava perante a luz, porém, o equilíbrio só seria alcançado se a luz e as trevas existissem. Sendo assim, o governador da luz decretou o dia de sua morte e selou seus poderes dentro do artefato. Ordenando seus servos que o guardassem até o dia em que o novo herdeiro surgisse.
Sabendo que o Deus da Luz havia desistido de sua existência, o Governador da Noite, exilado na Terra, jurou se vingar de seu irmão. Ele pretende adquir o artefato e se tornar o novo governante supremo. O sentimento cultivado pelos séculos subsequentes o transformou em uma criatura de puro mal, movido pelo ódio.”

Na página seguinte havia uma imagem de uma taça feita de ouro, decorada com pedras de seis cores diferentes, duas asas nas laterais e uma esfera acima, com a imagem holográfica de uma estrela tridimensional de oito pontas. Abaixo, a descrição afirmava que esse era o objeto lendário que os magos carregaram e seu funcionamento.

“... O escolhido poderia controlar as linhas temporais e alterar o espaço-tempo, ele é capaz de alterar a história do planeta e tornar-se o novo Deus. O artefato é destinado somente a alguém com tamanha determinação, sendo esse poder capaz de controlá-lo.
Para que a profecia seja cumprida, o artefato escolherá o sétimo guardião e através de sua escolha, ele estará apto a herdá-lo. Seus poderes são revelados somente através dos sinceros desejos de seu coração. Este será um teste para saber se o escolhido é realmente o herdeiro.”

"... Para herdá-lo, ele deve estar pronto.”

“Os magos representam as seis almas que protegem o artefato, também chamados de guardiões. Ao selarem o artefato no monte, eles também selaram suas almas, para serem despertados no momento em que o sétimo guardião despertar. Eles guiarão o escolhido até cumprir sua missão.”

Era muita informação para guardar, Frisk decidiu fechar o livro e se sentiu exausta. No fundo, ela sabia do que o livro estava falando, vendo que fazia sentido. Ela começou a se lembrar do sonho em que aquele portão era onde o artefato estava guardado. Os locais por onde ela passou em seu sonho eram tão reais que ela acreditou ter passado por lá.

Frisk: “... Se eu realmente estive lá... por que não me lembro de nada?”.

Decidida a tentar se lembrar, Frisk pegou uma folha branca e começou a desenhar os monstros que ela imaginava ter visto. Ela desenhou um casal com cabeça de cabras, um monstro meio-peixe que se mostrava valente, uma lagarta tímida, um robô com muito estilo e charme, um esqueleto alto e carismático e outro baixinho e engraçado. Ela se imaginou sendo seus amigos e ela sentiu saudades de ouvi-los, ao mesmo tempo, ela tentou se lembrar da voz deles e desejou do fundo do coração revê-los, mesmo que por pouco tempo.
Depois de muito tempo imaginar como era sua vida com eles, ela acabou caindo no sono e dormiu na mesa onde estava. Algumas horas depois, seu celular tocou várias vezes e ela não atendeu, quando caiu na secretária eletrônica, nele surgiu uma voz.

“E aí? Alguém aí?... Bem, vou deixar uma mensagem.”