Heart Out
1 Capítulo I
Notas iniciais
[história antiga, rápida, curta e não revisada, mas feita com todo amor que eu tinha pra dar]
Dizem que todas as mulheres possuem um sexto sentido. O meu, com toda a certeza do mundo, era sentir o cheiro de confusão. Eu identificava problemas com uma facilidade absurda! E vinha da minha consciência atirar-me a eles ou evitá-los ao máximo.
As consequências da minha primeira opção, minha alternativa predileta quando o assunto eram namoros e relacionamentos, eram lágrimas e mais lágrimas. Uma depressão arrebatadora que durava, aproximadamente, três dias. Eu estava no chão do closet com fotos jogadas enquanto Sophia batia na porta freneticamente.
Se a teoria toda do sexto sentido era real, Sophia tinha um dom para identificar quando aqueles que ela queria que se mantivessem protegidos estavam mal. Era quase materno.
— Vou contar até 20! Ou você abre a porta, ou eu arrombo essa droga… I Swear! – ela gritava.
Eu abri a porta, eu tinha noção do quão forte e louca ela era. Ela me abraçou e me senti protegida. Eu me encaixava em seu corpo muito mais alto e forte que o meu e ela parecia tenta reunir meus pedaços e montar-me outra vez.
— Eu juro por Deus que vou acabar com a raça dela! Pipes, por favor, não fica chorando por uma imbecil qualquer! – ela dizia com tanta raiva que eu tive de rir. – Quem ela pensa que é para fazer-te mal? Eu vou matar essazinha…
Eu não sabia lidar com as crises de raiva de Sophia. O seu lado de garota barraqueira e revoltada era quase que constantemente ativado, como uma força maligna que toma conta de você. Eu normalmente a impedia de bater alguém ou abrir a maior confusão.
— Sophia, agora que cê já me fez rir… Você pode me deixar chorar e cantar “Thinking Out Loud” bem alto? – eu disse, me jogando de novo na cama e afundando o rosto na cama. – Eu nem gostava muito dela, mas, porra, negar um pedido de namoro e me largar como se eu fosse nada depois de 6 meses? – eu disse, tentando secar as lágrimas.
Eu odiava como eu me jogava nos relacionamentos de cabeça e sempre acaba do mesmo jeito, mas não era como se eu aprendesse com meus erros. Felizmente. Num vacilo desses, quando voltei a olhar pra Sophia, seus lábios se estendiam em um sorriso claro.
— Você vai cantar alto, bem alto… — ela disse e finalmente, abriu o sorriso.
Era óbvio que ela tinha tido uma ideia e que não era a melhor dentre as ideias, mas o que eu poderia fazer? Minha namorada havia partido para Londres. Eu havia pedido-a em namoro e sido terrivelmente rejeitada em um aeroporto. Despedimos-nos com um “se cuida” e “depois a gente conversa!”.
— Nós iremos dar uma festa! – Sophia disse alto como se aquela fosse a revelação do ano, e pra mim foi.
— O QUE? – eu disse assustada.
— Sim, claro. Você acabou de voltar à cidade Nova York, viveu toda a sua infância e adolescência aqui, e foi embora pra Chicago fazer sei-lá-o-quê. Esse é seu lugar e vamos comemorar a sua volta!! – ela batia palmas e já procurava algo no celular alucinada. – Eu vou chamar todos por quem você teve uma paixãozinho na sua vida pra essa festa! – ela
Dar uma festa. É! Não fazíamos isso desde o Ensino Médio e dada a circunstância, uma festa parecia uma ótima forma de superava a rejeição e a tristeza com a qual eu lidava.
Mas eu ainda não concordava totalmente. Sophia era intensa demais. Essa festa provavelmente renderia notícia, renderia barracos, festival de climão, saias justas diversas, fotos escandalosas, tudo demais! Podia eu dar-me o luxo de deixar passar a maior, e talvez melhor, festa do ano?
— E nem adianta dizer não! Daremos uma festa… Eu darei uma festa linda e enorme. – ela falava com os olhos brilhando. — E vou começar agora! – ela anunciou deslizando os dedos sobre a tela.
Eu ainda mantinha o pé atrás com aquela decisão. A alegria e diversão que minha amiga desfrutava era hilária e começava a me encantar… E eu me deixava levar.
Ela disse que a única coisa que eu deveria fazer era ficar linda e que ninguém que olhasse no fundo dos meus lindos olhos deveria enxergar mínimos traços de que chorei. E eu aceitei aquela frase como um desafio. Essa festa seria minha volta por cima definitivamente.
Sophia saiu do meu quarto e eu curti um tempo minha cama e minha falsa depressão, adormeci entre as últimas lágrimas que derramei por uma babaca australiana tatuada, repetindo que tudo o que senti era pelo meu orgulho ferido.
Quando acordei, as janelas enormes do quarto demonstravam a noite linda que vestia o céu. O mundo parecia colaborar com a house party de uma das mais baladeiras e bem sucedidas atrizes da cidade. Tomei meu banho e a música parecia tornar-se cada vez mais agitada com o passar das horas.
A música alta já era ouvida quando comecei a me arrumar. Abri o guarda-roupa e, pela primeira vez em três meses, eu entendia o que Bursett queria dizer com “você tem roupas demais!” – o que era um absurdo, já que o closet dela era 3 vezes maior do que o meu. Eu resolvi usar um vestido branco com detalhes pequenos cujas costas possuíam um decote em “V”. E, nos pés, um dos saltos altíssimos que eu usava em tentativas falhas de alcançar a altura da minha companhia.
Eu me maquiava quando, na porta, as primeiras batidas puderam ser ouvidas, muito mais suaves do que de manhã.
— Pode abrir… – eu avisei enquanto terminava de passar a base, escondendo as imperfeições.
Ela entrou. Linda e extremamente bem vestida.
Sophia, cinco anos depois, aos 25, sabe-se lá como ficou ainda mais bonita. Ela vestia um vestido preto apertado e neutro, mas que eu podia jurar que custava 2 vezes o meu salário. Seu cabelo castanho tinha um tom castanho na raiz e quase loiro nas pontas, sua maquiagem parecia mais suave do que o usual, e seu sorriso poucas vezes brilhou tanto.
Eu continuei esfumaçando os olhos e sorrindo dela, que admirava cada gesto meu, sem emitir som algum. A festa rolava em nossa sala e nós ali, num momento tão cúmplice que dispensava palavras. Terminei com ela rindo de algo e me fazendo rir. Falávamos deliberadamente e nem notávamos quando o assunto inicial se perdera…
Ela me puxou pela mão e fomos até a sala. Eu conhecia cada um dos presentes até o momento. Eram doze pessoas, todos amigos de festas de Sophia, porém enquanto isso mais pessoas chegavam…
Sophia não apostou em decoração, e sim em iluminação. Cada ambiente tinha a sua própria e tínhamos um DJ, além de garçons com bandejas repletas de comida e bebida. Morar com uma atriz nunca tinha passado pela minha cabeça, mas fazer o quê, se antes mesmo de ter uma profissão, ela já era minha amiga? Agora estávamos ali, com a casa prestes a ser preenchida por uma massa de pessoas que eu sequer imaginei ter ao meu lado outra vez.
A verdade é que desde uma quente despedida até uma fria recepção ou de uma quieta solidão até uma companhia surpresa, a noite não espera por ninguém. E tudo o que eu queria era esquecer o que havia passado e ter esperanças de que a minha noite fosse a melhor possível.
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