Heart Of Courage
2 Why does it feel like night today?
Notas iniciais
Benton Harbor – Michigan
Clínica Psiquiátrica de Benton Harbor
22 de Setembro, 2012 (Começo do Outono Boreal)
Brooke Davis caminhou rapidamente pelos corredores, sentindo o coração apertar em angústia dentro de seu peito. As paredes todas brancas às vezes sufocavam-na, a ponto de se sentir claustrofóbica. Era tudo branco demais, limpo demais. Antinatural demais. A clínica tinha o mesmo cheiro que todos os hospitais que já visitara: uma mistura de álcool, produtos de limpeza e algo parecido com desesperança. Como médica e psicóloga, seria de se esperar que Brooke fosse acostumada a isso. Às doenças, à falta de esperança de muitos de seus pacientes, ao sabor amargo e mórbido da tristeza que exalava deles. Mas ela, definitivamente, nunca acharia isso normal. Apesar de ser uma médica bem-sucedida, e bastante conhecida naquela parte do estado, a mulher era jovem. E com seus pouco mais de 32 anos, tentava exercer a profissão que escolhera: salvar as pessoas de seus próprios monstros.
Ligeiramente ofegante, a morena parou em frente a uma das inúmeras portas da clínica, e observou-a com um suspiro. Era normal, lisa, e branca; como todas as outras. Não havia nada que a diferenciasse, que chamasse atenção.
Mas Brooke sabia — bem lá no fundo, ela sabia — que o paciente que se escondia naquele quarto era, de longe, o mais estranho que ela conhecera, o mais indecifrável. Estava ali há bastante tempo, já; chegara cerca de dois anos antes de ela se formar e começar a trabalhar na clínica. Corriam vários boatos — muitos deles nada lisonjeiros — sobre ele entre os funcionários, mas Davis preferia não dar ouvidos a eles. Se havia uma coisa que a morena sabia fazer, era ler as pessoas. Observando suas expressões, suas manias, ela saberia julgar o caráter de uma pessoa. Saberia dizer se alguém lhe contasse uma mentira.
Mas Dean Winchester? Dean era total e absolutamente sincero; era como um livro aberto. Tudo que ela lhe perguntava, o garoto respondia sem medo, encarando-a nos olhos. Ele nunca negava nada que ela lhe pedia pra fazer, ele nunca questionava nada que ela lhe dissesse. Seu jeito comumente aéreo e distraído? Tudo fachada! Uma vez, alguns anos atrás, Brooke lhe perguntou por que ele fingia não estar prestando atenção nas coisas que os outros faziam. Dean a encarou com um sorriso doce, e respondeu suavemente:
— Nós não temos olhos pra ver, nós não temos bocas pra falar, nós não temos ouvidos pra ouvir. Ninguém liga para um louco, Doutora.
E assim, sem mais explicações, calou-se, e pôs-se a observar a janela com um olhar perdido. Brooke não entendeu o que ele quis dizer, porém não questionou. Permaneceu em silêncio ao lado do garoto, até que a sessão estivesse terminada.
Dean não era como muitos dos pacientes daquela clínica. Ele não era violento, não era insano, não era perigoso, e muito menos parecia ter alucinações sobre o que quer que fosse. Chegava a ser lúcido demais, até.
O que uma pessoa como ele estava fazendo ali?
–--v---
Sentado numa cadeira em frente à janela aberta, Dean ouviu quando a Doutora Davis abriu a porta. Quase podia vê-la, com os cabelos castanhos caindo em cascata pelos ombros, o uniforme branco de médica impecável como sempre, inclinando o rosto em sua direção, tentando adivinhar se atrapalhava algo importante.
Mentalmente, o louro sorriu.
Ele gostava dela. Gostava, porque ela não o tratava como todos os outros faziam, ela não o tratava como um louco — ele não era um louco. A Doutora sempre o tratava como se ele fosse como qualquer um de seus pacientes. Talvez até mesmo um garoto normal, com uma vida normal. Não fazia muita diferença; ele era normal, não era?
— Dean? — a voz da morena tirou-o de seus devaneios, e o Winchester se virou para ela, sem fazer menção de que se levantaria.
— Bom dia, Doutora. — respondeu educadamente, a sombra de um sorriso no rosto. Apenas a sombra. Já fazia algum tempo que desaprendera a sorrir; não era uma coisa tão natural quanto costumava ser no passado.
— Pronto para começarmos a sessão de hoje? — a mulher sorriu-lhe com certo carinho, pegando uma cadeira que estava no canto do quarto, e sentando-se ao lado do louro.
O garoto deu de ombros, sem responder. Pronto ou não, ele teria que participar da sessão, não era? E além de que, ele sempre estaria pronto pra esse teste. As mesmas perguntas idiotas de sempre, os mesmos questionamentos sobre sua sanidade mental...
—... — tomando seu silêncio como um sim, Brooke assumiu a postura de médica, e logo começou aquela costumeira rotina: — Como está se sentindo hoje, Dean?
—... Normal. Como em qualquer outra situação. Como em qualquer outro dia. — deu de ombros novamente.
“Isso realmente é necessário?” era o que se perguntava, mas não permitiria que as palavras escapassem de seus lábios. Se havia uma coisa da qual tinha certeza, era que nunca devia questionar nada que lhe mandassem fazer. Quanto menos atenção ele chamasse, menos eles o encheriam daqueles remédios horríveis que precisava tomar sempre que dizia algo sem sentido.
E talvez — só talvez —, quanto menos ele se enfurecesse, mais rápido pudesse voltar pra casa.
John e Sammy se mudaram — para mais distante do que ele gostaria — pouco depois de o pai interná-lo naquela clínica. No começo, iam visitá-lo sempre. Todo final de semana, Sammy e John estavam lá pra lhe fazer companhia. Ele chorava, e implorava, porque queria ir embora. Porque queria ficar perto deles, porque queria voltar pra casa.
“Você não me ama mais?” ele perguntava ao pai, e John o abraçava com carinho.
“Eu te amo, meu filho, e nunca vou deixar de te amar.” O homem lhe explicava, afagando seus cabelos. “Mas existem certas coisas que estão fora do meu controle... Por enquanto, você precisa ficar aqui. Entende isso, Dean? Eu preciso que você fique aqui.”
Quanto mais o tempo passava, menos as visitas se tornavam frequentes. Até que chegou um ponto, em que John simplesmente lhe mandava cartas, e achava que tudo estava bem. Dean várias vezes se perguntou se por acaso Sam concordava com aquilo; mas nunca chegou a responder as cartas pra saber. John não precisava delas, o hospital mantinha contato com os responsáveis pelos pacientes, se estes não pudessem estar sempre fazendo visitas. O que talvez fosse o caso de seu pai, ele também não sabia ao certo.
Quase sem perceber, respondia automaticamente às perguntas que a Doutora Brooke fazia. Percebeu que a sessão acabara apenas no momento em que a morena se levantou, com um sorriso gentil nos lábios. Observou-a durante alguns instantes, antes de voltar o olhar para a janela aberta.
— A sessão acabou por hoje, querido. — Brooke continuou a encará-lo por algum tempo, e então, suspirou. — Tem alguma coisa que deseja me falar, Dean?
O louro umedeceu os lábios, inquieto. E então, repentinamente, sorriu.
— Está vendo aqueles pássaros, Doutora? — ele apontou para fora da janela, nos galhos de uma árvore que ficava próxima ao seu quarto, dois pássaros sobrevoando um ninho. Até aquele momento, Davis não havia percebido, mas acenou positivamente com a cabeça. Dean continuava sorrindo. — Um dia, mesmo com estas asas quebradas, eu vou ser que nem eles. Vou ser livre.
Brooke respirou profundamente, reprimindo um soluço. Virou as costas para Dean, esticando a mão e acariciando rapidamente os cabelos louros do garoto. Seu lábio inferior tremia.
— É. Algum dia.
Notas finais
Era muita sacanagem o que o Lucas fazia com ela -Q
Ah, e só pra constar, Outono Boreal é como chamam o Outono no Hemisfério Norte ;)
Também gostaria de dizer que não tenho quaisquer conhecimentos sobre como cuidam dos pacientes em clínicas psiquiátricas. Até joguei no Google, mas ele insiste em rir de mim, porque as respostas não tem nada a ver com o que eu procurei... Enfim! Tomei, novamente, a liberdade de escrever as coisas como eu imagino que sejam. Então, é, Dean tem acompanhamento psicológico.
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