He Is Weak
1 Unique
Eu ria. Sem saber exatamente o porquê da ideia me parecer tão absurda e impossível, eu ria. Ele me fitava com o cenho franzido, parecendo nervoso e irritado ao mesmo tempo, e, quanto mais eu desejava confortá-lo, menos isso me parecia possível; o ataque de risos só fazia aumentar a cada olhar que eu lançava em sua direção.
– Lucy – ele disse, e consegui ouvir a irritação em sua voz. – Eu estava falando sério. Eu voltei-me em sua direção, cobrindo o sorriso com a mão esquerda, e voltei meu olhar para as unhas compridas e pintadas de vermelho da mulher estendida no chão. Foi então que eu fitei-o outra vez, e tive uma súbita vontade de rir. De novo.
– Eu sinto muito, mas é só que... isso é tão mórbido – disse, deixando escapar uma risadinha por entre meus lábios antes de enterrar meus dentes nos mesmos, contendo uma gargalhada e sentindo o gosto de sangue na boca. Eu soltei meu peso sobre a mulher no chão, e sangue espirrou nas minhas vestes. Paul não soltara a aliança, assim como não soltava as chaves de seu precioso carro.
– Que lugar melhor para um pedido de casamento psicopata, Lucy? – ele indagou, mas pude notar que ele também se continha para não rir. Ele se aproximou de mim e roçou seus lábios nos meus, e eu dei um sorriso de lado entre o que eu não poderia chamar exatamente de beijo. Paul se afastou, ajeitando os cabelos loiros, e deu um sorriso atraente na minha direção, mas eu apenas arqueei a sobrancelha. – Ah, Lucy. Pelo amor de Deus. Você acabou de cumprir sua missão principal desde quando está no mundo do crime, não lembra? Vamos lá, nós temos que comemorar com alguma coisa. Qualquer coisa.
Revirei os olhos para o sorriso malicioso dele e dei a volta no carro, abrindo a porta do passageiro e entrando por ela, gesticulando para que ele fizesse o mesmo e nos levasse para longe dali. Quando ele entrou na caminhonete nova, pousei a mão sobre sua perna direita, e ele me encarou em dúvida, mas apenas deu de ombros e deu partida. Algum rock pesado tocava no rádio, me fazendo cantarolar junto, e provavelmente irritando Paul. Mas tudo bem. Irritar Paul era uma das minhas funções.
– Para onde estamos indo? – indaguei, mas Paul negou com a cabeça e não respondeu. Ele desviou-se da trilha principal, entrando na floresta; alguns minutos depois, chegamos a uma clareira que me permitia ver a lua cheia. Eu dei um sorriso de lado; ele sabia que era o tipo de coisa que eu adorava ver. Ultimamente, Paul prestava atenção demais em mim e nos meus gostos. Será que ele conhecia meus gostos, por assim dizer, mais... íntimos?
Bem, eu não duvidava muito.
Ele parou o carro no centro da clareira, saltando da caminhonete e dando a volta para abrir a porta para mim. Era engraçado pensar que Paul, uma pessoa tão cruel e sádica a primeira vista, pudesse parecer romântico ou cavalheiro. Desci da caminhonete. Paul tirou sua camisa e estendeu-a sobre o chão para que eu pudesse me sentar, mas eu recusei e sentei sobre o capô de sua caminhonete, fazendo-o revirar os olhos.
Sua irritação por eu estar estragando seu carro não deve ter durado muito, porque ele puxou um cigarro e entregou-o a mim. Puxei um isqueiro da bolsa e o acendi, agradecendo com um aceno de cabeça antes de dar uma tragada. Me perdi nos meus próprios pensamentos por um longo tempo, até o cigarro acabar e eu sentir um toque quente no meu quadril. Paul erguera minha saia o suficiente para poder acariciar aquele ponto de pele, e por um momento desejei que não fosse o único lugar em que ele estivesse me tocando.
Eu mordi o lábio, repentinamente notando que ele ainda estava sem a camisa. Paul tinha um físico definido, olhos verdes e profundos e um cabelo castanho claro, quase sempre desarrumado, o que, devo dizer, só ajudava no quesito aparência. Ele era, como podia dizer?... Irresistível. E, no entanto, escolhera a mim, ainda que ambos considerassem esta uma relação “aberta”, onde podíamos nos relacionar com qualquer outra pessoa. Não éramos apegados, não nos prendíamos um ao outro.
Paul acabara de me pedir em casamento. Eu via a sinceridade nos seus olhos: ele queria se casar comigo, Paul estava apaixonado por mim. E, apesar de ele ter uma beleza estonteante e tudo mais... o sentimento não era nem um pouco recíproco.
Eu não me apaixonara por Paul, e eu não queria perder minha liberdade ao me casar com ele. Eu odiava ter que fazer isso, porque eu o, bem, eu o considerava? Seria essa a palavra certa a dizer? De qualquer modo, eu não queria magoá-lo. Mas precisava.
E foi só então que senti algo frio contra a minha testa. Levantando os olhos, não pude conter um suspiro. De alguma forma, aquele era um momento que não me deixava surpresa de maneira nenhuma; era quase como se eu estivesse esperando por isso a noite toda. Balancei a cabeça muito lentamente, embora não fizesse isto por medo; ter meu cérebro explodido por uma bala não constava na minha lista de fobias.
O lábio de Paul tremia, como se ele estivesse prestes a chorar. Os meus, por outro lado, estavam contraídos em frieza, e meus olhos azuis encontravam-se com os esverdeados dele. Tudo o que meu olhar expressava era frieza, secura, desprezo; nenhuma consideração por ele. Nenhuma manifestação, nem sequer o “sim, eu quero me casar com você” que eu supunha ser o que ele queria ouvir. Aquele pedido de casamento, e a paixão de Paul por mim, eram as únicas razões para eu estar a beira da morte. Um sorriso sádico contornou meus lábios, e foi então que eu notei.
Eu nem sequer o considerava. O que eu sentia por ele não era nada mais além de pena, e uma vontade insaciável de sexo, que, por ser o único homem que ficava ao meu lado vinte e quatro horas por dia, Paul conseguia suprir. Eu não diria o que ele queria ouvir; eu jamais aceitaria me casar com ele. Era preferível morrer.
Paul se culparia pelo resto de sua vida pela morte da amada: eu sentia. Ele era fraco; não conseguia lidar com a própria consciência. Passei a língua pelos lábios, que ainda desenhavam meu sorriso um tanto sádico e sarcástico. Ele entreabriu os lábios para dizer algo, mas, antes que o fizesse, minha expressão de fúria o calou.
– Faça – eu sussurrei; por mais que eu tentasse, aquele sorriso repleto de crueldade não deixava minha face. – Faça de uma vez, Paul.
Ele fechou os olhos, como se não fosse conseguir suportar a cena: como se não suportasse a consequência do que ele mesmo tinha causado. Fraqueza, não passava de fraqueza.
Então ouvi um estouro e toda a luz desapareceu; em um momento eu vi toda a minha vida passar como um filme diante de meus olhos, e no outro eu já havia morrido.
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