He Belongs To Me.
1 love minus zero.
-- Ah, aqui é tão... Underground, Jane. Vamos embora...
-- Lógico que não! Você tá louca?
-- Ah, tanto faz. Você sabe que eu nem queria estar aqui...
Era uma bela noite de dezembro de 1965 e a cidade de Manchester, Inglaterra, ia receber pela 1º vez o Sr. Bob Dylan. O pub underground Rod’s Drink Club estava mais cheio do que nunca. Tinha trazido minha amiga, Michelle para ver o show comigo. Ela era mais do recém nascido Rock n’ Roll, bandas como os Beatles e Rolling Stones, e eu sempre fui do Folk. Meu grande ídolo era Bob Dylan. “Mas quem gosta de Beatles, gosta do Bob também, Michelle!” eu sempre falava. Mas ela não conseguia ver simpatia naqueles olhos, naqueles cabelos, naquela voz... No Bob Dylan. Eu via muita simpatia... Simpatia demais.
-- Ali, o Rod guardou a mesa pra mim! – eu gritei no meio de todo aquele falatório. Peguei a mão de Michelle e a puxei para a primeira mesa, a mais perto do palco. – ROD, VEM CÁ!
-- Oi, Jane! Gostou da mesa que eu escolhi? – Rod era meu amigo de infânciae era muito parecido com Bob. Mas tinha que ser: Os dois eram primos. Rodney Zimmerman era seu nome inteiro. “Eu nem falo com o Robert mais, Leah, nem adianta pedir.” ele dizia sempre que eu pedia o telefone de Bob.
-- Eu adorei! Mesmo! A minha roupa tá boa? Caso ele olhe pra mim...
-- Você está maravilhosa. – eu vestia uma blusa de seda com uma jaqueta por cima com uma saia na altura dos meus joelhos. Os sapatos que eu usava, eu tinha comprado somente para o show. Sapatos de salto lindos.
-- Obrigada, Rod.
-- Vou anunciar o show, já está na hora.
-- Ah, ok, Rod. Depois você vem aqui, certo?
Ele acenou com a cabeça e subiu no palco.
-- E agora, senhoras e senhores, Bob Dylan!
Aplausos comportados seguiram a fala de Rod. Por mais que eu quisesse gritar e pular, me mantive o mais comportada possível.
-- Essa se chama... Love Minus Zero.
Mais aplausos. Ele começou a cantar aquela música que eu considerava a mais linda até agora.
My love, she speaks like silence
Without ideals or violence
She doesn’t have to say she’s faithful
Is she true like ice, like fire…
Com o fim da música, mais aplausos. Não se ouvia ninguém gritando, ninguém chamando o nome de Bob. Não era como os Beatles, que não se podiam ouvir as músicas. A música era o foco das apresentações do Bob Dylan, as pessoas prestavam a cada palavra preciosa que saia da boca dele e era isso que me encantava.
Ele parou para fumar um pouco, como já era habitual. Sentou no banco que havia ali e olhou para platéia. Passou os olhos castanhos por todas as pessoas, demorando um pouco mais em uma pessoa ou outra. Eu não estava esperando ele olhar pra mim. Ele me olharia como ele estava olhando todos ali, como qualquer uma.
Quando ele pousou os olhos em mim, eu estava distraída conversando com Rod, mas pude perceber que ele me olhava insistentemente. Eu olhei pelo canto dos olhos e ele sorriu. Eu fiquei avermelhada com a ideia de que ele havia sorrido para mim. Ele voltou-se para o público, com um sorriso bobo na cara.
-- Essa se chama... Hmm, To Ramona.
Aplausos. Ele começou a cantar mais uma poesia escrita por ele.
Ramona, come closer,
Shut softly your watery eyes.
The pangs of your sadness
Shall pass as your senses will rise...
Enquanto cantava a música olhava para mim sempre. Eu abaixava os olhos e olhava para meu copo já vazio. Eu não conseguia encaixar aquele momento na realidade...
O show se seguiu por mais uma hora e vinte minutos. Ele finalizou a apresentação com The Times They Are A-Changin’.
-- Obrigada a todos. – ele disse, pegando as gaitas e saindo do palco. Pude ver que ele olhou de relance para mim antes de entrar na sombra.
-- Eu vou lá ver se ele quer alguma coisa que eu possa fazer...
-- Ok, Rod. Volte logo.
-- Claro.
Ele se levantou e foi para os bastidores. Aproveitei para dar uma olhada no movimento do bar. Ninguém havia saído sequer se mexido.
-- Você esqueceu de mim aqui? – perguntou Michelle. Ela que me perdoe, mas eu realmente havia esquecido por um momento.
-- Não, não, não... Gostou do show?
-- É bem... Tranquilo, certo?
-- É diferente dos Beatles, isso que você quer dizer.
-- É.
-- Mas é mesmo... Você presta atenção nas letras, nas poesias. Nele também, claro. Mas as músicas têm poesia, são todas lindas. Com certeza, ele é diferente dos Beatles. Não digo melhor, mas diferente. Bob é diferente de tudo... Mas é parecido com o Donovan...
-- Isso é.
Rod vinha voltando para nossa mesa.
-- Jane, o Robert quer te ver.
-- O QUE? SÉRIO?
-- Por que eu brincaria? Eu tô com sono.
Eu dei risada e o abracei. Meu sorriso ia de uma orelha a outra. Arrumei meu cabelo longo, minha saia e minha blusa.
--Tá bom, né?
-- Sua roupa tá ótima... Agora vai lá.
Subi no palco e desci para o camarim. Lá dentro era um lugar pequeno e aconchegante. Já tinha ido ao camarim do Rod’s, mas ele nunca estava cheio.
Desta vez, estava cheio. Bob conversava com Joan Baez, a melhor cantora de folk da época.
-- Ah, aí está você! – disse Bob, como se ele já me conhecesse e estivesse à minha espera. – Sente-se aqui.
Sentei-me ao lado de Bob, sem falar uma única palavra.
-- Quem é ela, Bob?
-- É a garota que eu vi na platéia.
-- Ele está apaixonado por você, garota. – disse Matt, o administrador da turnê de Bob. Ele avermelhou e baixou a cabeça. Eu sorri e olhei para outro lado.
-- É melhor nós deixarmos eles sozinhos, certo? – disse Joan. Matt concordou e um outro cara (acho que era o pianista do The Animals) também. Todos saíram da sala e eu me vi sozinha em uma sala com meu maior ídolo e maior amor.
-- Então... Como é seu nome? – disse Bob, ainda sem olhar para mim.
-- Jane. Jane Stockdale.
-- Jane... É um lindo nome.
-- Obrigada.
O silêncio reinou por um tempo. Não sabíamos o que falar.
-- O que você acha das minhas músicas, Jane?
-- Hm... Acho elas completamente... Perfeitas. Mas de um modo... Que eu não sei explicar. Acho elas lindas, mas de um jeito que eu simplesmente não sei explicar pra você.
-- Acho que eu entendo o que você diz... Você acha elas perfeitas, mas de um modo que não falam tanto de amor...
-- E sim da realidade.
-- Exato.
Ele me olhou com um olhar penetrante, olhou nos meus olhos. Ele observou cada detalhe assim como eu observei o rosto dele. Cada mínimo detalhe era perfeito. Nunca tinha o visto tão de perto e quem sabe nunca veria novamente. Ele colocou o cigarro quase acabado que ele segurava em cima da mesa e passou as mãos por meus cabelos. A sua outra mão, que estava apoiada no sofá, se deteve em minha cintura. Não sei como explicar, mas alguma coisa estava forçando a nossa aproximação. Eu coloquei minhas mãos em volta do pescoço dele, podendo sentir os cabelos encaracolados tocarem-nas. Nossos lábios se tocaram suavemente e me abraçou mais forte. Foi um beijo que durou séculos e ficaria séculos em minha memória. Nos separamos contra nossa vontade, mas nós precisávamos de fôlego.
-- Por que eu, Bob? – perguntei.
-- O que?
-- Por que você me chamou aqui? Você só me viu na platéia. Eu não fiz nada especial.
-- Exatamente. Acho que você não estava prestando atenção, mas todas as garotas que eu olhava, tentavam chamar minha atenção de alguma maneira. Você não. Você quase não me olhou. Só sorriu. Seu sorriso me conquistou. -- Eu sorri novamente. Ele passou a mão pela minha face e me deu um beijo suave.
-- Eu te amo. – Ele me olhou nos olhos novamente e sorriu.
-- Espero algum dia retribuir isso. – eu sorri de volta. Para mim, ele já estava retribuindo. – Agora... Vai lá fora e fale pra sua amiga e pro Rodney que você vai comigo.
-- O que? Vou pra onde?
-- Pra minha terra. Duluth, Estados Unidos.
-- Mas...
-- Você tem que avisar a sua mãe?
-- Hm, não. Minha família mora em Londres. Mas... Eu não esperava isso.
-- Bom, acostume-se a estar em um lugar diferente a cada mês. – Ele sorriu. – Agora vai lá. Vou estar te esperando.
Minha cabeça ainda estava um pouco confusa, mas eu fui lá falar com Rod e Michelle.
-- Rod, Michelle! Eu... Bob... Eu vou pros Estados Unidos com o Bob!
-- O QUE? VAI ME DEIXAR AQUI? – disse Michelle.
-- Eu não estou deixando ninguém, Michelle. A gente mantém contato. – olhei pra Rod. Ele me olhava com um sorriso.
-- Você conseguiu o que você tanto queria, certo?
-- Sim! – ele me puxou para um abraço e puxou Michelle. – Eu vou me comunicar sempre com vocês, ok?
Eles acenaram com a cabeça e eu voltei para o camarim.
-- Ah, vamos então, querida?
-- Claro. Mas e...
-- Os seus pertences a gente pega na sua casa.
Ele me abraçou e me beijou. Aquilo era bom demais para ser verdade. Mas agora eu tinha Bob e ele era tudo para mim. Ele pertencia a mim.
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