Haytam Lanzer: Entre Planos e Planos
1 Capítulo I - Um Médico Sem Igual
Notas iniciais
Até hoje uma dúvida não sai da minha cabeça: “Por qual motivo decidi ser um psicólogo?”. Mal consigo resolver os meus problemas internos, por que tenho que resolver os de outras pessoas?
“Isso significa que você tem empatia, uma qualidade incrível!”, eu não consigo enxergar qualidade em pessoas que recebem sofrimento e dor a cada três consultas... quer desabafar com alguém? Compre um cachorro... Tudo bem, isso foi totalmente sem lógica. Vamos tentar novamente: 3, 2, 1...
Segunda Feira
— Senhor Haytam?
Eu adorava escutar as pessoas pronunciando o meu nome, era algo tão maravilhoso e aconchegante... Foi então que esse doce e inocente prazer acabou... no Hospital Santa Bianca. Desde que entrei ali o meu nome é sinônimo de problemas.
—Srta. Jane... que bom te encontrar por aqui, faz tanto tempo, nem parece que nos vimos a dois minutos atrás, não é mesmo?
— Você e seu senso de humor... só vim avisar a você que acontecerá uma confraternização em minha casa hoje as 20h, posso contar com o ar da sua graça?
Sempre fui péssimo em perceber se uma mulher está dando em cima de mim...
— Me desculpe, tenho um compromisso hoje pela noite... – Mas também não me importava, sabe, nunca fui o “cara das garotas”.
— Tem levado trabalho para casa? Posso te ajudar se quiser... – falou ela com uma voz um tanto controlada.
— Eu te garanto que não pode... Digamos que é um caso infernal! – Ela se aproxima do meu corpo deslizando a mão sobre o meu peito até o colarinho do meu jaleco, então comenta:
— Eu já falei que fui freira?
***
“E mais uma vez, Haytam Lanzer chega atrasado”. Em minha defesa não foi fácil me livra da Srta. Jane. Aperto a campainha da casa da Sra. Ur, havia combinado de visitar a filha mais velha dela às segundas... A jovem apresentava sintomas de depressão.
A porta de madeira rustica e entalhada a minha frente é destrancada e logo em seguida uma senhora surge. Ur é o tipo de mãe polivalente, desempenhando diversos papeis na família, com os cabelos curtos e práticos e rugas de preocupação ao redor dos olhos.
— Doutor, boa noite!
— Boa noite Srta. Ur, como se sente?... Licença... – falo adentrando a casa.
— Eu diria aliviada – ela fala dando uma leve risada enquanto fecha a porta – Alice está melhor, faz três noites que ela vem saindo com os amigos e isso é um grande progresso.
— De fato... Bem, posso subir? Tenho trabalho para quando chegar em casa...
— Claro!!! Vou fazer um lanchinho para vocês dois – ela segue para a cozinha, dou de ombro e subo as escadas.
— “toc toc toc” – falo abrindo a porta do quarto de Alice, que se encontrava sentada na frente de uma penteadeira passando maquiagem – olha só... parece que alguém vai curtir hoje à noite.
— Você me disse para procurar programas animadores... nada melhor do que uma noitada na segunda – ela faz uma dancinha com os braços e volta para a maquiagem.
— Em plena segunda? – Na minha época as festas aconteciam nos finais de semana... é Haytam, você está envelhecendo.
— Social na casa do cara que tô ficando – fala tentando conter a empolgação – ele é tatuador... fiz uma tatuagem, quer ver? – ela levanta da penteadeira e vem em minha direção.
— Claro... Também adoro tatuagens, tenho uma muito legal nas cos... – ela levanta a blusa mostrando apenas as costelas... de fato, tinha uma tatuagem ali... bem interessante por sinal – o que é?
— O brasão da família dele... É de origem viking – o celular de Alice toca, aproveito enquanto ela conversa ao telefone para observar seu quarto, encontro um tabuleiro encima da cama... ela encerra a ligação – Curte jogos? – aponto para o tabuleiro.
— Ah! – Ela caminha até o mesmo e o joga no baú ao lado da cama – é um jogo que o Edgar me deu, também é viking. Haytam, desculpe a falta de educação, mas tenho que ir...
— Olha o lanchinho – a Sra. Ur aparece na porta com uma bandeja repleta de lanches.
— Desculpa mãe, Alice partindo – ela sai do quarto e desce as escadas as pressas, chegando à saída grita um: “eu volto mais tarde”.
— Então... ela está bem, não se preocupe Ur... apenas uma festinha adolescente – sorrio para a senhora e pego uma xícara de café – mas e as novelas, como estão?
***
Comida vegetariana nunca foi o meu ponto forte... entretanto, encaro os tipos de lasanha na prateleira: queijo, tradicional e vegetariana. Pego a ultima opção e olho os ingredientes: carne suína. Solto um suspiro... alguém pode, por favor, avisar as empresas que vegetarianos não consomem nenhum tipo de carne? Fico com a lasanha de queijo e compro uma salada exótica.
E a parte mais chata da noite é esperar na fila do supermercado... são os 5 minutos eternos da minha vida. Um casal adentra o mercadinho, um homem barbudo e repleto de tatuagens que estava acompanhado por uma garota com vestido justo e curto, seus cabelos eram loiros e possuíam mechas rosas como os da...
— Alice?! – O cara me olha fixamente, suas tatuagens começando a me incomodar.
— Não, não... é só mais um otário iludido – Alice fala, o homem dá uma risada então vai para o fundo do mercado levando a garota... pago minhas compras...
***
Nada melhor que sua casa... eu tinha a minha... distante do centro da cidade, em um bairro mais afastado de Literpool, considerava ali um lugar sagrado. Saio do carro e logo sou recebido com um mijão de Scooby, o meu pastor-holandês com vários problemas urinários.
— Boa garoto... eu sei que sou seu, não precisa marcar território.
— Amor, não seja insensato... ele tem probleminha – uma ruiva aparece no jardim, ela carregava em seu colo uma gata branca e em sua cabeça um filhote de gato preto que parecia se divertir ali em cima.
— Como esse gato foi parar aí? – Falo curioso caminhando em direção da casa.
— Mágica... – ela faz um movimento com o dedinho.
— Preciso de você, rápido – falo entrando na sala, deixo as compras na mesa e me jogo no sofá – 72 Demônios da Goétia, Chave menor de Salomão... Preciso do símbolo de Caim.
— O que aconteceu?! – Pergunta soltando a gata dos braços, segundos depois minha esposa se encontrava desenhando em uma folha de papel – Prontinho.

Me levanto rapidamente do sofá e pego a folha, suspiro e me jogo no sofá novamente. A tatuagem de Alice era o selo de invocação do Demônio Caim... o tabuleiro na cama, Ouija... e o namorado dela... o invocador.
— Eu devia ter feito engenharia – falo afundando o rosto no travesseiro. Minha esposa ri.
— Lá também é um inferno, vai por mim.
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