Depois de Darcy e Elisabeta passarem um bom tempo tão imersos em felicidade que nem perceberam que estavam sendo observados por todos os presentes...

Elisabeta tentou convencê-los de que não havia nada além de amizade.

Depois de todos demonstrarem descrença nas palavras dela...

Elisabeta tentou convencê-los de que não havia nada além de amizade.

Depois de Ofélia rejeitar qualquer explicação, porque, de acordo com ela, estava óbvio demais que eles estavam apaixonados e que deviam se casar logo...

Elisabeta cutucou Darcy para que ele a ajudasse a tentar convencer sua mãe de que não havia nada além de amizade.

Depois de todos alegarem (ironicamente) que acreditavam nas palavras deles...

Elisabeta foi para casa e não viu Darcy até o dia da festa de noivado de Jane e Camilo.

Não que estivesse ignorando-o — ao menos, era o que ela dizia a si mesma —, mas nos dias seguintes ao jantar, ela, suas irmãs e as mães dos noivos se ocuparam dia e noite com a organização do evento que seria de grande proporção, uma vez que estariam presentes diversos conhecidos dos Bittencourt em São Paulo e praticamente todos os residentes do Vale do Café.

Elisabeta se perguntava por que Darcy também não a procurou, mas, de certa forma, se sentia aliviada. Ela ainda não se sentia pronta para conversar com ele sobre seus sentimentos, e menos ainda sobre uma possível relação entre eles. Ela tinha seus sonhos e objetivos muito bem definidos, e certamente um compromisso sério não estava em seus planos. Os sentimentos dela por ele não eram tão fortes assim a ponto de fazê-la mudar de ideia….

Ou eram?

Elisabeta sorriu. Não precisava pensar sobre isso agora. Darcy havia dito a ela que não havia pressa. Era típico dele ser compreensível, amável e apoiá-la em suas decisões. Ele entenderia o receio dela, caso chegassem a conversar sobre o assunto em algum momento próximo.

— … então sigam o exemplo de Jane e Elisabeta e encontrem um homem pelo menos tão rico ou bonito quanto Camilo ou Darcy. — Ofélia dizia a Mariana, Cecília e Lídia, num canto do salão onde a festa começaria dentro de meia hora. Os Benedito chegaram mais cedo ao local para conferir a decoração que haviam ajudado a escolher. Jane ainda estava no andar de cima se arrumando enquanto conversava com Julieta, que fez questão de ser a pessoa a ajudá-la.

Elisabeta olhou para a mãe e já estava começando a murmurar uma resposta quando Lídia interrompeu:

— Pode ficar tranquila que, se depender de Cecília, você terá outro genro bonito e rico na família logo, logo.

— O quê? — Cecília e Ofélia responderam em uníssono, com expressões surpresas em seus rostos.

— Ué, hoje eu estive na casa de chá e Rômulo me perguntou se você estaria aqui na festa. Ele parecia ansioso até demais. Eu disse a ele que a resposta era óbvia demais, afinal você é irmã da noiva. Eu conclui que, pela pergunta sem sentido dele, ele é um bobo. Mas como sei que é ele médico e estudou numa boa universidade na Europa, acredito que o motivo d’ele estar bobo assim é porque está apaixonado por Cecília. — Lídia deu de ombros.

Quando Ofélia ameaçou desmaiar, Felisberto e Mariana a socorreram e a colocaram de pé.

— Como assim, Cecília? Você e Rômulo? Meus santos estão me abençoando tanto ultimamente! — A mãe das Benedito juntou suas mãos em um gesto de oração.

Cecília corou e disse:

— Não, não é nada disso. Eu… — ela foi interrompida pela mãe.

— Não venha seguir os passos de Elisabeta e negar uma coisa dessas. Tenha compaixão pelos meus nervos! Vocês estão namorando ou não?

— Mamãe, não pressione Cecília. — Mariana interviu.

Felisberto concordou:

— Ofélia, deixe a menina.

Elisabeta observava sua família com divertimento. Ela amava a maneira espontânea e animada deles. Apesar Ofélia ser sempre muito enfática e decidida em relação a casamento, ela pressionava as filhas por querer o bem de cada uma. Ela realmente acreditava no matrimônio como o berço da felicidade e companheirismo, no qual uma mulher podia se sentir realizada. Além disso, os Benedito há anos vinham enfrentando dificuldades financeiras e Ofélia temia que, se algo acontecesse a ela ou ao marido, as filhas sofressem com a falta de dinheiro.

Elisabeta não prestou atenção ao restante da conversa, mas quando seu nome foi dito pela mãe mais uma vez, ela considerou que seria uma boa opção dar uma volta pelo salão, antes que Ofélia voltasse a perguntá-la sobre Darcy.

À medida que os convidados chegavam, ela aproveitava para colocar a conversa em dia com alguns conhecidos que não via há muito tempo. Assim que viu Jane e Camilo, se apressou para cumprimentá-los e transmitir sua sincera felicidade ao vê-los juntos e tão felizes.

Por fim, ela e Ema se encontraram num canto e conversaram por diversos minutos sobre variados assuntos. Elas estavam falando sobre moda, tema preferido da baronesa, quando o olhar de Elisabeta foi atraído para um lugar específico.

Ou, melhor, para alguém específico, que havia acabado de entrar no salão.

Darcy, é claro.

Era estranho como o ambiente parecia ficar diferente simplesmente com a presença dele ali. Foi por isso Elisabeta soube, de alguma forma, que ele havia chegado.

Aparentemente, todas as moças solteiras do Vale haviam percebido a mesma coisa, pois diversas cabeças se viraram em direção a ele quando ele chegou à festa — algumas das quais, inclusive, se aproximaram dele, mesmo quando ele estava ocupado falando com Jane e Camilo. Elisabeta revirou os olhos ao notar que Susana era uma dessas mulheres.

— Elisabeta?

— Sim? — Elisabeta respondeu sem olhar para a amiga.

— Você estava me escutando?

— É claro que sim.

— Então quem é Paul Poiret?

— Miserável. — Elisabeta suspirou.

Ema engasgou com sua bebida.

— O que houve? Você está bem? — A amiga a olhou preocupada.

— Paul Poiret é miserável? — Ema questionou, incrédula.

Elisabeta franziu o cenho e olhou para a amiga.

— Quem é Paul Poiret?

— Elisabeta! — Ema estava indignada. — O que está acontecendo?

Elisabeta olhou para Darcy novamente.

— Ele parece miserável. Já afrouxou a própria gravata duas vezes desde que Susana chegou ao lado dele.

Ema ficou boquiaberta e olhou de Elisabeta para Darcy e de Darcy para Elisabeta antes de responder:

— Sua mãe tinha razão! Você está apaixonada!

Elisabeta se sobressaltou. Até Ema iria pressioná-la sobre isso?

— Apaixonada? Que bobagem, Ema! É claro que não.

Elisabeta fora rápida em responder, mas e se paixão realmente explicasse o que havia entre ela e Darcy? Havia sempre uma faísca entre eles e de certa forma algo especial. Seria paixão?

Quando Ema continuou a questionar Elisabeta sobre seus sentimentos, ela sentiu, mais uma vez naquela noite, a necessidade de fugir da conversa e procurar um canto mais calmo e solitário.

Mas, antes, precisava fazer a boa ação do dia: salvar Darcy de Susana.

~~~~~

— Para um inglês, você chegou atrasado para a festa. — Embora as palavras tivessem soado baixas, Darcy as escutou e seu coração se acelerou. Antes de se virar, ele se dirigiu a Susana e a uma mulher cujo nome ele não se lembrava e disse:

— Senhoritas, se vocês me dão licença. — Ele inclinou sua cabeça em despedida e finalmente encarou Elisabeta, que estava atrás de si.

Ela estava tão bonita que o ar faltou no pulmão de Darcy. As ondas de seu cabelo caíam sobre seus ombros tão adoravelmente que ele sentia vontade de tocá-lo.

Elisabeta fez um gesto para a direita e os dois começaram a se afastar.

— Isto foi mais fácil do que eu pensei. — Elisabeta disse, sorrindo.

— O quê?

— Eu precisava ajudar um cavalheiro em perigo que não estava se sentindo à vontade na companhia de determinadas... donzelas.

— Ah, então foi proposital sua chegada? — Darcy colocou uma de suas mãos no próprio peito. — Me sinto verdadeiramente grato pela sua intervenção. Eu estava procurando uma saída desesperadamente.

Eles riram. Era reconfortante ver Elisabeta novamente, pois ele havia sentido tanto sua falta nos últimos dias que chegava a doer. Ela estava tão perto no Vale do Café, mas ainda assim tão longe. Ele havia prometido que não a pressionaria e, ainda mais depois do ocorrido no jantar na casa de Julieta, suspeitava que ela precisaria de um tempo para si.

O olhar de Elisabeta analisou todo o baile e, quando parou em determinado ponto, o sorriso dela se desfez lentamente. Ele seguiu a direção que ela encarava e percebeu que ela havia visto Ofélia, do outro lado do salão, sorridente e apontando para os dois para uma senhora que estava a seu lado.

— Está quente aqui, não? O que acha que dar uma volta pelos jardins? — Elisabeta sugeriu.

— Eu adoraria, Elisa. Tudo bem para você? — Ele perguntou, fazendo alusão à Ofélia, que perceberia os dois saindo do salão juntos.

— Eu vou dar uma volta por aí e encontro lá fora, pode ser? À direita da fazenda.

— Certo, te espero lá.

Depois de aproximadamente dez minutos, Elisabeta chegou ao local e se sentou num banco ao lado de Darcy.

— E como você tem passado? — Ele perguntou.

— Estive bastante atarefada com os preparativos da festa, mas cada segundo valeu a pena. Você percebeu a felicidade de Jane e de Camilo? — A feição de Elisabeta demonstrava seu amor pela irmã.

— Eu não vi Jane muitas vezes na minha vida, mas suspeito que o sorriso dela nunca foi tão radiante quanto hoje. Em relação a Camilo, tenho certeza.

— Sim. — Ela respondeu. — Esses dias foram tão corridos que ainda nem parei para pensar no quanto vou sentir saudade do Vale do Café quando me mudar de vez para São Paulo.

Darcy assentiu e, após um tempo em silêncio, perguntou:

— Se você pudesse levar algo daqui com você para onde quer que for, o que seria?

— Só uma coisa? — Ela apoiou sua mão em seu queixo, pensativa. — Eu acho que teriam que ser os morros, as serras. Se eu precisasse escolher um específico, seria aquele onde te encontrei, que às vezes eu associo com o topo do mundo.

— Ele pode ser, se você quiser. — Darcy disse e ela o encarou com um questionamento em seus traços. — Pode ser o topo do mundo. Você não acha que a vida parece mais bela quando damos às coisas mundanas um significado maior, especial para nós?

Elisabeta continuava virada para ele, analisando seu rosto e com leve sorriso no canto da boca.

— Eu acho. — Após alguns segundos, ela continuou: — E se eu não estou enganada, você me prometeu uma dança.

Darcy sorriu. Havia sido o contrário, na verdade. Ele tinha tanta vontade de tê-la em seus braços ao som de alguma melodia que, quando mencionaram a festa de Jane e Camilo, ele encontrou a oportunidade perfeita de propor a ela que dançassem na ocasião.

Eles se levantaram juntos e Darcy estendeu a mão para Elisabeta. Quando ela a pegou, ele começou a caminhar em direção ao salão… mas ela não fez o mesmo.

— Aonde você vai? — Elisabeta perguntou.

— Não iríamos dançar? — Ele franziu a sobrancelha, confuso.

— Eu tenho outra ideia. — Ela caminhou com ele para baixo de uma árvore alta, poucos metros à frente do local que estavam, onde havia mais sombra. — Feche os olhos e escute.

Ele fez o que ela pediu e, aos poucos, começou a perceber o ritmo de uma valsa que ainda estava se iniciando. Ele abriu os olhos novamente e ela murmurou:

— Com um céu tão estrelado como este, eu acho que seria um desperdício termos nossa primeira dança dentro de um salão.

Os olhos de Elisabeta brilhavam em expectativa, esperando uma resposta dele, mesmo que silenciosa. Ele, então, se aproximou dela e os dois se encaixaram na posição adequada para valsar.

Mais lentamente que o normal, eles dançaram.

Para Darcy, aquele foi um dos momentos mais memoráveis de sua vida: ele tinha em seus braços a mulher que amava e suspeitava que ela também sentia algo por ele.

Ele não queria que aquele momento acabasse jamais.

Ele inalou o perfume dela e a encarou, tentando decorar toda a grandiosidade daquele momento.

Aos poucos, ela foi recostando sua cabeça nos peitos de Darcy e eles permaneceram assim, num suave balançar, por minutos.

Até mesmo quando a música parou de tocar e um ritmo mais acelerado ecoou de dentro do salão.

~~~~~

Mesmo contra a própria vontade, Elisabeta suspirou e, aos poucos, se afastou de Darcy. Se dependesse dela, os dois ficariam abraçados daquela maneira por horas, pois era tão confortável. Mas quando um lampejo de bom senso surgiu em sua mente, ela finalizou o contato.

— Para vocês ingleses, a dança é muito importante nos eventos sociais, não é? — Quando ele assentiu, ela perguntou: — E como me saí?

Darcy pegou sua mão e beijou-a, repousando os lábios contra a pele dela por segundos.

— Muito, muito bem.

Ele não soltou sua mão e a virou para que pudesse depositar um beijo em seu pulso também.

— Darcy… — Elisabeta disse, séria.

— Sim? — Ele parou o que estava fazendo e a olhou.

— É melhor não fazermos isso. Isso só pode nos confundir.

Darcy semicerrou os olhos e franziu as sobrancelhas.

— Confundir? Permita-me discordar.

Ela o fitou desconfiada.

— Ah, é?

— Sim. Eu acho que isso não confunde, muito pelo contrário: esclarece a mente.

Elisabeta balançou a cabeça negativamente, descrente. Se ela tinha certeza de uma coisa nesta vida, era que não pensava direito quando ele estava tão perto.

— Se você me permite, eu gostaria de fazer uns testes para que cheguemos a um acordo. — Darcy sugeriu e, quando ela não disse nada, pegou sua mão novamente e a beijou. — Então você acha que isso aqui te confunde?

— Definitivamente. — Elisabeta respondeu com convicção.

Darcy levantou o braço dela com suavidade e depositou diversos beijos em seu antebraço, que estava descoberto.

— Suspeito que isto aqui também?

Elisabeta suavizou sua expressão e respondeu:

— Sim.

Darcy se aproximou ainda mais e repousou suas mãos na cintura dela.

— Isto aqui, então… — Os lábios de Darcy beijaram levemente a pele sobre a clavícula de Elisabeta. — … provavelmente nubla sua mente também?

Ela assentiu ao mesmo tempo em que sentiu-se estremecer pelo contato dele.

Céus, o que ele estava fazendo?

Ele interrompeu o contato e a encarou.

— Me diga, então, se isto aqui também te confunde. — Darcy colou seus lábios nos dela, num toque gentil e momentâneo.

Quando ele se afastou, possuía um sorriso de lado e provocante, embora tentasse escondê-lo.

Ele a olhava com tanta expectativa de que ela finalmente cedesse — ah, que convencido! — que ela não se segurou e começou a rir.

Ele fez o mesmo e os dois ficaram ali, se olhando enquanto o riso se transformava em sorriso.

Foi neste momento, debaixo d’um céu estrelado e numa noite serena e adorável, de frente para o sorriso mais bonito que Elisabeta já vira, que ela percebeu que não podia mais resistir.

Era inútil.

Impossível.

Era completamente inútil e impossível resistir a Darcy ou aos sentimentos que transbordavam em seu coração.

Elisabeta levantou seus braços e os colocou sobre os ombros de Darcy, envolvendo-o num abraço. Ela o fitou e disse:

— Darcy, você tem razão: isto esclarece. Esclarece tudo. — Ela disse, finalmente compreendendo.

Era ele quem estava confuso desta vez, ela pôde perceber.

— Tudo?

Elisabeta assentiu.

— Tudo! Eu não poderia ter mais certeza. — Ela suspirou e por fim disse: — Eu amo você. Ardentemente.

Elisabeta não sabia o porquê de ter demorado tanto tempo para perceber que era amor: o sentimento mais pleno, bonito e verdadeiro que uma pessoa pode sentir por outra.

Demorou, mas finalmente ela compreendeu com clareza.

Amor.

Notas finais
Finalmenteeeeee! ♥️