Haven't we met?
8 Capítulo 8
Amar Elisabeta era muito fácil, Darcy concluía ao vê-la caminhando a seu lado, de mãos dadas, em direção ao carro. Ela possuía uma expressão semelhante àquela que ele vira na praça da primeira vez: um leve sorriso e o rosto inclinado sutilmente para cima, de modo a apreciar a brisa que tornava a noite mais agradável. Quando chegaram ao veículo, Elisabeta perguntou:
— Estamos indo para sua casa, não é?
Darcy assentiu.
— Sim. Pensei em passar pelas avenidas principais, que devem estar vazias a esta hora. É muito bonito observar a arquitetura da cidade à noite.
Elisabeta sorriu enquanto eles entravam no carro. Darcy já havia contado a ela sobre sua admiração pela arte das edificações.
— Então tentarei ver com seus olhos.
Eles seguiram viagem em silêncio e Darcy se perdeu em pensamentos, vez ou outra trocando palavras com ela sobre as construções. A cada dia ao lado de Elisabeta, ele se encantava mais por sua vivacidade e sua maneira generosa de enxergar a vida. Admirava sua obstinação, sua inteligência, sua espirituosidade e seu amor por tudo aquilo que a cercava. Ela não parecia notar o quanto se alegrava ao mencionar sua família e amigos, mas seu brilho nos olhos chegava a emocionar Darcy, pois ele sabia o que era aquilo.
Ele amava intensamente as pessoas próximas de si e, embora sua lista de pessoas queridas não fosse tão ampla, uma vez que incluía apenas os dois membros de sua família e poucos amigos próximos que conheceu em Eton e Oxford, ela agora contava com uma pessoa a mais: Elisabeta Benedito.
Ele sempre fora cético em relação ao amor. As temporadas inglesas, um costume das famílias de todo o país que se reuniam anualmente em Londres para promover e frequentar bailes, possibilitaram que ele conhecesse as mais diversas moças. A maioria delas se aproximavam dele com assuntos pré-determinados por suas mães com o objetivo de interessar aristocratas em idade para se casar, e isso, sem exceção, cansava Darcy. Ele preferiria que as jovens conversassem com ele livremente e não se esforçassem para ser o que a sociedade supunha que um homem queria em uma esposa. E, principalmente, ele queria que elas não estivessem mais interessada em seu dinheiro que nele.
Ele conheceu outras damas em jantares e outros eventos que não necessariamente eram organizados com objetivos casamenteiros, e muitas vezes os assuntos tratados com elas eram interessantes. Mas nenhuma, jamais, despertou algum interesse nele que o fizesse pensar nela após o encontro. E por isso ele imaginou que seria difícil, ou até mesmo impossível, se apaixonar. Simplesmente não parecia que isso aconteceria com ele.
E lembrar disso chegava a ser irônico, porque não precisou de muito tempo perto de Elisabeta para ele sentir algo especial por ela. Seria amor à segunda vista algo possível? Ele não havia percebido antes daquela noite, mas de alguma maneira estava claro: sempre foi amor, desde o segundo olhar. Parecia até natural sentir-se desta maneira e mais natural ainda que ele tivesse percebido a intensidade de seus sentimentos apenas ao beijá-la. Porque, naquele momento, ele se sentiu completo.
Seus pensamentos foram interrompidos ao chegarem ao portão de sua casa. Ele mesmo desceu do carro para permitir a passagem. Quando voltou, perguntou:
— O que achou de percorrer a cidade à noite?
— Ah, foi uma delícia. Aquele prédio de tijolinhos era a Pinacoteca, não era? Eu me lembro de ter lido há alguns anos sobre o lugar, na época da inauguração. Desde então tenho muita vontade de ir lá.
Ao arrancar, Darcy respondeu:
— Sim. Quando você quiser, podemos ir lá. Podemos desbravar esta cidade juntos. — Ele sorriu e roubou um selinho de Elisabeta.
Darcy estacionou em frente a sua casa e notou que Elisabeta não havia dito mais nada. Ela estava olhando para fora do carro, surpresa.
— Elisa? — Darcy indagou.
— Você mora aqui?
— Sim. — Darcy olhou para sua casa, tentando entender o que ela via de surpreendente.
— Darcy, olha o tamanho deste lugar! — Ela riu, incrédula. — É uma mansão. Muito linda, por sinal.
Darcy sentiu-se corar. Sua propriedade realmente era bastante extensa. Havia sido construída por seu pai décadas atrás, quando ele morou no Brasil pela primeira vez e conheceu sua mãe. Era uma construção de três andares em estilo clássico e em tons pastéis. A poucos metros da entrada da casa, havia um lago em meio a um jardim e, ao redor da construção, diversas árvores.
Eles saíram do carro e Elisabeta analisou todo o ambiente, como se estivesse se certificando que não havia ninguém para vê-los, e então se aproximou de Darcy, dando-lhe um beijo na bochecha.
— Às vezes me esqueço que você é um lorde inglês.
Darcy sentia-se feliz pelo esquecimento dela, por ela ser capaz de gostar dele por ele ser quem era, não pelo que possuía. Ele a amava por isso. Sabia que ela era sincera de todas as maneiras possíveis. Naquele momento, ele teve vontade de dizer as três palavras que faziam seu coração inundar. Teve vontade de dizer a ela que esperava que algum dia ela considerasse a casa dele seu lar. Mas ainda não era hora para isso. Haviam muitas incertezas entre eles e a revelação em relação à sua posição no jornal. Ele pegou sua mão e, em um acordo mútuo de não fazer barulho, entraram na mansão.
A casa estava escura por dentro, uma vez que não havia ninguém acordado. Darcy segurava a mão de Elisabeta para guiá-la pelos cômodos. Foram até o terceiro andar e entraram em uma sala de música. Quando Darcy acendeu as luzes, Elisabeta analisou o local com interesse. Haviam diversas pinturas nas paredes, dois sofás no centro e um piano no canto. Ao lado, uma pequena adega de madeira.
— Brandy! Na Inglaterra gostam bastante desta bebida, não é?
— Sim. É um pouco forte, mas se você quiser experimentar…
Elisabeta o olhou com uma expressão atrevida.
— Quero.
Darcy serviu uma pequena dose para ela e outra para si. Quando ela tomou um gole, fez uma careta. Esperou alguns segundos e virou todo o restante de uma vez.
— Nunca tomei algo pior. — Ela disse, ainda com uma expressão de desgosto. Darcy achou a expressão dela divertida e riu, extraindo dela um sorriso também.
Ele se afastou para abrir uma porta que estava escondida atrás de uma cortina que dava acesso a uma sacada. Elisabeta o seguiu e os dois ficaram parados do lado de fora, abraçados e observando o jardim e o céu estrelado. Elisabeta suspirou e Darcy acariciou sua cintura.
Nenhum dos dois sentia necessidade de conversar naquele momento, apenas de aproveitar o momento juntos. Estavam à vontade com o silêncio e a beleza da paisagem parecia refletir a maneira como se sentiam por dentro.
Após alguns minutos, Darcy perguntou:
— Você me espera aqui? Vou ao meu quarto pegar o que viemos buscar.
Elisabeta assentiu e Darcy se foi. Em seu quarto, ele guardou a pedra que ela havia dado a ele ao lado de um colar que havia sido de sua mãe, dentro de um porta-joias. Sobre a escrivaninha, havia uma pequenina caixa de madeira em que cada uma das paredes havia sido delicadamente cortada no formato de monumentos famosos: Torre Eiffel, Big Ben, Estatua da Liberdade e Taj Mahal. O objeto podia ser aceso eletricamente para que os desenhos se iluminassem. Desde que Elisabeta mencionou seu desejo de conhecer o mundo, Darcy imaginou que ela se encantaria por aquilo e, por isso, resolveu presenteá-la.
Ele voltou à sala de música e a viu recostada no sofá. Ele deixou o objeto sobre o piano e se aproximou dela, percebendo que ela havia adormecido. Ao notá-lo, ela acordou.
— Shhh. — Darcy se sentou ao lado dela e, aos poucos, foi deitando seu corpo no sofá com ela aninhada em seu peito. — Continue dormindo.
Ela o abraçou e voltou a fechar seus olhos. Darcy logo adormeceu, com a sensação de que aquela havia sido uma das noites mais especiais de sua vida.
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Quando Elisabeta acordou, todo o ambiente já estava iluminado com a luz do dia. Darcy estava dormindo a seu lado — parcialmente em baixo dela. Ela demorou um tempo para se lembrar onde estava e o que havia acontecido na noite anterior. Quando as memórias voltaram à sua mente, ela se levantou num sobressalto, sentando-se no sofá. Darcy acordou assustado e se sentou ao lado dela.
— Elisa? O que houve? — Ele perguntou, passando a mão em seu próprio rosto e cabelo.
Elisabeta estava bastante preocupada, porém isso não a impediu de parar um momento para observá-lo. Ele era tão, mas tão lindo desalinhado desta maneira! Os deuses da beleza haviam-no abençoado diversas vezes ao longo da vida, definitivamente. Ela se esforçou em voltar a atenção para o assunto.
— Que horas são? Eu trabalho hoje. E, meu Deus, sua irmã está em casa, não está? E também todos os empregados. — Elisabeta começou a tagarelar, inquieta. Por si só, ela não se arrependia de haver passado a noite ali com ele. Sabia que não haviam feito nada de inadequado, mas se os demais soubessem, poderia gerar um falatório cruel e desnecessário, pois a situação era bastante imprópria.
Darcy conferiu seu relógio de bolso e pegou a mão de Elisabeta, depositando ali um beijo.
— Ei, calma. Falta uma hora e meia para seu expediente. Eu te levo para o cortiço agora para você se aprontar e depois para o trabalho. Podemos tentar sair daqui em silêncio, da forma que entramos.
Elisabeta assentiu. Darcy foi para seu quarto para se ajeitar rapidamente e juntos eles saíram da casa. Darcy foi na frente, certificando-se de que ninguém estava por perto. Quando entraram no carro, fechou todas as janelas e Elisabeta se abaixou no banco para evitar que o porteiro a visse.
Eles foram até o cortiço e enquanto Elisabeta se banhava, Darcy comprou o café da manhã. Ele já conhecia o gosto dela e escolheu seus quitutes preferidos. Se sentaram em cadeiras em frente à escrivaninha para comer.
Darcy estava comendo um pão com cobertura quando se sujou de creme, sem perceber. E sem que ele soubesse, Elisabeta estava observando-o, pensativa. Aquela era sua chance. Da outra vez que havia acontecido aquilo, ela havia sentido vontade de beijá-lo, mas não podia, já que não tinham intimidade suficiente na época. A vida estava dando outra oportunidade e… por quê não?
— Para tudo! — Elisabeta disse, largando o pão que comia em cima da embalagem que continha os quitutes.
Darcy parou de comer, olhou-a preocupado, e questionou:
— Aconteceu algo?
Elisabeta suspirou, tirou da mão dele o pão que ele estava segurando e colocou ao lado do dela.
— Sim, Darcy. — Ela tinha uma expressão decepcionada. — Sua família gastou tanto para te educar e o senhor ainda se suja na hora de comer? Inadmissível. Sorte sua que estou aqui para ajudá-lo a se limpar.
E então ela se aproximou dele, retirou com sua língua o creme que havia sujado o canto de sua boca o beijou-o apaixonadamente, deliciando-se com o sabor doce. Ela sabia que estava sendo demasiadamente atrevida, mas a vontade de seguir seus instintos era maior que seu apreço pelos bons modos. Quando ela terminou a tarefa, notou uma expressão divertida no rosto dele, que logo a contagiou. Em meio a risos e beijos, terminaram o café da manhã.
Darcy levou Elisabeta para a casa de chá e, quando se despediram, ela perguntou a ele se estaria tudo bem não terem aulas aquela noite. Ela justificou-se, dizendo que dormir no sofá havia feito seu corpo doer e ela sentia que precisava compensar com uma noite de sono prolongada. Darcy concordou e os dois combinaram de se encontrar no dia seguinte.
Mas Elisabeta sabia que havia mentido. Na realidade, queria tempo para pensar. Precisava refletir sobre o que significou para ela aquela noite que passaram juntos. Quando chegou em casa após o trabalho, ela se banhou e logo depois se deitou em sua na cama, tentando entender o que sentia por Darcy. Ele era, definitivamente, especial para ela. Mas como? Quanto? Se ela tivesse tido outro bom amigo durante sua vida, se tivessem se beijado teria sido remotamente tão incrível quanto havia sido com ele?
Elisabeta tinha inúmeras dúvidas e, em meio à angústia de não saber responder nenhuma delas, sentiu suas pálpebras pesarem. Estava praticamente dormindo quando escutou batidas em sua porta. Levantou-se para abri-la, vestiu o robe que geralmente usava por cima de sua camisola e se surpreendeu ao ver sua irmã do lado de fora de seu quarto.
— Jane! — Elisabeta abraçou-a. — O que você está fazendo aqui? Que surpresa maravilhosa!
— Ah, Elisa. Senti tanto sua falta! — Jane beijou seu rosto e se afastou. — Me aguarde um segundo, vou avisar a uma pessoa que consegui te encontrar. Já volto e te explico tudo.
Jane se foi e Elisabeta a aguardou ansiosamente. Uma onda de felicidade surgiu dentro de si ao ver sua irmã ali. Elas sempre haviam sido muito próximas e, de certa maneira, se completavam.
Quando Jane voltou, ela trazia uma valise em uma mão e a outra estava atrás de seu corpo. Elisabeta a olhou desconfiada, sabendo que algo estava acontecendo. Jane, por fim, estendeu o braço que estava escondido, revelando, em seu dedo anelar, uma aliança de noivado.
Elisabeta estava incrédula.
— Você está brincando, não é? Eu sai do Vale há menos de um mês, deixando para trás quatro irmãs solteiríssimas, e agora você está noiva? — Elisabeta não conseguia acreditar.
— Sim, Elisa! — Jane segurou ambas as mãos de sua irmã, levando-a para a cama para se sentarem. — Nem eu acredito. Foi tudo tão rápido que às vezes acho que estou num conto de fadas.
— É bem possível, Jane, pois você é uma princesa. E merece toda a felicidade do mundo! — Elisabeta percebeu que estava emocionada; uma lágrima escapou de seus olhos e Jane a limpou. — Mas me diga, quem é seu príncipe? Eu o conheço?
— Eu acredito que não. Você sabe quem é Julieta Bittencourt, não sabe?
— Hmmm, sim e não. Sei que ela é conhecida como a Rainha do Café, que se mudou para o Vale há alguns meses, mas não acho que já a vi pessoalmente.
— Bom, vou te contar toda a história, então. Ema ficou desolada desde que você se foi. Ela nos visitava praticamente todos os dias. Com isso, nos aproximamos mais. Sempre fomos amigas, mas não tanto quanto vocês. Numa dessas visitas, Lídia a convenceu de dar um baile, sob o pretexto de que festividades diminuiriam a saudade que sentimos de você.
— Lídia fez isso? — Elisabeta riu. — Muito esperta ela, e aposto que Ema adorou ter uma desculpa para dar um baile.
— Sim! As duas organizaram imediatamente uma festa na Fazenda Ouro Verde e convidaram toda a cidade. Neste dia, Julieta foi apresentada oficialmente para os moradores do Vale. É uma mulher incrível, Elisa. Muito educada, interessante e inteligente. E ela tem um filho… — Jane sorriu, extremamente alegre.
— E esse filho… conquistou seu coração? — Elisabeta imitou a expressão sonhadora de sua irmã.
— Sim! O nome dele é Camilo. Ele é a pessoa mais amável que já conheci. No baile, ele me convidou para dançar três vezes. Imagina a felicidade de mamãe? Ela andou por todo o salão se vangloriando pelo fato de que o filho de Julieta se interessou por mim. Eu acho que desde o momento que ela nos viu juntos, ela começou a preparar nosso casamento.
Elisabeta conhecia sua mãe e sabia que as palavras de Jane descreviam com precisão a reação de Ofélia.
— E como vocês se apaixonaram? — Elisabeta indagou.
— Ema e seus dotes casamenteiros! Ela me convidava todos os dias para o chá da tarde. E Camilo sempre estava lá. Ema se ausentava com alguma desculpa e nos deixava conversando sozinhos. — Ela corou. — Poucos dias depois de nos conhecermos nos beijamos. — Jane cobriu seu rosto com as mãos, envergonhada. — Foi a sensação mais maravilhosa que já senti na minha vida, Elisa! Mas tudo aconteceu muito de repente, e semana passada ele me pediu em casamento.
Elisabeta abraçou a irmã. Sabia que, para Jane, era difícil falar sobre seus sentimentos devido à sua timidez.
— Estou muito, muito feliz por você, Jane. E pelo que você me falou de Camilo, ele tem um coração tão bom quanto o seu, então fico contente que vocês tenham se encontrado.
— Muito obrigada, Elisa! Eu precisava te contar isso tudo, precisava dividir com você toda essa felicidade que há dentro de mim. Por isso estou aqui.
— Ah, Jane! — Elisabeta sentiu-se emocionar novamente.
— O casamento deve acontecer em dois meses, mas teremos na semana que vem uma festa de noivado. Ema fez questão de começar a preparar desde que ficou sabendo. — Jane se acomodou na cama, recostando-se na cabeceira. Elisabeta fez o mesmo e ambas continuaram a conversar, sentadas lado a lado. — Julieta e Camilo vieram para a cidade para comprar algumas coisas para a festa e eu perguntei se poderia vir junto para te dar esta notícia pessoalmente e te convidar para a festa. Amanhã à noite voltaremos para o Vale. Julieta e Camilo foram para a casa deles. Eu preferi vir pra cá, dormir com você. Tudo bem se eu ficar?
— Jane, eu adoraria que você dormisse aqui. Eu estava morrendo de saudades de você e das nossas conversas intermináveis antes de dormir. E é claro que irei para sua festa!
Elisabeta e Jane continuaram conversando ininterruptamente pela próxima hora. Jane contou sobre tudo que havia acontecido no Vale desde que Elisabeta se foi, e Elisabeta contou a ela sobre sua rotina de trabalho e mencionou que tinha uma máquina de escrever na qual estava treinando. Jane demonstrou interesse em conhecer o instrumento, e então Elisabeta colocou seu vestido rapidamente e levou-a até a sala de estudos. Lá, contou que havia encontrado um tutor de inglês e datilografia. Quando falou sobre ele, um sorriso involuntário apareceu em seu rosto. A irmã não pôde deixar de notar.
— Elisa!? O que há entre você e ele?
— Eu não sei, Jane. Eu gosto bastante dele, mas não sei.
— Será que a Benedito que rejeitava qualquer possibilidade de casamento está pensando em entregar seu coração para alguém? — Jane brincou.
Elisabeta ficou tensa. Sequer havia pensado em casamento. Parte de si rejeitava terminantemente a ideia de se casar por agora, uma vez que seus planos eram trabalhar e viajar o mundo. A outra parte de si rejeitava a ideia por orgulho, uma vez que sua mãe e muitas pessoas próximas acreditavam que ela se sucumbiria ao casamento, deixando todo o resto em segundo lugar. Mas não seria assim: sua vontade de ser independente estava em sua essência.
— Casamento? Não, Jane, é claro que não. Casamento está fora de cogitação. Eu tenho outros objetivos para minha vida agora. Eu tenho certeza que Darcy e eu somos apenas bons amigos. Nada mais que isso. — Elisabeta respondeu. Ela não sabia se falava a verdade, mas não havia tido tempo de pensar o que, além de amizade, existia entre eles.
— Darcy? — Jane questionou, e em seu tom de voz havia reconhecimento.
— Sim. — Elisabeta a olhou, confusa. — Este nome é familiar para você?
— Eu ia inclusive comentar com você, mas acabei me esquecendo. Eu falei de você para Camilo e ele me disse que, caso sua entrevista não der certo, um amigo da família dele é dono de um jornal aqui em São Paulo. Ele falou que poderia te recomendar para trabalhar lá. E agora que você mencionou este nome, tenho certeza que Camilo disse que ele se chamava Darcy.
Elisabeta sentiu o sangue esvair de seu rosto. Seria possível que Darcy fosse dono de um jornal? Seria o mesmo Darcy que ela conhecia? Era improvável que fosse outro, pois o nome era pouco comum no Brasil. O mais provável era que Jane havia se enganado, não podia haver outra explicação. Mas se Jane estivesse certa, por que Darcy havia omitido o fato? E, se ele era dono de um jornal, seria o mesmo jornal no qual ela faria entrevista? Ela se lembrou de todas as conversas que tiveram e percebeu que ele raramente falava sobre seu trabalho ou sobre os negócios de sua família, com exceção da ferrovia.
Ela sentiu um aperto se formar em seu coração. Teve vontade de chorar, sua respiração já estava falha.
— Elisa? Está tudo bem? — O tom de voz de Jane revelava sua preocupação.
Elisabeta assentiu. Não queria alarmar Jane, e então disse que precisava buscar algo rapidamente. Ela se virou e começou a caminhar apressadamente, disposta a sair do local para procurar ar; para tentar colocar seus pensamentos em ordem. Quando chegou à porta, que havia ficado entreaberta, viu Darcy do lado de fora.
E, a julgar por sua expressão, ele havia escutado a conversa que Elisabeta acabara de ter com a irmã.
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