Transcendental.

Se Elisabeta precisasse descrever com apenas uma palavra a sensação de ter seus lábios colados aos de Darcy, seria transcendental.

Ela não possuía experiência com beijos para saber diferenciar um que fosse “bom” de um “razoável” ou “ruim”, mas de alguma forma ela era capaz de fazer esta distinção. Há coisas nesta vida que você não sabe como sabe, você simplesmente sabe. E beijar Darcy era uma dessas coisas. Parecia pouco razoável este raciocínio, mas para ela fazia todo sentido. Ela não poderia explicar por que ou como tinha certeza que os beijos que trocaram foram especiais, mas simplesmente não seria daquela forma com qualquer pessoa.

Ela não havia planejado beijá-lo — ao menos, não deliberadamente. Eles estavam falando sobre precisarem marcar outra ocasião para tomarem vinho e, de repente, aconteceu. Eles se aproximaram mais e mais e, sem que Elisabeta percebesse, já não havia distância entre eles. A princípio, tudo que ela foi capaz de fazer foi se deliciar com a oportunidade de sentir o gosto dele. Ela só havia percebido o quanto ansiava por aquele momento ao sentir o corpo dele colado ao seu.

Beijá-lo parecia tão natural que sequer foi surpreendente a maneira como eles se encaixaram e ficaram tão à vontade nos braços um do outro. Mas, de repente, ela escutou Darcy pronunciar seu nome e o som de sua voz a fez voltar à realidade: ela estava beijando Darcy. Seu amigo. Céus, por que ela estava beijando seu amigo?

E, pior, por que tinha gostado tanto de beijar seu amigo?

Ela não guardou para si seus questionamentos e incertezas em relação ao que estavam fazendo, mas logo ele começou a gracejar enumerando motivos pelos quais o que eles faziam era justificável e, por fim, mencionou que, como ela gostaria de viajar o mundo, precisaria antes conhecer as coisas boas de São Paulo… tais como o beijo dele.

Neste momento ela percebeu que ele estava errado. Porque, quando eles se beijaram, não parecia que estavam em São Paulo. Era como se estivessem no paraíso. De alguma forma, beijá-lo a fazia sentir-se nos céus e, por isso, a única palavra que descreveria a sensação era transcendental.

Ela não sabia se era o vinho que havia tomado que a fazia chegar a tais conclusões, mas resolveu não pensar demais. No momento seguinte, estava nos braços dele novamente e possivelmente da segunda vez foi ainda melhor, pois havia sido uma decisão consciente e mútua. Os dois queriam aquilo. Os dois.

Quando começaram a perder o fôlego, afastaram apenas seus rostos. Elisabeta manteve seus braços ao redor de Darcy à medida que sorrisos surgiam nos lábios de ambos. O dele era espontâneo e jovial, ao passo que o dela era divertido.

— Então você acha que seus beijos são bons? — Ela disse e arqueou suas sobrancelhas. — Muita presunção sua, milorde.

Ele, que tinha as mãos envoltas em sua cintura, começou a acariciar a região com seus polegares.

— Vou ter que provar que são realmente bons? — Ele respondeu, roubando um selinho.

— Sim, pois você não me convenceu.

Elisabeta se sentia tão confortável e contente com o que acontecia entre eles que foi difícil esconder a felicidade. Ela o observava admirada, satisfeita por ser com ele aquela primeira experiência. Ela suspeitava que, a julgar pela expressão dele — que, ela podia apostar, era idêntica à sua — ele se sentia exatamente igual.

E então eles se beijaram novamente. Desta vez foi um beijo calmo e gentil em que cada um explorou, sem pressa ou urgência, a boca do outro.

Quando se separaram, Darcy suspirou e indagou:

— E qual é o veredicto?

— Hmmm… — Ela fez uma cara pensativa. — Acho que ainda não estou convencida.

— Então acredito que precisarei adotar métodos mais drásticos.

Naquele breve tempo em que estavam no cortiço, Elisabeta havia, inconscientemente, bagunçado os cabelos dele ao puxar seu rosto para mais perto de si. Darcy estava ainda mais bonito desajeitado daquela maneira — e saber que fora ela quem o deixou assim fazia uma corrente de eletricidade atravessar seu corpo. Ela precisaria dar um jeito nisso, senão não seria capaz de deixá-lo sair de seu quarto nunca mais. Ela levou sua mão até uma mecha de cabelo que caía sobre a testa dele e a colocou no lugar novamente.

— Métodos mais drásticos? Estou curiosa. Mas antes que você me conte… — Elisabeta se soltou dele e pegou sua mão, sentando-se em sua cama e indicando seu lado para que ele se sentasse também. — … vamos nos sentar? Estou cansada.

Não era verdade. Não se sentia cansada. Poderia ficar com ele ali, exatamente da maneira que estavam antes, por horas, sem sequer perceber que um segundo havia passado… se suas pernas não a traíssem. Cada vez que eles se beijavam, cada vez que ele a acariciava e cada vez que ela simplesmente o olhava atentamente, seus joelhos fraquejavam. Se ele não estivesse ali para apoiá-la, ela teria desfalecido em cada uma destas vezes.

Darcy não apenas aceitou seu convite como se recostou em sua cabeceira, puxando-a delicadamente para que ela se aninhasse em seu peito. Ela recostou sua cabeça em seus ombros e se virou para ele, hesitante. Ele a olhou com uma expressão que transmitia confiança e dizia, indiretamente, que entendia. Nada inapropriado aconteceria entre eles. Assim, Elisabeta relaxou e ambos prosseguiram conversando.

— Muito bem, Darcy. Me conte seus planos para me fazer mudar de ideia.

— A minha primeira estratégia foi utilizar a linguagem de gestos, mas como não funcionou, e sei que a senhorita é fluente em três idiomas, irei te convencer em francês, inglês e português.

Ela o encarou, confusa.

— Ah, é?

— Você já ouviu falar em beijo francês, ou french kiss? — Elisabeta balançou a cabeça negativamente. Ele prosseguiu: — Então irei te mostrar.

Darcy a deitou diretamente na cama. Apoiou um de seus braços ao lado dela, e com a outra mão tocou carinhosamente cada parte de seu rosto: sua sobrancelha, suas bochecha e seu queixo. Ela fechou os olhos e suspirou; neste momento ele se aproximou dela lentamente e mordiscou seu lábio inferior. Em seguida, com sua língua, começou a traçar seus lábios e o canto de sua boca. Era um toque sutil e provocante, que a fez segurar sua respiração com esperança de o contato se intensificasse.

Elisabeta estava perdida. Queria puxá-lo para mais perto: tanta calma parecia uma tortura naquele momento. Quando ela sentia que não resistiria, finalmente a boca dele cobriu a sua completamente. Ela o sentiu por inteiro. Sabia que ele tocava nada mais que seu rosto e que apenas parte do corpo dele cobria o seu, mas cada centímetro dela parecia estar ciente do que acontecia. Quando ele se interrompeu o beijo, ela o olhou e percebeu que ele também estava com a respiração acelerada.

Ela tocou os lábios dele com os dedos e perguntou com uma voz baixa, rouca e trêmula:

— E o beijo inglês?

— Este é minha especialidade.

Darcy depositou diversos beijos gentis no espaço entre sua boca e seu pescoço. Ao se aproximar da pele próxima de sua orelha, utilizou sua língua, além de seus lábios, para beijá-la ali. Suas mãos desceram novamente até a cintura dela, e ele começou a acariciá-la naquela região ao mesmo tempo em que aprofundava o beijo em seu pescoço.

Elisabeta levou suas mãos para o pescoço de Darcy. Ela não sabia se fazia isso para aproximá-lo e impedir que ele parasse com aqueles beijos que a faziam tremer, ou se tencionava afastá-lo dela por sentir-se queimar por dentro. Era como se seu corpo quisesse algo... algo que ela não sabia exatamente o que era. Mesmo antes de obter uma resposta para as dúvidas silenciosas que tinha, ele se afastou. Eles passaram um tempo em silêncio e se entreolhando com a respiração entrecortada antes de conseguirem falar novamente.

Finalmente, Elisabeta não se conteve e perguntou:

— Agora falta o beijo em português. Ou melhor… — ela franziu as sobrancelhas. — seria beijo brasileiro?

— Este eu espero que inventemos juntos. — Darcy respondeu, e os dois procuraram a boca um do outro ao mesmo tempo, em um beijo acalorado, gentil e urgente. Elisabeta, pela primeira vez, cedeu à sua vontade e colocou suas mãos nos peitos dele. Ele, por sua vez, levou suas mãos às pernas dela, segurando-as para aproximá-la mais.

Elisabeta sabia que aquele era o limite deles. Não poderiam seguir adiante — afinal, era tudo muito incerto. Ela sequer havia parado para pensar sobre o amanhã e, na realidade, não tinha vontade de fazê-lo. Queria aproveitar aqueles momentos com Darcy e, em outra ocasião, deixaria a razão atuar sobre seus instintos. Amanhã tentaria analisar por que se sentia tão plena quando ele estava assim tão perto. Hoje não.

Eles terminaram o beijo aos poucos e, quando se afastaram, ambos sorriram ao mesmo tempo. Darcy recostou-se outra vez na cabeceira e Elisabeta retomou a posição que estavam antes, com sua cabeça aninhada no espaço entre o peito e o ombro dele. Ela suspirou e disse:

— Não sei se estou convencida, lorde Darcy Williamson, mas, por ora, digamos que você passou no teste. Com uma nota ruim, é claro. Em outro momento precisarei analisá-lo de novo. E depois de novo e de novo. Só assim terei certeza.

Darcy riu e beijou sua têmpora. Permaneceram em um silêncio confortável por algum tempo. Ele pensou que ela havia adormecido, mas quando procurou seus olhos, ela estava reflexiva.

— Uma libra pelos seus pensamentos.

Elisabeta se afastou e sentou-se em frente a ele, abraçando seus joelhos.

— Estou pensando na entrevista no jornal. Ainda não sei bem como vai ser, mas estou um pouco ansiosa. — seu rosto tornou-se sonhador. — Eu nunca pensei que estaria aqui em São Paulo sozinha esperando a definição do meu futuro. Eu já me sinto, de certa forma, realizada por ter chegado até aqui. Por saber que, pelo meu esforço e, me perdoe a vaidade... — ela lançou-lhe um sorriso cúmplice — … pelo meu talento, eu conseguiria chegar tão longe no processo. Estou me sentindo orgulhosa de mim. Mesmo que não por maldade, as pessoas duvidavam que eu conseguisse alcançar meus objetivos por mérito. Eu devorava livros, passava o dia estudando e analisando colunas em jornais para que pudesse me tornar boa naquilo. E era triste ouvir de minha mãe que o mundo não era tão amigável assim, que eu precisaria de um homem, ou melhor, me casar com um homem para conseguir um emprego desses. Mas não precisei. — Ela suspirou. — Estou aqui por mim mesma.

Elisabeta havia feito um discurso mesmo sem planejar e, quando finalmente prestou atenção no semblante de Darcy, percebeu que ele a olhava sério. Imaginou que ele estivesse pensando nas suas palavras apenas. Ela se aproximou dele e beijou seus lábios. Em seguida se levantou, pegou uma caixa e se sentou ao lado dele na cama.

— Vou te apresentar a um pouquinho mais do meu mundo, se é que você gostaria de conhecer.

Darcy a abraçou, posicionando sua mão no ombro dela.

— Eu adoraria, Elisa.

— Este aqui é o primeiro livro em inglês e francês que li na minha vida. — Elisabeta retirou da caixa um livro em capa de couro com o título escrito em dourado. — Wuthering Heights. O Morro dos Ventos Uivantes, em português. É uma edição bilíngue que minha ex-governanta me deu. Conhece a história?

Darcy assentiu e contestou:

— Eu li quando estava em Oxford. É um romance bastante complexo, não acha? Lida com as camadas e nuances de personalidade que todos temos: afinal ninguém é uma coisa só.

Elisabeta olhou para aquele rosto ao qual já estava acostumada a admirar. Ela incrível como, embora o conhecesse há apenas duas semanas, parecia que se conheciam de outra vida.

— Sim. Eu concordo. — Ela guardou novamente o livro e pegou um cordão de coração que se abria e revelava duas fotos. — Estes são meus pais. Ofélia e Felisberto. São verdadeiros opostos. Minha mãe vive com seus pobres nervos à flor da pele. Diz ela que nenhuma de nós tem compaixão por eles. — Ela riu. — E meu pai vive para acalmá-los.

— Seu brilho no olhar é igual ao da sua mãe. Ela parece tão vivaz quanto você. — Darcy disse, observando bem de perto a fotografia.

Elisabeta assentiu retirou de sua caixa outro livro.

— Ah, este livro! — Seu sorriso se ampliou. — Meu pai viajou quando eu tinha 9 anos e trouxe para mim alguns jornais e livros. Foi neste dia que descobri minha paixão pelo jornalismo. E este livro, Volta ao Mundo em 80 Dias, foi o que mais gostei na época e continua sendo um dos meus favoritos. Adivinha quem decidiu, assim que terminou de ler, que também quer dar uma volta ao mundo?

— Então é a Júlio Verne quem Dona Ofélia e eu devemos culpar pela senhorita querer deixar este lindo país?

— Bingo! Verne é um dos motivos.

Elisabeta voltou sua atenção para a caixa. Mostrou a Darcy todas as memórias em forma de objetos que havia ali: uma miniatura de piano que ganhara de Ema que, ao abrir, tocava uma melodia; algumas cartas que trocara com pessoas especiais para ela; reportagens de jornal que a inspiravam guardadas dentro de porta-folhas para que fossem preservados.

Por fim, pegou várias fotografias: uma de cada irmã Benedito. Havia sido tiradas há três anos.

— Estas somos nós. — Elisabeta apontou para a primeira foto. — Mariana. A mais parecida comigo em personalidade.

— A que é apaixonada por aventuras?

— Esta mesmo. A que participa de corridas de motocicleta. — Elisabeta apontou para outra foto. — E esta é Jane: a mais doce criatura deste universo! É impossível alguém não se encantar por ela.

— Ela realmente é bastante angelical. — Darcy olhou para outra foto e disse: — E esta presumo que seja Cecília?

— Sim, Cecília. Eu acredito que ela tem um pouco de cada uma de nós. Aventureira como Mariana quando se empenha em desvendar algum mistério à la livros de suspense. Amável como Jane, sincera como Lídia e sonhadora e obstinada como eu. Aliás, esta aqui é Lídia. — Elisabeta apontou para sua irmã mais nova, que estava bastante sorridente na fotografia.

— Lídia é a que você descreveu como “projeto de Dona Ofélia”?

Elisabeta riu.

— Ela mesmo. As duas são muito unidas. Lídia imita mamãe em tudo e a segue por todos os lados! É divertido e ao mesmo tempo lindo observá-las juntas.

Por fim, restou uma foto de Elisabeta.

— Eu não sei por que esta foto está aqui. Quando tiramos, foi em quantidade suficiente para que cada uma de nós ficasse com uma fotografia das demais. Alguma delas deve ter esquecido de pegar a minha ou esta veio a mais. — Elisabeta deu de ombros.

Darcy pegou a fotografia e observou-a de perto. Ele não disse nada, mas possuía um sorriso discreto em seu rosto. Elisabeta o analisava e, sem sequer tentar resistir, acariciou seu rosto e suspirou. Sentia-se feliz naquela noite.

Olhou novamente para dentro da caixa e tirou de dentro uma bolsa com pequenas pedras vermelhas dentro.

— São bastante comuns, acredito. Uma vez eu estava passeando com meu pai pela cachoeira e percebi, dentro da água, estas pedras se destacando e brilhando.

Elisabeta as entregou a Darcy e ele perguntou:

— E será que sua coleção ficaria muito incompleta se você tivesse apenas duas?

Ela estreitou seus olhos.

— Não, mas… por quê?

Darcy observou os objetos cintilantes.

— Eu gostaria de ter algo seu comigo.

Elisabeta sentiu seu coração se acelerar. Aquelas pedras realmente não tinham tanto significado, fosse monetário ou simbólico. Ela simplesmente as guardava consigo. Mas Darcy as encarava como se fossem preciosas.

— Então é sua. Aliás, com uma condição.

Darcy perguntou:

— E o que seria?

Elisabeta manteve seu olhar sério quando respondeu:

— Eu gostaria de ter alguma coisa sua também.

Ele a fitou com a mesma intensidade antes de dizer:

— Acredito que podemos resolver isso imediatamente. Há algo meu que eu gostaria de te dar, mas não está aqui. — Darcy consultou seu relógio de bolso e se levantou da cama. Pegou as chaves de seu carro e então perguntou: — Elisabeta Benedito, aceita participar de uma pequena aventura comigo nesta madrugada de São Paulo?

Elisabeta não sabia para onde ele iria levá-la.

Mas, de repente, percebeu que não importava. Desde que estivesse com ele.

Notas finais
Por um mundo com mais, mais, mais e mais beijos Darlisa.