Notas iniciais

Último das três histórias. Tão linda quanto as outras. E longa!

Já foi ao céu alguma vez e demorou pra voltar, tanto tempo, que você achava que iria ficar lá pro resto da sua vida toda?

Bem, comigo já e foi assim.

Eu estava novamente no hospital. Mais uma das minhas incríveis seções de palpitações no coração e, ainda que não havia sido nada grave ou desesperador, eu estava com ela no telefone no exato momento em que isso aconteceu, o que me fez ouvir ela mandando que eu fosse ao médico.

E lá estava eu, deitada novamente numa maca. Tantas vezes que eu já havia pensado que talvez eu fosse ficar por ali mesmo... E agora eu estava bem, não simplesmente viva. Estava me sentindo mais viva do que sempre, e estava vivenciando um momento de felicidade completa.

O médico entrou na sala e me disse para levantar-me devagar, ver se eu não estava tonta ou algo assim, que podia ser reflexo daquilo. Nada, absolutamente nada. E assim fui liberada para ir logo para casa.

Não sei por que, mas meu instinto quase gritava para que eu fosse direto para casa, ainda que eu estivesse aérea demais pra lembrar que dia era aquele. Antigamente, eu fazia contagem regressiva, agora eu sabia quando o dia chegava, tirando quando eu tinha que me recordar do nome dos remédios.

O problema daquele dia foi o fato de eu ter ficado mal; ela ter que trabalhar até tarde. Eu estar numa cama de hospital, me levantando e pegar as minhas coisas pra correr ao metrô, pegar o que fosse mais rápido para casa; ela provavelmente fazendo alguma coisa esperando que eu chegasse – e aquilo era evidente só pelas três chamadas não atendidas registradas na tela do meu celular esquecido dentro da bolsa, que só tive tempo de olhar quando peguei meu passe para entrar na estação.

O entardecer estava digno de sua beleza. O sol caia ao fundo, fracamente, tentando ressaltar que o outono começava e logo o frio estaria tomando conta daquela brisa fresca de verão que pairava sobre a cidade.

Passear de metrô nunca foi algo do meu agrado, quem dirá ter que voltar pra casa em plena sexta-feira, fim de tarde, e o transporte coletivo subterrâneo mal-resolvido lotado. Mas eu fazia um esforcinho, se era pra chegar rápido – não tanto quanto se eu estivesse com o carro, é claro.

- Onde está?

- Ainda no metrô e não faço ideia de quanto tempo vou demorar pra chegar aí...

- Tão longe assim?

- Desculpe, koi... Mas vou demorar um pouco mais do que o normal... Te amo, nee, koi...

- Também te amo, bebê.

Suspirei e encostei minha testa na janela, olhando o nada, meio pensativa. Estava, de fato, absorta nos meus pensamentos cujo alvo era, obviamente, ela, a minha morena, que me esperava em casa.

Definitivamente, o tempo havia passado rápido, voado. De uma forma que nem nós havíamos nos dado conta do tanto, e talvez de uma maneira que nós nem tivéssemos percebido que alguns segundos foram desperdiçados pelas brigas.

Mas eu não a culpava. Nem à ela, nem à mim. Um dia, já pensei em sair gritando e me estourar, mas eu me restringia a dizer o que bastava. Ela, com o passar dos anos, foi aprendendo a controlar-se no critério que se referia à sua irritação. Mas ainda assim brigas faziam parte do nosso cotidiano, inevitavelmente. Porém, elas eram parte fundamental daquilo que tínhamos. Brigas só nos deixavam mais fortes, e cada vez que fazíamos as pazes era simplesmente perfeito, porque eu sempre chorava e recebia meus mimos, os mimos que eu tanto gostava dela.

Ciúmes então, nossos amigos que o digam. As vezes que brigamos ou discutimos por ciúmes foram quase 90% das vezes, ainda que a maioria fosse por conta do excesso do meu ciúmes em relação à ela.

Meu olhos continuavam focados na janela quando escutei chamarem pela minha estação no alto-falante de dentro do vagão que eu estava. Peguei minhas coisas do chão e arrumei a bolsa, me levantando.

O problema da tarde era a indecisão do tempo, e, por acaso, naquele dia, foi eu pisar para fora do metrô para perceber que estava frio. Um arrepio me percorreu a espinha e automaticamente me encolhi.

Eu pensava comigo mesmo não que deveria ter pegado um casaco antes de sair, mas que eu gostaria de estar em casa nos braços dela, em silêncio, aproveitando o ambiente e o clima quentinho para curtir à tarde com ela.

E então, eis o momento que eu fui até o céu.

Quando terminei de subir a escadaria do metrô e alcancei a rua meio vazia pelo horário, me deparei com ninguém mais do que ela, a minha morena. Me esperando com um casaco em uma das mãos, a outra escondida atrás das costas, e sorrindo, com o meu sorriso lindo, aquele que só eu tinha pra mim.

Eu não pude me conter de forma alguma e corri até ela, abraçando-a fortemente. Eu acho que quase pulei em seus braços, mas eu não podia fazer menos do que aquilo, ao vê-la pela primeira vez no dia exato do nosso aniversário de namoro.

- Não sei se eu agüentaria ficar em casa te esperando, você tem muita paciência... Aquele apartamento é uma monotonia vazio.

- Boba... – eu sorri ainda abraçada a ela enquanto sentia o casaco ser colocado sobre meu corpo – Você me surpreende. A cada dia que passa, eu te acho mais surpreendente...

- Nee, aqui, isso é pra você.

E ela me mostrou o que tava escondendo atrás do corpo: um ursinho de pelúcia, um gato, melhor dizendo. Lindo, que tinha o perfume dela impregnado nele – e aquilo era a melhor parte. Eu abracei-a novamente, deixando que suas mãos pudessem me aninhar em seu corpo e que aqueles olhares preconceituosos pudessem se afastar de nós com a ignorada que os oferecemos.

Já passado o momento super feliz, chegamos em casa porque ela estava de carro e pudemos evitar andar todas aquelas quadras enormes que me fazem demorar mais 20 minutos até chegar no nosso apartamento.

Entramos em casa e deixei minha bolsa no sofá. Mas antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, ela me puxou pela mão até o quarto e sentou-se sobre a cama, me fazendo sentar sobre suas pernas.

Beijou-me silenciosamente, livrando-me do meu casaco e fazendo o mesmo com o dela enquanto eu ia ajudando-a. Uma de minhas mãos acariciou seu cabelo e a outra manteve-se em sua nuca, fazendo um carinho leve ali. Suas mãos deslizavam lentamente pela lateral do meu corpo – nada esguio, mas na medida – e uma delas ficava repousada em minha coxa.

O beijou cessou por parte dela e eu abri meus olhos para encará-la e me deparar novamente com aquele sorriso.

- Nee...

- Hai, koi...? – murmurei, passando uma das minhas mãos por seu rosto – Se importa se... eu der seu presente depois?

- Iie... O que é?

- Pocky, muito pocky. E Tic Tac de laranja, claro...

- Ah! Ótima escolha! – ela sorriu leve – Não é sobre presentes que eu quero falar, meu bebê... É sobre nós.

- Diga koi...

Ela suspirou e me puxou pra colar bem o corpo ao dela pela cintura, me fazendo abraçá-la melhor e encostar a testa na sua. Eu sorri e percebi que ela demoraria para falar alguma coisa, então comecei, incitando uma resposta dela.

- Bem, Ai-chan... Eu te amo nee... E só tenho a te agradecer pelos três anos mais perfeitos da minha vida... Você pode não ter percebido no decorrer desse tempo o quanto eu te amo, cada dia mais... E acho que eu não medir o quanto. – rocei meu nariz no seu – Por isso, koi... cada dia que eu estiver com você é um dia a se comemorar pra mim, porque tem gente lá no céu que queria me ver muito feliz quando colocou você no meu caminho...

- Ow, amor... Eu não sei falar coisas bonitas assim... mas eu também amor você, demais. Te amo mais, é claro...

- Boba...

Suas mãos me apertaram com carinho e nossas bocas voltaram a se encaixar com aquela perfeição exata. Um beijo era a resposta dela para aquilo que eu havia dito, e era tudo o que eu precisava “ouvir” naquele momento.

Já era tarde da noite quando eu acordei em seus braços. Me espreguicei um pouco e mexi em meus cabelos, virando-me de frente pra ela, observando-a enquanto dormia. Era perfeita. Tão exatamente perfeita quanto eu achava que ela era acordada.

Naquele momento, eu sabia que só havia uma única coisa a fazer antes de fechar meus olhos para voltar a dormir: agradecer por ela estar na minha vida.

Notas finais

Reviews?

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