"Have you seen my shoes?"

Blue Cupcake

A noite de natal não parecia tão fria na sala comunal da grifinória. A lareira estava acesa, uma música alta e agitada preenchia o silêncio, e dezenas de alunos dançavam animadamente ao som do rock.

No canto, encostados na parede, estava o grupo de alunos mais popular de Hogwarts. James Potter ajeitou os óculos na ponta do nariz, orgulhoso, ao lado de Sirius Black e Remus Lupin.

—Não acredito que você fez isso. — Remus suspirou ao seu lado, impressionado. — Quanto teve que pagar ao monitor?

—Nada. — James deu de ombros. — Apenas dei a ele um autógrafo. Tem uma irmã mais nova fascinada pelo time de quadribol.

—Então… — Sirius começou. -Tudo isso pela Evans? — Ergueu uma sobrancelha.

—Claro que não! — James corou um pouco. — É nosso último ano aqui. Merecemos uma festa. Além do mais, — Cochichou. — podemos até conseguir um pouco de uísque de fogo.

—Está brincando. — Remus arregalou os olhos. Sirius riu.

De repente, avistaram os cabelos cor de acaju descendo pelas escadas do dormitório feminino. Lilly Evans esfregava os olhos, vestindo seus pijamas.

—O que…. ? -Ela vasculhou a multidão, tentando entender o que acontecia ali. Avistou os três e sua dúvida se esclareceu. — Ah. Eu não acredito…

—Cara, não dê bandeira... – Sirius murmurou para o amigo.

— EI, EVANS!! James gritou, desviando da multidão até a garota, sorrindo de orelha a orelha.

—Isso vai ser brutal. — Remus observou.

—É. — Sirius estreitou os olhos. Tinha um pouco de pena do sofrimento do amigo.

No entanto, a cena os surpreendeu. Lilly sorriu para James e pareceu apreciar a companhia dele.

—O que…. -Sirius engoliu em seco. — O que está acontecendo?!

—Eu não sei! — Remus o olhou, chocado. — Não sei!

—Ela está…. Sorrindo? -Sirius estava de queixo caído. Remus de olhos arregalados. — Ele nos deve explicações.

—Muitas, aparentemente. — Remus completou.

—Ei galera!! — Um dos veteranos gritou, no meio da multidão. — O Uísque de fogo chegou!

Sirius e Remus trocaram um olhar travesso e correram para o meio da festa.

* * *

James tinha bebido demais. Sua cabeça rodava, seu estômago revirava e suas pernas pareciam não aguentar seu peso sem pender pros lados. Tinha caído no tapete como um saco de batatas e continuava ali, incapaz de se levantar.

—Ei, ei. — Sirius abaixou-se ao seu lado. Tinha bebido muito também, mas parecia te ruma resistência bem maior à do seu amigo. A festa continuava. — Como você está, cara?

—Uh… Lilly – James ergueu o braço e apontou para a ruiva. Ela tinha decidido se juntar à festa também, dançando animadamente com Marlene. -Eu tenho… Falar com ela. Eu a amo.

—Eu sei, James. — Sirius riu. — Mas eu acho que nesse estado, não é uma boa idéia.

—Eu estou bem! — Ele tentou se sentar, caindo deitado de novo depois de 5 segundos. — ahhh….

—Eu sei que está. — Sirius sorria. Estava com as bochechas um pouco coradas. — Aluado, me ajude aqui. — Chamou, e então virou-se novamente para o amigo. — Veja bem, vamos te levar pro quarto ok? Lilly ainda estará aqui amanhã pra você falar com ela.

—Não! — James virou-se de lado, decidido a levantar. — Eu… eu preciso falar… Vou falar pra ela…

Sirius e Remus o ergueram e, cada um segurando um braço, o levaram de volta para o dormitório. Tiraram seus sapatos, deitaram-no na cama e deixaram um balde ao seu lado. James adormeceu quase que instantaneamente.

—Bem, e agora? — Remus perguntou.

—Não sei você, — Sirius respondeu, levantando-se da cama. — Mas eu vou voltar para a festa.

* * *

O dia já amanhecia e os primeiros raios de luz entravam na sala comunal, iluminando a enorme bagunça que ali se instalara.

Em todos os cantos havia alguém deitado no chão. Desmaiado ou dormindo, Sirius não sabia. Remus tinha sentado em uma das poltronas e não levantara mais, desde a metade da festa. Sirius havia perdido sua gravata e abrira praticamente metade da sua camisa devido ao calor insuportável que aquele tumulto de gente causara. Seu cabelo estava um ninho de ratos e seu hálito provavelmente estava terrível.

Só três pessoas ainda estavam de pé: ele, Lilly e Marlene. Elas agora estavam sentadas, conversando no canto da sala. Sirius vagueava pelo cômodo, tentando achar sua gravata, a última que tinha.

—Droga…. — Ele olhou o chão, olhou as poltronas, mas nada. Tinha um leve e preocupante sentimento pela lareira, mas não via motivo pra ter queimado sua própria gravata.

—Tchau, Lene. — Lilly acenou. Sua amiga se levantara e estava indo para o dormitório. Ela continuou sentada, olhando para Sirius. -Ei!

Ele virou-se pra ela.

—Você viu meus sapatos? -Perguntou. Sirius franziu as sobrancelhas e então viu seus pés, cobertos apenas pelas meias. A garota ainda estava em seu pijama, sem vergonha alguma.

—Hã… Não?

—Oh… Quero procurar, mas estou numa preguiça… — Murmurou ela. — Ei, sente-se aqui, comigo.

Mas hein? Sirius pensou. No entanto, deu de ombros e foi até ela, sentando-se ao seu lado.

—Perdi minha gravata. — Declarou. — Não lembro como.

—Eu lembro. — Ela sorriu. — Eu tirei.

Sirius quase pulou em pé.

—O quê? P- Por que?

Lilly teve uma crise de riso.

—Estou brincando! — Ela continuou rindo por alguns minutos. Sua face estava muito corada, e Sirius percebeu que, assim como ele, ela ainda estava bêbada. — Que surto, pra quê isso?

—Bem, você sabe. — Respondeu, esfregando as têmporas tentando tirar a dor que sentia nos olhos.

—Oh, a parada do James. — O sorriso dela sumiu um pouco. — É realmente uma pena.

—O que, extamente?

—Eu não gosto dele, você sabe. — Ela confessou. — Antes eu o detestava, agora nos tornamos amigos… Mas eu acho que jamais passará disso.

Sirius acenou com a cabeça, sentindo-se mal pelo amigo. Ponderou se devia ou não falar sobre aquela conversa com ele.

—Ah – Lilly respondeu seus pensamentos. — Não precisa contar a ele. Eu já o fiz, ontem.

Um silêncio pairou entre os dois. Sirius tentava fazer sua cabeça parar de rodar ao mesmo tempo que refletia quão inusitada aquela situação era.

—Por que você está falando comigo? — Perguntou, com a voz rouca e embaralhando um pouco as palavras. — Quero dizer, pensei que você odiasse todos nós. Por conta do Ranhoso. — Ao mencionar esse nome, Lilly fez uma careta.

—Não odiava. — Ela abraçou as pernas, apoiando o queixo no joelho. — Era James que incitava vocês a agirem assim. Vocês só era muito…

—Idiotas?

—É, precisamente. — Ela virou o rosto pra ele, sorrindo. — Nunca odiei você. — Lilly esticou o braço e apoiou a mão em seu ombro. O corpo de Sirius se retesou com o toque, quase como se acendesse uma luz vermelha de ALERTA.

—Bom saber. — Respondeu, desviando o olhar do dela. Se sentia muito estranho com tudo aquilo.

—Você não me perguntou. — Ela ergueu uma sobrancelha.

—O quê?

—De quem eu gosto. — Ela o olhava tão diretamente que Sirius insistia em desviar. Nunca foi bom em olhar as pessoas nos olhos.

—Eu não sei se seria uma informação… Interessante pra mim. — Ele fingiu desinteresse.

—Jura? — Ela deslizou a mão de seu ombro para sua camisa, abrindo mais um botão, deslizando levemente os dedos gelados pela sua pele. Sirius parecia paralisado.

Que merda está acontecendo? Pensava. Os olhos verdes dela estavam completamente presos aos seus e sua mão descia cada vez mais. Isso está tão errado, faça alguma coisa!

Faça alguma coisa!

Faça alguma coisa!

Ele colocou a mão em seu pescoço e a puxou, beijando-a voraz com um desejo que parecia reprimido a séculos. Ela correspondeu, entregando-se e deixando ele dominar a situação.

* * *

—Você viu meus sapatos? — Lilly Evans estava sentada nua na cama, vasculhando o chão.

—Hã… Não. Talvez embaixo da cama? -Sirius estava sentado ao seu lado, recostado na cabeceira da cama, fumando um cigarro.

—Bem, então vou precisar de uma ajuda aqui. — Ela estendeu as mãos pra ele, os punhos amarrados firmemente com uma corda. Sirius sorriu.

—Peça “por favor”.

—Por favor, desamarre minhas mãos para que eu possa procurar meus sapatos, Black. — Ela sorriu, revirando os olhos.

—Como dizer não a um pedido destes? — Ele riu, e desamarrou a corda, jogando-a em um canto qualquer do quarto.

—Sabe, você me ensina muito boas maneiras. — Ela riu, corada. Levantou-se. Sirius ficou admirando seu corpo, agora de uma mulher de 20 anos. Sardas em seus ombros e suas costas, os cabelos acajus caindo em cachos até sua cintura fina com quadril largo. Ela se vestiu.

—Bem, tenho que ir agora. — Ela lhe deu um beijo rápido. — Senão chego atrasada. Até!

—Até. — Sirius olhou-a ir embora, ficando a sós com seus pensamentos.

Estavam naquele jogo desde o último ano em Hogwarts. Ninguém sabia de nada, nem James nem Remus. Apenas eles dois, fugindo da realidade juntos.

James continuava sendo amigo de ambos. Eles frequentavam o bar juntos, se reuniam na casa de Remus… E o casal sabia fingir impressionantemente bem que não havia nada entre eles.

Isto é, eram um casal? Nunca haviam oficializado nada… Lilly nunca havia sequer dormido em sua casa… Isso o deixava, definitivamente, apreensivo. Ele tentava, com todas as forças, não criar nenhum tipo de sentimento ali, em algo que era apenas físico. Mas isso ficava cada vez mais difícil conforme os anos passavam e Sirius às vezes se via, de madrugada, querendo que ela estivesse ali com ele, não apenas para transarem, mas também para dormir sentindo o cheiro do cabelo dela, abraçando-a.

Esse sentimento o assustava cada vez mais considerando que, de tempos pra cá, ela se tornara ainda mais distante. Se viam cada vez menos, e, quando se viam, era por pouco tempo. Ela sempre estava correndo com sua vida e Sirius respeitava isso, mas sentia que tinha alguma coisa a mais ali. Sentia que ela tinha conhecido alguém.

Não sabia quem era e também não se sentia no direito de perguntar.

Apenas fumou mais um cigarro e deitou-se, adormecendo rapidamente.

* * *

—Meus parabéns!! — Marlene abraçou o casal, sorrindo. O salão de festas estava cheio, o bolo de casamento tinha 4 andares e tudo parecia saído de um sonho.

Lilly usava um vestido branco, com renda nos braços e pérolas no tronco, acompanhado de um longo e fino véu, que parecia feito de açúcar. Seus cabelos acaju estavam presos num penteado alto, cheio de pequenas flores lilás que ela mesma tinha colhido.

—Obrigada Lene! — Lilly sorriu. — Muito obrigada por ter vindo também.

—Imagine que eu iria perder isso, você é minha melhor amiga! — Ela sorriu, com lágrimas nos olhos. — Vocês serão muito felizes, tenho certeza.

Sirius sorriu. Estava do outro lado do salão, sentado na mesa.

Ela estava linda. Incrivelmente linda. Foi o casamento mais belo que já comparecera.

Pegou um guardanapo de papel nas mãos e o amassou com força embaixo da mesa.

Estava feliz por ela. Muito feliz.

Mas também estava com o coração partido.

—Sirius. — Remus chamou ao seu lado. — Está tudo bem?

—Sim. — Respondeu prontamente. — Só estou com dor de cabeça. Vou tomar um ar.

Levantou-se da mesa e foi pra área externa do salão. Ao chegar lá, acendeu um cigarro e ficou contemplando o nada, perdido em pensamentos.

Não tivera coragem de ir dar os parabéns aos noivos. Não sabia se ia ter. Sabia que precisava ir, James esperava isso dele. Ela não, mas seu melhor amigo sim.

Não ia conseguir olhá-la nos olhos sem se lembrar do dia em que ela o chutou. Ele tinha lhe comprado flores e ia finalmente falar pra ela que ele queria que eles fossem algo mais. Ele ia falar-lhe que queria contar a todos sobre o que acontecia entre eles, porque finalmente sentia-se livre para fazer isso. Sentia que James já tinha superado tudo, sentia que ele e Lilly estavam em uma boa fase…

Até que ela chegou em sua casa, tempestuosa, e disse que precisavam conversar. Ele deixou as flores na cozinha e voltou para a sala, onde ela estava sentada no sofá, aguardando-lhe com a notícia que tiraria seu chão.

Ela estava grávida.

Ele tinha ficado feliz, até que Lilly continuou: Ela se distanciara dele porque começara a sair, efetivamente, com James.

Sirius sentiu-se quebrando por dentro.

Finalmente, ele reuniu a coragem e perguntou-lhe quem era o pai.

Ela não sabia.

Mas ia casar-se com James.

Nessa hora tudo caiu por terra. Sirius virou-lhe as costas e saiu andando até a varanda do seu apartamento. Nada mais fazia sentido.

Ele só a escutava falar que James tinha decidido assumir o bebê. Que ela realmente estava apaixonada por ele, agora. Que o que eles tiveram era uma coisa física, e isso não era o suficiente para se criar uma família.

Ele se sentia enterrado vivo, e cada palavra que ela dizia era mais uma pá de terra sobre seu caixão.

Meses depois, chegou o convite.

E ele foi, é claro.

E não conseguia entrar novamente para o salão. Parecia que seus pés estavam enterrados na terra.

—Ei. — Uma voz falou atrás de si. Ele se virou e a viu, segurando o vestido no alto para não sujar na grama. Estava descalça. — Você viu meus sapatos? Eu os deixei no canto do salão porque os saltos estavam me matando, mas não consigo encontrá-los.

Ela sorria enquanto falava. Um sorriso complacente, mas um sorriso.

—Não vi. — Sirius respondeu. Olhou-a, de perto, dessa vez. — Você está linda.

—Obrigada. — Respondeu, numa voz doce.

Os olhos verdes se fixaram nos olhos negros e muitas coisas foram ditas em silêncio. Ele disse que estava feliz por ela. Que desejava o melhor para os dois. Ela lhe pediu desculpas por tudo que aconteceu e disse que não queria que ele sumisse.

—Bem, — Ela suspirou, depois de minutos que pareceram segundos. — Vou continuar a procurar então. -Boa sorte. — Sirius acenou com a cabeça.

—James está te procurando. — Ela disse, entrando no salão. — É um assunto importante.

—Vou encontrá-lo. — Sirius respondeu.

Deu uma última tragada no seu cigarro e olhou para as estrelas no céu limpo, sentindo-se minimamente melhor, depois de meses.

Notas finais
esclarecimentos: Não sei em que idade lilly e james se casaram (??) então se qualquer coisa não fizer sentido por datas, etc, perdão. a coisa IMPORTANTE que james ia pedir, é a questão de ele ser padrinho do harry. james nunca realmente ficou sabendo do que aconteceu. ESPERO QUE TENHAM GOSTADO REVIEWS???
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!