Reconheci o som dos passos dela ainda no corredor. O ritmo apressado, o salto batendo no mármore com uma cadência que eu já sabia de cor sem nunca ter realmente prestado atenção nisso.

A porta se abriu e o cheiro de caramelo me invadiu. Ela se sentou ao meu lado afobada, jogando os pergaminhos sobre a mesa enquanto a voz de Arabella Simes ecoava pelo salão.

- Peço que na próxima reunião todos estejam presentes no horário.

Simes era insuportável e insegura. A presença de Granger a deixava mais insuportável e insegura ainda. Vi as maçãs do rosto de Granger enrubescerem. Sem pensar, me inclinei levemente na direção dela.

- Fique tranquila. — eu disse baixo, quase em seu ouvido. — A reunião mal começou. Ela só quer te provocar.

Granger virou o rosto pra mim e, por um segundo, pareceu surpresa. Depois os lábios se curvaram num sorriso rápido, me agradecendo, por fim. Me endireitei na cadeira e empurrei minha cópia dos pergaminhos na direção dela. Precisei aguentar a voz de Simes por mais quarenta e cinco minutos, com as maçãs do rosto de Granger enrijecendo a cada comentário desnecessário. Quando a reunião terminou, a maioria saiu com a cabeça latejando.

Eu já estava na copa, meu chá na mão, quando ela entrou. Peguei o pacote da mesinha e estendi na direção dela sem pensar muito. O chá que ela tomava após reuniões tensas era o mesmo que o meu, coincidência, digo a mim mesmo. Ela olhou pro pacote e depois pra mim.

- Nossa. Era exatamente isso que eu precisava. Obrigada, Malfoy.

A despeito de tudo que vivemos em Hogwarts, Granger e eu tínhamos construído uma relação amistosa nos corredores do Ministério. Após a morte dos meus pais durante a guerra, o julgamento e a minha absolvição, parte considerável da fortuna da família foi destinada como compensação pela participação dos Malfoy nela. O que sobrou me deu condições de construir uma base para galgar por mérito próprio. E os meus N.I.E.M.S me deram opção para escolher um futuro digno. Escolhi o Ministério.

E ela estava lá.

*****

Reparei naquela semana que Granger não havia sorrido.

Não sei se era coincidência. Mas os dias tinham ficado pesados de um jeito que eu não sabia explicar. Num corredor, ela passou por mim com a caneca na mão, olhos no pergaminho, e eu vi. Sua aliança não estava mais no dedo anelar direito.

Então era isso. Era isso que tinha feito os dias nublarem. Ela estava triste pelo fim do noivado.

O que aquele merda do Weasley tinha feito? O que ele tinha feito para que ela parasse de sorrir, para que ela chegasse toda manhã com aquele olhar carregado?

O que ele tinha feito pra perder Hermione Granger?

*****

Não tinha sido minha intenção ouvir. Passei pelo corredor e as vozes chegaram antes que eu pudesse desviar.

- Mas se foi de comum acordo, por que tanta tristeza, Mione? — a voz de Patil era baixa e gentil.

Uma pausa. Depois ouvi Granger. Sua voz também era baixa, mas carregava tristeza.

- Fui apaixonada pelo Ron por tanto tempo... É muito estranho não estar mais. Quando a gente conversou, percebi que ele também não estava mais apaixonado por mim. Talvez eu esperasse que ele dissesse que queria ficar. — outra pausa, menor. — É estranho entender que todo aquele amor agora é só fraternal.

Voltei a andar e senti um frio no estômago que não soube nomear. Não era pena tampouco alívio por saber o motivo. Era outra coisa que ficou pesando o resto do dia sem que eu encontrasse onde colocar.

Ela esperava que ele pedisse pra ficar. E ele não pediu.

Cheguei em casa e deixei os sapatos em qualquer lugar. Era estranho isso. A vida inteira precisei estar arrumado demais, impecável demais, educado demais. Cada gesto calculado, cada palavra pesada antes de sair. Era bom estar na minha casa.

Ela não era grande como a mansão Malfoy, mas também não era pequena. Grande o suficiente pro conforto, pequena o suficiente pra que eu me sentisse à vontade. Pra que eu respirasse.

Fui até a mesa de bebidas, e me servi um uísque, botei gelo e sentei de qualquer jeito no sofá. A fala dela ecoou na minha cabeça antes que eu desse conta.

Talvez eu esperasse que ele dissesse que queria ficar.

O Weasley não pediu pra ficar. Eu não soube nomear o frio que aquilo me causou. Também não sei por que pensar em Granger havia se tornado um hábito na minha vida.

*****

Já haviam se passado cinco meses desde que Granger, Milley, eu e mais três pessoas do nosso Departamento havíamos começado a trabalhar naquele projeto.

Cinco meses de reuniões intermináveis, pergaminhos espalhados, discussões que às vezes se estendiam até a madrugada. Cinco meses até que aquele maldito Ministro finalmente convocou a equipe para nos informar que o projeto havia sido aprovado. Foi Milley quem sugeriu o bar recém-inaugurado em Hogsmeade para comemorar.

Estávamos conversando, quando a porta do bar se abriu e Astoria Greengrass entrou. Ela estava acompanhada de Theodore Nott. Meu antigo colega de casa em Hogwarts e seu atual noivo. Eles me olharam com aquele sorriso que eu já conhecia. Desde que haviam descoberto que eu havia mudado de lado antes da guerra acabar e que eu havia perdido parte considerável da minha fortuna, me olhavam assim. Como se eu fosse uma piada que eles ainda estavam elaborando. No entanto, não tinham coragem de falar nada abertamente. Coragem nunca foi uma característica sonserina.

- Ei, Draco. Aquela ali não é sua ex-noiva? — Milley me perguntou. Era um curioso insuportável. Respondi secamente que sim.

Ele insistiu na conversa que eu, obviamente, não queria ter. Percebi, pelo canto do olho, que Granger prestava atenção em nós.

- Mas o que aconteceu? Vocês não tinham sido prometidos um ao outro?

Mais uma vez confirmei. E acrescentei, porque ele não ia parar de qualquer forma:

- Quando ela descobriu que eu estava sem a fortuna, desistiu. — Bebi o restante do meu copo e acrescentei, sem emoção. — No fundo fiquei aliviado. Nunca a amei pra querer construir uma vida com ela.

Milley se viu por satisfeito e se levantou para buscar mais bebidas. Percebi que Granger pulou uma cadeira e se sentou ao meu lado. Ela sorria e seus olhos estavam enigmáticos. Eu não estava acostumado a ver aquele jeito nela... Mais solta. Será que era o efeito do álcool que estávamos bebendo? Provavelmente sim.

- Desculpa ter ouvido sua conversa — disse ela, sorrindo. — Não era minha intenção. Mas fiquei curiosa.

Arqueei a sobrancelha esperando que ela completasse.

- Quando você falou que não havia amado... — ela inclinou levemente a cabeça na minha direção e fiquei embriagado com o cheiro de caramelo e whisky de fogo. — Você já amou de verdade alguma mulher em sua vida, Malfoy?

A pergunta me pegou de surpresa e fiquei olhando pra ela por um segundo mais longo do que deveria. O que ela queria dizer com isso? Ou pior: por que aquela pergunta, vinda dela, naquele momento, me causou algo que eu não soube identificar na hora?

Desviei o olhar.

Não teria aquela conversa. Não ali, não naquele momento. Não com Hermione Granger.

Vi que o sorriso dela se ampliou e ela saiu da mesa, satisfeita. E eu fiquei sem entender.

*****

Senti como se tivesse levado um soco no estômago quando soube que Granger havia sido atacada pelo simples fato de ser uma nascida trouxa.

Malditos sangue-puros.

Até quando continuariam com esses ideais de merda? Será que não perceberam que essa maldita ideologia quase destruiu o mundo que tanto querem proteger?

Eu nunca senti tanta vontade na vida de ser Auror como estou sentindo agora. Com certeza eu caçaria o filho da puta que atacou Granger e ele ia se ver comigo.

Pensei em visitá-la no hospital, mas não queria correr o risco de encontrar os amigos insuportáveis dela. Então mandei flores com um cartão, dizendo que eu esperava que ela se restabelecesse prontamente. O que não era mentira. O Ministério era um tédio sem ela.

*****

Os dias no Ministério se arrastaram de um jeito absurdo. Os dias no Ministério sem Hermione Granger.

Parei para me perguntar qual era a comida preferida dela. Sem perceber, me peguei lembrando do seu sorriso. Da sobrancelha arqueada quando me desafiava em algum questionamento. Da cara de satisfação quando a equipe inteira precisava concordar com ela, porque insuportavelmente, na maioria das vezes, ela sempre estava certa. Pensar nela, e em tudo que envolvia o seu mundo, tinha se tornado quase uma obsessão para mim.

E concluí, para meu total desespero, que estava amando.

Eu estava fodido e não me restava outra alternativa se não fazê-la me amar também.