Have A Nice Life
1 Ísis e a sua Autodestruição
Notas iniciais
1. Defina, com suas palavras, a depressão.
Eu odeio a palavra "depressão". Por quê? Porque para as outras pessoas, isso soa como preguiça ou má vontade. Quando, de fato, não é. Prefiro dizer que estou entediada ou estressada. É algo que nem eu mesma consigo entender. Há garotas que fingem ter essa doença porque é bonitinho e legal. Não sei o que há de bonito ou legal nessa doença — coisa que muita gente não quer admitir: a depressão é uma doença; chorar sem motivos, lembrar-se de muitas coisas ruins, ter vontade de morrer etc; não é nada legal.
2. Você tem alguma frase que sempre usa para si mesmo (a)?
“Condenada a morrer, antes mesmo que eu pudesse respirar” — virou um lema para mim. Eu sempre estive condenada, condenada a anos de solidão e melancolia. Eu não consigo nem olhar para o meu próprio rosto que lembro-me de incidentes que ocorreram ao longo da minha vidinha, ao longo do meus anos de crescimentos. O meu rosto é minha própria arma e fraqueza.
3. Você sente vontade de morrer?
Sim, claro, o tempo todo. Penso nos mínimos detalhes e nas formas menos dolorosas — as mais dolorosas também, admito. Mas nunca tentei, apesar de não ter nada a perder nessa vida que levo. Eu não sou tão egoísta para fazer uma coisa dessas, apesar de ficar desesperada a cada dia e noite que passa. Penso em meu pai, Arthur. Ele não merece mais uma... perda.
Ela suspirou e jogou a caneta no chão. Não teve coragem de ler as questões restantes do questionário que seu pai pediu que respondesse. Aquele era um dia difícil. Seria o primeiro dia de aula para ela e seu irmão mais novo. Mas ela recusou. Recusou mais uma vez ir àquele, segundo ela, martírio e prisão que é a escola. Era irônico até, já que a mesma descobriu que é agorafóbico e claustrofóbica no ambiente escolar.
“Pense no seu futuro, Ísis. Você não vai ter a mim para sempre.” As palavras de Arthur ecoavam em sua cabeça, como se fosse um tipo de chamado ou alerta.
Abriu o caderno do ano anterior, num exercício de Ciências, sobre animais. Lembrou-se vagamente de quando decidiu parar de vez com a escola, no meio de junho. Ela só não sabia o que estava acontecendo consigo mesma. Passava o dia inteiro em seu quarto, a maioria das vezes chorando ou dormindo. Sua situação piorou tanto ao ponto de querer se matar. Arthur, como sempre paciente e compreensivo, deixou-a em casa, para que não se estressasse mais. De vez em quando, Ísis fazia algumas atividades e provas, para obter alguma nota na caderneta.
Mesmo assim, não foi o suficiente.
O remorso inundou o seu coração negro. O que Arthur disse era verdade. Mas não era tão rápido que ela iria conseguir ânimo ou força de vontade para retomar às suas aulas.
Suspirou decepcionada. Decepcionada porque precisava voltar.
Ela precisava. Precisava por si mesma.
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