Hate Everything About You

8 Marcado - Parte III - Traição


Notas iniciais
Ser traído por alguém em quem confiou. Ser traído pela própria consciência. Ser traído pelos seus próprios sentimentos.
Não importa de onde venha, uma traição sempre deixa qualquer pessoa sem chão, nem que seja por alguns instantes.

Amaess terminara de se vestir, e encarava em silêncio o copo com o líquido que Belinda havia preparado. Hesitou, mas acabou bebendo o conteúdo do copo. Tinha um gosto que fez sua garganta arder, de forma que o garoto quase o soltou, engasgando. O que diabos era aquilo? Mas, por outro lado, não tinha muitas outras opções uma vez que a porta estava trancada. Fechou os olhos, e virou o copo o mais rápido possível, soltando-o e se sentando sobre a cama. Tossiu um pouco, sentindo uma sensação estranha se espalhar pelo seu corpo — uma tontura leve, acompanhada por falta de equilíbrio. Levou as mãos à cabeça, tentando se manter calmo. Se sentia estranho, e pendeu para o lado — seus músculos pareciam cada vez mais relaxados.

– Pode conferir com seus próprios olhos, Robert. Você não vai se arrepender. Mas antes, não esqueça o que combinamos. – Ouviu a humana dizer do outro lado da porta. O som de moedas também chegou a seus ouvidos, e algo dentro de si o alertou para sair daquele quarto, mas o elfo não conseguia se equilibrar. A porta se abriu, e o medo percorreu o corpo do garoto quando um humano entrou no quarto. Seria aquele o amigo de Belinda? Ela disse que ele iria ajudá-lo, mas algo parecia errado... ainda assim , era o amigo de Belinda, não era? O corpo do garoto tremeu quando o homem se voltou para Belinda. Era como se todas as células de seu corpo estivessem tentando alertá-lo de algo.

– É ainda melhor do que eu esperava. Você é boa nisso. – Disse o homem para a humana.

– B-Belinda... – O garoto balbuciou, com medo.

– Não se preocupe. Não vai ser muito pior do que nada pelo que você já passou. – Disse a humana, fechando a porta. Amaess tentou se levantar, mas caiu sobre o próprio corpo, tendo a certeza de que não devia ter confiado naquela pessoa. – Nada nesse mundo vem de graça.– Disse a voz da mulher, enquanto a mesma trancava a porta.

– Eu confiei em você! – Gritou, tentando se levantar. – Por que — Antes que Amaess pudesse completar a frase, Robert o ergueu pelos cabelos e o jogou sobre a cama.

– Não se preocupe docinho... vamos apenas nos divertir um pouco, huh?

O terror percorreu o corpo do elfo. Em sua mente, o jovem rezava mentalmente para que Nádia viesse em seu auxilio... ou até mesmo... não... se aquela pessoa o encontrasse ia ser pior. Precisava de Nádia. Ou de Alvina.

~*~

Quarfein havia parado de procurar Amaess a pouco tempo – aquilo estava lhe dando muito trabalho, e o rapaz acabara dizendo para si mesmo que continuar procurando pelo elfo não valeria à pena. Seu braço ainda doía, mas já havia encontrado alguém que cuidasse do ferimento. Iria se divertir um pouco com qualquer meretriz que lhe parecesse atraente, e, se não achasse Amaess antes do aluguel da estalagem vencer, o deixaria à própria sorte — mesmo que isso contrariasse a irritante força em seu interior que o impulsionava para o contrário. Observava as diversas mulheres que passavam pelo salão — todas lhes pareciam atraentes, mas nenhuma lhe chamava a atenção em especial, a não ser... sim, ela... uma humana de cabelos presos em um coque, com a pele extremamente clara e os olhos azuis. Os cabelos eram loiros — não dourados como o de Amaess, mas de um loiro pálido, quase branco. Era ela mesmo que lhe chamara a atenção. Não sabia o porque, mas apenas se aproximou, observando aqueles olhos. Aqueles olhos azuis e... cheios de luxúria?

– Posso ajudá-lo em algo, senhor? Pelo pagamento certo, posso fazer qualquer coisa que desejar. – Disse a mulher. Quarfein não soube o porque, a atração que sentia desapareceu naquela hora. Sua mente se voltara diretamente para Amaess... o que dissera naquele dia?

"Veja que você não é muito diferente de uma prostituta... só muda pelo que vocês negociam seus corpos ..."

Pela primeira vez admitiu estar errado — Amaess sequer parecia com aquela mulher — a pessoa doce e inocente da qual roubara a liberdade jamais seria semelhante àquela mulher. Subitamente se lembrou de que o garoto se submetera a sua vontade apenas para proteger a vida da irmã. E então as imagens vieram à mente de Quarfein — as imagens do elfo tremendo, implorando até o último segundo para não ser tomado à força, mas ainda assim sem reagir... apenas para proteger a irmã.

O drow não entendera porque estava pensando no garoto, mas agora que aquelas imagens vieram a sua mente... se sentia tão culpado, tão confuso... não entendia mais o que estava acontecendo consigo. E mais ainda — não podia evitar sentir inveja do garoto, uma vez que a irmã do outro tentara tantas coisas para ajudá-lo... suas irmãs, porém, jamais moveriam um dedo em seu auxilio caso precisasse. Suspirou, diante daqueles pensamentos tão assustadores, que o deixavam sem chão.

– Não. – Respondeu à mulher, indo em direção ao seu quarto. No corredor, ouviu gritos ... gritos de uma voz que conhecia.

~*~

Amaess estava desesperado — mal conseguia se mover, enquanto as mãos brutas do homem deslizavam por sua coxa. Tentava empurrá-lo — movimentos torpes, fracos. Seu corpo sequer o obedecia direito. As mãos de Robert se infiltraram sob a blusa do elfo, que se debatia em movimentos frenéticos, porém debilitados. Amaess sentia o pânico se espalhando cada vez mais pelo seu corpo. O humano deslizou a mão pelos mamilos do elfo, forçadamente removendo-lhe a blusa.

– ME SOLTA! ALGUÉM... POR FAVOR ALGUÉM ME AJUDE! – Gritava, desesperado — talvez... talvez alguém como Nádia ouvisse e o salvasse daquela pessoa repugnante. Robert riu, mordendo os ombros do jovem.

– Você acha mesmo que alguém vai te ajudar, garoto? – Disse. O elfo virou o rosto para o lado, tentando escapar do hálito desagradável de seu agressor, que ironicamente, o segurava pela corrente que pendia da coleira — a mesma coleira que Belinda disse que iria remover. As mãos do homem entraram sob suas roupas, deslizando por suas nádegas.

– Por favor! Por favor não faça isso! – Implorou Amaess. Lágrimas de medo escorreram pelo seu rosto, mas tudo que pôde fazer foi se contorcer de repulsa quando a língua áspera do brutamontes deslizou por seu tronco.

– Ninguém vai te salvar. Eu vou te foder tanto que você não vai sequer conseguir andar por alguns dias. – Falou. Amaess tentava se debater, mas a droga que Belinda havia lhe dado minava sua coordenação. O homem puxou sua calça para baixo, junto com as roupas íntimas.

– Não! Por favor eu imploro! – Gritou, ao que o homem abaixou suas calças e roupas debaixo, erguendo as pernas do garoto. Amaess fechou os olhos. – Para!

O homem chegou a se debruçar sobre o corpo do garoto, mas não chegou a invadi-lo. Os olhos de Amaess se arregalaram quando algo jorrou sobre seu corpo — algo quente, seguido de um peso pressionando-o contra a cama. O elfo fechou os olhos, temendo saber o que havia acontecido.

– Você tem mesmo uma habilidade quase sobrenatural para atrair problemas. – Disse Quarfein, chutando o corpo do humano para o lado. Os olhos do elfo se arregalaram, mas tudo o que o drow fez foi pronunciar uma única palavra. – Venha.

Amaess se sentou com dificuldade, surpreso — o drow não o havia agredido? Ou o ameaçado? Espera, eles sequer haviam chegado ao quarto... que horrores o aguardariam? Seus olhos se arregalaram quando o drow foi em sua direção, puxando-o pelo braço. Os olhos de Quarfein se voltaram para o elfo quando o drow ouviu o baque gerado pela queda do corpo do mesmo.

– Te drogaram, não foi?– Perguntou. Amaess permaneceu em silêncio — tudo o que sabia era que havia bebido algo, e nada mais. Também se sentia pensando em coisas estranhas e... por tudo que era mais sagrado, havia caído nas garras do outro de novo! Parecia que não havia como escapar, estava enlouquecendo. Quarfein o ergueu no colo, carregando-o até o quarto, sem se importar com o fato do torso do garoto estar coberto com o sangue do humano ou com o fato de que não havia nada cobrindo o corpo do mesmo. O drow colocou Amaess no chão, até com certo cuidado. – Bom, ao menos eles te deram algo que fez seus ferimentos cicatrizarem por completo. Tome um banho e não me perturbe. – Disse. Não estava com cabeça para torturá-lo — não quando se sentia tão confuso. Deixou a banheira cheia de água e saiu do quarto, fazendo com que Amaess o seguisse com o olhar. O outro não havia feito nada?

Em sua mente, o garoto imaginou o pior — imaginara que Quarfein estaria preparando algo ainda pior do que aquilo pelo que já passara. Algo que não poderia suportar.

"Por que?" Perguntou a si mesmo, se erguendo com dificuldade e entrando na banheira, entorpecido a ponto de derrubar uma cerâmica sem querer. "Por que eu sou tão fraco? Se eu não fosse assim... eu poderia ter feito algo pelas pessoas que eu amava além da minha irmã... eu não estaria passando por isso... por que?"

O som de algo se quebrando o tirou de seus pensamentos, seguido por um único ranger da cama, e depois o silêncio. Estava com medo do que o outro faria, e não sabia mais o que devia fazer. Será que podia confiar em Alvina? Confiara em Belinda e se o drow não tivesse aparecido... não, Amaess sequer queria pensar no que aquele humano poderia ter feito. Tudo estava claro agora — sua irmã a essa altura estava longe, com a irmã de Alvina, e ele a havia perdido para sempre. Assim como havia perdido todos aqueles em quem podia confiar.

Estava sozinho, preso à alguém que o mantinha vivo apenas para torturá-lo. Qual o sentido de continuar vivendo daquela forma? Olhou para os cacos de cerâmica no chão — a morte... a morte era uma saída, não era? Já não havia nada que pudesse fazer pela sua irmã, certo? Pegou o pedaço de cerâmica que parecia mais afiado, segurando-o contra a parte da garganta que a coleira de metal deixava exposta. Suas mãos tremiam — se mataria e... o que aconteceria depois?

"Não vou conseguir... sequer me matar?" Pensou. Havia a possibilidade de errar o lugar do corte ou dele não ser fundo o bastante, e o pescoço era uma região sensível demais. E se errasse? Apertou a cerâmica, olhando em volta — nada que tivesse um reflexo onde pudesse ver para onde a ponta estava apontando. O sangue escorreu de suas mãos, e o elfo parou de apertar a cerâmica, observando os finos traços azuis em seus punhos.

Veias que sangrariam de forma abundante o suficiente para matá-lo... tão azuis... tão fáceis de visualizar devido à sua pele clara... já sabia perfeitamente o que fazer.

~*~

Quarfein apertava o travesseiro com força, se perguntando por que diabos agira daquela forma de novo. Droga, era a segunda vez que matava alguém para defender aquele maldito elfo! Se aquela não fosse uma terra sem leis, estaria com sérios problemas.
Estava sim, pensando no que fazer a respeito da fuga do outro, mas... Lolth, sua mente estava tão bagunçada que sequer conseguia pensar! Olhou para o punhal, ainda sujo de sangue. Limparia aquilo antes de mais nada.

Entrou no banheiro sem se importar com a privacidade do outro, mas logo o som do punhal caindo no chão reverberou pelo aposento. O drow abriu a boca para dizer algo, mas então se lembrou que sequer sabia o nome daquele garoto. A água estava começando a adquirir um tom avermelhado de sangue, e o braço esquerdo de Amaess pendia para fora da banheira, segurando um pedaço afiado de cerâmica. Sob a mão do mesmo, uma poça de sangue que não parava de crescer.

Os olhos azuis o fitaram, entorpecidos, desprovidos de qualquer brilho de esperança — apenas um brilho fosco, de umidade, indicava que o elfo ainda estava vivo.

– O que você fez, seu idiota?! – Esbravejou Quarfein, finalmente rompendo o silêncio e erguendo o corpo pálido de Amaess, colocando-o sobre a cama. Sabia pouco sobre cuidar de pessoas e muito sobre matá-las, mas o que sabia era o suficiente para que procurasse algo que pudesse usar para estancar o sangramento do elfo. Não sabia o que fazer, e pela primeira vez na vida se sentia desesperado. Pegou uma toalha, pressionando-a contra um dos ferimentos. Amaess estremeceu, com medo do que o outro faria. Uma lágrima escorreu de seus olhos. O drow puxou a corda que fazia soar um sino na sala de empregados, enquanto pegava o punhal, usando-o para cortar algumas tiras do lençol e jogando-o longe, em um frenesi que percorria seu corpo por razões desconhecidas. Usou duas das tiras para improvisar um torniquete em cada braço do garoto.

Sentia urgência por dizer algo, por chamá-lo pelo nome, mas... não sabia seu nome. Sentira alivio ao ouvir batidas na porta, mas o alívio desapareceu quando os olhos de Amaess se fecharam.

Pela primeira vez desde que abandonara a infância, Quarfein não conseguira negar que sentira medo.

~*~

O silêncio imperava enquanto Claitae arrumava sua pequena mala — eram poucos vestidos... vestidos bonitos, de um preço razoável, generosamente comprados pela irmã de Alvina... mas a pequena não sabia se devia ir.

Não duvidara do recado dado por Nádia, que seu irmão queria que ela fosse independente do que acontecesse a ele, mas não queria ir — não queria abandoná-lo. Peter entrou no quarto, com o dragonete no ombro.

– Terminou? – Perguntou à garota, sorrindo. O sorriso desapareceu quando vira a melancolia no olhar da mesma. – Ah Clai...

– Pete... eu... eu não quero perder meu irmão! – Disse a pequena, desabando sobre o menino. Duas crianças sendo forçadas a tomar decisões de adultos. Drake grunhiu, voando sobre os pequeninos e pousando perto da elfa. Uma lágrima escorreu dos olhos do humano.

– Nós não vamos... embora hoje... — Ele disse, em meio à soluços. – Ainda dá tempo de... fazer Drake entregar mais bilhetes...

– Eu não quero... falar com ele... por bilhetes... eu quero abraçar ele e livrá-lo daquele monstro! Não chorar pelos cantos como uma inútil! – Disse, chorando.

A noite se arrastava apenas sob o som de lágrimas caindo ao chão.

~*~

O drow permaneceu em silêncio, enquanto Nádia esbravejava sobre ele ser o culpado por tudo aquilo. Não precisava dela gritando para a estalagem inteira ouvir — e tampouco precisava aceitar a culpa que lhe caía sobre os ombros — mas não conseguia fazer o gosto amargo daquela sensação desagradável deixá-lo. Alvina tentava, em vão, acalmar a amiga, mas a mesma não estava disposta à deixar a raiva de lado.

Ignorando a gritaria, Quarfein deixou as mãos deslizarem pelo rosto do elfo, como se o mesmo fosse quebrar ao menor toque. Irônico. Mesmo à pouco tempo com o garoto, o fizera passar o que para Amaess foi um inferno, a ponto do jovem decidir tirar a própria vida. Agora que sequer sabia se os olhos do garoto iriam se abrir novamente, afogava-se em culpa, voltando a superfície apenas com o tapa que recebera de Nádia.

– TIRE SUAS MÃOS DELE! SEU MONSTRO! É CULPA SUA! – Gritou a humana, sendo afastada por Túlia.

– Nádia calma! – Disse a garota, apesar das lágrimas que escorriam por seu rosto. O drow sabia muito bem que ela e Alvina também queriam acertá-lo com um tapa... talvez até mesmo com um soco, mas não se importava. Não se importava com Túlia se esforçando para tirar Nádia do quarto, nem com a marca que a mão pequena da mesma deixara em seu rosto. Estava demasiadamente absorto em seus pensamentos, tentando decifrar a razão de estar sentindo dor por tudo aquilo.

– Nádia está certa em uma coisa. – Disse Alvina. O rapaz de cabelos brancos suspirou — aquelas garotas pareciam determinadas a não deixá-lo descobrir porque sentia aquele aperto laceranteno peito. – A culpa é sua.

Fosse quatro dias ou talvez apenas uma tentativa de suicídio atrás, e Quarfein teria feito a garota engolir a própria língua. Ao invés disso, apenas observou as cicatrizes deixadas no corpo do garoto — a maioria dos ferimentos não deixara marcas, mas alguns dos cortes feitos no tronco de Amaess haviam deixado suas marcas ali, bem como os dois ferimentos feitos nos pulsos.

– Defina culpa. – Disse, tocando a coleira no pescoço de Amaess.

– Responsabilidade por algo repreensível, algo terrível. E acho que isso você tem de sobra, não é mesmo? – Disse a mulher, impondo silêncio.

– Por que não saiu com as outras? — Perguntou o drow.

– Porque não pretendo deixar Amaess — Alvina se viu interrompida.

– Mesmo que recorra a alguma autoridade, acha que ela se importaria com um adolescente aleatório que sequer pertence a esse lugar? Que mandaria investigadores para essa terra de ninguém? Não seja patética e saia daqui antes que me irrite. – Falou, procurando soar o mais ameaçador possível. Mas não se sentia como se fosse ameaçar alguém.

"Ao menos agora eu sei seu nome... não que isso tenha importância..." Pensou. Tocou os cabelos ainda úmidos do outro, subindo a mão para o rosto. Seu dedo deslizou pelos lábios róseos e macios do elfo.

Lábios que nunca provara... por que? Apenas porque sua irmã dizia que os lábios de um nobre nunca deviam tocar os de seu servo? Ela não estava ali para vigiá-lo, estava?

Mas por outro lado... qual o sentido em agir daquele jeito? Não deveria sentir nada pelo garoto, certo? Então porque não sentia vontade de dormir enquanto os olhos do outro não se abrissem?

Movido pela culpa e confuso em relação ao que sentia, o drow removeu a coleira do pescoço do garoto, e passou a noite em claro, procurando uma explicação racional.

Notas finais
E agora, será que o Amaess morre ou não? Eis a questão!

Façam suas apostas nas reviews, a continuação vem depois do dia 27 desse mês, porque a escritora mendiga de reviews e universitária dramática tem prova :3