Hate Everything About You
11 Fantasmas - Parte I - Nenhum lugar para onde ir
Amaess acordou na cama, com um cobertor colocado sobre seu corpo de forma surpreendentemente cuidadosa. Piscou algumas vezes, sua visão demorando alguns instantes a recuperar o foco. O que havia acontecido no dia anterior... por que aquilo havia acontecido? O garoto se esforçou para olhar em volta, e então notou que estava sozinho.
Não era de se surpreender. O som da chave na porta, porém, o fez se enrolar de volta no cobertor, na ingênua esperança de que o outro sairia novamente caso achasse que ainda estava dormindo.
Permaneceu atento, buscando escutar os passos na madeira, mas Quarfein havia crescido em meio a sociedade de Lolth — onde, desde pequenas, crianças eram ensinadas a empunhar em uma arma e a confiarem somente em si mesmas. Seus passos eram silenciosos demais até mesmo para os ouvidos sensíveis e atentos de Amaess.
Suspirando, o drow puxou o cobertor, deixando uma mão deslizar pelo rosto do garoto, se perguntando porque se sentia tão mal pelo que fizera no dia anterior.
"Droga, não é minha culpa! Ele que ficou agarrando aquela garota, como ele queria que eu não me irritasse? E que droga de menina insistente também, sempre se metendo onde não deve!" Pensou, apesar de se questionar porque ficara com tanta raiva diante daquilo.
– Parece que eu realmente não posso ficar perto de você quando estou com raiva... – Disse, lamentando o fato de não ter simplesmente jogado Nádia pela janela ou algo do tipo no dia anterior.– Eu... sei que soa como uma mentira... mas... eu sinto muito pelo que eu fiz ontem...
Amaess não se mexeu, não acreditando — desde quando o outro sentia qualquer coisa? Ainda mais arrependimento? Apenas continuou fingindo que não havia acordado — o que desejava que tivesse acontecido.
– Amaess... eu sei que você está acordado. – Disse o drow. – Quantas vezes eu tenho que lhe dizer que você não sabe mentir?
– Apenas me mate... – Murmurou o garoto, fazendo Quarfein emitir um suspiro de frustração.
– Eu não vou te matar. – Falou, pegando a bandeja que havia trago e colocando em seu colo. – Eu trouxe algo para você comer...
– Eu estou sem fome... – Mentiu o elfo. Porém, seu estômago o denunciou.
- Não parece. – Disse Quarfein, com um sorriso debochado. Porém, aquilo apenas aumentou a distância entre os dois. – Vamos, não me obrigue a te forçar a comer. – Falou. Sem a menor vontade de continuar vivendo, o garoto se sentou.
~*~
Nádia andava de um lado para o ouro, hesitando a respeito de buscar ou não de informações de Amaess — se não tivesse ido até lá ontem, o que quer que houvesse ocorrido não teria acontecido — já sabia que algo se passara pela conversa de uma das funcionárias, que ouviu os gritos vindo do quarto 25 enquanto limpava o 24. Uma camareira que havia ido trocar os lençóis do quarto 26 dissera ter ouvido a mesma coisa
A garota sequer queria imaginar o que poderia ter acontecido, porém, a preocupação falou mais alto. Ela foi até a camareira.
– Delilah... – Disse.
– Pois não, Nádia? – Indagou a jovem.
– O que você ouviu ontem a noite... enquanto arrumava a cama do quarto 26? – Falou, preocupada. A funcionária corou.
– E-eu...– Um sino tocou.
– Ah! Eu tenho que ir! – Falou, aproveitando a deixa para se esquivar do assunto. Nádia iria atrás dela, se outra pessoa que sabia o que acontecia naquele quarto não a tivesse parado.
– Por que está tão preocupada, Nádia? – Disse Belinda. – Não devemos nos envolver nos assuntos dos clientes.
– A partir de amanhã ele não é mais um cliente. – Falou a garota, visto que a última diária estava prestes à vencer.
~*~
Amaess depositou o copo sobre a bandeja, mantendo o olhar abatido sobre a janela. O drow não entendia o motivo, mas aquela situação o incomodava.
– O que foi? – Disse.
– Como pode perguntar? Depois de tudo o que fez? – Murmurou Amaess, já sem se importar com a dor física que o outro podia lhe causar.
– Se não fosse por mim você estaria morto. – Argumentou Quarfein.
– Eu preferia... estar morto... – Disse o garoto, observando o horizonte. O que dissera, porém, não era novidade alguma para o outro.
"Merda... por que? Por que eu estou me importando? Essa sensação estranha... que sensação é essa que não quer me deixar?" Pensou o drow, confuso.
– Não diga isso. – Falou, atormentado pelo fato de que não compreendia a natureza do sentimento que, a despeito de sua vontade racional, lutava para se infiltrar em sua alma. Um sentimento que não sabia de forma exata do que se tratava, mas não pretendia sentir — nutria por ele uma mistura de medo e desprezo — era um sentimento que nunca conhecera, e na cultura em que havia sido criado não havia sequer uma palavra para ele.
– Por que não diria? Me dê apenas um bom motivo para continuar vivendo. – Disse o elfo, finalmente voltando o olhar para rapaz. – Me dê apenas um motivo para continuar vivendo quando todas as pessoas de quem eu gostava estão mortas. Quer que eu continue vivendo apenas para te entreter com minha dor?
– Não. Sua irmã não está morta e– Falou Quarfein, tentando contra-argumentar.
– E eu não posso estar com ela... – Disse Amaess, se encolhendo. – Nem com ninguém...
O nome "Nádia" subitamente veio à mente do drow, mas ele se negou a mencionar a possibilidade — não daria idéias ao garoto.
– E por que você precisaria de alguém? – Indagou. "E por que eu estou preocupado com você querer ou não viver? Por que estou me importando?"
Amaess se encolheu, cobrindo os ouvidos e se enrolando no cobertor antes que o drow dissesse mais alguma coisa, porém, Quarfein puxou o cobertor.
– Anda, pare de fazer tanto drama. Está ficando irritante. – Falou.
– Por que não pode simplesmente me matar? – Perguntou o elfo, evitando olhar para Quarfein. Tentou conter a vontade de chorar, mas a dor que sentia era tanta que não conseguiu evitar que ela transbordasse em forma de lágrimas. – Por que?
Quarfein parou por alguns instantes, observando os pequenos espasmos que faziam os ombros do garoto tremerem quando este soluçava. Suspirou, agarrando-o pelos pulsos e puxando-o para si.
Uma pequena exclamação de surpresa e medo deixou os lábios do garoto, ao que o drow o puxou para seu colo. Amaess sentiu um arrepio, provocado pela respiração do rapaz em seu pescoço. "Eu também... queria saber o porque..." Pensou Quarfein, deixando suas mãos percorrerem o tronco do elfo, repousando sobre o peito do mesmo, sentindo os batimentos acelerados pelo medo do coração do garoto. "Por alguma razão estranha... eu me sinto como se não pudesse te substituir... o que você tem de tão diferente?".
– Porque eu simplesmente não quero. – Mentiu: não era um simples "não-querer" — havia algo por trás do desejo de manter o garoto vivo — algo que Quarfein não compreendia, e que se recusava persistentemente a aceitar. Algo que lhe era novo, e que considerava estranho e ameaçador. Se levantou, indo até o banheiro e pegando um cadeado que havia deixado na bancada — havia comprado na noite anterior, para substituir aquele do qual Claitae havia roubado a chave. Então, foi até o guarda-roupa e pegou a coleira. Amaess apenas abaixou o olhar — estava ferido demais para reagir, e com medo demais para se opor. Apenas se encolheu em meio à angústia quando o outro voltou a prender a tira de couro resistente em seu pescoço, prendendo-o ao pé da cama. – Eu irei voltar até a hora do almoço. – Falou. – Não faça nenhuma besteira.
~*~
Os passos da mulher eram silenciosos, assim como sua respiração, enquanto se aproximava da cidade onde, supostamente, estaria a salvo. Seus fios brancos lhe caiam sobre os ombros de forma solta, apesar de que alguns dias atrás, estariam sempre presos em um coque por uma presilha em formato de aranha.
Agora, só de pensar em aranhas, Faeremma tinha calafrios. Estava andando a dias, sem parar. Teve de re-aprender algumas magias básicas que sabia, para então aprender magias novas — já não mais podia usar as que aprendera na Arachne Tinilith, infame academia onde se formavam as sacerdotisas de Lolth. A jovem emitiu um suspiro de alívio quando finalmente chegou à cidade indicada pela pessoa que a salvou — para uma cidade cujo nome significava "Esperança" em uma das várias línguas criadas pelos humanos, Spes possuía uma periferia completamente desolada — nem mesmo possuía um muro ou torres de proteção, como as demais cidades, e os guardas se concentravam próximos ao centro, protegendo a nobreza — os camponeses tinham de se virar, jogados à própria sorte.
"Tão parecido com a sociedade de Lolth." Lamentou a jovem em pensamento, colocando seu capuz sobre o rosto para se proteger do Sol: ainda não havia se acostumado a luminosidade da superfície, mesmo que esta estivesse relativamente baixa devido à estação do ano. Chegando a cidade, pôde ver um grupo de crianças brincando, e, isolada em um canto, uma pequena garota de cabelos claros, quase brancos.
"Temer o desconhecido... e se afastar dele... isso parece ser comum a todos os povos pelo visto..." Pensou. A pequena se aproximou, erguendo os olhos cujas íris eram praticamente brancas.
– É mais comum do que imagina. – Disse a garota. – Se eu fosse você, tomaria cuidado com o que deixou para trás.
A drow riu um pouco.
– Você também não ajuda. Como quer que as pessoas da sua idade não tenham medo de você? – Indagou, ao que a pequena deu um sorriso.
– Elas vão me agradecer mais tarde. Se me ouvir, você também vai... – Falou a garota. – ...Faeremma.
– O que eu deixei para trás... dificilmente poderá me perseguir aqui... – Disse a jovem, seguindo adiante, por mais que não tivesse tanta certeza a respeito do que disse. Parou em frente a uma estalagem, que parecia ser simples, porém aconchegante. Ao entrar, pôde ver um olhar de medo no atendente.
– O que... o que quer? – Perguntou o homem. A garota olhou o preço das diárias em uma tabela no balcão, e depositou um punhado de moedas sobre o mesmo — o que conseguira pegar antes de fugir, somada a uma pequena quantia que a pessoa que lhe salvara lhe deu.
– Eu gostaria de alugar um quarto. Por hora, por apenas três dias, mas talvez eu precise passar mais tempo aqui. – Esclareceu. Pôde ver o alívio — e a cor — voltando ao rosto do homem. Humanos eram, de fato, criaturas bastante engraçadas.
– Ah sim... claro... – Disse o homem, se atrapalhando. – Por aqui. Nós... servimos almoço de meio-dia às duas, o jantar de oito às dez e o café da manhã de seis às oito. – Falou, pegando uma chave no balcão e guiando a ex-sacerdotisa ao longo do corredor. A garota apenas ouvia, enquanto, morrendo de medo, o homem lhe mostrava o quarto.
"Nenhuma teia... então não tem nenhuma aranha..." Pensou, temendo o que já ouvira falar sobre como a cabeça daqueles que abandonavam os princípios da Rainha Aranha era posta a prêmio. "Perfeito..." Disse para si mesma, exausta.
– Quer olhar outro ou — A garota interrompeu.
– Este está bom o bastante. – Falou, pegando a chave e, assim que o homem saiu, trancando a porta atrás de si e se deitando na cama. "Apesar... de eu me sentir como se não estivesse longe o bastante. Acho... que essa sensação de medo não vai me deixar tão cedo..." Pensou, retirando de dentro da blusa o pingente que tinha o formato de uma mulher dançando em frente à Lua. " Chessiira... o que devo fazer agora? O que você iria fazer agora?".
Se encolheu, tentando lidar com a insegurança que não sentia desde de seus tempos de infância, apertando o colar com o símbolo de Eilistraee, divindade drow que se opunha a Lolth, contra si.
~*~
Amaess mantinha os olhos fixos na janela, observando o horizonte. Pôde ver alguns pássaros voando, livres, sem nada que os prendesse a qualquer lugar. Uma lágrima escorreu pelo seu rosto, e o garoto abraçou os joelhos se encolhendo, mas ainda assim observando, com melancolia, as aves cruzando o horizonte — queria tanto estar lá, do lado de fora, livre, sem nenhuma coleira prendendo-o ao pé de uma cama. Sem ninguém lhe prendendo em um lugar aonde não queria estar, obrigando-o a fazer coisas que não queria fazer.
E falando em alguém, a porta se abriu, e Amaess sequer ergueu o rosto ao não ouvir o som dos passos da pessoa que entrara no quarto. Quarfein parou perto do garoto, seguindo a direção do olhar do mesmo.
– O que você tanto olha nessa janela? – Perguntou, intrigado.
– Não importa... – Respondeu o garoto abaixando o olhar. – Não para você...
– Você acha que sabe com o que eu me importo? – Falou Quarfein, se abaixando perto do elfo.
– Eu sei que não se importa comigo. – Murmurou o jovem. Quarfein puxou-lhe os cabelos para trás, erguendo-lhe o rosto a fim de forçá-lo a olhar para si. Se viu refletido naqueles olhos azuis, que pareciam não ter fundo, mas que possuíam um olhar de medo e dor. Um par de lágrimas escorreu dos olhos do garoto, ao que o drow aproximou o rosto do seu.
Amaess agora podia sentir a respiração do drow em seu rosto, próxima de seus lábios.
– E que motivo eu teria para me importar? – Falou Quarfein, deixando a mão livre deslizar pelo rosto do elfo. Amaess fechou os olhos, sem ter uma resposta. Apenas queria poder estar do lado de fora do quarto, livre, longe daquele toque que tanto lhe enchia de pavor.
"Por outro lado, que motivos eu teria para não me importar?" Pensou o drow, deixando seus lábios tocarem os do garoto. Amaess sentiu a língua do rapaz invadindo sua boca, buscando pela sua. "Por que... eu não posso mais não me importar? Por mais que eu não queira me importar... eu me importo... O que você tem de especial?" Pensou Quarfein, removendo a coleira do pescoço do elfo e empurrando o garoto em direção ao chão.
Amaess estremeceu, mas o drow apenas se afastou, observando alguns tremores percorrerem o corpo do jovem, que mantinha os olhos fortemente fechados em meio ao medo.
– Eu não irei fazer o que está pensando. Não agora. – Falou Quarfein, indo até o guarda-roupa e jogando uma muda de roupa para o garoto. – Tome. Nós vamos no lugar de sempre.
– M-mas... – Amaess se viu interrompido.
– Mas nada. Não me faça esperar
~*~
Faeremma acordou com batidas na porta — o que considerou estranho. Ainda assim, espiou pela fechadura e reconheceu o dono da estalagem, de forma que apenas abriu a porta.
– Hã... perdão em incomodá-la milady... – Disse o humano, sem conseguir disfarçar o medo. – Mas... não iremos poder servir o almoço hoje, pois a encarregada de cuidar dele adoeceu devido ao inverno... no entanto, nós iremos reembolsar o custo extra que tiver indo a qualquer lugar fora daqui...
– Tudo bem... obrigada por avisar... – Disse, fechando a porta e se jogando na cama. Estava exausta, mas logo seu estômago tratou de lhe lembrar que o que estava sentindo de exaustão, estava sentindo também de fome. Se levantou, tateando o bolso em busca das moedas que tinha.
"Só duzentas moedas de prata? Logo alguém aqui irá precisar de um emprego..." Pensou, preocupada. Mas logo se encaminhou às ruas, buscando um lugar em que a comida não fosse cara mas também fosse minimamente decente.
~*~
Quarfein observava a forma como o elfo se mantinha acuado, com receio. O drow suspirou, cruzando os braços sobre a mesa.
– Ei, não é como se eu fosse te devorar... quer dizer, pelo menos não literalmente... – Disse, fazendo com que um rubor se espalhasse pelo rosto do garoto.
– Pode me deixar em paz pelo menos enquanto eu como? – Pediu Amaess. O drow suspirou, sem compreender porque se sentira incomodado.
– Está bem, coma. – Falou, voltando o olhar para a porta e se espantando ao ver a figura feminina que acabava de entrar por ela. – Já está acabando? – Perguntou. Amaess se surpreendeu ao notar certo nervosismo na voz do outro, uma vez que nunca o havia visto daquele jeito — espantado como se tivesse visto um fantasma.
– O que foi? – Perguntou o garoto, sem notar a aproximação da irmã do drow. Porém, Faeremma apenas se sentou na mesa ao lado.
"Então... foi por isso..." Pensou a drow, deixando seus olhos vermelhos percorrerem o rosto de Amaess. Então, Faeremma se levantou, indo até Quarfein. O rapaz pensou em se levantar, mas o olhar de sua irmã era quase uma ordem — não ouse.
– Foi por isso, então... – Disse a jovem.
– Não... eu iria voltar, não foi por causa dele que eu me atrasei. – Disse Quarfein. Os olhos da garota focalizaram alguns ferimentos no pulso e no pescoço de Amaess, que agora se encolhia, com medo.
"Minha culpa..." Pensou, suspirando.
– Não temos mais para onde voltar, Quarfein. – Falou a jovem. – Há dois dias atrás, nossa casa perdeu o favor de Lolth e caiu pelas mãos da casa Hun'ndar.
Os olhos do rapaz se arregalaram.
– E você está aqui para me matar ou algo assim? – Perguntou, como se fosse algo corriqueiro, o que provocou espanto em Amaess. Faeremma balançou a cabeça em uma negativa muda.
– Eu não vim para cá por isso. – Disse ela. – E... – Os olhos de Faeremma focalizaram algo na parede — algo peculiar. – Eu tenho que ir... depois conversamos mais... se eu fosse você iria também... – Falou, se afastando.
– Espera! – Exclamou Quarfein. Porém, Faeremma ignorou. O rapaz voltou o olhar para Amaess, que não se atreveu a proferir uma palavra.
– O que foi? – Perguntou o drow. – Alguma coisa comeu sua língua? Termine logo.
~*~
Notas finais
Brincadeirinha. Deixe sua opinião para o fantasma da dúvida parar de me assombrar :3
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