Hate Everything About You
26 Doce Amargura - Parte II - Amanhã
Notas iniciais
Amaess hesitava, observando o vaso de violetas que havia no criado mudo: pensava no que Nádia dissera sobre estar ali para protegê-lo, questionando até onde poderia confiar naquilo — anteriormente, a garota havia falhado, e tudo o que havia resultado da tentativa da mesma de protegê-lo de Quarfein fora mais dor e sofrimento. Se por um lado as coisas pareciam reais, por outro pareciam apenas ilusões frágeis que podiam desmoronar a qualquer instante.
O elfo se levantou da cama, pegando Daxunyrr no colo e indo até perto da janela. A gata se aninhou no colo de Amaess quando o mesmo se sentou no beiral, ronronando. O fato de Daxunyrr ser ainda tão pequena e dependente fez pensar em Claitae — como explicaria tudo o que havia acontecido para sua irmã? O garoto se viu ainda mais atormentado quando se questionou a respeito de como seria o futuro: tremia só de pensar na possibilidade das atrocidades cometidas por Quarfein se repetirem — atrocidades das quais o drow dizia se arrepender, mas não era como se o arrependimento alheio fosse levar a dor e o medo que Amaess sentia embora e apagar todos os traumas como se fosse mágica. Nem mesmo as memórias de Quarfein que Aunbryn havia projetado em Amaess, permitindo que o garoto soubesse o que se passava na mente do drow quando ele cometera tais atrocidades, não serviam como tábua de salvação — o garoto não conseguia saber até que ponto o outro havia deixado o passado para trás, e aquilo o assustava.
O passado o assustava — o fazia temer o futuro, mesmo quando tudo o que ele queria era acreditar que tudo iria ficar bem — as memórias deixadas pelas ações de Quarfein o amedrontavam, e o garoto sentia mais medo ainda ao pensar na possibilidade de sentir algo pelo drow e ele voltar a machucá-lo. Um par de lágrimas escorreu de seus olhos quando o jovem não conseguiu mais negar a si mesmo que, mesmo depois de tudo o que acontecera, estava começando a sentir algo pelo outro — estava se sentindo encurralado, e aquilo era ainda mais assustador tendo em vista o passado.
"Não é como se eu pudesse simplesmente ir embora depois que você quase morreu me protegendo... você fez tantas coisas terríveis, mas ainda assim mudou tanto... eu quero acreditar no que você diz... quero acreditar em um amanhã melhor... mas eu estou com tanto medo... se você não tivesse mudado... ou ao menos não tivesse feito todas aquelas coisas... seria tão mais fácil tomar uma decisão..." Pensou o garoto, encostando as costas no beiral e deixando seu olhar vagar de forma perdida pelo horizonte — tudo o que queria era poder ir sem medo em direção a um futuro.
– Amaess...? – Disse Quarfein. Os ombros do elfo tremeram quando um soluço deixou seus lábios.
– Eu... não sei porque meu medo não vai embora... – Falou o garoto, soluçando. – Eu quero acreditar que as coisas vão ficar bem... quero seguir em frente... então porque eu não consigo?
O drow suspirou, olhando nos olhos do garoto ao se sentar ao seu lado. Amaess perdeu o ar por alguns instantes ao ter os lábios de Quarfein tão próximos do seu — era possível sentir o hálito fresco e tentador do drow tocando seu rosto. Amaess sentiu as mãos do rapaz deslizando por uma de suas bochechas e colhendo uma lágrima.
– Você está se esforçando... você vai conseguir, Amaess... eu vou te ajudar... Nádia e Alvina também... e Claitae... – Disse, procurando reconfortar o garoto. Seus lábios se aproximaram ainda mais do rosto de Amaess, mas ao invés de tocar a boca do garoto, Quarfein depositou um beijo na testa do mesmo.– E Daxunyrr também... ah... Nádia conseguiu empregos para a gente...
– M-mesmo? M-mas... Quar- O drow interrompeu o garoto.
– Antes que você diga que ela já fez muito, não fui eu quem pedi. Ela simplesmente foi me arrumando um emprego na faxina e te jogando na recepção da estalagem, sem a opção de recusa. – Falou Quarfein, em um tom bem-humorado, em uma tentativa de animar o garoto. Um sorriso discreto surgiu nos lábios de Amaess, e o drow prosseguiu ao ver que suas ações haviam surtido o efeito desejado. – O que foi? Você está segurando o riso? – Falou.
– N-não é que você... na faxina... – Disse Amaess, tentando não rir... mas a imagem de Quarfein, arrogante como costumava ser — e como ainda era um pouco — de avental e varrendo uma pousada, já havia se formado em sua mente. O garoto não conseguiu conter uma pequena risada.
– É, eu sei... soa ridículo. Você agora está me imaginando em um avental enorme, de lencinho na cabeça, dançando com uma vassoura por aí não é? – Perguntou o drow, sorrindo diante do lampejo de esperança e alegria que vira nos olhos do elfo.
– Eu não tinha pensado no lencinho. – Falou o garoto, rindo ainda mais ao adicionar o detalhe à imagem formada em sua mente. – Deuses...
Amaess parou de rir ao sentir as mãos de Quarfein esbarrando nas suas. Os dois foram rápidos em recuar diante daquele toque.
– Desculpe... – Disseram ao mesmo tempo, corando.
– Quarfein... – Murmurou o elfo, sentindo seu coração bater mais rápido.
– Amaess... – Quarfein depositou um beijo na bochecha do garoto, acariciando-lhe o rosto. De repente, ouviram batidas na porta. Um silêncio de hesitação preencheu o quarto, até o elfo se levantar e correr para atender.
– Bom dia. – Disse uma garota vestindo o uniforme da estalagem. – Meu nome é Túlia, eu sou amiga da Nádia e camareira da estalagem... acho que o Quarfein se lembra de mim...
O drow se aproximou da porta, e riu.
– Ah, eu lembro. – Disse, se contendo para não soltar um "você é a menina que segurou a Nádia para ela não me dar uns socos... merecidos, diga-se de passagem...".
– Ela me pediu para entregar isso a vocês. — Falou, estendendo duas mudas de roupas. – São os uniformes... duas das poucas peças masculinas... experimentem, e se elas precisarem de ajustes, eu vou estar arrumando o quarto 23. – Informou a garota, entregando um envelope para Quarfein. – E isso é para você. – Disse Túlia, antes de sair após os garotos agradecerem.
– Eu vou experimentar meu uniforme. – Falou Amaess, indo para o banheiro. Ficou alguns segundos encarando a peça de roupa azul. "Por favor que não fique embaraçoso demais..." Pensou o elfo, sentindo certo ao alivio ao pensar no que acabara de acontecer — por alguns instantes, toda a tensão o havia deixado e sua única preocupação fora se o uniforme ficaria ou não estranho — o amanhã parecera algo bom, e parte do garoto ficou com medo de que fosse só uma ilusão. Sentindo a tensão voltar, Amaess apertou o uniforme. "Não... vamos nos esforçar... continuar tentando... podemos não conseguir acreditar hoje, mas uma hora vamos poder fazer isso... ." Pensou, enquanto Quarfein lia o bilhete que Nádia havia deixado. Os olhos do drow deslizavam pelas palavras, e se ele não se surpreendeu com a visão que os humanos e outros povos da superfície tinham de se povo, certamente se surpreendeu com a sugestão que a humana havia dado e com a genialidade da ideia simples, expressa em tão poucas linhas: "Quarfein, esqueci de te dizer aquela hora, mas bem... aqui na superfície se escuta que drows são temíveis como o são por aprenderem a lutar desde cedo... não sei se isso é verdade, mas de um jeito ou de outro o que se houve falar é que os membros de seu povo são verdadeiramente letais em uma luta. Eu estive pensando... por que não ensina Amaess a se defender? Vai ser útil para ele, e vai fazer bem para desenvolver a auto-confiança dele também. Também vai ajudar ele a confiar mais e você e se sentir mais seguro. Ah! E compre uma arma PARA ELE com o dinheiro no envelope. É pouco, mas o ferreiro da região me deve alguns favores, ele provavelmente vai dar um desconto se você mostrar esse bilhete." . O drow riu da ênfase dada ao "para ele", e notou que Nádia estava falando sério quanto à parte da arma — ela até havia colocado seu selo no bilhete para que o ferreiro não duvidasse da autenticidade. Sem dúvidas, independente do que acontecesse aquela ideia seria muito boa para o futuro de Amaess.
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