Hat
1 Sarjeta
Notas iniciais
"Não. Não, não, não, não não!"
"Tudo bem! Eu entendi, não exagere!"
"Eu não exagerei! Eu só..."
"Seis 'nãos'?"
"Me desculpe."
O pequeno bar da rua 45 era cenário de várias dessas conversas. Miúdo, abafado e quase não se viam rostos por causa da fumaça de cigarro que pairava estagnada em todo o estabelecimento. No rádio, uma música tocava preguiçosamente, se misturando com o burburinho.
A moça dos nãos repetidos era Samira Johnson. Ela trajava um longo vestido vermelho sangue e estava sentando numa das mesas mais ao fundo. Seus braços nus findavam no começo das luvas de couro pretas e compridas que cobriam suas mãos, que acabavam por segurar um cigarro e uma taça de vinho.
Seu companheiro era Marcus Flint, um jovem de boa aparência e sotaque engraçado que viera do extremo norte do país procurando por melhores condições de trabalho. "Qualquer coisa, menos roça!" ele costumava repetir entre soluços quando se embebedava — o que não era nada raro.
Eles discutiam seu relacionamento. Samira já estava cansada da caretice de Marcus e de como ele acabava querendo fazer tudo certo demais. Pior ainda, ele acabava sempre em alguma sarjeta úmida e enfestada de ratos, bêbado, toda vez que se decepcionava, quando as coisas não saíam do jeito certo.
Ela simplesmente não queria mais.
"E então o que é que você propõe?" disse ele numa respirada só. Ao fundo ouvia-se o fala-fala e os tilintares, brindes e risadas frouxas.
"Escute. Eu não estou em condições de dizer quais serão nossos próximos passos agora." Ela desviou o olhar para o barman e, com uma piscada, chamou sua atenção. Um garçom foi mandado e ela pediu um pouco de conhaque.
"Você não deveria misturar as bebi--"
"Você entende bem do assunto, não é?"
"Não venha me dar lições de moral!"
"Eu estou cansada de esperar por você toda noite, seu bastardo! Cansada de chorar e esvaziar garrafas de vinho barato sentada naquela poltrona velha respirando ácaro e o ranço que vem daquela maldita cozinha apertada!"
"Quer um homem ou uma casa!?"
"Ultimamente não ando tendo nenhum dos dois." Puxou a fumaça do cigarro bem devagar, encarando Marcus e mantendo um sorriso sarcástico no canto da boca.
"Já chega, Red!" Red era um apelido carinhoso que os conhecidos de Samira haviam dado à ela. Já que ela era sempre vista com trajes vermelhos que faziam outras mulheres desmaiarem de inveja e os rapazes desmaiarem de paixão. Ela também usava seu chapéu de festa vermelho, que ganhara de sua falecida mãe.
Marcus se levantou, agarrou o casaco num movimento rápido e saiu do bar à toda velocidade, com passos duros e esbarrando nas pessoas, até que o som da porta do estabelecimento sendo fechada violentamente ecoou mais alto que a conversação do interior do bar.
Red apenas o acompanhou com o olhar, cigarro na boca e as pernas cruzadas, estonteante e perigosa.

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