Harukaze

23 Capítulo 23


Notas iniciais
Boa leitura!

Harukaze

Capítulo 23

Chame quando você estiver de volta em casa

Porque eu esperarei dentro da sua alma

Todas as luzes para abençoar seu caminho

Não tenha medo

Porque eu serei seu lar

O coração de Tsuhime disparou com a repentina visita, afinal ela não havia contato a ninguém que comprara aquela casa. Apertou o laço do roupão e caminhou devagar e cautelosamente até a porta. Seja lá quem estivesse do outro lado a seguira e isso não era algo bom a se pensar somado ao que sentia.

— Quanto tempo mais vai levar para abrir a porta para mim? — A voz que ela pensou que nunca mais ouviria estava abafada pelo pedaço de madeira que os separava. — Minha paciência está acabando.

Sem escolhas, Tsuhime permitiu que Kabuto adentrasse seu lar. Não era grande a surpresa por vê-lo ali, afinal, depois do que ele ajudara Tobi a fazer seria essencial que eles mantivessem contato. Agora que o homem mascarado sabia que ela carregava um filho dele, Tsuhime imaginou que ele talvez gostasse de acompanhar o crescimento da criança de perto. Abraçou o próprio corpo e não deu mais nenhum passo, permaneceu junto à porta caso precisasse fugir mais uma vez.

— Como me encontrou? — Era uma pergunta retórica, mas foi impossível não interrogá-lo quando o nervosismo jazia dentro dela.

— Vê isso? — Kabuto sorriu, retirando do bolso o aparelho que usara para rastreá-la há quatro anos. — É um radar e ainda funciona. E, acredite, não tem a mínima graça perseguir você.

— O que você quer? — Ela desejou saber, temendo que Tobi a exigisse de volta. O que lhe custava crer, já que ele havia concluído todos os planos para com ela. — Veio me chantagear?

— Não, Hime. — Kabuto guardou o aparelho, rejeitando usar o honorífico junto ao nome dela. — Apenas quero que você tome nota de que estou mais perto do que imagina. Pensou que se livraria de mim? Enganou-se completamente, portanto é melhor ir se acostumando com minha presença. Ou prefere que eu assuma outra forma que lhe agrade? — O sorriso de deboche que surgiu em seus lábios fez com que Tsuhime tivesse aversão a ela própria.

— Não me vá dizer que pretender dividir a mesma casa comigo. — Aquela possibilidade fez o estômago de Tsuhime revirar, causando-lhe mal estar.

— Que isso, Hime, não sou tão louco assim para tanto. — Kabuto viu as sobrancelhas dela relaxarem. — Virei te ver uma vez ao mês. Tobi quer garantir que nada de ruim te aconteça.

— Como se ele se importasse. Agora... — Tsuhime mostrou a ele o caminho da saída, finalizando a desagradável conversa. Talvez devesse ter cogitado que jamais fosse viver tranquilamente. — Saia da minha casa.

— Já? Mas conversamos tão pouco... — Kabuto deu um passo, visto que a jovem recuou. — Tudo bem, estou impossibilitado de causar qualquer mau a você, seja no que for. E só mais uma coisa: Não precisa se esconder, eles já sabem que você voltou. — Antes que a agulha de gelo lhe acertasse de forma violenta, Kabuto apressou-se em fechar a porta e proteger-se.

Respirando com dificuldade, Tsuhime sentia todos os músculos tensos e trêmulos. O peito subia e descia de angustia e naquele momento ela teve vontade de gritar alto como nunca antes. Socou qualquer coisa que adentrasse seu campo de visão, resultando em um pequeno corte em sua mão, exceto a caixa de madeira que Taki lhe dera. Tsuhime fizera questão de reavê-la assim que voltara. Apesar de nutrir profunda raiva de Kabuto, o que ele dissera tinha suas razões: Provavelmente ela não estava escondida como pensava e, avaliando, se quisesse construir sua dignidade deveria começar se mostrando.

Contudo, naquele dia, Tsuhime não tinha ânimo para concretizar sua presença perante todos. Perdera a fome, porém não abriu mão de uma xícara de chá quente.

(...)

Por mais tempo que passasse longe de Konoha, a beleza jamais se modificaria. Era uma vila próspera, alegre e harmoniosa, de cidadãos gentis e dispostos. E mais uma vez era por aquelas ruas que Tsuhime caminhava. Os cabelos soltos e longos não conseguiam fazer sua presença passar despercebida. Cumprimentou alguns moradores e aceitou a flor que uma criança lhe dera. A sensação que tinha era que nunca havia saído dali.

Notou também que aquela manhã acordara enjoada e indisposta, mas negou-se a adiar. Decidira que não iria mais guardar coisas importantes apenas para si, pois existiam pessoas que se preocupavam com ela e dava a sensação de estar as enganando. Assim que o gabinete da Hokage tornou-se visível, ela viu a figura de Shino saindo sozinho da grande porta.

E aquilo a desconcertou.

Pequenos flashes do que passara com Tobi invadiram covardemente seus pensamentos, exigindo que ela se mostrasse indiferente enquanto as distancias entre eles não ultrapassavam alguns metros. Sentia claramente os olhos de Shino sobre ela e num ímpeto Tsuhime sorriu gentil, cumprimentando-o pela primeira vez desde que voltara a morar na vila.

As sobrancelhas de Shino se uniram, imaginando que aquele cumprimento não lhe era direcionado, porém apenas encontravam-se os dois naquelas proximidades. Continuou com a postura indiferente, mãos nos bolsos do casaco e o olhar bloqueado pelas lentes escuras voltadas para Tsuhime. Ela estava bonita e a brisa trazia às suas narinas o perfume dela. Inspirou-o, esperançoso em guardar, com carinho, o aroma natural que ela exalava.

Sua noiva, Aburame Mita, também possuía um perfume agradável, entretanto, não o suficiente para fazê-lo desejá-la. Como todos os clãs, o clã Aburame também era regado de regras impossíveis de se ir contra. E em uma das reuniões do clã, foi decidido que Shino deveria se casar com uma moça do próprio clã e continuar a linhagem Aburame, pois mesmo que misteriosos e contendo apenas centenas, os herdeiros deveriam cumprir com seus deveres. Claro que Tsuhime não precisava tomar conhecimento desse detalhe, seria o mesmo que admitir para ela que ainda a amava, e Shino adquiriu a decisão de enterrar sozinho aquele amor.

Todavia, agora, observando a maneira como ela caminhava em sua direção, foi incapaz de raciocinar perfeitamente. Nenhuma mulher havia mexido tanto com seus sentimentos quanto Tsuhime, e a ideia de fingir não vê-la e se importar não o abateu. Esperou, ouvindo os batimentos de o próprio coração lhe incomodarem. A quem Shino estava querendo enganar? A vontade que o assolava no momento era de sentir o corpo contra o seu, os lábios pedindo para relembrarem a maciez e doçura de outrora. Poderia fazer a vontade real se assim o quisesse, Tsuhime seria sempre dele, entretanto não era possível. Tanto ele quanto ela se tornaram inalcançáveis.

— Bom dia. — Tsuhime disse tímida, o lábio inferior preso discretamente entre os dentes. — Espero que não seja muito cedo para conversar com Tsunade-hime. Eu soube que ela se demorou bastante com o serviço ontem à noite.

— Creio que não. — Shino retorquiu, olhando por sobre os ombros da mulher. Esperava que seus companheiros chegassem, embora a figura de Tsuhime em nada o incomodasse. — Como você está?

A pergunta de Shino a pegou de surpresa. Ela encontrava-se constrangida demais na frente dele, uma parcela devido à imagem distante que ele passava, e outra metade regada das mentiras e ilusões que passara com Tobi, porém o teor simples e educado que presenciou na voz do Aburame dispararam seu coração. Ao mesmo tempo em que reformulava uma resposta decente, Tsuhime hesitava em respondê-lo. Ela tinha o costume de falar além do necessário, então por que com Shino seria diferente?

— Enfrento alguns problemas, mas estou indo bem. — Ela sorriu em contraste com a mudança de postura dele. Pensou em devolver a gentileza, perguntando o mesmo para Shino, no entanto um pensamento agitou-se em sua mente: O casamento dele estava próximo, faltava apenas um mês. Porém, sentia-se na necessidade de saber sobre qualquer coisa que o envolvesse mesmo que não tivesse o direito. — Bom, não vou tomar mais o seu tempo. Você deve ter mais coisas para fazer. Obrigada pela conversa.

Disponha — Shino proferiu consigo, vendo que finalmente seus companheiros de time haviam chegado.

Já distante deles, Tsuhime caminhava pelo corredor com o coração ainda aos pulos. Tsunade iria enchê-la de perguntas e a gravidez era algo que ela não conseguiria manter segredo por muito tempo. Talvez ela devesse confiar na Hokage mais uma vez, porém ela não precisaria dizer quem era o pai de seu filho. Relembrá-lo causava-lhe arrepios e tudo o que mais queria era manter-se longe dele e de seu maldito Sharingan. Por alguma razão, Tsuhime havia desenvolvido trauma pelo jutsu ocular porque ficara ciente do que acontecia em pequenos períodos. Com certeza era o jutsu mais poderoso que já sentira.

Vozes atravessavam a porta e entre elas Tsuhime reconheceu a voz de Kakashi. Praguejou mentalmente, ela poderia ter se encontrado com qualquer pessoa menos com o ninja copiador.

— Iremos recuperar o pergaminho, Tsunade-sama.

— Conto com vocês, Time Kakashi.

Devido a isso, Tsuhime escondeu-se na pilastra próxima e tentou fazer o mesmo com seu chakra. Ainda não era o momento, teria que preparar o terreno antes de adentrá-lo novamente. Viu Kakashi e seus alunos dispostos a cumprirem o mandado da Hokage e assim que uma distância segura foi estabelecida entre eles, a jovem tomou coragem para bater à porta do gabinete. Escutou um “entre” quase que no mesmo instante e, respirando profundo, adentrou-o.

Aguardou que sua presença fosse sentida, e ao fazê-lo presenciou uma Tsunade muito nervosa. A forma como a Sannin a encarava era quase faminta, como se dissesse “vou arrancar os seus olhos, menina!” e logo o chão parecia tremer de acordo com os passos de Tsunade, obrigando Tsuhime a manter-se firme no lugar.

— Oi? — Tsuhime ousou iniciar um diálogo, porém não foi muito produtivo. As sobrancelhas da Hokage se uniram irritadas, intimidadoras.

— Oi?! — A Hokage repetiu, debochada. — Depois de todo esse susto, só o que tem a me dizer é “oi”? Eu deveria te ensinar a não preocupar os mais velhos, menina! Onde você se meteu? Te procuramos durante dias!

Não havia outra opção a Tsuhime senão rir. Sim, a preocupação de Tsunade despertara nela um sentimento quente e nunca antes sentido e parecia que seus olhos também concordavam, pois já era possível visualizar lágrimas neles. Não se recriminou por deixá-las escorrer livres por seu rosto. Ignorando qualquer queixa de Tsunade, abraçou a mulher repleta de saudade. Ali, vendo-a agir daquele jeito, era impossível que Tsuhime encontrasse outro lugar para se sentir em paz.

Surpresa, a Hokage demorou um tempo para habituar-se a situação. Tsuhime chegara a Konoha fugindo, e depois de quatro anos a sina dela ainda não havia mudado. Então, desde o primeiro momento em que a vira Tsunade não sabia definir o que sentia pela garota. Até aquele exato momento. Até sentir as lágrimas quentes molhando sua blusa. Até sentir o corpo frágil e um coração sedento de afeto. Tornou-se incapaz de continuar com o sermão e retribuiu o ato, afagando os cabelos compridos e sorrindo afável.

— Tudo bem, estou aqui.

— Obrigada. — Tsuhime afastou, porém manteve as mãos da Hokage nas suas. — Aconteceram tantas coisas, como sempre. — Riu sem jeito. — Mas não pense que eu sofri com isso, pelo contrário.

— Do que está falando? — A expressão gentil de Tsunade mudou, dando lugar a uma completamente perdida e confusa.

— Depois de vinte anos, acho que finalmente recebi o que sempre busquei. — Guiando as mãos de Tsunade, a jovem repousou-as sobre o ventre. — Consegue sentir?

Instintivamente os olhos claros da Hokage arregalaram-se, surpresos, assim que sua mente entendeu sobre o que Tsuhime falava. E, francamente, não assimilava tal informação. Ainda queria ouvir Tsuhime narrar esse ultimo mês, porém, depois disso, achou melhor não aprofundar assunto. As palavras de Tsuhime perderam o teor melancólico e frustrado, evoluindo para concretos e controlados, quase como se estivesse aceito a sua vida como ela se mostrava.

— Você... — Ela proferiu com cuidado, encarando Tsuhime com extrema seriedade. — Quem?

— Não importa. Agora eu tenho por quem lutar. — A jovem sorriu, tentando tranquilizar a mulher mais velha. — Vou dar o melhor de mim por esta criança.

— Você não quer mesmo me dizer? — Tsunade tentou mais uma vez. Dentre todas as mudanças, a relutância de Tsuhime não havia se modificado.

— Não. Ninguém nem mesmo meu filho terá conhecimento de quem é o pai dele. — Tsuhime sentenciou convicta. — Desculpe-me. Eu sei que não tenho nenhum direito de esconder algo assim de você, Tsunade-hime, mas eu realmente não quero contar.

— Eu entendo. — Tsunade suspirou, dando o assunto por encerrado. — Há muitas pessoas que gostariam de te ver.

— Fico me perguntando como consigo arrumar tantos problemas. — A tontura repentina abateu Tsuhime, fazendo com que buscasse a cadeira mais próxima. — Estou bem, foi só um mal estar. — Ela disse ao ver Tsunade dirigindo-se para perto. — Melhor eu voltar para casa.

— Eu quero acompanhar a sua gravidez. — Tsunade falou antes que a jovem a deixasse sozinha na sala.

— Agradeço, mas eu me encarrego disso. — Ela não queria que Tsunade descobrisse Kabuto, porque nada tirava da cabeça de Tsuhime de que ele estivesse hospedado em alguma parte da vila, fornecendo informações a Tobi. E de envolvidos já bastava ela. — Poderia fazer o favor de me avisar quando Kakashi estiver de volta? Eu realmente preciso falar com ele.

Vendo a concordância no gesto de Tsunade, a jovem Yatsuki permitiu que ela voltasse ao trabalho e saiu da sala. Talvez concretizasse a vontade de cozinhar tamagoyaki e misshouri. Aqueles pratos traziam-lhe às memórias tempos antigos. Tempos que, com o passar dos dias, aprendeu a respeitar e não se sentir triste por saber que não voltariam mais.

Notas finais
Obrigada por ler, espero que tenha gostado. Deixe sua opinião, crítica construtiva ou sugestões... Tudo será bem vindo. Esse é o penúltimo capítulo da segunda fase da vida da Hime-chan. Pensei em separar a história, mas não quero fragmentá-la desse jeito, então postarei tudo junto. Podem ver como segunda temporada do capítulo 12 ao 24. Nos vemos na segunda. Bom fim de semana! Beijos!