Harukaze
15 Capítulo 15
Notas iniciais
Harukaze
Capítulo 15
Eu costumava acreditar, sem duvidas
Que poderia alcançar meus sonhos
Não importando o quão distante eles estivessem
Mas o "eu" daquele tempo agora está adormecido em meu coração
Terminou o dia dormindo desconfortavelmente na cama do quarto alugado. O corpo reclamava pela postura e Tsuhime sentou-se na cama, limpando o rosto. Ela não precisava olhar-se no espelho para comprovar o estado em que se encontrava. Leve sua vida adiante, desprendida de qualquer ligação do passado. É isso que eu venho fazendo durante um bom tempo. Lembrou-se do que Tsunade havia lhe falado, e embora não soubesse por onde começar a seguir tal conselho faria o melhor que conseguisse. Não adiantaria lamentar por tudo que perdera, apenas conformar-se com o seu destino: Viver sem o homem que amava.
Imaginá-lo amando outra mulher não a fazia bem. E o mais importante: Ela ficaria bem? Conseguiria fingir a mágoa diante das pessoas? Questões para serem discutidas em outra ocasião, agora Tsuhime queria livrar-se do cansaço com um bom banho e pensar em como poderia ajudar Konoha de uma forma que fosse útil. Talvez conversasse com a Hokage a respeito de suas habilidades médicas.
Enrolada na toalha, Tsuhime escolhia que roupa vestiria naquele dia. Ela gostava de saias, a vida inteira elas ocuparam a maior parte de seu guarda-roupa, então a primeira peça havia sido eleita. Em seguida, entraram em seu campo de visão as blusas. Havia variedades: Algumas de alças ou não, outras de manga comprida e curtas e de diversas cores... Como ontem, optou por uma blusa de alças finas de cor branca e suas costumeiras botas. Os cabelos, dessa vez, ela os deixaria soltos. Como Taki gosta. Ela pegou-se ouvindo a voz do garoto e foi impossível não sorrir.
Devidamente vestida, Tsuhime saiu de casa. As ruas já se encontravam movimentadas e, por mais que precisasse, ela preferiu dispensar o café da manhã. Não sentia fome, tampouco vontade de prolongar o dia com assuntos desnecessários. Quanto antes se mantivesse ocupada, menos pensaria no que discutira com Shino. Apesar de por fora assumir uma postura forte, como se nada tivesse acontecido, era evidente que por dentro tudo estava fora do lugar.
Eu deveria ter tentado mais? Tsuhime cogitava consigo. Talvez não fizesse diferença alguma ter insistido, mas ter aceitado sem dispor de qualquer confiança ferira-lhe o orgulho. Inúmeras vezes repetiu a si mesma para não guardar esperanças, porém foram repetições em vão. Ela sabia que se decepcionaria consigo, que as amarguradas rejeições ecoariam por seus pensamentos durante toda sua vida. Algo que ela se lembraria de melhorar. Estava tão absorta dentro de si que não percebeu a figura parada a sua frente, esperando que ela o notasse. E notou-o quando esbarrou nele, distraída.
— Desculpe-me, eu não o vi. Você está...? — A frase morreu ao deparar-se com o mesmo homem de ontem de manhã. Parecia que a vida gostava de colocá-los sempre no mesmo lugar. — Kakashi...?
— Está indo ao gabinete da Hokage? — Ele perguntou, ocultando um sorriso sob a máscara.
— Sim, eu não aguento mais ficar sem fazer nada. — Tsuhime passou a caminhar, chamando-o com um gesto de cabeça. — Sinto falta dos trabalhos que fazia em outra vila, então pensei que talvez pudesse exercê-los aqui.
— Que tipo de trabalhos fazia? — A curiosidade surgia, tão forte e tão imperativa, que se tornava incapaz de deter-se.
— Eu era médica, e como as pessoas não tinham condições de pagarem um especialista eu me voluntariava. Acabou que me tornei a médica principal da vila. — E ela contava-lhe sua vida, como se já fossem bons amigos há muito tempo. — Precisei me adaptar, já que minhas condições também não favoreciam.
— O que quer dizer? — A sobrancelha de Kakashi ergueu-se, notando o leve teor frustrado na voz da jovem mulher.
— Bom... — Ela reformulou a explicação em sua mente, antes de dizê-la: — O meu chakra é falho, na verdade, as linhas que os conecta. A principal é rompida, e preciso que alguém estimule essa linha para que ele possa se reproduzir. É um pouco complicado, mas com o tempo aprendi a usar quantidades menores de chakra para que sempre tivesse uma reserva.
— Então, se por acaso o seu chakra chegar a zero...
— Eu me tornarei uma civil. Em outras palavras, uma humana comum. — Tsuhime continuou-lhe a dedução. — Apesar de que comum é a última coisa que sou. Mas por que eu estou te contando isso mesmo?
Kakashi deu de ombros, afinal, não era realmente uma pergunta que precisasse de respostas. Mesmo que Tsuhime conversasse com ele naturalmente, havia um brilho melancólico nos olhos acastanhados... Que o ninja copiador foi incapaz de deixar de perceber. Uma habilidade que se desenvolveu sozinha.
— Sabe, essa máscara faz com que você pareça misterioso. — Tsuhime comentou perante o silêncio, talvez não tivesse sido má ideia iniciar um diálogo com aquele homem.
Antes que Kakashi pudesse responder, uma voz escandalosa irrompeu perante eles. Naruto corria acenando euforicamente, chamando não só atenção de Kakashi, mas sim de todos ao redor. Atrás, vinha Sakura e Sai, este último tão inexpressivo que a fazia relembrar alguém.
— Bom dia, Kakashi-sensei! — O sorriso do Uzumaki contagiava qualquer pessoa próxima, e Tsuhime pegou-se sorrindo de volta. — Desculpe, mas eu não sei quem é você.
— Eu sou Yatsuki Tsuhime.
— Tsuhime-chan... Hime-chan... Tsu-chan... — Naruto parecia pensar em como seria a forma mais fácil de chamá-la, atrasando o porquê de estarem ali. — Hime-chan!
— Ande logo, Naruto! — Sakura se irritou, acertando um soco na cabeça do rapaz loiro. — Desculpe, Kakashi-sensei, viemos procurá-lo. Tsunade-sama enviou-nos numa tarefa no país do ferro.
— Certo. — O jounin suspirou entediado. — Até mais tarde, Tsuhime. — Dito isso, ele seguiu os três em direção aos portões da vila.
Não havia outra opção a não ser continuar o caminho, sozinha. Faltava pouco até que chegasse ao gabinete da Hokage, porém quando possuía companhia poderia ser mais interessante. Momentaneamente eles fizeram com que um pouco de felicidade se instalasse dentro dela, e depois trataria de agradecer a Kakashi. A manhã havia melhorado seu humor e esse teria continuado inalterado se seus olhos não tivessem se focado na figura alta de Shino, saindo com os companheiros de time da entrada do palacete. O coração foi o primeiro a frustrá-la, acelerando como se fosse correspondido.
Quando ambos se aproximaram, Tsuhime não desviou o olhar, apesar de querer muito. Ela não tinha o direito de intrometer-se na vida dele mais, não tinha o direito de estragar a vida que ele levava. Os sonhos, que antes ela cultivava, iam morrendo aos poucos. A meta que restara para ser completamente feliz não existia mais, então ela poderia se considerar uma mulher inteira. Com o tempo, as cicatrizes iriam se curar e se tornariam apenas um leve desconforto, como Shino havia lhe dito.
Ao adentrar o corredor, um homem avançou em sua direção, contudo não para atacá-la. Ele havia desmaiado. Imediatamente Tsuhime amparou-o, acomodando-o no chão e checando os sinais vitais. Encostou o ouvido no peito dele, percebendo que os batimentos estavam fracos, mas estáveis, então seria sua função mantê-lo assim. Depois verificou a respiração e seus olhos arregalaram-se: Ele não estava respirando.
— Não, não, não... — Ela balbuciou consigo, procurando por qualquer ferimento no corpo do homem. Inexistente. — Por favor, eu preciso de ajuda! — Tsuhime gritou, logo atraindo mais duas pessoas. — Este homem precisa ir para o hospital agora, ele não está respirando.
— Chame os paramédicos! — Um deles gritou para o companheiro, que saiu correndo em busca de ajuda.
Logo, um grupo de enfermeiros juntou-se a eles e Tsuhime informou o que havia acontecido enquanto outros três colocavam o homem na maca e se preparavam para prestar-lhe socorro. Em alguns minutos, a jovem era a única pessoa no corredor. O nervosismo que sentira ao ver aquele homem sem respiração esvaia aos poucos e, depois de alguns minutos recuperada do susto, Tsuhime achou melhor seguir o caminho.
(...)
— Você está péssima. — Tsunade comentou ao ver a jovem adentrar sua sala. — Aconteceu alguma coisa?
— Um homem caiu bem na minha frente agora a pouco com parada respiratória. — Tsuhime comentou distraída. — Apesar de ter lidado com isso durante um ano, eu não consigo me acostumar. Estou nervosa.
— Uma médica nervosa não é comum. — A Hokage rebateu, avaliando mais as falas da garota.
— Eu sei, mas para alguém como eu, cuja especialidade são os remédios, entrei em pânico. Desculpe. — Tsuhime colocou um pouco de água em um copo e ingeriu-a em uma golada. — Parece que hoje também não será o meu dia.
A forma como Tsunade interpretou as entrelinhas, não precisou perguntar mais nada. Ela havia descoberto a verdade, e a partir de agora as revelações viriam espontâneas.
— Obrigada por não ter me falado nada ontem. Teria sido mais doloroso saber por outra pessoa. — Tsuhime suspirou, o coração aos pulos voltando a sua calmaria. — Ele me contou tudo. E eu, por minha vez, também fui sincera. Nosso tempo já foi. Então, só me resta seguir com minha vida, livre de qualquer ressentimento.
— Você fez o que julgou certo. — Embora consolar não fosse uma de suas maiores qualidades, Tsunade odiava a expressão condoída da jovem.
— Sim... Mas eu não vim aqui para falar sobre isso. — Tsuhime apagou o assunto atual. — Eu quero ajudar Konoha com meus conhecimentos. Posso não ter chakra o suficiente para ser uma médica, mas posso ajudar na concentração de remédios.
— Você realmente cresceu. — A Hokage disse orgulhosa, levantando-se da mesa e aproximando-se de Tsuhime. — Já que é assim, usarei esse pretexto parar escapar alguns minutos do trabalho. Vou te apresentar ao hospital.
(...)
A raiva de Kabuto havia diminuído, porém isso não queria dizer que sumira. A humilhação residia forte dentro dele, tanto que lhe queimava o rosto. Era o cúmulo ter sido repreendido apenas por não querer que uma cobaia tão importante escapasse, levando consigo todo o trunfo e sucesso de anos de pesquisa e trabalho duro. E, para piorar, Orochimaru não se importava. O sorriso que ele guardava lhe irritava, como se tivesse feito as coisas de propósito ou pura diversão — o que Kabuto acreditava ser a segunda opção. Contudo, ele não iria abrir mão de Tsuhime. Ela pertence a mim e somente a mim, além de dever dezenove anos de sua vida também.
Ele cuidara dela desde quando nasceu até um ano atrás. Sacrificara-se por ela e o que recebeu em troca? Nada mais do que mãos vazias e perda de seu maior trabalho. Tsuhime devia a ele, e deveria sempre até que estivesse satisfeito. O que poderia nunca chegar tal dia. Porém, por mais que odiasse admitir, sabia que a garota havia se tornado forte, não seria tão fácil manipulá-la ou chantageá-la como antes. Todavia ele daria um jeito de tê-la novamente por perto.
Por enquanto, deveria continuar a cuidar do Sannin. Colocou os remédios na bandeja e dirigiu-se ao quarto de Orochimaru, apesar de já ter se cansado de servir de empregado, não podia se separar dele.
— Orochimaru-sama... — Kabuto adentrou o quarto, encontrando-o inabitado. Chamou-o pela segunda vez, tendo resposta.
— Qual a pressa, Kabuto? — Orochimaru apareceu na porta alheia ao quarto, os cabelos molhados pelo banho.
— Trouxe seus remédios, tome-os, por favor. — Fez menção em se retirar, porém foi surpreendido pela voz do Sannin.
— Kabuto, sei o que está pensado e é melhor esquecer. Tsuhime-chan já não me interessa e muito menos a você.
— Evidente, Orochimaru-sama. — O nina médico tentou discordar, alegando que ainda precisavam dela, mas por fim acabou por se calar. — Vou continuar com meus afazeres, com-licença.
Ah, Hime-chan... Se eu soubesse onde você está, iria buscá-la pessoalmente. Kabuto proferiu em pensamentos enquanto seguia pelo corredor escuro. Ele não precisava dar razões ao que o Sannin dizia muito menos esperar que ele compreendesse se lhe desse a sugestão. Por enquanto, tenho que pensar como agir. Orochimaru-sama não pode continuar suspeitando de mim.
(...)
O hospital não havia nada em especial, contudo, para Tsuhime ele a fascinava. Poderia ser infantil de sua parte, mas, desde o primeiro momento em que o viu, o enorme prédio a impressionara e pensou que gostaria de se dedicar a ele. Em cada ala possuía uma cor que a representasse, e a ala que ela mais gostou foi o Berçário. Havia uma quantidade relevante de bebes recém-nascidos e Tsuhime demorou-se um pouco para observá-los. Eram lindos, de olhinhos pequenos e fechados. Quando viu, estava com as mãos espalmadas no vidro que os separavam. Um dia, eu espero ter o meu... Um recente sonho que começou a assolá-la na época em que morava na vila nos arredores de Konoha. Mesmo que seja com outra pessoa.
— Vejo que gostou bastante dessa área. — Tsunade comentou, olhando a jovem com um sorriso.
— Ajudei em alguns partos, e realmente é incrível como podemos dar vida a outro ser. — Tsuhime acabou por revelar o que estava sentindo naquele momento. — Espero ter os meus.
— Os meus? Quer ter mais de um bebê? — As sobrancelhas da Hokage estavam erguidas no rosto bonito e jovial.
— Sim, acho que no máximo três. — Tsuhime notou a forma estranha que a mulher loira a encarava. — O que foi? Não me diga que nunca pensou em ter filhos?
— Não, ainda não encontrei o cara certo. — Tsunade brincou, fazendo um gesto desdenhoso com a mão. — Vamos continuar, tenho que te levar a última ala.
— Podemos ficar só mais um pouquinho? — Tsuhime pediu manhosa, enquanto um casal aproximava-se deles e a mulher apontava o bebê ao marido. Inconsciente a jovem sorriu com tamanha cumplicidade. — Tem razão, vamos a última ala. Apesar de que já escolhi onde quero trabalhar.
— Ei, não se alegre. Eu decido isso, mocinha! — As duas mulheres seguiram pelos corredores entre risos.
Ao final do dia, Tsuhime lembrava-se de ter se desculpado duas ou três vezes com os médicos pelo caminho. Encontrava-se agitada, ansiosa para começar na área que a Hokage lhe concedera: Os berçários. Todavia, na tarefa de cuidar das mães e proporcionar a elas o conforto que necessitavam no hospital e auxiliá-las nos exames mensais e nas horas vagas trabalharia no laboratório, ajudando na fabricação de medicamentos, o que também a deixara satisfeita.
Tanta distração a levaram ao clímax da felicidade. O dia anterior só viera lhe visitar quando repousou a cabeça no travesseiro, e mesmo magoada Tsuhime não permitiu que se mantivesse acorrentada àquele sentimento. O que perdeu não poderia recuperar, porém poderia conquistar coisas novas. E foi com esse pensamento que ela dormiu. E, naquela noite, Tsuhime não sonhou.
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