Harukaze
54 Capítulo 54
Harukaze
Capítulo 54
Você ainda pode ver seus sonhos
No céu estrelado e distante?
Eles são mais vividos agora
De que quando você era criança?
Sons de pingos de água repercutiam ritmadamente. Tsuhime abriu os olhos lentamente, tendo como primeira visão o teto escuro. A luz estava apagada, porém o brilho da lua permitia que ela visse onde se encontrava. O quarto tinha paredes amarronzadas, marcadas por círculos sobrepostos, uma porta a esquerda dava entrada ao banheiro e perto da cama, ao lado do suporte de tocha, uma cômoda tomava espaço. Embora amplo, faltava um toque aconchegante. Tsuhime forçou o corpo e sentou na cama, analisando suas roupas: Vestia o uniforme branco da ala dos prisioneiros. O pavor sussurrou em seus ouvidos e ela levou as mãos à cabeça, contendo o ímpeto de gritar. Ela sabia o que significava suas condições: Acabara de voltar de mais uma experiência.
Sua aparência regressou, os traços infantis e ingênuos marcavam seu semblante. Os pés pequenos e pálidos não chegavam a tocar o chão. Fora tragada ao tempo em que tinha nove anos, onde suas vontades eram sobrepujadas pelas vontades de seu pai e seu assistente. Esticou o braço direito, notando pequenos furos situados por toda a extensão. E ela não se esforçava para recriar a dor, pois ainda a sentia como se cada agulha a ferisse naquele instante. Lágrimas desceram por seu rosto, desencadeando um choro copioso.
— Você acordou. — Kabuto disse adentrando o quarto, nas mãos trazia uma bandeja contendo um copo. Caminhou lentamente até a garota, observando-a chorar. Era sempre assim. Acomodou a bandeja na cômoda e sentou-se ao lado de Tsuhime. — Como se sente?
A menina ergueu os olhos ao médico, os olhos amarelos brilhando magoados. Aquela pergunta se fazia desnecessária e Kabuto apenas a proferia sem o real motivo de saber. Demorou-se o encarando, instigando-o a fazer a pergunta novamente.
— Não sei. — Ela retrucou, a voz entoando roucamente. — Como deveria me sentir?
— Forte, com dor, mais alta... — Kabuto recitou, pegando o copo e entregando a ela. — Beba.
— Por quê?
— Vamos, Hime-chan, é importante.
— Para quem?
Kabuto suspirou impaciente, segurando as mãos dela e levando o corpo aos lábios rosados, incitando-a a acatar a ordem. Esperou que ela ingerisse todo o líquido esverdeado em apenas um gole, caso contrário Tsuhime não beberia o restante. Aquilo era um suplemento concentrado em proteínas, minerais e carboidratos. Ao final de cada experiência Tsuhime acabava perdendo alguns componentes e era sua função devolvê-las ao sangue antes que o corpo sofresse pela ausência.
Tsuhime tossiu, recuperando o ar. Aquela era a segunda pior parte. O gosto ferroso subiu a garganta e ela forçou-o a descer, caindo pesadamente no estômago. Se vomitasse, Kabuto prepararia outro copo e ingerir o suplemento novamente seria desastroso.
— Durma, precisa descansar. — Kabuto aconselhou, fazendo menção em se levantar, porém a mão de menina tocou-lhe o braço.
— Fique comigo. — O pedido foi feito embargado, os olhos luminosos fixos em si insistentes. — Por favor.
— Tenho mais o que fazer. — O médico livrou-se do contato, pegou a bandeja e saiu, deixando Tsuhime imersa na solidão.
O sonho trocou de cena. Via-se respirando com dificuldade, os cabelos compridos caídos na frente do rosto e na mão segurava uma kunai. Tsuhime tentava erguer o corpo do chão, porém era como se todas as ordens não chegassem ao cérebro. Estagnara, os membros inferiores formigando.
— É só isso? — Orochimaru reclamou, mirando a filha com desapontamento. — Levante-se!
Até mesmo as palavras não se projetavam, estaria morrendo? De repente Tsuhime pensou que não seria má ideia. Se morresse todas as dores, todos os sofrimentos sumiriam. Seus lábios se repuxaram em um sorriso, porém ele logo desmanchou. Seus sonhos, ideias formadas de súbito, também desapareceriam se abraçasse a morte. E ela não queria se desfazer deles assim. Toda ação gera reação, e a sua ação era se erguer e sustentar seus sonhos, sua reação se resumiria em se empenhar para que continuassem vivos.
Portanto, apoiando-se nos braços, Tsuhime começou a se levantar. Os músculos doíam, como se algo afiado o rasgassem, e gemeu. Lágrimas formaram uma película fina nos olhos enquanto depositava o peso do corpo nos joelhos, conseguindo, pouco a pouco, ficar ereta. Era óbvio que o esforço exigira demais e o cansaço sentou-se em seus ombros, contudo ela se negou a ser derrotada. Mirou a kunai em Orochimaru e a atirou, aproveitando-se da distração dele em se desviar para executar selos. Ela jamais havia tentado utilizar aquele jutsu, mas a raiva e frustração inundaram suas emoções.
O primeiro sinal formou-se abaixo de seus pés, e à medida que se concentrava abrangia maior proporção. Logo Tsuhime se via cercada de água, os pés descalços não afundavam. Seu peito se aqueceu, alimentando ainda mais o poder.
— Suiton: Tsunami! — Tsuhime gritou, liberando uma onda de água, que varreu o Sannin com violência. Ao seu redor tudo sucumbira à força do elemento, menos ela, que se mantinha de pé perante a técnica.
Vendo o sucesso, Tsuhime mal acreditava que finalmente havia executado o jutsu que seu pai tanto insistira. Sentia-se orgulhosa de si, contudo foi por pouco tempo. Uma tontura repentina a assolou e Tsuhime cambaleou, caindo de joelhos. A garganta se fechava, impedindo o ar de chegar aos pulmões. Algo dentro dela não estava de acordo e apenas teve ciência quando ouvira o pai falar “Então esse é o limite”. A técnica se findou, deixando apenas um rastro do oceano que fora e uma garota completamente debilitada.
— Muito bem, Tsuhime-chan. — Um sorriso largo se desenhou na boca de Orochimaru. — Você não desperdiçou nosso tempo.
Logo Tsuhime foi lançada a outra memória. Nela, via através de beijos o quão urgente absorvia o chakra de Kabuto. Sentada no colo do ninja médico, com os dedos envoltos nos cabelos acinzentados do rapaz. Aquela atitude já era esperada depois do que a garota havia passado. O Selo Amaldiçoado sugara seu chakra muito mais rápido do que qualquer jutsu usado com frequência, fora quase instantâneo. E, apesar de estar acostumado, Kabuto sentia os efeitos colaterais.
— Es-Espere, Tsuhime... — Kabuto afastou a garota, a respiração completamente descontrolada. Suas mãos segurando-a pela cintura de forma possessiva. — Vá devagar.
— Não posso. — A garota de olhos amarelados encarava Kabuto como se ele estivesse insano. Seu corpo necessitava daquilo, e ela não fazia por gostar. — Ainda está baixo.
Os lábios se conectaram novamente com movimentos rápidos, quase desesperados. E vendo que suas escolhas não surtiram efeito algum em Tsuhime, Kabuto rendeu-se a ela. Abraçou-a pela cintura, trazendo-a para mais perto enquanto embolava alguns fios de cabelo na nuca nos dedos. Embora certa aura os incitasse ambos não pensavam em extrapolar os limites. Sabiam que entre eles não existia mais nada além de sentimentos de obrigações e deveres. Tsuhime por um lado tinha a obrigação de permanecer viva até quando seu pai precisasse dela, e Kabuto o dever de contribuir para que isso acontecesse da melhor forma possível.
Seu chakra começou a reproduzir e não foi mais necessário manter o ritmo acelerado do ritual. O beijo adquiriu estabilidade, e aos poucos se encontravam separados. Gotículas de suor banhavam a testa do ninja médico, os batimentos cardíacos descontroladamente fora do comum o cansavam. Desta vez, o ritual foi mais puxado e se continuasse naquele teor não seria capaz de aguentar que o chakra de Tsuhime se normalizasse. Não por fraqueza, mas sim pelo tempo avançado.
— Desculpe-me por isso. — Tsuhime pediu, limpando o rosto de Kabuto. Pelo semblante contorcido do rapaz, aquilo deveria doer. — Vou me controlar.
— É bom mesmo, ou se tornará uma simples humana. — O ninja médico sorriu debochado, cutucando o ponto fraco da garota que descobrira recentemente. — Agora, eu preciso descansar. Se não se importa... — Mencionou com os olhos para que Tsuhime se levantasse.
— Antes disso me diga uma coisa. — Tsuhime segurou-o ali, fechando as pernas em volta do quadril de Kabuto. — O que o papai pretende?
O ninja médico revirou os olhos, então a preocupação que via nos olhos de Tsuhime era isso? Kabuto respirou fundo e, com as forças que ainda possuía, encarregou-se de retirar a garota de seu colo. Depositou-a sentada ao seu lado na cama e se levantou, alguns pontos pretos brilhavam a sua frente.
— Não se preocupe, Hime-chan, você ainda é importante. — Dito isso, Kabuto foi para o seu quarto, deixando que um ar frio se instalasse ao redor de Tsuhime.
(...)
Enquanto Tsuhime se perdia entre lembranças, os enfermeiros lutavam empenhados em livrar o seu agarre dos braços da Hokage. Inconscientemente a Yatsuki conseguia absorver a força vital de Tsunade, tal como ela havia sugerido a ela. Agora, embora sentisse sua jovialidade deixá-la, Tsunade apenas gostaria de entender como ela conseguia tal feito. A princípio era apenas uma ideia e que demoraria a surtir efeito devido a sua fase de criação, mas Tsunade nunca desfez das habilidades de Tsuhime.
Acreditava que Orochimaru também tinha a mesma opinião que ela, por isso testava os mais variados genes em Tsuhime. A Yatsuki tinha muito mais potencial do que transparecia, quem a atacou tinha por objetivo libertar aquele lado mais selvagem de Tsuhime, forçando a absorver chakra de uma forma diferente. De uma forma que atingisse, além do chakra, todo o sistema.
Tsunade conseguiu se distanciar um pouco, formando uma linha de chakra verde ligando-a a jovem mulher. Se o que pensava tivesse qualquer parcela de verdade, não poderia estar em contato com ela constantemente como prometera a Kakashi. Talvez Sakura ou Shizune. Abaixou os olhos para as linhas, vendo que a pele de seu braço já não detinha toda sua jovialidade. Uma cor acinzentava o coloria, sugando todos os materiais que o faziam ser íntegros.
— Godaime! — Um dos enfermeiros concentrou chakra nas mãos, tornando-o tão afiado quanto um bisturi e o desceu sobre a linha, desconectando as mulheres. Não soube quando pensava naquela possibilidade, ele apenas se arriscou.
Por sorte fora apenas àquela parte do corpo de Tsunade que havia sucumbido a Tsuhime, nada que devesse se preocupar. Amparou o braço esguio e aparentando velhice, a Hokage se esquecera de como era...
— Obrigada. — Tsunade agradeceu ao enfermeiro. — Tragam Sakura até aqui!
Minutos após a jovem kunoichi adentrou o quarto, os olhos grandes e verdes percorrendo Tsunade. O cenho se franziu, desconfiado. Sua mestra era uma mulher forte e que resolvia problemas maiores sem gastar muito tempo, contudo Sakura não tinha aquela imagem naquele momento. Deparou-se com uma Tsunade arredia, sustentando um braço esguio e doente. Lançou uma pergunta com o olhar, recebendo como resposta um “depois”.
— Vou deixá-la encarregada de Tsuhime-chan, Sakura, de agora em diante. Quero um relatório todos os dias sobre o estado dela, o que fez ou o que observou. Cautela máxima se notar que Tsuhime está agindo de um modo diferente.
— De um modo diferente? — Sakura piscou confusa. — Em que sentido, Shishou?
Com um gesto mudo a soberana pediu que as deixassem sozinhas, logo o silêncio recaiu sobre as médicas. Tsunade tinha que conseguir explicar de uma forma clara e objetiva, mas sem revelar demais. Acima de tudo prezava pelo sigilo, contato entre médico-paciente, que lhe parecia errado confessar certas coisas a sua pupila.
— Se Tsuhime mostrar agitação ou aparentar dor. Ela está inconsciente, mas ainda tem movimentos sem se dar conta. Pode atacá-la. Eu presumo que seja devido aos sonhos que ela possa estar tendo. Então, redobre o cuidado. — A Hokage disse em um fôlego, fazendo menção em sair do quarto.
— Hai, mas Shishou... Devemos avisar Kakashi-sensei?
— Eu vou fazer isso, Sakura. Obrigada. — Tsunade sorriu por cima do ombro e fechou a porta com cuidado, encostando-se nela. Sentia que algo dentro de si fora levado e não era agradável. O aspecto de Tsuhime melhorara, mas ainda estava pálida e alheia ao redor. — Você conseguiu. Apenas precisa aperfeiçoar.
Em passos firmes Tsunade regressou ao seu gabinete. Os serviços burocráticos se acumularam devido sua estadia no hospital, três pilhas de papéis se dispunham sobre sua mesa, e não deteve um suspiro. Não poderia continuar negligenciando suas obrigações, apesar de muitas das vezes se chatear. E pensar que anos atrás a ideia de ser Hokage não a cativava... Sorriu, as vozes de Nowaki e Dan ecoando no vácuo das lembranças.
Aquele dia era irritantemente nostálgico, contudo Tsunade não estava de fato irritada. Ela suportava não apenas os sonhos de seus amados em ser Hokage, como também aguardava passar o posto a Naruto. O Uzumaki sempre gritava a plenos pulmões que seria o próximo soberano de Konoha e foi impossível para Tsunade continuar fingindo que não se importava. Com apenas doze anos, Naruto a protegera e fizera valer sua palavra, fazendo crescer dentro dela o desejo de liderar. Fora tocada pelo poder de mudar as pessoas que Naruto possuía, e agora entendia aquele dever. Entendia porque estava ali.
Instintivamente elevou o olhar aos rostos de pedra, demorando-se neles. Cada Hokage que passou antes dela deixara uma marca na história, e tinha certeza de que estariam satisfeitos com seu reinado. Esperava que abdicasse de seu trono por velhice e não porque morrera.
— Tsunade-sama? — Shizune adentrou, trazendo nos braços seu porquinho Tonton. — Tudo bem? — Avaliava a mulher pelas costas, porém o rosto dela estava parcialmente voltado para sua direção e viu um sorriso afável se desenhar nos lábios pintados de rosa.
— Sim. — A soberana proferiu, sentando-se em sua cadeira.
— Oh, meu Deus! O que aconteceu? — Os olhos negros de Shizune percorreram o braço direito, vendo aquele aspecto doente e frágil. Soltou Tonton, aproximando-se de Tsunade.
— Eu tinha me esquecido dessa aparência. — Tsunade sibilou, analisando o membro. — Não foi nada.
— Sakura-san me disse que a deixou encarregada de Tsuhime-san. — A ninja médica tomou a mão de Tsunade entre as suas, envoltas pelo chakra verde. — Quer me contar?
— Tsuhime criou uma técnica e não faz à mínima ideia disso. Aquela garota... — A Hokage levantou os olhos para a outra mulher. Havia um brilho reconfortante e esgotado, como se não soubesse pesar aquele fato. — Graças a Deus que a resgatamos.
— Continuo sem entender. — As sobrancelhas de Shizune se franziram. — Ela está bem?
— Sim, está. O cérebro está ativo, o que é bom. Pensei que seria danificado, aquele material estranho que Tsuhime-chan encontrou no corpo de Seiji e Natsumi levou algum tempo para infestá-la. Tudo com Tsuhime acontece de forma diferente, talvez essas mutações sejam sua proteção.
— Sobre isso... — Shizune sussurrou, retirando de dentro das vestes algumas folhas. — Fizemos a análise como a senhora pediu, e não é uma técnica. É um invasor, moldado para que parecesse ser um pedaço de rocha. Na verdade, ele poderia assumir a forma que quisesse. Afeta o cérebro sim, mas faz com que o criador tenha controle sobre o infectado.
— Kabuto... Ele é impressionante. — Tsunade suspirou cansada, aquele homem tinha uma gama de habilidades invejáveis. — E o que mais?
— No geral, foi só isso que descobrimos. Pedi a Sakura-san que fizesse um exame em Tsuhime-san, para ter certeza que não deixamos nada no sistema dela.
Ouvindo aquela última parte, Tsunade se questionou. E se o que ela fez não tenha sido ela? Não precisa de contato, a técnica pode ser usada a longo alcance? Prendeu a unha do polegar entre os dentes, gesto que denuncia que os pensamentos não se encontravam em ordem.
Além de se preocupar com essa questão, ainda tinha Haru. Fora contra desde o início em aceitar que ele se aproximasse de Tobi, mas Kakashi, por mais radical que fosse, possuía razão. Com Haru poderiam obter informações, no entanto arriscar uma criança ainda não estava de todo aceitável para Tsunade. Se o menino não tivesse insistido talvez ainda estivessem debatendo por um voto final. Já não pode mais ser remediável. Estou agindo certo? O que você acha Tsuhime-chan?
— Senhora...? — Shizune chamou a de volta à realidade, depositando as folhas na frente da soberana. — Vou deixar os resultados com a senhora, caso queira mais detalhes.
— Não, Shizune, é o suficiente. Confio em você. — Tsunade sorriu, guardando as rixas internas para depois.
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