Haru no Tenshi
5 Capítulo 5
Notas iniciais
– Jovem Sakura – Syaoran soltou Sakura imediatamente, como se tivesse levado um choque, ao ouvir a voz de Wei atrás de si. – Que bom que a senhorita voltou. Quando chegaram aqui com suas roupas eu pedi que levassem tudo para seu quarto.
– Ah, elas estão lá?! Obrigada, Wei.
Ela se dirigiu então alegre para o quarto de hóspedes. Depois de fechar a porta da frente com um suspiro, Syaoran foi até lá também. Da entrada do quarto ele viu mais de uma dezena de reluzentes sacolas em cima da cama. Sakura olhava dentro delas, empolgada. Ele estava boquiaberto.
– Você... tem idéia de quanto tempo vai ter de trabalhar para poder pagar isso? – ele disse, mais para provocá-la. Pensou que devia ter dito claramente que ela deveria escolher só uma ou duas peças de roupa e um par de sapatos e não um enxoval inteiro.
– Quanto tempo? – ela perguntou, parecendo genuinamente preocupada.
– Humf... Tome um banho quente e durma, ok?
Voltando para a sala, Syaoran pegou seu celular. O aparelho tinha estado no modo silencioso e havia muitas ligações não atendidas de Hiroko Aisawa. Ele retornou e assim que ela atendeu foi logo dizendo, irritada:
– Ela está aí, não está?
– Sim...
– Syaoran, você quer que eu chame a polícia?
– Não! Não é preciso.
– Você precisava ver como ela estava se comportando. Parecia uma selvagem. Ela chegou a me arranhar! – exagerou Hiroko.
– Acho que ela só está confusa. Sua situação não é fácil. Vou tentar descobrir algo sobre ela, ajuda-la. Ela vai ficar aqui até as coisas se ajeitarem.
– Mas Syaoran...
– Está tudo bem. Não se preocupe. Acho que consigo me defender se ela tentar me atacar – brincou ele. A mulher do outro lado da linha não achou nenhuma graça, mas ele reafirmou: — Não se preocupe mesmo. Vejo você amanhã, certo?
Hiroko acabou tendo de concordar e se despedir, nada satisfeita.
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Sakura se divertiu um pouco com a água quente e a espuma da banheira, depois vestiu o delicado “vestido longo” de seda cor de rosa que Fay tinha dito ser roupa de dormir.
Foi até o corredor, escuro àquela hora, e ficou alguns segundos parada, tentando distinguir algum som de alguém ainda acordado no apartamento, mas só havia silêncio. Então, procurando não fazer qualquer barulho, ela foi andando de volta à sala.
– Eu sei que você ainda está aí – ela sussurrou, tentando manter a voz firme e decidida, sem expressar o medo que estava sentindo no momento.
– E você não vai me denunciar para os moradores da casa? – a voz que respondeu vinha de trás do sofá maior, aquele em que Syaoran tinha adormecido mais cedo.
Sakura foi até lá e encontrou o anjo negro em sua forma humana sentado no chão. Ele virou para ela seus profundos olhos escuros e ela cruzou os braços para responder parecendo o mais corajosa possível.
– Eu não preciso disso para vencê-lo.
– Ah, não? – ele deu uma risadinha sarcástica. – Veremos para o lado de quem a sorte vai se voltar nos próximos 67 dias...
Sakura virou-lhe as costas e se encaminhou até a porta, que ela abriu.
– Vá embora.
O homem se levantou com suas roupas escuras. Chegando ao lado dela, disse:
– Não pense que essa atitude vai me comover ou algo assim.
– Eu jamais sonharia com essa possibilidade – Sakura respondeu. Ela o encarava fixamente e por um instante teve a nítida impressão de ver um brilho vermelho lá no fundo do olhar negro dele.
– Sua nobreza vai arruiná-la. Li Syaoran é um caso perdido – ele acrescentou, antes de passar por ela.
Assim que as costas dele estavam do lado de fora, ela fechou a porta com um leve baque, passando a se apoiar ali por alguns segundos até que as pernas parassem de tremer. A aura dele ainda estava muito forte e a afetava terrivelmente, principalmente com sua própria aura angelical já tão enfraquecida.
– Sakura.
Ela não conseguiu evitar um gritinho. A luz se acendeu e ela se virou para ver Syaoran ali em pé.
– Syaoran! Você me assustou! Meu... coração... parece que vai saltar pela boca... – não era uma expressão que ela conhecesse, estava descrevendo exatamente o que sentia, com uma mão no peito.
– Desculpe. O que você está fazendo aí? Você ia sair? Aonde você ia só de camisola? – ele perguntou com um meio sorriso, querendo que ela abandonasse a expressão assustada do rosto, mas a pergunta a deixou apreensiva.
– E-e-eu... não... eu não ia sair... eu...
– Também não consegue dormir? – esse era o caso dele, que ainda sentia tremores pelo corpo quando se lembrava do pesadelo que tinha tido.
– S-sim. É isso! – ela disse. – Vou voltar para a cama e tentar de novo.
Quando ela passou perto dele, Syaoran acabou perguntando:
– Quer tomar um chá?
Na cozinha, Sakura o observou preparar a bebida em silêncio e depois pegou a xícara que ele lhe passou, falando apenas “Obrigada, Syaoran”.
– Por que você está tão calada de repente? – ele perguntou, sentando-se à frente dela.
– Você gosta que eu fale? – ela perguntou, sorrindo.
– Não foi isso que eu disse. Só estou curioso.
– Bem... eu estava pensando... onde... onde está sua família? Quero dizer, além de seu pai... Não há mais ninguém? – Sakura perguntou, cuidadosamente. Ela estivera pensando arduamente num jeito de tornar Syaoran mais forte para resistir aos ataques do anjo negro.
Syaoran pôs um pouco de mel no chá e ficou mexendo por um tempo, antes de responder, sem olhar para ela.
– Tem minha mãe. Ela mora em Hong Kong.
– Ah! – Sakura juntou as mãos, parecendo ter ouvido uma notícia maravilhosa. – E você não tem vontade de visitá-la? Acho que se sentiria bem indo visitá-la.
– Por que você acha isso? – ele estava quase achando graça da idéia dela.
– Os filhos não adoram estar com suas mães?
– Digamos que minha mãe e eu não somos assim tão ligados.
O sorriso de Sakura murchou, para logo em seguida brilhar de novo:
– Então... você devia procurar passar mais tempo com Eriol-san! Vocês são bons amigos, não são?... Por que não fazem uma viagem juntos?
– Isso seria um pouco estranho... Acho que Eriol prefere viajar com sua namorada...
– Então que tal você arranjar uma namorada? Você não tem uma!? Devia ter!
– Arrr, por que tudo isso de repente?
– Porque o amor pode fazer maravilhas com as pessoas! Não há ninguém que o interesse? Hein? Não precisa ficar tímido! Se houver, eu posso ajudá-lo a conquistá-la!
– O quê? Por acaso agora você vai querer me dizer que é o próprio cupido?
– Não, eu não sou, mas sei uma coisa ou outra sobre o amor... – ela disse com um ar de grande entendida antes de levar a xícara até a boca. Depois de engolir um gole do chá, acrescentou de modo casual – Que tal a Hiroko-san?
– Aisawa? Como ela veio parar nessa conversa?
– Ela é tão bonita! E se preocupa com você e...
– Pare com essas idéias estranhas – ele disse, ficando de pé. – Eu estou indo. Boa noite.
Quando ele já estava saindo, Sakura o chamou. Sem falar nada, ele apenas parou, segurando a porta com o rosto ligeiramente virado para o lado.
– Quando estiver na cama feche os olhos e pense em coisas boas, coisas que gostaria de fazer de novo ou que tem vontade de fazer. Coisas que lhe trazem felicidade... Acho que pode ajudá-lo a pegar no sono.
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Sakura estava preparada para uma noite como a anterior, em que ela basicamente tinha ficado acordada até perceber que a luz do sol tinha voltado e já podia levantar. Sendo um anjo, não estava acostumada a dormir afinal.
Naquela noite, porém, ela estava se sentindo cansada e quando se deitou na confortável cama do quarto de hóspedes, pôde entender perfeitamente a necessidade dos humanos de fechar os olhos e relaxar. Aquelas eram novas sensações que a aterrorizavam e fascinavam ao mesmo tempo. Era terrível sentir-se exausta, mas o descanso, por outro lado, era maravilhoso... Seus olhos pesados adormeceram completamente.
Ela pôde voltar a planar entre as nuvens enquanto dormia. Podia continuar sonhando para sempre... Só que chegou um momento em que começou a sentir alguém tocando seu braço e sacudindo-a de leve, depois com mais insistência... Ela então percebeu que não estava mais entre as nuvens. A pessoa que a acordara era o próprio Li Syaoran, que a encarava, parecendo preocupado e também constrangido.
Sakura levantou num pulo e começou a dizer, bem rápido:
– Syaoran! Eu dormi demais? Me desculpe! Me desculpe! É que eu não estou muito acostumada com isso, sabe. Como vocês fazem para conseguir saber a hora certa de acordar? Sono é uma coisa difícil de controlar...
Syaoran, com a testa franzida, a observava procurar o que ia vestir entre o amontoado de sacolas da Li Xiu Hua em cima de uma espreguiçadeira. Ela voltou-se séria para ele ao fazer aquela última pergunta.
– Hmm... ehh... alguns de nós usam o despertador...
Ela o encarava, querendo que ele explicasse melhor.
– Eu vou arranjar um para você – ele disse, prático, e acrescentando antes de se retirar: — Agora se apresse para o café.
Quando Sakura por fim sentou-se diante da mesa do café da manhã, Syaoran começou a dizer, meio sem graça:
– Ehh... Eu não sabia qual você preferia... Eu costumo fazer ao estilo de Kansai, então...
Sakura não entendeu bem do que ele estava falando até olhar para o que Wei tinha lhe servido: uma massa redonda muito recheada, que emanava um cheiro irresistível.
– Okonomiyaki! – ela praticamente gritou. — Você fez! Muito obrigada, Syaoran! Você é mesmo uma pessoa muito boa!... Ittadakimasu!
Syaoran respondeu com um olhar que dava a entender que não era grande coisa, depois permaneceu concentrado em seu próprio prato, tentando não se deixar afetar pelo entusiasmo dela.
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– Então é essa sua grande nova ideia para nossa campanha de marketing? – Syaoran estava numa reunião com Fay e Sakura em sua sala mais tarde naquela manhã.
Hiroko Aisawa, também presente, não fez muito esforço para reprimir uma risadinha depois de ouvir o comentário de Syaoran. Ela achara ridícula a ideia que Fay apresentara de usar sua nova assistente na campanha publicitária da empresa.
– Mas não foi você mesmo que me pediu para pensar numa alternativa que nos permitisse reduzir os gatos da contratação de artistas para as campanhas? – perguntou Fay.
– Sim, mas jamais pensei que sugeriria contratarmos uma desconhecida para ser o rosto desse empreendimento. A Li Xiu Hua tem um nome de prestigio a zelar. Você sabe muito bem disso. – ‘E um nome é tudo que temos agora para evitar uma falência’, Syaoran acrescentou em pensamento.
– Sim. E é justamente isso que eu sei que vai garantir visibilidade para que a imagem de Sakura traga o retorno que queremos. Pareceria despretensioso, mas seria impactante ao mesmo tempo. Você não acha que um sorriso tão luminoso quanto o dela tem potencial?
Syaoran olhou para Sakura, que naquele momento não sorria, mas seus olhos muito verdes e vivos indicavam total concentração, procurando acompanhar uma conversa que ela não parecia entender muito bem. Decidido a ignorar o efeito quase hipnótico daquele olhar, Syaoran perguntou a ela:
– E o que você acha disso, afinal, Sakura? Foi você quem deu essa ideia ao Fay-san?
– Eu só disse a ele... que queria ajudar o Syaoran.
Syaoran suspirou e recostou-se em sua cadeira, pensando.
– Terei uma decisão até o fim da tarde. Obrigada, Fay-san.
Fay e Sakura saíram, deixando Syaoran sozinho com Hiroko, que mal esperou a porta se fechar atrás dos dois para despejar sua opinião.
– Você não pode estar realmente considerando esse absurdo. Primeiro decide abrigar essa garota que você nem sabe direito como se chama e agora vai transformá-la na modelo oficial da Li Xiu Hua?
– Aisawa-san, por favor, eu preciso ficar um tempo sozinho para pensar – Syaoran retrucou, sem lhe dar atenção.
A moça saiu, bufando, e Syaoran girou em sua cadeira para ficar de frente para a grande janela de vidro atrás de si, de onde podia enxergar ao longe um parque tomado pela primavera. Não era uma boa vista para quem estava tentando pensar racionalmente e se convencer de que a proposta de Fay era realmente um absurdo.
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