Haru no Tenshi
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Os médicos pareciam não conseguir acreditar no que viam, mas depois de uma longa bateria de exames, Syaoran recebeu alta apenas com alguns pontos no braço direito, um curativo na testa, vários hematomas e outros ferimentos menores. Estavam dizendo que era um milagre ele ter sobrevivido àquela batida. Tudo que ele conseguiu foi ouvir aquela declaração apático e dirigir-se igualmente apático ao corredor para ir embora. Ali ele viu uma mulher e dois garotos chorando muito. Provavelmente eram parentes de alguém que não tivera tanta sorte quanto ele no acidente. Era tudo que ele não precisava, mais culpa.
Ele deveria pegar um táxi e ir para casa descansar, mas o que fez foi continuar andando até chegar num bar onde tomou algumas copos que o deixaram um pouco tonto na hora de sair. Na porta do bar, ele viu um risco brilhante no céu que sumiu em questão de segundos.
– Estrela cadente?...
Deu de ombros e virou as costas, mas mal alcançara o fim da rua, sentiu algo muito pesado atingir-lhe por trás. Ele caiu, rolou e ficou parado no chão por algum tempo, ainda se sentindo tonto demais para reagir, até perceber que estava em cima de algo. Ele levantou o rosto e viu outro rosto a sua frente no chão. Uma jovem estava deitada ali, pelo visto desmaiada. Tinha cabelos curtos e usava um vestido branco e leve que parecia inapropriado para aquela noite.
Syaoran levantou o tronco, se apoiando no braço bom para dar umas batidinhas no rosto da jovem mulher com a mão direita. Só demorou alguns segundos para ela abrir os olhos e quando os viu abertos ele se espantou. Aqueles olhos eram...
– Syaoran? – a primeira coisa que ela fez depois de abrir os olhos e vê-lo ali foi abrir um largo sorriso e pronunciar seu nome – Syaoran!
– C-como você sabe meu nome? Por acaso você me conhece?
– Eu vim aqui por você! – sem parar de sorrir ou de encará-lo ela começou a tentar se levantar.
– Como assim? Quem é você?
Um gritinho agudo cortou a conversa. Syaoran virou o rosto para o lugar de onde vinha o grito e viu uma senhora que levava pela mão uma garotinha cujos olhos tapava com as mãos enquanto lançava um olhar chocado para os dois no chão. Syaoran olhou para baixo e logo percebeu o motivo daquela reação exagerada. Eles estavam compondo uma cena decididamente suspeita. A moça desconhecida com as mãos sustentando o corpo parcialmente levantado, as finas alças de seu vestido caídas e ele por cima, com um joelho de cada lado dela.
– Que pouca vergonha!... Você! Saia de cima da moça, seu nojento! – logo ele começou a receber na cabeça repetidos golpes com a sacola de compras que a mulher levava. Eles não teriam doído tanto se não fosse o ferimento em sua testa que logo voltou a sangrar.
Antes que a tontura lhe permitisse fazer algo a respeito, ele se viu com a moça desconhecida e a senhora encrenqueira, que chamou um policial para vigiá-los, foi deixar a filha em sua casa que ficava ali perto, e arrastou o casal para o posto de polícia.
– Eu estou dizendo! Ele estava atacando a moça! Tentou até tirar sua roupa!
– Isso é mentira! Ela tropeçou e eu a estava ajudando!
Syaoran tentava se defender quando Eriol Hiragisawa chegou, seu melhor amigo e, por sorte, também advogado. Eriol providenciou uma xícara de café para Syaoran e começou a falar com o chefe de polícia. Antes de começar a se deixar levar pelos argumentos do advogado, ele estendeu a mão, trazendo silêncio completo para a sala.
– Olha aqui, por enquanto isso aqui não está fazendo nenhum sentido. Para que isso seja um caso de polícia eu preciso saber se pelo menos há uma vítima . – Ele então voltou-se para a moça que estava sentada e parecia fascinada com a conversa, um sorriso persistente no rosto. — Mocinha...
– Sim? – ela respondeu.
– Me diga, você conhece este homem?
Ela se inclinou largamente para dar uma olhada em Syaoran além da senhora que estava a seu lado.
– Claro que sim! É o Syaoran!
– Então você o conhece? – quem perguntou foi a senhora encrenqueira.
– Sim!
– E ele não tentou assediá-la? Atacá-la? – perguntou o chefe de polícia.
– Não! Claro que não! Eu preciso ficar com ele!
– Ora, veja bem, senhor policial. É claro que os dois se conhecem. – Eriol tinha se levantado e se aproximara um pouco do policial, para falar-lhe num tom mais baixo, confidente. – Na verdade, meu cliente é um pouco tímido, por isso não quis admitir, mas esses dois... são namorados. Eles começaram a namorar há pouco tempo e acabaram bebendo um pouco demais esta noite... O senhor sabe como é... Essas coisas às vezes saem do controle...
– Oooh! – o chefe de polícia deu um pigarro, lançou um olhar a Syaoran e à jovem – Entendo...
– Então, isso está resolvido! Podemos nos retirar?
– Ah, claro, claro. Podem ir.
Assim que saíram Syaoran voltou a questionar a jovem.
– Como é que você sabe meu nome? Quem é você? O que aconteceu naquela hora? Você caiu em cima de mim ou o quê?
Anjo S pareceu ficar um pouco assustada com tantas perguntas e não respondeu.
– Ah, esqueça... Está tudo bem. Obrigada por não ter desmentido a história de Eriol. – Ele lhe fez uma leve reverência, que ela correspondeu voltando a sorrir, e depois se afastou com o amigo. Só chegaram a dar dois passos antes de perceber que ela os seguia.
– Você gostaria de uma carona até sua casa? – foi Eriol quem perguntou, com um sorriso simpático.
– Eu preciso ir com Syaoran! – Ela agarrou um dos braços dele, determinada.
– O quê? – Sayoran afastou o braço, incrédulo.
– Um instante, ok? – Eriol se afastou um pouco com Syaoran para falar só com o amigo. – As digitais dela não foram sequer reconhecidas, ela pode até ser algum tipo de alien... – ele olhou para trás, para a jovem, por um segundo antes de continuar – mas você tem que admitir que seria uma alien bem bonitinha...
– O que você está dizendo?
– Olhe, cuide de fingir que é mesmo namorado dela antes que aquela mulher volte a lhe arranjar problemas...
A senhora encrenqueira agora estava saindo e observava o trio, desconfiada e aborrecida.
Eriol fez Sayoran voltar para perto da jovem e acenou alegre para a mulher antes de encaminhar os dois para o carro.
– Vamos resolver isso em outro lugar, certo?
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– Ok. E que tal isso? Amnésia! Você diz que não sabe onde mora, não lembra de ter família ou amigos. Você deve ter batido a cabeça muito forte quando caiu e por isso esqueceu dessas coisas... – Eriol sugeriu. Os três estavam agora na sala de estar do apartamento de Syaoran. Ele e Eriol já tinham tentado de todas as formas conseguir o endereço de algum parente ou amigo da moça aonde pudessem levá-la.
Anjo S, no entanto, não se mostrava nem um pouco preocupada que não tivesse onde passar a noite. Estava muito interessada em todos os objetos estranhos espalhados pelos móveis de Syaoran. Naquele momento ela estava sentindo o cheiro do telefone e se preparava para mordê-lo.
– Ei. Deixe isso aí! O que você está fazendo? – Syaoran falou irritado e ela acabou largando o telefone, que caiu no chão.
– Desculpe! Desculpe! – Ela colocou o telefone de volta de cabeça para baixo e passou a se admirar com o controle remoto. Um botão fez surgir uma grande tela de televisão de uma caixa preta à frente do sofá.
– Está ficando tarde. Posso me manter informado caso apareça alguém comunicando o desaparecimento de uma pessoa com as características dela... No mais, ela tem cara de ser maior de idade e tudo que podemos fazer é esperar a memória dela voltar para ela poder ir para casa... – Eriol tinha levantado e se preparava para sair.
– Como é? Então ela vai ficar aqui? E se for alguma maluca? Alguma golpista ou sei lá...
– Bem, o que eu sei é que se você a expulsar ela pode muito bem voltar hoje mesmo àquele posto policial e você estaria com grandes problemas... será que isso seria mais fácil do que simplesmente abrir as portas daquele seu enorme quarto de hóspedes que ninguém nunca usa e deixá-la dormir lá por enquanto?
– Ah, francamente!
– Além do mais isso não estaria acontecendo se você tivesse feito o que eu disse e esperado que eu fosse buscá-lo no hospital. Tchau!
Então ele levantou, começou a se afastar com um último aceno e recebeu uma almofada nas costas lançada por Sayoran.
Depois que ele já tinha ido, Syaoran continuou sentado, observando anjo S se divertir com todos os botões do controle por um tempo até que ela se levantou bruscamente e veio na direção dele, sentando-se ao seu lado no sofá.
– Syaoran... – ela tinha uma expressão preocupada no rosto e uma mão na barriga – Eu... eu acho que estou com fome...
– Jovem Syaoran, eu não sabia que o senhor teria visitas, então preparei apenas uma refeição simples para o jantar... – Um senhor falou quando os dois chegaram na cozinha do apartamento.
– Não se preocupe, Wei. Por favor, sirva um pouco para essa moça. Ela ficará hospedada conosco enquanto espera... sua família voltar para a cidade...
Wei assim o fez, olhando curioso com o canto dos olhos para a linda jovem que era a convidada de seu patrão. Onde ele a teria conhecido?
– Aqui está, senhorita. Eu sou Wei. Estarei às suas ordens – Ele depositou a comida para ela com uma longa reverência.
– Ah, é um prazer conhecê-lo, Wei. Obrigada!
Sayoran ficou sentado com os braços cruzados em frente à ela na mesa da cozinha.
– Você não vai comer também? – perguntou a moça, devorando tudo, alegre.
– Não estou com fome – e depois de um tempo, perguntou: — Escute. Você, por acaso, lembra qual é o seu nome?
– Ah, claro, eu sou S... quer dizer... – ela sabia que as pessoas ali achariam estranho que ela se chamasse só “S” então tentou pensar num nome que poderia usar, qualquer nome dentre muitos que ela já tinha ouvido... o primeiro que lhe veio a cabeça foi o nome que Sayoran tinha chamado quando estava à beira da morte. Ela achou que ia servir perfeitamente. – Sakura. Meu nome é Sakura.
– Sakura!? – Syaoran instantaneamente lembrou-se da impressão que os olhos da moça lhe causaram da primeira vez que os encarou e agora ele estava sentindo a mesma coisa com ela ali sorrindo a sua frente. Sakura... Não era possível que ela também tivesse esse nome.
– Isso mesmo. Sakura. Só Sakura.
– Wei, eu estou muito cansado. Acho que já vou me retirar. Por favor, mostre a ela o quarto de hóspedes quando tiver acabado.
– Sim, senhor – e ele saiu dali depressa, como se fugisse de um fantasma.
– Ah, boa-noite, Sayoran – anjo S que passara a se chamar Sakura ainda disse antes que ele sumisse completamente de vista, mas não obteve resposta.
– Não se preocupe. Ele não é sempre tão carrancudo. É que hoje está sendo um dia muito difícil... – Wei dirigiu-se a ela, com um leve sorriso.
– Tudo bem. Aaah, isso aqui ta muito gostoso, Wei!
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