Haru
2 02 – Doença
Notas iniciais
— Então, seus pais não te deixam comer doces de manhã? – Bakugo perguntou enquanto terminava de fritar as panquecas veganas da receita que Todoroki Momo havia mandado por mensagem de voz.
— Não. Só coisas saudáveis de manhã, tio Kacchan. – Respondeu Haru, desviando o olhar do anime barulhento que passava na televisão para a cozinha, onde Katsuki preparava o café da manhã.
Bakugo sorriu diante do apelido. Era totalmente culpa de Midoriya que todos os filhos dos amigos deles o chamassem de Kacchan. Afinal, mesmo depois de quase dez anos de relacionamento, Izuku nunca arrumara uma forma mais madura de chamar Katsuki, e ele não conseguia controlar a língua mesmo na presença dos pequenos. Então, mesmo com todos os pesares, Bakugo era tio Kacchan e não havia nada que pudesse mudar esse fato.
— Que chato. – Katsuki murmurou enquanto recheava as panquecas vermelhas, devido à consistência de beterraba ralada, com toda a gororoba verde e laranja que Momo teria aprovado. Quando terminou, ele analisou os resultados de sua primeira receita totalmente vegana. A cara estava bonita, e o cheiro também não era ruim. Porém, se Deku estivesse ali, ele teria reclamado da falta de doce. Era quase uma formiga, o desgraçado.
Bakugo virou-se para chamar Haru, quando fixou seu olhar no garotinho. Ele vestia roupas maduras demais para a idade e estava sentado de forma bastante formal, contida, quase desconfortável. Era óbvio que não estava à vontade, ali, com Katsuki. Era verdade que os dois nunca estiveram sozinhos como naquele momento. Quando Haru visitava o apartamento, Izuku sempre estava e a maior parte das interações era compartilhada entre os dois. Era Midoriya quem sempre estava sorrindo, sempre fazendo piadas, sempre planejando brincadeiras. Bakugo, em geral, ficava de olho nos dois, impedindo que se passassem nas brincadeiras, mas raramente era mais ativo do que isso. Ele suspirou. Era difícil quebrar aquele gelo sem Deku por perto. Katsuki, entretanto, não era do tipo que desiste sem lutar.
— Coma tudo. – Bakugo ordenou quando aproximou o prato de plástico do rosto de Haru. O pequeno ergueu os braços e pegou o prato, confuso.
— Não vai fazer sujeira? – Katsuki demorou meio segundo para perceber que Haru estava apreensivo com a ideia de comer na sala, de frente para a televisão, e mesmo sem querer, sujar o sofá ou o chão como qualquer criança da sua idade faria. Bakugo pensou em Yuuto e Azuna, os gêmeos dos Kirishima, e no caos que eles sempre faziam, e, mais uma vez entre tantas, desejou jogar na cara de Todoroki que o filho dele era uma criança também e deveria agir como uma.
— Bem, se nós fizermos, nós limpamos depois. Essa é a ordem das coisas. – Disse enquanto deixava um copo de suco natural, feito conforme as instruções de Momo, sobre a mesa de centro para Haru e voltava à cozinha para buscar o seu café da manhã. Quando retornou, encontrou Haru totalmente concentrado em seu prato. Suas bochechas estavam vermelhas e seus olhos reluziam. Sobre o prato, suas panquecas, e alguns acréscimos, formavam uma versão simples, mas bem feita, do rosto sorridente do gato do anime que ele assistia naquela manhã.
— É o Nekokkin! – Haru exclamou eufórico assim que Katsuki sentou-se ao seu lado. Então, ele lembrou-se dos “bons modos” e ficou envergonhado com sua alegria descontrolada. Bakugo sorriu para o garotinho.
— Na verdade, a maneira certa de se falar é... – ele ergueu os punhos na altura das bochechas, torceu-os um pouco e se esforçou em liberar a sua expressão menos raivosa possível – ...Neko-Neko-kkin.
Haru deu um pulo no lugar, quase deixando cair o seu café da manhã. Com o rosto reluzindo de empolgação, ele comeu as panquecas com muito mais gosto, enquanto Nekokkin derrotava alguns vilões com suas “luzes de alegria”. Internamente, Katsuki agradeceu por Eijiro tê-lo torrado a paciência demonstrando milhares de vezes aquela pequena saudação dos fãs do gato-herói, apenas para que ficasse perfeito para quando a pequena Azuna pedisse ao pai. Não que ele fosse admitir isso em voz alta algum dia. Olha, olha, tio! Exclamou Haru, entretido demais para perceber que não estava sendo o “garoto-modelo”, enquanto Nekokkin dava cambalhotas para fugir de alguns vilões. Bakugo gostava mais dele assim, sendo a criança que deveria ser. Esse momento, contudo, durou apenas até o celular de Katsuki vibrar, porque, no momento seguinte, o sorriso de Haru morrera completamente.
— Hora dos remédios, não é, tio Kacchan? – Bakugo assentiu. Haru sorriu em resposta. O sorriso mais forçado que Katsuki já vira no rosto de uma criança. – Tudo bem. É para o meu bem.
Haru tomou os remédios em silêncio. Primeiro, o rosa, depois, o metade azul, metade amarelo, e por fim, o grande branco. Após o último, ele pediu um pouco mais de água, agradeceu a Bakugo e depois, sentou-se no sofá sem uma palavra sequer. Ele não tocou mais na comida e pegou no sono uns vinte minutos depois. Shoto avisara que o último remédio causava sonolência, Katsuki, entretanto, fora pego desprevenido pela velocidade da reação. Após levar Haru de volta ao quarto, Bakugo usou o celular para pesquisar o nome dos medicamentos. Os três eram tarja-preta, obtidos apenas com receita médica. Juntos, eram usados para várias doenças do sistema cardiovascular. Doenças das quais não havia cura. Ele tem um problema no coração. Izuku havia lhe revelado poucos dias depois de Haru nascer. Mas vai ficar tudo bem. Eles vão cuidar bem dele. Ele lhe confortara ou estivera confortando a si mesmo?
Com o passar dos anos, Haru crescera normalmente. A sombra da doença, porém, nunca o deixaria. É incurável afinal. Contando que tomasse os medicamentos e se regrasse em vários aspectos, aquela doença não o mataria, mas nunca o abandonaria. Quando Haru se tornasse um adolescente e muito provavelmente, um aspirante a herói, o que aconteceria? Quando ele quisesse ingressar na Yuuei, o que aconteceria? Além das dificuldades físicas que a doença lhe causava, tomando aqueles remédios pesados duas vezes por dia – uma vez pela manhã e outra de noite – o rendimento dele como aspirante a herói com certeza cairia. E, então, talvez ele percebesse que nunca seria tão competente quanto os pais e que viveria sob a sombra de Shoto e Creati para sempre.
Katsuki estava tão afogado naqueles pensamentos sombrios que demorou a sentir a vibração do celular. Quando conferiu-o, encontrou uma mensagem de Todoroki Momo. Bom dia, Bakugo-san. Como vocês estão? Tenho certeza de que estão se divertindo. Vocês sempre formaram uma excelente dupla. Mais uma vez, agradeço pela sua ajuda, Bakugo-san. E havia um coraçãozinho para fechar a mensagem. Katsuki sorriu. Tudo o que Shoto tinha de inexpressividade, a esposa tinha de simpatia. Eles eram um incrível oposto e talvez, por isso, funcionassem tão bem.
Bakugo respondeu Momo e forçou-se na direção da cozinha. Não era um dia para ficar remoendo coisas que talvez nunca acontecessem. Era um dia de aproveitar a companhia de Todoroki Haru ao máximo.
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