Hart - O Clã
1 Prólogo
Notas iniciais

O despertador tocou e Milah ignorou-o por alguns minutos.
“Só mais cinco minutos”
Sua inconsciência implorou e ela como uma boa garota acatou ao pedido com carinho e dormiu por mais vinte minutos, muito mais do que sua mente pedira, mas ela sempre havia sido boazinha demais, sempre fazia demais para os outros e muito mais do que pediam.
— Mi — ao ouvir a voz masculina Milah abriu os olhos devagar.
— Alek eu não tenho aula — cobriu o rosto.
— Feliz aniversário — ele abraçou a menina ainda embrulhada — Você é meu maior orgulho.
Milah descobriu o rosto e encarou-o com os olhos cheios d’água, ela sempre soube que seu irmão a amava, mas naquela manhã era especial, ela sentia como se algo fosse mudar.
— Te amo maninho — abraçou-o já chorando.
— Hey é seu aniversário, posso saber o motivo das lágrimas?
— Você é a melhor pessoa do mundo — declarou-se.
— Está acontecendo alguma coisa?
— Claro que não.
— Hoje é dia de plantão na delegacia, ficarei lá até amanhã, tome cuidado e se alimente direito — beijou o topo da cabeça dela — E se lembre de que haja o que o houver eu sempre te amarei.
— Eu sei disso — sorriu fraco.
Alek se virou para sair, Milah se orgulhava tanto em vê-lo fardado, ele olhou para trás, seus olhos castanhos mel encontraram os dela amendoados, ele sorriu e saiu porta a fora.
Eles eram parecidos demais, o rosto em um formato oval, os cabelos castanhos chocolate, o mesmo formato de lábios, o mesmo sorriso meio reprimido, as mesmas dores.
Milah suspirou.
Há pouco mais de um ano seu pai os abandonara a própria sorte, o motivo? Gemma, a mãe de Milah, havia ido embora com um grupo de pessoas que eles nem conheciam.
Milah não julgava a mãe, sabia que Gemma não havia nascido para esquentar a barriga no fogão, sempre havia amado a vida de solteira e amava dançar como uma boa cigana, embora se negasse a aceitar Alek também sabia que sua mãe havia largado a família cigana para casar-se com um homem que amara no começo, mas depois deixara de amar, os dois filhos foram apenas correntes que ela arrumou um jeito de quebrar e voar como um pássaro livre.
Milah faria a mesma coisa.
Naquele momento sua mente girou em torno de como ela seria traidora o suficiente para deixar Alek sozinho, assim como seus pais o fizeram, mas se ela pedisse que ele permitisse que ela namorasse Johnny, ele certamente não permitiria.
Alek era um exemplo de irmão cuidadoso para permitir que sua irmã de apenas — recém-completados — dezesseis anos namorasse um “trombadinha”, como ele havia tarjado o garoto de olhos verdes. Mas Milah não podia negar mais para si mesma que havia se apaixonado pelo “mau exemplo” da cidade, o garoto desejado por todas as garotas, odiados pelos pais e que todos os garotos queriam ser.
*
Já havia anoitecido quando Milah colocou a mochila nas costas e saiu pela porta da frente, seu coração apertado dentro do peito, ela subiu na bicicleta e rumou para a floresta onde se encontraria com o namorado.
Johnny abriu um sorriso enorme ao ver sua bela princesa, ele temeu que ela não viesse, embora fosse um cara confuso ele tinha certeza que a amava, jamais havia se apaixonado até ela aparecer em sua vida.
— Fiquei com medo de você desistir de mim — abraçou-a e a rodou no ar.
— Eu amo você, jamais te deixaria — a menina declarou-se apaixonada.
Ela se inclinou e o beijou, de repente Johnny começou a quase se debater, Milah se afastou, e só então percebeu que saía uma fumaça azulada da boca de Johnny e entrava na sua, era como se ela estivesse sugando algo dele, ela se esforçou até que fechou a boca e ele caiu de joelhos.
— O que você? Um tipo de bruxa? — rastejou de costas.
— Eu... Eu... — Milah levou a mão à boca e se encolheu perto de uma árvore.
— Olá Milah Jensen — uma mulher alta vestindo um vestido azul marinho e saltos altos caminhou até ela — Bem vinda ao Clã — estendeu a mão.
— Quem é você? — se encolheu ainda mais.
— Crystal Legrant — apresentou-se.
— O que você quer de mim e como sabe meu nome?
— Você é uma de nós agora Milah — ajeitou a postura.
Milah analisou-a, cabelos castanhos compridos e cacheados, alta, seus olhos quase tão negros quanto a noite, os lábios carnudos entre abertos.
— Do que você está falando? — arregalou os olhos.
— Uma Hart, um clã poderoso.
— Você é um tipo de louca ou coisa do tipo?
A outra mulher, dessa vez ruiva, entrou em cena, sorriu docemente e depois empurrou Johnny no chão colocando o salto vermelho em seu pescoço.
— Vamos com isso Marie — uma loira com sotaque francês andou até elas — Ele está vindo, consigo sentir a energia dele.
— Já disse que meu nome não é Maria, a garota latina e ingênua que se chamava assim morreu, agora sou Crystal — corrigiu-a — Agora vamos — puxou Milah pelo braço — Termine o rito de passagem.
— O que? — a garota se soltou do aperto da mulher — Você quer o que? Eu vou chamar meu irmão ele é...
— Policial, sabemos — um outra morena apareceu.
— De onde vocês estão vindo e quem são vocês?
— Já te disse que somos do Clã Hart e isso é tudo o que você tem que saber por enquanto.
— Me dê um motivo para confiar em vocês.
— Em primeiro lugar você já viu do que é capaz, segundo já que seu dom despertou precisamos leva-la para longe dos olhos de Malachai, terceiro precisamos libertar sua mãe e todo o nosso Clã — a bela ruiva se pronunciou.
— O que você sabe da minha mãe?
— Gemma Jensen é uma descendente direta de nossa ancestral — Crystal começou — Vou te contar uma pequena história menina, seja atenta — avisou e pediu — Em meados de mil oitocentos e alguma coisa uma cigana chamada Amapola ao completar dezesseis anos despertou um dom estranho e perigoso, ela se alimentou da energia vital de um de seus amigos, todos a condenaram a morte, até mesmo seus parentes próximos, logo após o julgamento ela estava em pé rente ao topo de um penhasco, seus pés e mãos amarrados — suspirou pesadamente — Ela pensou que fosse o fim de tudo quando de repente um rapaz surgiu de dentro da floresta montado em um cavalo, ao descer de lá fechou a mão e de repente todos estavam de joelhos e ele caminhou até a bela cigana, a soltou e colocou no cavalo e partiu sem dizer nada.
— Bela história e o que tenho haver com isso? — Milah estava em pânico, mas tentava manter a pose de durona.
— Angus Sachin o fundador do clã inimigo ao nosso, foi o salvador de Amapola, ele a amou desde o instante em que se conheceram quando crianças, ele viajou por todas as terras procurando sua pequena cigana e quando a encontrou a salvou da morte, mas Amapola estava apaixonada pelo jovem Conde Parrish e com ele Amapola fugiu, traindo seu salvador o rapaz que tanto a amava — encarou a menina — Depois de ter seu coração partido por uma Hart, Angus amaldiçoou todo aquele que descendesse dele e se apaixonasse por uma de nós.
— E o que acontece? — Milah perguntou.
— Isso jamais havia acontecido e por muito tempo ninguém soube o quão amaldiçoado um Sachin seria quando se apaixonasse por uma Hart e quando aconteceu foi achado a profecia — a ruiva começou — “Do mesmo ventre nascerá descendentes diferentes, o cravo então se apaixonará por uma rosa traiçoeira e traidora, assim despertará Angus e ele vingará a traição que sofrera”.
— Isso é ridículo — Milah cruzou os braços.
— Malachai Angel se apaixonou por uma Hart e agora é um monstro por culpa de Angus — a ruiva fechou os olhos se acalmando.
— Malachai é um monstro, nasceu com a maldição de ser um Sachin — Crystal virou de costas.
— Ele é seu irmão — a ruiva gritou na direção da morena.
— Deixe de ter esperanças Delilah, ele jamais voltará a ser o bom rapaz que conheceu e destruiu — Crystal vociferou na direção da ruiva.
— Termine o rito — a ruiva pediu.
— Pra que?
— Porque Angus tomou a mente de Malachai, ele quer sacrificar você no lugar de Amapola para que se vingue por seu coração partido, e precisamos sair daqui rápido ele está próximo — Caterina, a loira francesa disse.
— O que eu tenho que fazer?
Delilah empurrou Johnny na direção de Milah, o rapaz ficou de joelhos, os olhos cheios de lágrimas.
— Termine o que começou, toda Hart precisa acabar com energia vital do homem que se ama — Agnes, a outra morena, arqueou a sobrancelha.
— Todas vocês... — Milah levou a mão à boca.
— Temos pouco tempo, comece — Crystal apressou-a — Temos sua mãe e todo nosso Clã escravizado para libertar.
Milah abriu os olhos que se tornaram tão alvos quanto neve, seus lábios se separaram e então ela começou a sugar toda a energia do namorado, as lágrimas escorriam pelo seu rosto, mas era a vida de sua mãe que estava em risco, a vida de um clã inteiro em suas mãos, ele ficou imóvel esperando a morte.
— Está feito — Delilah colocou a mão no ombro de Milah — Sinto muito.
A bela jovem abriu os olhos e enxergou em sua frente um corpo inerte, pálido e sem vida.
Johnny estava morto e ela o havia matado.
— Eu sou um monstro — chorou.
— Me senti assim quando tirei a energia de Malachai — Delilah a abraçou — Não vou mentir menina, nunca vai passar e essa dor só vai aumentar.
— Isso é o que somos — Crystal suspirou — Harters não amam, nosso amor é uma doença que corrói e destrói, amor não é para nós.
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