Hart Milo
1 Hart
Notas iniciais
Restava apenas duas semanas para o fim das aulas e as coisas seguiam o seu curso normal. Boa parte dos alunos já não estava mais frequentando as aulas a alguns dias, mas os que estavam com notas baixas como eu ainda tinham algum tempo a frequentar este inóspito lugar.
Para o meu bem minha mãe já havia dito que seu eu precisasse frequentar as aulas de verão ficaria de castigo ate eu ter filhos, e eles terem netos. Conhecendo-a como eu conheço tal aviso não deveria ser ignorado.
“Só mais alguns segundos” eu pensava encarando o relógio e tamborilando os dedos sobre a carteira esperando o sinal tocar.
Quando ele tocou todos da classe partilharam da mesma expressão facial de alivio, acompanhada de um longo suspiro e um sorriso para algum colega próximo. Esperei todos saírem da sala e fui ate a mesa onde a senhora Ashcroft estava sentada recolhendo seus papeis. Eu estava muito mau em álgebra, e teria que fazer trabalhos extras para melhorar a minha nota com ela sem ter de frequentar as aulas de verão.
Em minha defesa disse a ela que não poderia ficar para recuperação porque meus avós moravam em outra cidade e eu era o único neto deles, e não podia deixar um casal de idosos sozinhos. Ela não se convenceu muito com a história improvisada de ultima hora, mas acabou por se solidarizar e facilitou as coisas para mim. Afinal, que não se sensibiliza com um bom e velho drama familiar? Sempre funciona.
—Me prometa que trará os trabalhos na segunda de manhã Hart, é sua ultima chance.—me olhou sobre os óculos e sorriu- Não a desperdice.
Agradeci a ela quase beijando suas mãos e sai da sala o mais depressa possível. Não pensem que sou um mentiroso compulsivo, pra falar a verdade eu odeio mentiras e só faço isso em casos extremos como ser ameaçado pela minha mãe. Da ultima vez em que ela me ameaçou eu passei um mês inteiro de castigo só por ter chegado atrasado ao jantar de bodas dos meus avós, e mesmo ocupada ela fez marcação cerrada comigo, foi terrível.
A proposito, eu sou Hart. Hart Milo.
Assim que sai para o corredor já pude avistar a silhueta de Charlotte parada próxima à saída do prédio escolar, mexendo em seu celular. Ela era a minha amiga mais antiga, eu não lembro bem de quando nos conhecemos porque ainda éramos bebes, e nossas mães já eram amigas há muitos anos antes. Ela é alta e pálida, e tem olhos azuis muito bonitos, mas o que chama a atenção nela são os longos cabelos alaranjados típicos de sua família descendente de escoceses. Ela é sem duvida alguma uma das garotas mais bonitas da escola, mas ela não anda com as garotas porque prefere ficar longe das fofocas e comentários escrotos da turma. Não que isso faça a vida dela mais fácil, mas pelo menos a deixa mais confortável.
Charlotte é diferente das outras garotas que os garotos gostam, apesar de ser bonita ela é boca suja e arrota alto, e não foge de briga apesar de ser calma na maior parte do tempo. Talvez por isso ela prefira ficar junto de mim e Archie, nosso outro amigo. As garotas populares da escola são mesquinhas e delicadas demais para ela, que não tem medo de sujar as mãos e perder alguns fios de cabelo. Ela também é muito engraçada, é difícil você ficar triste por muito tempo quando ela esta por perto, porque ela sempre nos faz rir com alguma imitação ou piada suja.
Aproximei-me dela e cutuquei suas costelas com o indicador chamando sua atenção.
—E ai punk, para onde vamos?—falou enquanto guardava o celular.
Seguimos corredor a fora passando pelas portas desviando de algumas pessoas que transitavam por ali.
—Eu vou para a minha casa e você para a sua, oras. –sorri
Ela rolou os olhos decepcionada com a resposta.
—Tinha pensado em irmos à casa do Archie, mas já que o bebe tem que ir para casa deixa pra outro dia.—ela torceu os lábios, chateada.
Arqueei as sobrancelhas e suspirei me despedindo dela. Eu não tinha nada para fazer durante a tarde, mas não queria ver Archie tão logo. Eu finalmente estava quase entrando de férias e precisava de um tempo só meu para curtir isso. Ver Archie iria resultar em outra discussão e eu não queria mais brigar com ele.
Eu morava um pouco longe da escola e quando minha mãe não me dava uma carona eu tinha que ir de metrô, e hoje seria um dia desses. Eu pensei em ir a pé para casa, mas o tempo estava denso e nublado então seria melhor ir mesmo de metrô para evitar me molhar e levar bronca. Na semana passada eu fiquei resfriado por tomar chuva e não poderia arriscar ficar doente outra vez.
No caminho ate a estação eu gostava de ficar admirando a paisagem urbana ao redor. A cidade ficava linda com aquele tom fúnebre de cinza das nuvens de chuva e a brisa fria que balançava as arvores fazendo as folhas caírem só deixava o cenário ainda mais belo, quase caótico. Após atravessar o cruzamento das avenidas antes do metrô um pressentimento estranho me ocorreu. Eu não entendo muito o significado dessas coisas estranhas, mas elas de fato me deixam um pouco incomodado. Esperei um carro passar e desci apressado a escadaria que dava acesso a estação subterrânea do metrô. Ainda tinha longos quinze minutos a esperar pela minha carona e precisava encontrar algum lugar para me sentar antes que ficasse muito lotado. Próximo a uma parede a direita do fim das escadas havia um banco de concreto chapado totalmente vazio e decidi que ali era o lugar perfeito para esperar.
Apenas duas pessoas estavam ali em frente à plataforma; uma mulher de meia idade com uma veste de camareira e os cabelos amarrados e um senhor negro lendo um jornal encostado a um pilar de sustentação. Rostos conhecidos, como o da maioria das pessoas que usavam esse horário.
Sentei-me no banco me acomodando da forma mais confortável que consegui e olhei ao redor por costume. Puxei meus fones do bolso da blusa e pluguei no celular dando play no aleatório. Suspirei entediado e enfiei as mãos no bolso, fechando os olhos para evitar ficar mexendo no celular. Eu precisava perder esse vicio de mexer no celular toda maldita vez em que ficava entediado porque eu sempre me distraia e acabava perdendo o horário ou me atrasando. Em um breve instante minhas pálpebras pesarem e fui obrigado e me mexer para não cochilar sentado ali. No fim de semana eu teria tempo o suficiente para por todo o meu sono atrasado em dia.
Corrigi minha postura desajeitada no banco e apanhei o celular para ver quanto tempo ainda faltava e descobri que em minha inocente fechada de olhos haviam se passado dez minutos e a plataforma já estava mais cheia, com no mínimo mais quinze pessoas. Bem na minha frente tinha um homem alto de terno com a cabeça quase raspada que olhava de um lado para o outro e então olhava para o relógio no pulso, respirava fundo e repetia tudo outra vez. Fiquei incomodado com aquilo, mas permaneci na minha. Será que ele não percebia que estava bem na minha frente? Eu conhecia a maioria das pessoas que esperavam o metrô nesse horário e nessa plataforma e tinha quase certeza de que nunca tinha visto tal homem ali.
Talvez cansado de esperar de pé o homem decidiu sentar-se e olhou para o banco onde eu me encontrava sentado. Deu uma breve olhada para mim arqueando as sobrancelhas de leve como se pedindo autorização para se sentar ali. Por sorte ele viu que havia espaço o suficiente para nos dois e sentou-se na outra ponta, respeitando meu espaço pessoal.
Ele de fato era alguém novo ali. Olhei para ele de cima a baixo de forma discreta e voltei meus olhos à plataforma a frente. Seu rosto era bem marcante, com sobrancelhas escuras que contornavam olhos tão azuis como eu nunca tinha visto antes na vida. Tinha uma barba clara por fazer e lábios finos bem contornados. O barulho do vagão se aproximando me chamou a atenção e logo as pessoas começaram a embarcar. Era o que ia ao centro norte e significava que em alguns minutos o meu chegaria. Tão logo quanto chegou já saiu, deixando a plataforma mais vazia outra vez.
Por um instante senti um inquietamente no corpo, como se olhos estivessem me observando. Um leve arrepio eriçou os pelos da minha nuca me fazendo ficar nervoso e me vi obrigado a correr a mão por cima deles para me acalmar. Resolvi ficar de pé quando ouvi um ruído distante que era comum dos vagões entrando na estação. O homem dos olhos azuis também ficou de pé, e olhou para seu relógio outra vez. Como de costume retirei meus fones do ouvido e os enrolei no celular para que nenhum atrapalhado os arrancasse dos meus ouvidos ao entrar no vagão e sem perceber levasse minhas orelhas junto.
—Com licença.—uma voz suave vibrou próxima de mim- Eu nunca vim até esta estação, saberia me dizer a que horas passa o trem que vai ate o Chateau?
Meu corpo ficou tenso por alguns segundos e então anui com a cabeça. É claro que eu sabia, ficava não muito longe da minha casa, era um lugar conhecido na cidade por ser um dos melhores shoppings da região.
—É esse ai.— Inclinei a cabeça em direção ao trem que se apontava na plataforma.
Ele arrumou a alça da maleta sobre o ombro e me agradeceu de forma educada. Era um homem educado, não deveria ter mais de trinta anos, o tipo educado que não se via muito por essas bandas.
—Também vai para lá?—me questionou.
Concordei com a cabeça.
—Moro lá perto.
Ele gesticulou com as sobrancelhas e deu um breve sorriso labial encerrando a conversa.
Adentramos o vagão juntos a uma senhora já que ficamos para trás devido à conversa e deixei que ela se sentasse no ultimo banco disponível. Eu estava cansado, mas ela precisava mais do assento mais do que eu e não seria nem sacrifício ficar alguns minutos a mais de pé. O homem que puxou assunto comigo ainda na estação estava mais afastado encostado a uma barra de apoio e olhou de forma gentil e então não trocamos mais olhares. Na verdade eu nem sabia o porquê de ainda mantermos contato visual e então me virei de lado próximo a barra e me acomodei ali. Era longe de ser confortável, mas era o que eu tinha no momento.
O metrô parou em minha estação não muito tempo depois e esperei começar a esvaziar para poder sair sem esbarrar em ninguém, logo após a onda de pessoas sair eu os segui para fora do vagão em direção as escadas. O homem de terno dono dos olhos azuis me encarou com um olhar suave e se despediu com gesticular de sobrancelhas que pelo que parece era lhe algo muito conveniente, uma linguagem expressiva e silenciosa.
O fluxo de pessoas hoje estava intenso e subi as escadas o mais rápido que pude para sair logo da estação congestionada. Meus olhos fitaram um rosto bastante conhecido por ali descendo as escadas do lado oposto e então me movi mais depressa para fora. Era um homem conhecido por praticar pequenos furtos no metrô e eu não queria ficar ali dando bobeira sabendo que poderia ser sua próxima vitima.
Ao pisar na calçada já do lado de fora notei que o vento havia diminuído e retirei o capuz da blusa, ainda a tempo de ver o homem com quem conversei na estação indo em direção ao Chateau, um pouco longe dali. Dei de ombros e o caminho para a minha casa sem muita pressa apesar de ansiar pela vontade de chegar logo para poder me deitar.
Foram os dez minutos mais longos dos últimos dias, quanto mais eu me aproximava da minha casa mais distante ela parecia ficar. Do outro lado da rua, alguns metros antes da minha casa eu pude avistar Henry andando de skate sobre a calçada. Ele tinha dez anos e era muito educado com os vizinhos. Era um menino bom, passeava com os cães das pessoas e sempre ajudava minha mãe a carregar as compras quando eu não estava em casa.
Gina e Christine, as mães dele, eram decoradoras e sempre que iam viajar para alguma feira ou exposição o deixavam comigo ou Elena, uma garota da minha idade que morava na nossa rua, mas a qual eu não tinha muito contato. Ele gostava de ficar comigo porque adorava super-heróis e eu tinha vários quadrinhos e jogos porque também gosto muito desse universo.
—Oi Hart!—ele disse enquanto passava por mim em seu skate, muito veloz.
—Oi Henry.—acenei com preguiça.
Peguei minhas chaves no bolso e abri a porta de casa, aliviado por sentir aquele cheiro único de lar. Deixei minha mochila no chão e retirei os tênis ali mesmo, em seguida retirei a blusa de frio e a depositei sobre o braço do sofá indo em direção à cozinha para comer alguma coisa. Minha mãe deveria ter cozinhado na noite anterior antes de ir se deitar porque havia uma tigela de macarrão com molho intocada na geladeira. Como ela só chegaria ao fim da tarde resolvi me servir e fui direto para o quarto assistir meus seriados no computador.
A segunda coisa que me deixava mais preocupado depois das notas baixas, eram episódios atrasados. E digamos que eu já estava com muitos, pelo menos quinze ou dezesseis. Faltavam apenas três episódios para eu terminar a segunda temporada de The Blacklist então aproveitei o tempo livre para coloca-la em dia para que pudesse começar logo a terceira temporada. Tinha começado a assisti-la a menos de um mês e já estava apaixonado por ela.
Horas mais tarde quando o ultimo episodio já tinha acabado tive a impressão de ouvir a porta da sala abrir, mas como o som do notebook estava alto eu deveria estar imaginando coisas e ignorei. Outra vez tive a impressão de ouvir algum barulho e comecei a ficar encucado com aquilo. Diminuí o volume do aparelho e decidi ir ate a sala para checar se tinha mesmo fechado à porta. Em passos silenciosos eu caminhei pelo pequeno corredor escuro ate que bati em alguma coisa e um grito escapou me assustando e me fazendo gritar junto.
—Charlotte!—falei alto e nervoso pelo susto.
—Que merda Hart, quer me matar de susto?
Ela esfregava a testa com dor.
—Já ouviu dizer sobre uma coisa chamada campainha?—ironizei ainda bravo.
Ela rolou os olhos e passou por mim indo em direção ao meu quarto.
—Toquei-a varias vezes e você não abriu, achei que estivesse morto.
Dei de ombros sabendo que nenhum argumento seria bom o suficiente para discutir com ela e a segui de volta ao quarto. Charlotte não tinha acanho quando estava na minha casa porque ela sabia que minha mãe e eu não nos importávamos com ela ali. Para a minha, ela era a filha mulher a qual ela nunca teve e as duas se davam muito bem. Charlotte era quase da família de qualquer forma.
Eu gostava de vê-la mais como uma irmã do que como minha amiga porque eu não sei bem como é conviver com irmãos em casa. Tenho um único irmão mais velho que mora em São Francisco e não o vejo desde que nossos pais se divorciaram há sete anos. Josh liga vez que outra para saber como estamos, mas nunca vem para cá, nem mesmo quando Dave vem me visitar no meu aniversario ou no dia de ação de graças que é depois do nosso.
A proposito, Dave é o meu pai. Nos não temos muito contato devido a distancia em que vivemos, mas ele é um cara legal e que sempre cumpriu suas obrigações paternas sem problemas apesar de não ter um bom relacionamento com a minha mãe. Eu nunca soube bem o motivo de os dois terem se divorciado e também nunca a questionei sobre o assunto porque eu tinha uma clara lembrança de uma vez em que minha tia Natalie falou sobre isso e ela foi bem grossa com ela. Foi o suficiente para eu saber que não deveria falar sobre aquilo com ela tão logo.
Mesmo com a relação estreita de ambos, ela sempre me incentivava a ir passar m tempo com ele nas férias, mas eu sempre adiava a ida e isso terminou em sete anos sem conviver com ele. Hoje em dia ele já se casou outra vez e meu irmão ainda vive com ele, mas mesmo assim eu não me sinto confortável em passar um mês inteiro com eles e longe da minha mãe. Margot precisa de mim quase sempre e eu não vejo um mundo onde minha mãe consiga viver mais de que uma semana longe de mim.
Charlotte estava sentada na minha cama vasculhando no notebook, com certeza já tinha fechado a pagina de seriados porque também estava atrasada e não queria ler spoilers.
—Você ainda não esta colocando suas series em dia, não é?—indaguei-a me sentando na cadeira da escrivaninha- Você vai perder a aposta.
Ela riu e fez uma cara engraçada.
—Tenho prioridades. As series pode esperar.
—Masturbação é a sua prioridade. –olhei para ela rindo
Charlotte empurrou minha cadeira com o pé e riu junto a mim.
Peguei o prato que tinha trazido ao quarto á horas antes com o macarrão e voltei a cozinha para coloca-lo na pia antes que começasse a juntar formigas ali e minha mãe mandasse dedetizar a casa toda. Ela tinha pavor de insetos porque eles eram responsáveis por sujar e estragar tudo de papel que havia em seu escritório.
Minha casa não era grande, mas era confortável. No andar de baixo ficavam uma pequena sala de estar, a cozinha que era um pouco maior e bem organizada, o quarto que um dia foi do meu irmão e hoje tinha sido transformado em escritório e biblioteca, um banheiro e o meu quarto. A cozinha era o único lugar claro da casa, todo o resto era de uma cor escura de marrom. E quando eu digo escuro é bem escuro mesmo. Minha mãe diz que essa cor ajuda a nos deixar mais aconchegados, mas eu nunca entendi o motivo. No andar de cima tinha o quarto dela e um banheiro com uma sala não muito grande cheia de coisas dela.
Voltei para o meu quarto e Charlotte estava sentada desajeitada com o notebook no colo, e a cabeleira laranja espalhada pelo meu travesseiro como se estivesse em seu próprio quarto, totalmente despreocupada.
Liguei o computador da escrivaninha que era usado também como televisão e abri meu Facebook para checar o meu feed. Coloquei uma perna sobre a cadeira e apoiei meu braço sobre o joelho como de costume.
—Viu Archie?—perguntei fingindo desinteresse.
Ela anuiu com a cabeça e continuou olhando para o notebook.
—Ele esta tendo outra paixão platônica pela Debbie. –rolou os olhos- Não sei o que vocês veem nela.
—Eu não vejo nada. –falei com certo asco.
Charlotte balançou a cabeça e sorriu.
—Ainda vai levar um tempo ate eu me acostumar com isso.—ela se desculpou.
Somos amigos há bastante tempo, mas ainda era novidade para ela o fato de eu não gostar de garotas. Quero dizer, não que eu não goste de mulheres é só que eu não sinto atração sexual por nenhuma delas.
—Eu tinha pensado em sairmos mais tarde. Vai ter uma reunião na casa de um cara hoje à noite. –ela bocejou- Só videogame, alguns salgadinhos e piscina.
Ela tinha aquele olhar desconfiado, como se quisesse me dizer algo além daquilo. Fiquei olhando para ela encarando seus olhos azuis com as sobrancelhas erguidas esperando que ela continuasse. Ela bufou e rolou os olhos.
—Archie pediu para que eu chamasse você.
Esfreguei os olhos e bocejei, apanhando meu celular para ver as horas. Faltava meia hora para a minha mãe chegar e se eu quisesse sair teria que ser antes disso porque ela iria me fazer muitas perguntas e eu não podia dizer a onde estava indo já que eu nem mesmo sabia.
—Hart? —ela chamou minha atenção- Você vai ou não?
Mandei uma mensagem para a minha mãe dizendo que iria dormir na casa de Archie. Ela não sabia que estávamos sem se falar, então não iria se preocupar muito com isso ou ficar muito preocupada.
Coloquei o celular sobre a escrivaninha e olhei para ela que já estava ficando vermelha de ansiedade pela minha resposta. Eu adorava vê-la assim, ela ficava muito engraçada.
—Só vou por sua causa. —ela sorriu e levantou-se beijando minha bochecha com força.
—Esse é o meu garoto.
Tomei uma breve chuveirada enquanto ela foi ate a cozinha comer alguma coisa. Sequei-me às pressas e dei uma arrumada nos cabelos para poder me vestir logo. Quanto menos tempo eu demorasse mais chances eu teria de não encontrar com a minha mãe. Desligamos tudo e deixei apenas o abajur da sala aceso para que a casa não ficasse na penumbra.
-Sabe que sua mãe vai te dar um sermão quando descobrir que mentiu, não é?
Sorri enquanto trancava a porta.
—E desde quando se importa com isso? –questionei.
Ela anuiu com a cabeleira alaranjada e sorriu. Ela não se importava e eu menos ainda. Eu já havia me habituado aos sermões da minha mãe.
Era certo que ela iria ficar muito irritada quando descobrisse que eu não iria dormir na casa de Archie e havia mentido, mas eu não estava ligando muito para isso no momento, havia coisas mais importantes para me preocupar como ver Charlotte acabar com todo mundo no videogame e ver Archie apostar alguma coisa absurda com ela da qual ele também se arrependeria porque sabia que também iria perder.
Ser da turma dos excluídos da escola tinha suas vantagens. As pessoas normais não se divertiam tanto quanto nos.
Fomos direto para a casa de Charlotte para ela trocar de roupas e ficamos conversando um tempo sobre o que faríamos nas férias e chegamos a conclusão de que não poderíamos passar um mês inteiro vegetando em casa como no ano passado, teríamos de ir para algum lugar e aproveitar calor, como ir a praia ou algo assim já que a previsão para o clima esse ano prometia ser quente.
Depois que ela terminou de arrumar a longa cabeleira laranja fomos buscar Archie e de tanto falarmos sobre agua acabei por recordar do cara de terno que conheci no metrô. Seus olhos se pareciam com piscinas gélidas de tão azuis e por algum lapso de tempo fiquei divagando sobre ele, ate perceber que já estávamos em frente à casa de Archie.
Ele tinha o cabelo loiro e curto um tanto bagunçado, como sempre. Mesmo não falando um com o outro ainda, nos cumprimentamos e demos um sorriso meio sem graça. Ele parecia arrependido, mas ainda não pronto para ceder e pedir desculpa.
Não fazia questão de tê-la naquele momento, porem fiquei bem em ver que ele estava tão mal com aquela situação quanto eu estava. Não estávamos no melhor momento de nossa amizade, mas seria bom passar algumas horas junto com eles comendo e jogando conversa fora.
Sempre era.
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