Os dias que se seguiram desde a volta de todos para A Toca foram os mais tristes e silenciosos que todos presenciaram. Ninguém passava muito tempo na companhia de outras pessoas, pois o silêncio era incômodo e constrangedor – exceto Rony e Hermione, que passavam maior parte do tempo juntos –. Gina mal saía do quarto, não dando a Harry a oportunidade de conversar com ela. Mal diziam “bom dia” um para o outro. Harry entendeu isso como um recado para que ele não se aproximasse, e assim o fez. Passava maior parte do tempo nos jardins, embaixo de uma árvore, olhando a casa e as pessoas ao longe, sobretudo Gina; o lugar o permitia observar quase tudo o que a menina fazia. Não que ela estivesse fazendo muita coisa naquele dia. Passou horas sentada à janela com um olhar no horizonte. Harry estava imaginando se ela estava olhando ao longe na esperança de que Fred voltasse. Pensar isso lhe doeu muito, mas tentou afastar o pensamento e lembrar do que a Sra. Weasley o havia dito antes de deixarem Hogwarts, no Salão Principal.

Estava com fome, mas não queria incomodar, sair dali ou tampouco parar de olhar para Gina. Só esperava que ela continuasse sem notar que ele estava ali ou acabaria pensando que ele é algum tipo de maníaco obsessivo. Se ajeitou de forma mais confortável e, enquanto olhava para ela, teve vislumbres dos tempos em que estavam juntos na escola.

— Porquê demorei tanto para perceber meus sentimentos por você? Sou um idiota.

Passando-se mais alguns minutos, caiu no sono sem nem perceber e tombou para o lado até o chão. Até aquele momento, não havia sonhado, talvez estivesse cansado demais até para isso. Mas ali mesmo sonhou, e não foram sonhos bons: Voldemort o torturando com a cobra, chegando na mansão dos Malfoy quando ele e seus amigos foram capturados e matando ambos na sua frente, Gina sendo capturada e morta por um comensal, e outros que não conseguiu distinguir.

Acordou de sobressalto e sentou-se de repente. Ao perceber que era apenas um sonho, se deixou cair de volta ao chão e, com as mãos cobrindo o rosto, disse para si mesmo:

— Será que você entende que o que fiz foi para te manter segura? Que não podia perder você, Gina?

— O que você fez? – perguntou Gina calmamente, mas assustando o garoto.

— Gina?! Me desculpe, não a tinha visto aí – disse Harry, assustado e com vergonha.

— Pensei que seria justo te observar também, já que passou horas aqui olhando para meu quarto. Não queria te acordar, desculpe.

— Tudo bem. Você me salvou de alguns pesadelos.

— Que pesadelos?

Harry não sabia se devia falar sobre isso agora, estavam tendo uma conversa normal e não queria estragar pressionando-a para falar sobre a sua relação. Mas tomou coragem e decidiu falar, achava que podia não ter a mesma coragem depois.

— Você sabe por que eu terminei com você e depois fui embora sem maiores explicações, certo?

Gina ficou surpresa por ele tocar no assunto de repente. Deve ter transparecido isso em seu rosto, mas se recompôs e respondeu:

— Eu pensei em inúmeras possibilidades, desde você achar que eu não era boa o suficiente para acompanhar vocês, até você estar seguindo uma ordem de Dumbledore de não falar para mais ninguém o que ele planejou, além de Rony e Hermione. Mas eu realmente não cheguei a nenhuma conclusão. Esperava que você me dissesse, na verdade.

— E eu vou. Mas achei que você não quisesse minha companhia e que era cedo demais para tocar no assunto.

Esperou que a menina dissesse algo, porém essa permaneceu calada, o encarando. Então ele continuou:

— O que nós estávamos fazendo era realmente segredo, não podia contar a mais ninguém, além de Rony e Hermione. Eu não havia me dado conta, mas Dumbledore quis assim para o caso de eu não conseguir, de morrer tentando – nesse momento Gina fez uma careta, não gostando do que ele acabara de falar –. Então, haveria alguém para continuar a tarefa. Só que tudo acabou agora, posso te falar tudo, se quiser me ouvir. Mas antes peço que entenda que não te levei comigo apenas por esse motivo, por alguma ordem de Dumbledore. Não te levei por que não podia deixar que nada te acontecesse.

— Então, você acha... – interrompeu Gina.

— Não, eu não estou dizendo que você não sabe se defender. Você é uma bruxa incrível e nós dois sabemos disso. Estou dizendo que não podia te perder, eu não aguentaria – disse Harry, com um incômodo lhe subindo à garganta só de imaginar tal coisa –. Você sabe da conexão que Voldemort tinha com a minha mente. Se ele soubesse sobre meus sentimentos por você, faria de tudo para me atingir. Ele poderia te capturar, te torturar ou apenas colocar ilusões na minha mente, como fez com Sirius, e eu iria imediatamente tentar te salvar, sem nem pensar duas vezes. Eu sei que poderia ser tarde demais, você poderia estar morta, mas eu arriscaria. E se estivesse, eu provavelmente iria fraquejar e seria também o meu fim.

Fez uma pausa antes de continuar. Sua respiração e coração estavam acelerados, precisava se acalmar.

— Você não sabe o quão difícil foi não pensar em você. Eu tentei, mas admito que falhei. Eu estava vivendo um período muito difícil e pensar em você, lembrar dos nossos momentos juntos, era o que me fazia continuar. Eu precisava acabar com ele, precisava garantir que você e todos os outros ficassem em segurança. Por favor, me perdoe! Não precisa ser hoje, não precisa ser agora. Leve o tempo que quiser, eu te esperarei o quanto for preciso. Afinal, você foi bem paciente ao esperar que eu percebesse o que sinto – disse, com um meio sorriso, que Gina retribuiu. Isso seria o suficiente para deixa-lo feliz pelo resto do dia.

— Harry, eu preciso... – começou Gina, antes de ser interrompida pela Sra. Weasley, que a chamava da casa.

— Gina, venha aqui, querida – gritou a mãe.

— Onde ela está, Sra. Weasley? – perguntou Hermione, tendo acabado de chegar na cozinha.

— Por Merlin, Hermione! Quando você e o Harry vão me chamar de Molly? Bem, ela está ali conversando com o Harry. Preciso de ajuda com o almoço.

Hermione arregalou os olhos e disse apressadamente:

— Eu te ajudo, Sra... Molly! Pode deixar! – disse na tentativa de fazer com que a amiga continuasse a conversar com Harry. Imaginava que eles estavam tentando se acertar.

Mas era tarde demais, Gina já começara a caminhar até elas.

— Não se incomode, querida, ela já está vindo.

Harry estava pensando no que o aguardava da próxima vez que conversassem; ela disse a ele que terminariam a conversa depois, e se pôs a caminhar. Olhara para trás uma única vez, antes de entrar. Ele esperava que isso significasse algo bom.

Notas finais
Podem me corrigir em relação ao uso dos porquês, sempre tenho dúvida! kkk