Harry e Eu
4 As tragédias & Eu e algumas coisas
Notas iniciais
As tragédias:
Já te disseram que não só de felicidade vive os humanos? Então, agora vou te contar a parte triste de minha atual vida. Não devo ter deixado bem claro que meu tio é a pessoa pela qual eu mais gosto no mundo, afinal, quando meu pai não tinha tempo para mim (sempre), era ele quem me divertia, cuidava e ensinava a jogar futebol. E por mais que eu seja essa pessoal totalmente sem interesse amoroso em alguém, me inspiro nele sabendo que casou-se por amor. Sua história com Charlotte me faz acreditar que nesse mundo ainda existam pessoas apaixonadas o suficiente para aturar um cônjuge. Ele sempre me reforçava que o amor é uma mistura de pureza com beleza e que e acontece sozinho, sem pressa e sem forçar.
Meu tio é a pessoa que eu gostaria de ser se eu não fosse eu. Ou então, a pessoa que eu queria ser quando tomasse vergonha na cara e crescesse de verdade.
Pode não parecer tanto, mas ele é um homem extremamente importante em minha vida e em minhas escolhas. Meu espelho, minha inspiração de ver o mundo melhor e mais puro. E no inverno ele faleceu, deixando sua esposa viúva e sem herdeiros.
Não sei muito bem o que aconteceu, porém Charlotte me disse que foi um acidente no navio em que estava. Ele gostava muito do mar e morreu no lugar em que mais admirava. A maré o engoliu e junto levou o coração de Charlotte.
É triste ver um romance assim acabar. Foram dois anos de casados e um ano de noivado, tanto tempo para que um dia o grande amor de sua vida fosse tirado assim. É errado pensar que talvez fosse injusto? Ainda estava cedo para acabar. Odeio pensar que talvez fosse assim que era parar ser.
Ele sempre me dizia: “Tudo que é para acontecer, simplesmente acontece.” Não tinha como impedir isso? Tinha que realmente acontecer? Pelo menos foi no lugar que ele gostaria que fosse. O mar fazia parte de sua alma e ele acabara de voltar para sua casa.
Charlotte passou semanas em um grande luto. Não comia, não conversava, não saía, não sorria. Até que alguns dias se passaram e ela começou a perceber que tinha problemas maiores para resolver e não podia deixar o palácio sozinho.
A mãe de Charlotte estava muito idosa e sofreu algum tipo de derrame, deixando-a impossibilitada de exercer seu papel de rainha. Ou seja, estava viúva e precisava urgente virar uma rainha para a cidade de Zion. Problemas atrás de problemas. Mas, o que não sabíamos até então, era que Charlotte não é filha verdadeira da rainha, havia sido adotada. Diz uma lei que toda rainha precisa de um herdeiro para prosseguir o trono e sua mãe não havia tido filhos por não ter conseguido uma gestação. Charlotte foi criada por uma mãe viúva e sozinha e olha o que aconteceu, virou o espelho de sua mãe adotiva.
Ela precisava de herdeiros, precisava exercer o papel de rainha enquanto sua mãe estava aposentada da vida. E agora seria minha chance! De certa forma eu sou um parente de Charlotte e estou apto para virar príncipe.
Estava tudo dando certo e eu finalmente tiraria essa fama ridícula de príncipe não legítimo e se tornaria o amante mais belo de todas as garotinhas da cidade de Zion. Afinal, o terno “príncipe Harry” deixa qualquer mulher mais excitada. Eu não via a hora de ver meu nome sendo dito com a palavra príncipe como complemento. Minha cabeça já estava imaginando as inúmeras mulheres que correriam atrás de mim, os bailes que faria só por ser um príncipe, os atributos que receberia e os olhares de respeito que viriam até a mim. Estava tudo muito agradável em minha mente, até ouvir as seguintes palavras:
“O seu herdeiro precisa ser de seu sangue, rainha Charlotte. Sinto muito que não possa ser os sobrinhos do falecido.”
Havia passado pelos corredores quando ouvi a conversa de um ministro com Charlotte. Como assim não pode ser eu? Estava tudo planejado em minha mente! Isso é injusto!
“Injusto!”, disse em um tom alto que chamou a atenção dos dois para mim.
Revolta é o sentimento que sinto agora nesse momento. Passei dois anos vivendo nesse palácio e ouvindo Charlotte reclamar em meus ouvidos como se fosse minha mãe para que no final nem herdeiro possa ser. Continuarei sendo apenas o alojado que veio carregado junto do casamento com meu tio, apenas mais um enfeite desse palácio sem vida.
Esvaziei minha mente e fui até meu quarto. Deitei na cama e respirei fundo até que o estresse acumulado pudesse ser libertado para deixar meu corpo vazio. Leona entrou logo em seguida e percebeu meu profundo respirar.
— Fiquei sabendo de tudo... Meu tio não gostaria que tu se importasse tanto com um subtítulo. — Harry, tu é mais que isso.
Leona gosta muito de usar a palavra “tu” em vez de “você”, segundo ela “tu” é algo mais charmoso e familiar, “você” é muito formal.
— Não sinta raiva da dona Charlotte, não é culpa dela. Tu sabe, não é?
Poderia deixá-la falando sozinha o dia inteiro, pois por mais que não seja culpa de Charlotte, continuarei com raiva. Não importa se seja raiva dela ou dessa lei estúpida, só quero sentir raiva.
— Harry, não quero que se prejudique por isso. Sei que tu não quer viver na sombra da realeza, então me mostre isso, por favor.
Dito isso, Leona aproximou-se mais de mim e acariciou meus cabelos bem lentamente e deixou algumas lágrimas molharem o meu rosto.
— Tu me lembra muito ele...
Realmente dizem que eu lembro meu tio, nossa aparência, nosso jeito meio brincalhão, mas lamento que seja apenas isso. Leona me fez chorar também ao dizer isso, afinal eu sabia que no fundo ela estava certa e eu estava apenas sendo um invejoso.
— Não liga de ser segunda opção para eles? Nós não passamos de enfeites do Palácio. — Resolvi dizer algumas coisas. — Quero ser minha própria sombra, Leona e se você quiser continuar sendo escondida pela realeza, sendo diminuída e sendo segunda opção, não posso continuar ao seu lado.
— Eu nunca quis ser da realeza, Harry. Só quero meu diploma e minha clínica veterinária. — Sorriu enxugando as lágrimas. — E tu? O que quer fazer?
O que eu quero fazer? Bem... Preciso rever meus conceitos do que fazer agora que não tenho mais apoio de meu tio.
— Viajar. — Disse seco e direto.
— Então faça! — Sorriu alegremente.
Não tenho o que reclamar de Leona, apesar de sermos bem diferentes e ela me irritar bastante com sua ingenuidade e pensamento pequeno, eu a amo e assumo que o papel de irmã mais velha cai perfeitamente em seus braços. Não posso sair de Zion antes de vê-la com seu diploma e sua clínica, preciso dar o total apoio que ela tanto merece.
Eu e algumas coisas:
Para começo de conversa terminei com Merlin e não quero saber de porquês ou que não deveria ter feito isso, pois minha vida anda uma bagunça durante esses um ano e meio (sim, já se passaram um ano e meio entre todos esses acontecimentos) e Merlin me cobrava atenção demais e não estou com cabeça para ouvir mais a sua voz. Estava tudo muito irritante!
Charlotte e eu estamos se desentendo direto, pois depois do que ouvi comecei a ignorar sua existência e ela se acha no direito de conversar comigo como se nada estivesse acontecendo. Ela me odiou por ter terminado, já que planejava o casamento em sua mente e faria uma festa enorme como havia dito: “O casamento do século”. Deixei bem claro que isso não está em meus planos e não pretendo me casar agora, sendo que Charlotte se vê no direito de dizer que preciso crescer e deixar de ser um “moleque”. Sinceramente não me importo com o que ela diz então simplesmente todas às vezes a ignorei.
Passei dias pensativo e buscando uma maneira de não ter que andar pelos corredores desse palácio e encontrar com Charlotte reclamando mais e mais em meus ouvidos. Até que tive à ideia de construir ao arredor uma casa na árvore, onde eu poderia fugir um pouco desse lugar sem ir para tão longe. Antônio, meu amigo, me ajudou a construí-la de pouco em pouco e em algumas semanas já estava quase pronta. Agora faltam terminar alguns ajustes por dentro, como conforto e colocar algumas besteiras para comer.
Você deve está pensando que a forma pela qual eu conto os acontecimentos de minha vida está sendo bem corrida, mas é que eu filtro tudo e conto apenas os detalhes que acho bem relevantes. Mas, existem outras coisas em que fiz essa semana além do pouco que disse, como por exemplo: Joguei futebol com uns garotos daqui da cidade, fui a umas festas à noite com esses mesmos garotos, andei de bicicleta, tomei banho em um rio doce, ajudei minha mãe em sua loja, procurei emprego com meus dois amigos (aos quais já irei citar) e sim estou procurando emprego, afinal, ainda quero por em prática o plano de sair dessa cidade e ter um apartamento.
Eu tenho vários colegas, pois uma pessoa simpática como eu faz amizade até com pessoas dentro de um ônibus. Mas, amigos, são apenas dois: Antônio que me ajudou na casa da árvore e Gabriel que sai comigo nas noitadas.
Antônio é aquele amigo trabalhador, com pinta de homem másculo que você planeja casar assim que começa a namorar e é por isso que ele está solteiro até hoje. Uma pessoa simples e que tem barba, algo que eu luto para ter, é o mais alto e bem mais forte, sua cor é negra e seus cabelos são cacheados, tem um grande senso de humor, porém vive com cara de quem está em um mau dia devido ao seu cansaço diário.
Gabriel é inteligente e usa óculos, o típico nerd da turma, mas não se engane que ele é um “bebum” e se depender dele estaremos bebendo todos os dias da semana. É pálido, loiro, magro e um pouco mais alto que eu. É aquele típico amigo que topa tudo que você chama e é por isso que gosto tanto dele.
Prometi ao Gabriel que durante esse mês todo do verão, iriamos curtir como se fossemos loucos sem rumo. Somos solteiros, jovens e temos dinheiro. Quer algo melhor que isso? E foi decidido que iriamos sair dessa cidade por alguns dias. Visitar a cidade grande e passar loucas viradas na praia bebendo e curtindo cada segundo da nossa vida de jovem. E assim o verão se tornou a melhor estação de minha vida.
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