Harry Potter e o Mundo Perdido
2 Capítulo 2 - O Orfanato
Notas iniciais
“Qual a diferença entre um bruxo e um Mago?”
“Um bruxo é aquele que utiliza de métodos pré-concebidos ou já criados por outro alguém, ele necessita de um molde, seja aritmético, rúnico ou simbológico, para transportar a magia de seu núcleo para a vossa realidade.”
“E o Mago?”
“Um Mago é alguém que foge a toda e qualquer regra pré-estabelecida, ele segue apenas um conceito: O equilíbrio. Um Mago não necessita de nada além de sua imaginação e poder bruto para moldar nossa realidade a seu bel prazer e necessidade.”
“Qual deles é mais poderoso?”
“O Mago.”
“Por quê?”
“Enquanto um bruxo, particularmente forte, pode congelar ondas, criar tempestades e rasgar a alma de alguém, um Mago pode afundar um continente em meio a tsunamis devastadoras, ele pode criar tormentas de puro fogo e nos afogar em desespero e miséria.”
“Excelente, mas podemos no aprofundar muito mais nesse tema em particular, creio que estamos dando pouco crédito ao que os bruxos são capazes de realizar.”
“Por hora, pense e descanse.”
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A chegada do outono trazia uma drástica mudança de clima em toda a Inglaterra, as compras de roupas, para combater o frio, disparavam nessa época em especifico, fazendo com que toda a cidade ficasse mais movimentada durante o dia. O ar gélido garantia que todos os habitantes estariam adornados de cachecóis, jalecos e os mais diversos adereços para combater o implacável frio. E isso não se mostrava diferente naquele sombrio orfanato. Sra. Cole sempre recebia doações de caridade o suficiente para manter todos aquecidos durante os próximos meses que iriam vir, porém, um morador em questão sempre acabava sem nenhuma dessas doações para se manter quente.
Harry Potter encarava os galhos já queimados que repousavam em cima da fuligem na lareira. Sua única fonte de calor acabara de terminar, o deixando ciente que aquela seria mais uma das terríveis noites que o frio o acompanharia madruga adentro. As outras crianças, como ele havia aprendido, tinham uma peculiar satisfação em fazer com que sua vida seja o mais desconfortável possível nesses anos, e isso incluía roubar seus poucos pertences, algumas brincadeiras um tanto quanto cruéis e outros tipos de abusos que os adultos incrivelmente não conseguiam enxergar.
E esse havia sido um desses dias que ele havia sido o alvo dessas “brincadeiras” em particular: Um empurrão aqui, um trombo ali e ele estaria encoberto de hematomas e sem uma única peça de roupa contra o frio.
Ele encarou novamente a lareira, abraçando os próprios joelhos enquanto tentava manter o resto do seu calor corporal em algum nível minimamente descente. “Por que eles fazem isso comigo?” – O menino de sete anos se questionava enquanto uma onda de frio adentrava cada vez mais entre as frestas da janela de madeira.
“Porque eles não o entendem, porque eles temem você, Harry.” — Uma voz profunda retumbou em sua cabeça, conversando com ele.
Desde que ele havia começado a entender as palavras, e ter um pouco de raciocínio próprio, aquela voz havia começado a conversar com ele, e o criara durante esse longo tempo no orfanato.
“Eu não entendo, Tom. Nunca fiz nada para eles, não de propósito.”— Harry reclamou, conversando com a voz chamada ‘Tom’, em sua mente.
Ele não entendia, simplesmente não conseguia entender, ele nunca havia feito nada para justificar o que os outros integrantes do orfanato faziam com ele. Sempre tentara ser um garoto educado e gentil, mas isso parecia enfurece-los ainda mais. Algumas vezes que as brincadeiras haviam passado do limite, se é que houvesse algum, coisas estranhas haviam acontecido a aqueles que o machucaram; uma vez em particular Gary havia despejado água fervente em seu braço, com a jarra que roubara da cozinha, e minutos depois uma serpente o havia atacado no quintal, quase que mortalmente; mas aquilo não era culpa dele, era?
“Os humanos tendem a reagir violentamente, na maioria das vezes, contra aquilo que eles não entendem. É a natureza deles Harry, não é sua culpa.”— A voz explicava, talvez pela décima vez, o porquê daquilo que o acontecia.
“Como faço isso parar, Tom? Eu não quero mais isso...”— Soluços começavam a atingir a jovem criança que ainda nada entendia o mundo. Ele se agarrou ainda mais contra os próprios joelhos, se abraçando e tentando trazer o conforto materno que ele pouco sentiu em sua vida.
Harry “sentiu” Tom se enfurecendo dentro de si, sempre que algo ou alguém o machucava a ponto de o fazer chorar, a raiva dominava seu único amigo, era assustador no início, e somente depois de alguns anos que ele havia se acostumado com tal forte sensação de ódio.
Perdido em sua conversa mental e em seus próprios sentimentos, Harry não notou que já não sentia mais frio, e que seu corpo estava aquecido novamente, quase como se fosse... Mágica.
“Eu queria ser forte, forte o suficiente para me defender deles, para nunca mais passar frio ou fome, para não me machucar.”— O menino disse em sua mente, seus olhos ‘avada kedavra’ brilhando intensamente em meio a escuridão do quarto, algo forte dentro de si reagia a seus poderosos sentimentos, o protegendo e acolhendo, como se fosse uma segunda natureza que ele não entendia ou controlava.
A voz em sua mente havia ficado em silêncio, ela sempre ficava quando estava perdido em pensamentos, ou escolhendo com cuidado o que iria dizer em seguida.
...
Minutos haviam se passado, e Tom não tinha falado mais nada. Com um suspiro Harry se levantou do chão empoeirado e se pôs a andar em direção a sua cama, ou algo próximo a isso, já que ele não sabia se ‘cama’ era o melhor dos termos para descrever o fino e encardido colchão jogado no canto do quarto.
“Eu não esperava ter que contar isso a você enquanto está em uma idade tão jovem, Harry.” — A voz profunda e suave ressurgiu.
“Me contar o que, Tom?”— O menino de olhos brilhantes se sentava em cima do colchão e apoiava as costas conta a parede, ainda não notando a estranha falta do frio que o deveria atingir.
“Existe... um motivo para as coisas que acontecem perto de você acontecerem.”— Tom iniciou a explicação, naquele tom de voz que ele sempre usava com ele quando estava prestes a falar algo sério ou importante, aquele tom de voz que indicava que não deseja ser interrompido e queria atenção total ao que dizia.
“Você é diferente Harry, tão diferente quanto pode-se ser possível, até mesmo no local aonde as coisas que você faz são consideradas comuns você é diferente.”— Harry enrugou a testa pela repetição da mesma palavra tantas vezes na mesma frase, o que isso significava? Sabiamente ele deixou Tom continuar, ele havia aprendido que o interromper no meio de suas explicações só o levaria a tomar uma bronca severa.
“Você havia me perguntado antes o que tinha acontecido naquela noite, se lembra?” — Ele perguntou ao menino que apenas deu um acenar de cabeça como resposta. Era a primeira coisa que ele se lembrava desde que nasceu, lembrava vividamente, e nunca encontrara uma explicação se quer para o que ocorreu naquela noite, e não adiantava o quanto ele perguntasse a Tom, ele nunca respondia, dando a desculpa que Harry deveria saber somente quando fosse mais velho e maduro.
“Aquilo foi Magia, Harry, uma temível maldição, mas ainda Magia. Ela existe meu pequeno garoto, e é tão real quanto tudo o que você viu até agora, mais real que muitas coisas.”— Tom continuou, em uma voz tão seria que ele nunca havia usado antes.
A respiração de Harry encurtou e seus batimentos dispararam com a velocidade de uma locomotiva. Sentia seus pelos se arrepiando enquanto seu corpo congelava. Magia... ela era real, todos aqueles contos e livros que ele havia lido no orfanato, que incitavam a palavra ‘magia’, era real... Algo em sua mente clicou nesse momento, e algo tão mais profundo quanto seus pensamentos acordou de um longo sono.
“Avada Kedavra.” – Harry disse as primeiras palavras que se lembrava e havia aprendido. O ar parecia ficar mais frio naquele momento dentro do quarto, e, se alguém prestasse muito atenção, veria uma notável quantidade de insetos falecendo dentro das paredes de madeira, caindo uns em cima dos outros, todos mortos sem exceção.
“Não diga essas palavras tão levianamente, Harry!”— Tom esbravejou com ele em sua mente. – “As palavras tem poder, essas especificamente um poder obscuro e temível.” — Ele continuou a repreender, mais suavemente dessa vez.
O garoto se encolheu mentalmente depois de ter levado uma bronca, quando Tom ficava nervoso era porquê ele havia feito algo errado, ou incrivelmente tolo.
“Me desculpe...” – Ele desculpou-se mentalmente. Um leve suspiro se seguiu depois de alguns instantes de silêncio.
“Isso é magia, Harry. Ela corre dentro de todo seu corpo, dentro de suas veias e de seu coração meu garoto.” — A voz voltava ao tom de aprendizado enquanto tornava a explicar.
“Você é um bruxo, e um especificamente poderoso para sua idade, tão poderoso quanto eu fui quando criança.”
Os olhos do menino se arregalaram enquanto ouvia aquilo. Um bruxo, ele era um bruxo! Magia realmente existia... Seu coração estava acelerando mais do que saudavelmente deveria bater.
A felicidade começava a consumir seu corpo. Finalmente, finalmente uma explicação de porque ele era diferente dos outros, ele sabia que era, mas nunca encontrava a explicação ou o motivo pelo qual fazia tantas coisas diferentes, e “irreais”, até então.
Espere...
“Tom, você disse que também é um Bruxo?”— Harry indagou, prestando mais atenção no que ele acabara de ouvir.
“Exatamente meu garoto, eu fui um quando vivo, um particularmente poderoso e com uma notável capacidade, habilidade e conhecimento mágico, Harry.”
O garoto em questão agora prestava mais atenção do que nunca, aquele que o havia criado, e ainda criava, era um bruxo também, ou havia sido.
“Você foi forte, Tom?”— Ele perguntou com genuína curiosidade, afinal, ele também queria ser forte.
Uma risada seca e divertida retumbou dentro de si, fazendo as jovens sobrancelhas se arquearam com curiosidade. – “Sim, Harry. Incrivelmente forte, não havia, e não há ainda, mais do que um punhado de bruxos capazes de rivalizar comigo, em qualquer área referente a magia.” — O orgulho e confiança nunca estivera tão presente naquela voz.
“Então, eu também posso ser forte...?” – A esperança surgia radiantemente no coração do jovem Harry. Talvez, esse seria o meio para se proteger, para que finalmente sua vida começasse a melhorar um pouco, e aquele ‘inferno’ que o seguia constantemente tivesse um fim.
“Você não pode...”— A voz começou quase quebrando a pequena centelha de esperança que surgiu no jovem menino. – “Você será mais forte, Harry. Há algo dentro de você, lá no fundo, que me diz isso. Tu serás maior do que qualquer um meu garoto, não vai existir qualquer forma de vida no futuro que seja capaz de alcança-lo.”— Tom continuou com tanta confiança quanto antes.
O menino sorria sozinho, alegrado pelas palavras do seu criador, permitindo alimentar ainda mais aquele doce sentimento que estava crescendo dentro de si. E novamente, respondendo as emoções do jovem Potter, sua magia saia de seu corpo, sem ele perceber, e agora aquecia não somente ele, mas sim a todo o quarto.
“Como eu posso fazer isso, Tom? Como poderei aprender e me tornar igual a você?”— Indagava curiosamente Harry. Sem perceber que, a maturidade que ele tinha e que não condizia com sua jovem idade, era um dos motivos pelos quais as outras crianças não se aproximavam dele, e até mesmo a cuidadora e zeladora achava-o estranho.
“Eu irei ensina-lo meu garoto. Tudo o que sei e aprendi, vou lhe mostrar tudo e te guiar, para que, um dia, você seja capaz de se proteger contra tudo e todos desse mundo, para proteger a seus aliados e derrubar seus inimigos.”— Novamente a tonalidade séria estava presente na voz.
Ainda como se fosse possível, sentimentos mistos de alegria e excitação irradiavam do pequeno Harry. Ansioso para o futuro que o aguardava, e para o mundo novo que acabava de ser revelado em sua frente.
Tomando uma respiração para se acalmar, Harry deixou uma dúvida antiga retornar a sua mente.
“Por que, Tom?”— Ele indagou depois de retomar o controle de seus sentimentos. – “Por que está fazendo tudo isso por mim, e fez até agora?”— Era uma pergunta justa, aquela voz o havia ajudado e ensinado sem nunca questionar ou reclamar, mas nunca tinha descoberto o motivo em si, ou o porquê.
Novamente se seguiu aquele silêncio, ele sabia que seu criador estava buscando a melhor forma de responder à pergunta, ou escolhendo as melhores palavras.
Pouco menos de um minuto se alastrou no silêncio, antes que fosse quebrado novamente.
“Você é importante para mim, Harry. Estamos mais ligados e conectados do que imagina meu garoto. Eu quero que você seja forte, que viva de verdade, experimente as coisas que o mundo tem a oferecer, e nunca, nunca morra.” — A sinceridade e veemência estavam sobrecarregadas naquela frase, ele conseguia sentir o quão verdadeiro era aquilo que Tom o havia respondido.
“Se você não for capaz de se defender contra os perigos que, inevitavelmente, cairão sobre tu, então somente a morte nos aguardara no futuro, e eu não quero morrer Harry, não quero que você parta, a muitas coisas e pessoas que te aguardam, anseiam sua presença e vão necessitar de ti algum dia.”— Continuou a longa resposta que agora agraciava e acalmava sua dúvida.
Harry precisou de alguns segundos para absorver tudo aquilo, ele sentia que havia mais coisas do que ele conseguia entender escondidas naquela resposta, mas, por hora, ele ignoraria isso, havia coisas mais importantes para se fazer agora.
Ele acenou repetidamente com a cabeça, não encontrando o jeito certo de se expressar para responder a voz na sua mente, a falta de experiência o impedia de saber como transmitir a sensação quente que crescia em seu estomago.
“Por onde começamos?”— Harry quebrou o silêncio.
“Em frente a lareira, há um pedaço de madeira solta, encontre-a e a puxe para cima.”— Tom respondeu enigmaticamente.
Franzindo as sobrancelhas para a ordem em questão, o jovem menino se levantou e começou a bater com os punhos, agachado, em cada pedaço de madeira que formava o piso frio de seu quarto.
Após algumas batidas, um pedaço em especifico o respondeu com um barulho oco, como se estivesse solta ou houvesse algo em baixo dela. Ele colocou os pequenos dedos, contra a estreita separação entre as madeiras, e fez força para cima, puxando com todo seu corpo a tábua.
‘Crack’, o som da madeira se soltando atingiu seus ouvidos, ele havia conseguido soltar o pedaço empoeirado, e, agora permitindo-se olhar para o local que havia acabado de abrir, um compartimento escondido estava localizado em sua frente, no exato local que a tábua encobria.
Franzindo os olhos para tentar ter uma melhor visão do que havia naquele buraco, Harry estendeu sua mão para o local ainda mais escuro que o quarto, sentido algo áspero encontrar a ponta de seus dedos. Puxando o objeto para fora do local, algo parecido com um pequeno livro surgiu, levantando uma pequena onda de pó junto com ele.
Ele tossiu um pouco enquanto abanava a mão livre no ar, afastando a poeira.
“O que é isso, Tom?”— Ele questionou enquanto tentava examinar o caderno de capa preta que estava em sua mão.
Esperando a resposta que ainda não tinha vindo, ele virou o outro lado da capa em sua mão, e um titulo dourado, escrito em uma elegante caligrafia no couro da capa, se tornou presente na sua visão.
“Diário de Tom Riddle.” – Ele leu o titulo em voz alta, sendo surpreendido pelo que havia acabado de encontrar.
“Esse é meu diário Harry... O objeto aonde despejei minhas memórias, pensamentos e aprendizados durante meus primeiros anos, quando descobri a magia.”— Tom finalmente o respondeu, enquanto mais dúvidas e dúvidas sobrecarregavam seus pensamentos.
“Você... você também viveu aqui, Tom?” – Esse era o primeiro questionamento que surgiu em seus lábios.
“Infelizmente meu garoto, o mesmo orfanato, o mesmo quarto, a mesma idade. Eu disse Harry, estamos mais conectados do que imagina, temos muitas coisas em comum.”— Sua voz parecia quase que distante, perdida em pensamentos do passado.
“Nós somos muitos parecidos, não é, Tom?” – Era uma pergunta retórica.
O jovem menino continuou a observar o diário em suas mãos, o couro preto desgastado indicava o quão velho aquilo era, e somente agora ele havia percebido o quão pouco ele conhecia Tom, o quão pouco ele sabia sobre a vida dele, ou quem ele era, na verdade, antes ele nem considerava a ideia de seu criador ter sido alguém real. Mas, por enquanto ele não insistiria no assunto, confiava que, na hora certa, Tom eventualmente contaria mais sobre ele.
“Eu estou preparado, por favor, me ensine.” – Harry Potter dissera aquelas palavras com tanta emoção quanto conseguia, assim se permitindo começar a moldar o homem que ele seria no futuro.
“Então se prepare, Harry. Porque eu lhe garanto, será difícil e árduo seus próximos anos, você vai perder grande parte de sua infância e abrir mão de muitas coisas, mas, eu prometo que a recompensa irá ser mais do que satisfatória.”— A voz era serena, mas tão seria quanto se poderia ser.
“Me de seu melhor.”— O garoto de olhos ‘avada kedavra’ sentenciou seu futuro, enquanto encarava firmemente a lareira já morta a sua frente. Ninguém do orfanato questionou na manhã seguinte o porquê da lareira do quarto 27 ter ficado acessa durante toda a noite.
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Os anos se passaram rapidamente para todos aqueles que vivam sobre o teto do Orfanato Wool. Para aqueles que observassem de fora dos muros, eles simplesmente veriam crianças seguindo sua própria vida, os observando com pena nos olhos, mas não movendo um dedo sequer para ajuda-los. Porem, para aqueles que estavam dentro dos muros, uma mudança notável se podia ser percebida: As crianças haviam se tornado menos agitadas e mais gentis, o frio não adentrava as paredes de forma brusca nos últimos três anos e até mesmo o humilde jardim que decorava a entrada do orfanato não perdia sua cor nas estações com o clima mais severo.
Dentro de um singelo e silencioso quarto uma criança observava os arredores pela janela. Aquela criança havia sido a causa da incrível mudança dentro do orfanato. Ele havia crescido, adquirido uma aparência quase que... angelical, seu cabelo preto caia sobre os ombros, de uma forma tão elegante que aparentava ter sido tratado com os mais caros produtos. Suas vestes não careciam de beleza ou conforto, e tão pouco se adequavam a paisagem que o cercava, simplesmente parecia ser cara demais.
Os olhos verde jade repousaram no trio de garotos que brincavam no parquinho, recém-construído, ao lado do jardim, alguns andares abaixo de onde seu quarto se localizava. Agora eles já não o incomodavam mais, Harry não era agredido “sem querer” nos corredores do orfanato, na verdade, eles agora buscavam a atenção e a aprovação dele as vezes.
“As coisas mudaram, Tom.”— O garoto disse a seu mentor nos seus pensamentos. Um leve suspiro saiu de seus lábios, enquanto sua atenção saia das crianças e se voltava para o piano negro encostado ao lado da lareira.
Aos oito anos, Harry, havia descoberto uma paixão incandescente pelo instrumento cravo, em uma excursão que Sra. Cole havia feito junto a instituição que, benevolentemente, custeou todo o passeio. Na mesma época ele descobriu que junto a sua paixão ele também tinha uma notável coordenação motora nos dedos, e, uma habilidade quase invejável para manejar as teclas de um piano.
Antes que ele se perdesse muito em memórias passadas, que ele se lembrava perfeitamente nos mínimos detalhes, Harry deu um pequeno aceno com a mão direita, permitindo com que a, agora, familiar sensação mágica em seu núcleo percorresse toda a extensão de seu braço. O velho banco de madeira que ele usava para tocar piano moveu-se sozinho, obedecendo a magia que o garoto acabara de fazer — magia sem varinha -, em direção ao instrumento negro.
“Você mudou, Harry. Estou extremamente orgulhoso de você.”— Aquela voz que o acompanhou, mais do que o bater de seu coração, ecoou em sua mente.
Realmente, ele havia mudado muito. Três anos atrás ele descobriu que era um bruxo e que magia era tão real quanto o quarto que vivia.
Tom não havia mentido quando disse que não seria fácil seus ensinamentos, realmente não havia sido, qualquer pessoa que soubesse o que aquela criança de sete anos havia sido submetida teria nada mais que horror em sua mente. Harry embarcou em uma jornada de estudo, escrita e leitura quase incessante. Seu mentor havia tirado o melhor que sua memória eidética poderia fornecer, ele garantiu que os conceitos mais básicos sobre o mundo mágico e sua história estivem encravados nos confins de sua mente, de tal forma que sua base estaria livre de falhas e inabalável.
Conceitos como: História da magia, criaturas mágicas, linhagens de sangue, famílias importantes e tudo o que englobava o necessário para entender o mundo dos bruxos havia sido coberto nos mínimos detalhes por Tom. Nada mais além do que a pura perfeição seria aceitado, e quando digo ‘perfeição’ entenda que me refiro ao sentido completo da palavra.
Somente nos últimos meses Harry havia começado a estudar a sua magia, ele demorou semanas para conseguir despertar seu núcleo mágico, e mais semanas ainda para se recuperar da explosão de magia que percorreu seu corpo, parecia que uma manada de elefantes o havia pisoteado depois de liberar seu potencial.
A mudança mais notável que ele e Tom haviam percebido foi a facilidade, quase que antinatural, que Harry tinha para realizar magia sem varinha, era quase como andar para ele fazer tal façanha, simplesmente vinha para ele facilmente, uma segunda natureza praticamente.
Mover objetos, flutuar as coisas, fazer animais não mágicos o obedecer, ler os sentimentos e um pouco do pensamento das pessoas, aquecer e esfriar qualquer ser ou objeto, tudo isso, foram algumas das coisas que ele havia descoberto conseguir fazer, sem quase nenhum esforço.
“Até mesmo no local aonde as coisas que você faz são consideradas comuns você é diferente.”— A memória do que Tom o dissera naquela noite voltou a sua mente. Segundo ele, magia sem varinha era algo que somente bruxos de força e controle extraordinários conseguiria fazer, e ele próprio demorara décadas para conseguir realizar os feitos mais simples sem o auxílio de uma varinha e mais décadas ainda para usá-lo em batalhas.
A outro mudança notável foi sua aparência, mesmo para uma criança de dez anos Harry era considerado extremamente bonito, os elogios que havia recebido nos últimos meses eram a prova disso. Adultos pareciam se amolecer quando olhavam em seu rosto, principalmente nos olhos. Até mesmo as outras crianças ficavam tímidas ao tentar conversar com ele.
Harry descansou suavemente seus dedos sobre as teclas do piano, buscando em sua mente alguma sinfonia que o agradasse agora, ele estava em seus raros momentos de descanso, longe dos estudos e do treinamento, longe das crianças e de todo seu arredor.
Quando estava prestes a começar a tocar uma sinfonia em particular o barulho de um bater na porta tirou sua concentração.
“Entre.” – O jovem garoto falou com a voz quase que irritada. Voltando a atenção para a porta, ele observou a maçaneta enferrujada virar e Sra. Cole entrar cuidadosamente no seu quarto, como que se estivesse com medo de ter incomodado o garoto.
“Senhora Cole, bom dia.” – A voz hipnotizante do angelical garoto a sua frente a atingiu. Ela nunca entenderia como aquela criança órfã havia se tornado esse menino a sua frente.
“Bom dia, Harry.” – Ela o comprimento enquanto notava que ele estava prestes a tocar o velho piano, um calafrio subiu pela sua perna, Harry nunca gostava de ser interrompido quando estava tocando.
“Estou te atrapalhando? Eu... posso voltar mais tarde.” – Cuidadosamente ela se dirigiu ao garoto, que a encarava serenamente com um sorriso de canto.
“Não, está tudo bem senhora, no que posso ajuda-la?” – Harry respondeu naquela forma gentil que sempre encantava a todos, mas que fazia com que a mulher a sua frente sempre o encarasse com um misto de fascínio e um pouco de medo.
O leve suspiro de alivio que escapou da boca da dona do orfanato indicou que ela estava tensa a alguns instantes atrás.
“Há uma família que deseja conversar com você Harry.” – Sra. Cole começou gentilmente, esquecendo-se do medo que a afligia segundos atrás, afinal, Harry era uma criança doce e adorável, não teria sentido ela ter tais sensações. – “Tenho certeza que eles adorariam adota-lo se o conhecesse.” – Terminou o raciocínio.
A severa expressão que a mulher usava para qualquer criança e adulto simplesmente desaparecia quando o assunto era o jovem menino de olhos cor de jade.
Harry a encarou durante alguns segundos, como se estivesse conversando consigo mesmo em sua mente, ou concentrado em algo.
“Diga a eles que não me sinto bem hoje, não quero conversar com ninguém.” – O garoto respondeu contra todas as suas expectativas. O sorriso deixando rapidamente seus lábios para uma carranca tomar o lugar dele.
A severa mulher franziu a testa com preocupação, era o terceiro casal somente nesse mês que vinha adotar Harry, mas sempre, sem exceção, ele diria a mesma frase e perdia a chance que muitos outros somente sonhavam em ter algum dia nesse orfanato.
“Você tem certeza Harry? Eles parecem ser gentis e muito amorosos...” – Continuou incerta, tentando convencer o menino.
O garoto de cicatriz na testa a encarou, com os olhos brilhando, silenciosamente durante alguns segundos.
“Você me quer fora daqui senhora?” – A voz angelical perguntou quase tristemente, enquanto as feições do rosto dele transmitiam uma sensação de quase choro.
Seu velho coração se apertou enquanto observava o menino.
“Não! É claro que não Harry, é apenas...” – Ela se desculpou imediatamente para o garoto, tentando desfazer o mal-entendido o mais rápido possível.
“Não é nada. Vou dizer a eles que você se encontra doente agora, e que quando melhorar eu irei contata-los novamente.” – A mulher mudou seu raciocínio, observando com alivio quando a tristeza abandonou o rosto do garoto e aquela contagiante felicidade surgiu no sorriso que ameaçava rasgar seu rosto agora.
“Obrigado Sra. Cole, você é a melhor!” – Harry exclamou enquanto olhava diretamente nos olhos dela.
“É claro Harry, tudo por você meu menino.” – Ela disse enquanto saia do quarto, sua mente havia mudado de ideia em poucos segundos, era quase como se o garoto controlasse seus pensamentos. Mas claro, isso era impossível, e se Harry quisesse ficar aqui não havia motivos para impedi-lo, a mulher se convencia mentalmente.
Harry observou a porta do quarto se fechar enquanto a mascara de felicidade se desfazia no mesmo instante.
“Você está cada vez melhor com isso Harry, quase me convenci com seu pequeno teatro.” — Tom o elogiou diferentemente em sua cabeça.
“Trouxas tem a mente tão aberta quanto um livro Tom, você que me ensinou isso.”
“De fato ensinei, mas lembre-se, todo cuidado é pouco a usar essa sua legilimencia nos bruxos, Harry.”— Seu mentor o advertia.
O jovem menino apenas deu um acenar de cabeça, a vontade de tocar piano havia passado nesse minuto de conversa.
“Apenas mais um ano, e logo estaremos fora daqui.”— Ele disse para si mesmo mentalmente e teve a leve impressão que Tom havia concordado com ele. — “Hogwarts...” – O nome da escola surgiu em seus pensamentos. Harry estava mais do que curioso para ir à escola de magia e bruxaria, o local aonde Tom havia estudado, aonde ele poderia praticar magia livremente e principalmente: o local aonde ele poderia estudar e adquirir o maior nível de conhecimento que se poderia ter em toda a Inglaterra.
Deixando um pequeno sorriso, dessa vez verdadeiro, enfeitar seu lábios, o garoto se jogou contra o novo colchão, definitivamente muito mais confortável do que o antigo, e se permitiu sonhar em como sua vida seria daqui a pouco tempo e que mistérios o aguardavam no mundo bruxo.
“Agora que se encontra sem fazer nada meu pequeno aprendiz, creio que temos um grande conteúdo sobre magia para cobrir nesses tempos, e nem um segundo deve ser desperdiçado.” — Seu mentor ‘carrasco’ disse de uma forma que Harry tinha certeza que significava algo mais como: “Já que não está fazendo nada, vamos estudar até sua mente derreter e sua mão cair de tanto escrever.”.
O sorriso desapareceu tão velozmente quanto havia surgido, Tom tinha razão, ele não podia perder tempo relaxando desse jeito, não agora pelo menos. Qualquer um que visse tais pensamentos na mente de uma criança de dez anos com toda certeza iria leva-lo o mais rápido possível a um psicólogo.
Se sentando no colchão, Harry abriu a gaveta do criado mudo a seu lado, observando o diário de seu mentor dentro do compartimento. Ele o pegou levemente, junto a pena que se escondia mais a fundo da gaveta, pena a qual ele havia conseguido pegar no quintal a alguns anos atrás. Cruzou as pernas e se preparou para a aula que vinha a seguir, enquanto abria o diário que parecia ter paginas infinitas, afinal, nunca acabara mesmo após ele ter escrito em centenas de folhas desde que começara sua tutela mágica.
“A magia tem diversos modos de nos entender, de uma forma tão intima que, os bruxos mais versados em oclumência, não seriam capazes atingir tal nível.” — Seu mentor começava o que seria uma longa explicação, mas que nunca se tornava entediante, Harry tinha a certeza que Tom daria um excelente professor.
“Algo que escapa da percepção de muitos, é que a magia é senciente, se não, de que modo ela entenderia nossos desejos e intenções a usa-la? A magia nos entende Harry, ela compreende o que queremos que ela faça, descobre nossos sentimentos e objetivos, por isso, quando estamos sobre qualquer forte emoção ela reage com muito mais força do que normalmente. Você percebe isso mais do que qualquer um, como a magia se torna extremamente mais poderosa, e perigosa, quando estamos com um medo profundo, um ódio demoníaco ou qualquer outra emoção profunda.”
“Ao compreender que a magia também nos entende, os bruxos evoluem para outro nível, se tornando capazes de aumentar drasticamente seus feitos, apenas fazendo com que suas emoções e desejos se tornem seus principais aliados e não sejam seus inimigos.”
“Essa, Harry, é a base principal, que infelizmente pouquíssimos bruxos entendem, para se iniciar os estudos sobre a própria magia. Durante as próximas semanas focaremos nisso, o quanto sua força de vontade, imaginação, perseverança, emoções e toda seu ser interior são capazes de mudar a forma que sua magia reage ao mesmo feitiço ou encantamento, o quanto seus aspectos podem ser mutáveis com o adicionar de uma simples memória.”
E durante os próximos meses, o jovem bruxo se veria entrando em conceitos quase nunca antes discutidos, por qualquer um, no mundo mágico e fazendo com que cada vez mais ele se afaste do termo ‘comum’ de todos os outros.
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Acima das nuvens, o Mago de olhos verdes pausava o enorme conto que transmitia para o ser que se escondia em meio ao banco de mármore.
“Esses foram os primeiros anos que me recordo.” – A angelical voz retumbava por toda a construção. – “Um mar de novos conceitos, sensações e descobertas me agrediram quando jovem. Tom... me moldou e foi o primeiro “humano” que fez parte de toda minha transformação e maturidade, na época eu não tinha a menor ideia de quem ele realmente era e do que me esperava.”
O Mago se perdia novamente em pensamentos, como ele sempre fazia nos últimos milênios.
“Pode parecer loucura o modo que eu fui criado, e realmente foi algo louco, mas somos seres que fogem do conceito de normalidade, e eu em particular sempre fui diferente, sempre...” – A voz se tornava quase melancólica agora.
Se sentando novamente no banco de madeira, que parecia tão antigo quanto o piano e não condizia com toda a elegância e luxuosidade do local, o homem de excelente oratória observou a jarra já vazia.
“Presumo que mais Vodka seja necessária para as próximas horas, acredite, vamos precisar, afinal, as coisas vão começar de verdade a ficarem realmente loucas a partir de agora.” – O sorriso dele transmitia o quanto ele falava sério, principalmente na parte de “Coisas Loucas”.
“Bom... aonde paramos?”
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