Notas iniciais
Música tema: Lost in Your Eyes - Debbie Gibson

2 de maio de 1998

Desde que Lily morrera, a vida de Snape perdera toda a graça. Era ela quem tornava seus dias melhores, desde a infância, quando ele a espiava brincando com a irmã. Sonhava em se aproximar dela, mas ao mesmo tempo temia que ela o achasse esquisito. Era esse o pensamento da menina mais velha, Petúnia, que tinha verdadeira aversão ao vizinho, mas para a sua alegria, Lily se tornou sua melhor amiga. Embora pessoas como seus avós achassem que uma nascida-trouxa não fosse digna de atenção nem mesmo de um mestiço como ele, Severo Snape não se importava tanto com isso. Alguém que fazia tanto bem para ele não merecia ser comparada aos sangues-ruins.

As coisas mudaram quando eles foram para Hogwarts. Snape sonhava com a Sonserina desde muito novo e tentava incutir em Lily a mesma ideia de que a casa verde-e-prata era superior às demais. Todavia, para o seu desgosto, sua melhor amiga acabou indo para a casa que mais odiava: a Grifinória.

Foi com um misto de tristeza, raiva e decepção que Snape viu seu grande amor sentando na mesa dos grifinórios, sendo cumprimentada por James Potter e Sirius Black, garotos que se estranharam com ele no trem e que se preocuparam em fazer de sua vida um verdadeiro inferno.

Lily continuava falando com ele, tentando manter a mesma amizade de antes, mas Snape sentia que não era mais a mesma coisa.

— Você ficou chateado quando o chapéu me mandou para a Grifinória? – perguntou ela, na manhã seguinte à seleção.

— Não – mentiu ele – Eu já suspeitava...

— Não é uma casa ruim, na minha opinião. Tem gente muito bacana lá, fiz amizade com todas as colegas de quarto, foram todos muito legais comigo.

— Até mesmo aqueles garotos do trem?

Lily bufou e encarou Snape:

— Olha, Sev... Não é porque eu fiquei numa casa diferente da sua que vamos deixar de ser amigos, nossa amizade é muito maior que essas casas estúpidas...

— Você não respondeu minha pergunta.

— Não estou nem aí para o Potter e o Black, se você quer saber. E eu não sou amiga deles, e sim sua amiga, OK?

— Certo, certo, não tá mais aqui quem falou...

Mas não foi só Lily que fez novas amizades em Hogwarts. Snape se aproximou de gente bem influente, embora de má procedência. Como Mulciber, Avery, Wilkes, Crouch Jr e tantos outros que sonhavam em se tornar Comensais da Morte. Snape sempre achou que se estivesse envolvido em algo grandioso, Lily cairia aos seus pés. Talvez por isso tenha se juntado a eles, mas só admitira a má escolha que fez tarde demais. Se ele não estivesse tão obcecado com o poder, teria percebido, por exemplo, que Lily não era muito benquista pelos seus grandes amigos.

— Eu não entendo porque você ainda fala com a sangue-ruim da Evans, Severo – disse Mulciber certa vez – OK, ela é bonita, tal, mas é uma sangue-ruim, caramba! Tanta garota de boa família pra você se interessar... Como Narcissa Black, por exemplo.

— Mas a Black não vai se casar com o Malfoy?

— Ou Candace Selwyn, Maggie Rosier, sei lá... Qualquer uma!

— Eu só falo com ela por pena – mentiu Snape – Ela é que fala comigo na verdade, éramos vizinhos, sabe...

— Então deixe de falar. Faça como eu, toda vez que um sangue-ruim nojento se aproxima de mim, eu o faço vomitar lesmas! – Mulciber deu uma risada sombria, mas Snape permaneceu sério – Entendeu? Lesmas! Lesmas, nojentos... Ah, esquece.

Ele tentava lidar bem com essa situação, mas não suportava ver Lily cada vez mais próxima de seu grande inimigo James Potter. A pessoa que mais odiava aparentemente cismara de conquistar a garota que mais amava. Embora Lily resistisse bravamente e até dissesse que odiava o Potter, no fundo Snape sentia que a qualquer hora, Lily seria mais uma a cair na rede do Potter, afinal além de rico e bonito, James também era sangue-puro, o que fazia com que ele fosse o garoto mais desejado do colégio, até mesmo por meninas da Sonserina. Ele achou que se mostrasse que podia ser melhor que James em tudo, poderia remediar a situação e quem sabe evitar que isso acontecesse. Tentou cuidar melhor da aparência, aprender a voar numa vassoura, até pensou em se candidatar ao time de Quadribol, mas foi um desastre em tudo:

— Sev, o que está fazendo? – indagou a menina, ao ver o sonserino montado em uma vassoura que pegara do armário.

— Estou voando, o que acha?

Snape pretendia fazer loops com a vassoura, tal qual James costumava fazer nos jogos, mas não conseguiu manter o equilíbrio e caiu de cara no chão.

— SEV!!! – berrou Lily, correndo até Snape caído – Vamos, Sev, fala comigo, não faz uma coisa dessas... – Lily sacudia Snape ainda deitado e o virou de costas para o chão do jardim. Ele abriu os olhos e deu um sorriso singelo.

— Você tá bem?

— Melhor agora, com você aqui... – respondeu ele, admirando seus lindos olhos verde-esmeralda, cuja dona deu um suspiro aliviado, mas logo depois deu tapinhas em seu amigo imprudente.

— Nunca mais me dá um susto desses! – rosnou ela, fazendo Snape rir – Eu não tô brincando! Você quase me matou do coração!

— Desculpa...

Alguns anos mais tarde, Snape começou a achar que se tivesse abandonado as Artes das Trevas e seus amigos Comensais, teria Lily ao seu lado. Ela estaria viva, os dois teriam filhos e teriam sido muito felizes. À noite, gostava de pensar em como seria sua vida se eles tivessem ficado juntos. Miniaturas de Lily correndo pela sala, ele dormindo e acordando todos os dias com aqueles lindos olhos verdes ao seu lado, o contemplando... Quem sabe, se não a tivesse chamado de sangue-ruim naquele maldito dia. Ou se tivesse pedido ao chapéu para colocá-lo na Grifinória. Ou mesmo se esforçado pessoalmente para garantir a segurança dela, quem sabe sendo mais incisivo ao separá-la do Potter. E se ele tivesse se declarado? Snape nunca dissera a Lily a dimensão do seu amor, e esse era um de seus maiores arrependimentos. Até porque o maior deles foi, sem dúvidas, o dia em que sem querer deu a Voldemort a grande informação que mudaria sua vida para sempre.

— Um menino, é? Que nascerá ao final do sétimo mês e me derrotará?

— Exatamente.

— Sabe se essa Sibila Trelawney é mesmo vidente?

— Pelo que eu vi, das melhores, Milorde.

— Hum... Deixe-me ver... O sétimo mês é julho, correto? Estamos em janeiro? A criança já deve estar com dois meses e vem de uma família que me desafiou três vezes... – Voldemort coçava a cabeça – Ah, tantos insistem em me desafiar... Mas não me lembro de nenhuma mulher grávida...

— Os Longbottom vão ter um filho lá para julho, Milorde, talvez sejam eles...

— Está certo disto, Mulciber?

— Saiu até no Profeta!

— Muito bem, fiquem atentos a qualquer um do outro lado que esteja prestes a ter uma criança. Principalmente se for alguém da Ordem. Onde está o nosso espião? Rabicho? Rabicho?

Pedro Pettigrew desaparatou bem no meio da sala da mansão dos Lestranges, que vinha sendo usada como base de operações dos Comensais.

— Milorde... O que deseja?

— Onde esteve, seu rato nojento, que não me atendeu assim que chamei?

— Ah, estava com o pessoal da Ordem, comemorando que James e Lily vão ter um bebê...

— Um bebê?

Pedro não se deu conta da besteira que fizera, mas Snape sim. Então Lily estava grávida do Potter. Odiava o pai e a criança que ainda nem nascera, mas não queria que Voldemort fizesse mal à mãe. Estava tão nervoso com a notícia que até quebrou a taça de gim que segurava nas mãos.

— O que tem, Snape?

— Está assim porque era apaixonado por ela, Milorde... Pela sangue-ruim da Evans... – provocou Bellatrix, deixando Snape irado.

— Chega, Bella. Snape, sabe que eu não fico nada feliz em derramar sangue mágico, mas são eles que me induzem a isto. Eles insistem em se opor a mim, em me impedir de alcançar meus objetivos, então que opção eu tenho? – todos os Comensais aplaudiam, à exceção de Snape, que permanecia imóvel.

— Mas Milorde... – balbuciou ele, quando teve a oportunidade de falar com Voldemort à sós – Você só quer o menino, certo? Então por que não poupar Lily?

— Hum... – Voldemort hesitou – Essa sangue-ruim é tão importante assim para você?

— Não, imagina... – Snape sentiu sua voz falhar – Eu só acho que...

— Se ela me entregar o menino de boa vontade...

— Faria isso, Milorde? – Snape mal conseguia disfarçar a euforia – Atenderia a um pedido meu?

— Por que não? – respondeu Voldemort, com tranquilidade – Eu posso ignorar algumas manchas nas famílias de alguns servos se eles se mostrarem fiéis. Podem ser aquisições importantes! Veja você, por exemplo. Tem um pai trouxa, correto? – Snape se calou – E veja, está aqui conosco, me trazendo informações bastante úteis! Posso pensar no seu caso, mas tudo vai depender dela aceitar ou não.

Mas Snape sabia que ela seria incapaz de aceitar. Lily preferia morrer a virar uma Comensal da Morte. Sabendo disto, Snape procurou Dumbledore tentando fazer com que ele evitasse o pior. Mas tanto ele quanto o diretor de Hogwarts sabiam que as chances dela eram mínimas. Snape tinha a esperança de que Voldemort cumprisse a palavra e poupasse Lily, que ela não estivesse perto do menino na hora do ataque ou mesmo que ela mudasse de ideia ao ver o filho em perigo, mas naquela fatídica noite, Snape sentiu alguma coisa se quebrar dentro dele. Foi procurar Dumbledore, já ciente do ataque, mas ao ver o diretor, não conseguiu dizer uma única palavra. Lily tinha partido para sempre.

Snape se arrependeu amargamente da promessa que fez de proteger o filho de Lily ao ver Harry Potter pela primeira vez. O garoto cochichava algo com um dos Weasleys e parecia bastante desconfiado. Certamente conhecia a má fama que ele fazia questão de cultivar entre os alunos, sendo rigoroso com os da Grifinória, Lufa-Lufa e Corvinal e bastante indulgente com os sonserinos. Detestava ver o quão Harry se assemelhava à James no cabelo, no corpo e também em algumas atitudes, mas sabia que ele não era como o pai. Até porque ele também era filho de Lily e tinha os olhos dela. Sempre que estavam próximos, Snape costumava olhá-lo nos olhos e segurava a emoção ao se lembrar de Lily. Dos momentos juntos no jardim. Nas conversas à beira do lago. Das alegrias e também das brigas. Sabia que Harry o odiava. Sabia que Lily o odiaria se soubesse o que ele fez. Mas ele nunca a esquecera. Nem no último momento de sua vida, quando Harry se aproximou para tentar socorrê-lo e lhe fez um último pedido.

— Olhe... para... mim!

E Snape morreu como queria, com aqueles olhos verde-esmeralda olhando pra ele outra vez.

Notas finais
I'll be back! E em grande estilo! Estava tentando escrever sobre esses dois há algum tempo, mas não conseguia desenvolver as ideias, mas agora foi! A diferença da cor dos olhos de Harry e Lily nos filmes é uma das maiores falhas da saga, então eu fiz uma montagem (juntando duas imagens que já existiam) tentando consertar as coisas, que tal?