Harry Potter e a Neta de Voldemort
1 Prólogo
Notas iniciais
Prólogo – A viagem a Hogsmeade
É engraçado como a vida funciona, quase como se você ganhasse uma grande caixa cheia de coisas misteriosas e fosse puxando cada uma de lá e se surpreendendo cada vez mais. "Olha um amigo, aqui um amor platônico, aqui um primeiro beijo, aqui uma detenção escolar, aqui uma nota alta, aqui um braço quebrado..." Só que o que ninguém te conta é que nessa caixa também tem coisas desagradáveis, como uma traição, uma humilhação e, eventualmente, uma morte.
Em uma semana ela estava almoçando com o pai em uma confortável Trattorria perto de Madrid e contando como tinha derrubado um balde cheio de baba de lesma em Carmen — o que rendeu uma cara feia da amiga por uma semana — e como estava empolgada com a volta as aulas, e na semana seguinte ela ouvia barulhos ensurdecedores no andar de baixo da casa que dividia com o pai em Barcelona.
Mas estamos nos adiantando, para começar essa história, primeiro deveríamos voltar e apresentar quem seria, de fato, ela.
Seu nome era Sabrina, Sabrina Vandon Lair. E aparentemente não havia nada de absolutamente especial em si mesma que denunciasse um grande começo pra uma narrativa. Era uma garota de estatura mediana, ruiva como o fogo, os olhos castanhos escuros que eram disfarçados por lentes verde brilhante; pura estética. E sua pele possuía sardas delicadas, não daquelas que enfeiam, mas daquelas que decoram, e isso era a coisa toda sobre ela. Ela não tinha nada que a enfeiasse, de fato ela era extremamente bonita, bonita demais para seu bem, e humilde o suficiente para fingir que não sabia disso. Sua descendência era latina por parte de mãe, ao menos até onde sabia, mas inglesa por parte de pai.
E ela era uma bruxa, o que era comum em seu meio.
Não uma bruxa excepcional, com uma inteligência fora do comum, ou um dom descoberto que faria com que pudesse salvar o mundo. Sua família tinha sangue puro, é verdade, ao menos sua mãe costumava lhe contar isso...mesmo depois de morta. E tradicionalmente o pai teria sangue puro também, mesmo que o avô paterno tivesse sido um afamado amante dos trouxas. Aquilo, ser sangue puro, era raro naqueles tempos em que as famílias puramente bruxas começavam a deteriorar, mas isso não tornava ela um pilar da salvação. Este era Harry Potter!
Qualquer um que lhe perguntasse provavelmente receberia a resposta de que ela era apenas comum, uma garota de quinze anos que vivia na Espanha com o pai, órfã de mãe, e estudava na escola de bruxaria tradicional do país, a Corcions. Talvez quando ela dissesse que o pai era Angelus Lair, dono da loja de logros em crescimento, Penélop's Boom, ela arrancasse algum olhar animado, ou de desprezo por aqueles bruxos mais amargurados. Mas ela mesma não considerava isso um prodígio, e com certeza não conseguia explicar o fato de que em algum momento um terrível bruxo das trevas escolheu o pai como ameaça.
Porque em uma noite fatídica, fora isso que ela vira ao descer as escadas de sua casa, acordada dos pesadelos com o ex namorado morto, por barulhos de explosões.
Agora, sentada em um trem em direção a Inglaterra, ela suspirava cansada, fechando os olhos para reviver a cena que tinha presenciado, detalhe por detalhe. Uma atitude quase masoquista que repetira por muito tempo nos meses que se seguiram aquela noite.
Ela havia descido as escadas depressa e se deparara com seu querido pai, em um duelo por sua vida com um ser que ela só poderia definir como asqueroso. Olhos de cobra, fendidos e vermelhos, dois buracos por narina e um rasgo cortando a face no lugar em que deveriam estar seus lábios. A pele era rançosa e acinzentada, como se tivesse escamas — como uma pele de cobra — e ele ria. Ela nunca o havia visto, e não se decidira se acreditava nos boatos de seu retorno, mas sabia que aquele era Lord Voldemort, o maior bruxo das trevas de seu tempo. Até o som de seu riso era cruel, ecoando pelas paredes enquanto ele apenas se defendia dos poderosos jatos de luz que saiam da varinha de Angelus, acuando o belo ruivo de meia idade cada vez mais.
Como se fosse um tolerante, mas sádico, professor ensinando o aluno a duelar.
No momento em que houve um relampejar verde Sabrina gritou. Um grito angustiado, partindo do fundo de seu peito, porque Angelus parou por um momento no ar atingido em cheio no peito, para em seguida escorregar lentamente para o tapete. E imediatamente as lágrimas começaram a correr pela face delicada e morena dela enquanto corria para o corpo do pai sem se importar com mais nada. Quando olhou naqueles olhos castanhos claro sempre tão brilhantes, e agora vidrados, ela quis seguir junto com o pai, porque não ia poder suportar lembrar de tudo o que eles haviam sentido e feito juntos, não ia suportar sentir que nunca mais eles fariam algo assim.
Mas Voldemort era cruel, e não importou o quanto ela lhe implorasse para que acabasse de vez com sua vida, ele renegou esse pedido, desaparatando com o som de sua gargalhada cruel e farfalhante ecoando na sala silenciosa. Com toda certeza ele sabia que era mais doloroso deixa-la lidar com a cena que vira para sempre.
No dia seguinte Sabrina foi encontrada ainda enroscada ao pai, em estado de choque, chorando copiosamente e conversando com ele, como se ele estivesse vivo e ela só estivesse com medo de dormir. Mercedez, a empregada trouxa que sempre vinha uma vez na semana á casa elegante e antiga, ficou chocada com a cena e imediatamente afastou a menina a sentando no sofá espaçoso da sala, enquanto o olhar triste ia em direção ao bondoso senhor Lair.
Com um telefonema e alguns minutos a avó de Sabrina e mãe de Angelus, Penny Lair, estava aparecendo na lareira — para espanto da pobre Mercedez que teve que ter sua memória obliviada depois — acompanhada de uma dúzia de aurores.
Fora assim que sua tragédia pessoal terminara, sua caixa de surpresas da vida, trancada por um tempo. Ela era uma garota comum, o pai o dono comum de uma loja de logros, e mesmo assim, Voldemort escolhera ele para aumentar seu tão grande catálogo de mortes. Para sua avó, sobrara preparar o funeral e os documentos com a guarda de Sabrina, a transferência para a Inglaterra e mais milhões de coisas burocráticas que tomou os dois meses seguintes.
Para Sabrina sobrou a depressão.
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A garota olhou as árvores passando rápido, como borrões pela janela do trem em que estava e decidiu tentar espairecer a mente. Pegou uma revista que jogara no banco ao lado e se concentrou nela por uns segundos. Estava feliz por passar um tempo com sua avó. A Senhora Penny Lair era uma velhinha meio gorducha, de cabelos brancos, muito espirituosa e divertida, que sempre achava um jeito de animá-la. Ela pensou com carinho nas vezes que a avó a havia consolado de suas lágrimas incessantes. Talvez houvesse despencado se não fosse por esse apoio, e não estava desanimada porque ia morar com vovó Penny. Só o que não gostava era da situação em que ia morar na Inglaterra.
O mais engraçado – na verdade trágico – era que Voldemort tinha tirado duas pessoas importantes para ela num período muito curto. A ruiva começava a achar que era perseguição, o que era ridículo, afinal, o que ela poderia ter feito ao Lord das Trevas? Nunca sequer o havia visto antes da morte do pai.
Ele tirara primeiro seu namorado, Cedrico Diggory e agora seu pai. Era absurdo e incompreensível, além de doloroso, e ela que achava que tinha sentido o máximo de dor possível com a morte do Ced, sentiu seu coração se dilacerar mais ainda com a morte de Angelus.
De repente, lágrimas começaram a rolar por sua face. Lembrar de tudo era tão difícil, mas ela continuava fazendo isso, revivendo e pensando, tentando achar alguma explicação razoável. Primeiro Cedrico... Aquele Cedrico que sempre lhe vinha a mente sorrindo, acariciando seu rosto e dizendo o quanto tinha tido saudades dela enquanto estudava. Aquela morte era fácil de explicar, a família dele de alguma forma sabia e acreditava no que dizia Harry Potter. Cedrico era uma vida inocente pega num fogo cruzado.
Ela passou os dedos sobre o colar mágico em forma de meio coração que trazia ao pescoço e lembrou de quando ele o tinha dado logo no começo do namoro. Naquele dia eles estavam numa praça, antes dele voltar para Hogwarts.
— Este é o meu coração. — disse ele — Você vai ficar com um pedaço dele quando eu partir, quando estiver com saudades, é só ir se deitar e antes de dormir olhar para ele que eu estarei sempre aqui te esperando. Ok?
— Isso se você não estiver muito ocupado com outra garota... — dissera ela em tom divertido.
— Sá, NUNCA vai existir nenhuma outra garota.
— Ah tá que você, bonitão desse jeito, não vai arranjar nenhuma substituta para passar o tempo não é? Hahaha.
— Você sabe que é insubstituível.
— Olha que assim eu vou ficar convencida, hein? Mas falando sério, eu vou olhar para esse colar toda hora, porque eu vou ficar com muitas, muitas, muitas, muiiiitas saudades...
Silêncio...Então Cedrico a puxara para si e a beijara doce e amavelmente.
Era uma lembrança que em outros tempos lhe dava aquela sensação boa de nostalgia e inocência, tipicamente infantis. A lembrança do beijo dele a fez chorar mais ainda; seu hálito doce, seus lábios macios, o jeito com que ele a abraçava. Cedrico havia sido seu primeiro e único namorado e para ela era como se cada segundo dos dois fosse uma promessa de amor eterno. E Voldemort a quebrara.
— Maldito. — sibilou a garota com raiva. As unhas penetrando a carne macia das mãos pela a força com que ela as cerrou.
Ela jurara, assim que pudera compreender que seu pai não voltaria e que tão pouco Voldemort a mataria, que se vingaria e estava pronta a se sacrificar, dando o melhor de si nas aulas para isso. Seria aurora, era isso, e o caçaria.
Olhou para uma mancha escura na vegetação e franziu o cenho.
— Nem que eu tenha que desafiar o mundo ou qualquer outra coisa para conseguir. — Disse com mais ódio ainda. Depois se calou, porque o velhote com quem dividia a cabine a olhou estranhamente.
Virou a página da revista e ergueu a sobrancelha para a foto em movimento ali: A própria família Summers. Os responsáveis por ela ter conhecido Cedrico em primeiro lugar. A única pessoa que ela conhecia que, igual a ela, não tinha medo de falar o nome do tal Lorde das Trevas — e de dar algumas risadas as custas dele também — era Morgana Summers, que apesar de morar bem longe, na Inglaterra, era sua melhor amiga — e não só pelo fato de ser prima de Cedrico. Aliás, fora ela que o apresentara a Sabrina. As duas já se falavam há muito tempo, quando Morgana foi fazer sua quarta visita à Sabrina e levou Cedrico junto. Foi amor à primeira vista – pelo menos da parte dela.
As duas se divertiam muito quando se visitavam, e pareciam irmãs, apesar da grande diferença tanto de aparência – já que Sabrina era realmente uma beleza, enquanto Morgana era morena de olhos castanho-escuros, usava uns óculos quadrados para seus muitos graus de miopia, e aqueles aparelhos tipo capacete. Sim, um aparelho estilo capacete, no mundo bruxo! Por algum motivo os medibruxos haviam decidido por aquele terrível aparato por um tempo. Sabrina achava que alguém odiava o Sr. Summers. Morgana se conformava. E não se podia dizer que ela era bem...exuberante como Sabrina, seu tipo físico estava mais para em forma de balão.
Mas a personalidade, nesse campo a diferença era ainda maior. Morgana vivia a ponto de explodir, era o exemplo clássico de temperamental. Já Sabrina...era um doce de pessoa, animada e sempre extrovertida, o que tornava a amizade ainda mais equilibrada.
Claro, a vida era uma enorme caixa de surpresas, e ali, naqueles dois meses que haviam tentado superar a morte de Cedrico e logo após a de seu pai, Sabrina encontrara na ajuda á amiga, que havia finalmente tirado seu aparelho – talvez porque realmente descobrira que algum medibruxo odiava sua família – trocado os óculos por lentes singelas de contato, e decidido varrer da vida os quilos a mais com regime e malhação, a ajuda necessária para tentar superar tudo. Parecia fútil? Claro! Mas no fundo era o apoio que as duas precisavam para superar suas dolorosas perdas. Morgana era louca pelo primo, e conhecia o Angelus a tempo o suficiente para considerar que havia perdido um tio muito querido.
E ai estavam, reinventadas, e com cicatrizes, mas ainda assim era por causa da proximidade á amiga que ela se animava um pouco mais para voltar para a Inglaterra. Seriam a "dupla imbatível", como seu pai costumava dizer, lembrou-se, retornando a chorar.
— Estação Hogsmeade, por favor não esqueçam seus pertences nas cabines, não nos responsabilizaremos por objetos perdidos ou extraviados. Tenham uma boa tarde. — disse uma doce voz de mulher ampliada com o feitiço Sonorus. Sabrina juntou suas coisas na nécessaire e enxugou suas lágrimas enquanto se preparava para descer e descobrir sua nova vida.
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Ao descer do trem encontrou exatamente o que pensava que ia encontrar: vovó Penny com um belo sorriso, e ela tinha certeza de que quando chegasse em casa biscoitos estariam a esperando. Se sentia reconfortada.
— Docinho — disse a avó a abraçando.
— Ah...Vovó, que saudades.
— Como foi a viagem?
— Foi tranqüila. Só no começo é que eu me preocupei, porque tinha um bruxo bêbado na cabine ao lado, que gritava toda hora dizendo que ia se matar. Mas ele desceu em Paris, ou melhor, jogaram ele em Paris. O resto da viagem foi normal.
— Hum...e dá pra ver na sua carinha que você chorou muito...
— Não dá para esconder nada da senhora, não é vovó? — a ruiva chutou uma pedrinha chateada.
— Senhora? Você esqueceu que eu estou na flor da juventude? — disse vovó Penny com uma cara indignada, que logo mudou para uma gargalhada. Sabrina começou a rir também. Sua avó era uma figura rara.
— Bom, então vamos indo, eu ainda tenho que passar na loja de animais mágicos do povoado para apanhar a Trude. — Trude era a coruja de sua avó. Ela era dourada, com pequenas manchas negras no peito. — Ela foi levar uma carta para sua tia-avó Corina, aquela irmã de seu avô que mora numa montanha com um dragão. Bem, o problema é que o tal dragão estava irritado no dia e perseguiu a Trude em volta da montanha até sua tia chegar para segurá-lo. Resultado: minha pobre corujinha toda queimada. A sorte é que ela é de uma espécie de coruja resistente ao fogo, senão agora não teria mais Trude para contar história.
— Vovó...quantos anos Trude tem? Eu sei que ela é mais velha que eu, porque a senhora me disse uma vez que quando eu nasci, ela fez a maior algazarra e piou bem alto durante o parto da minha mãe, no St. Mungos. Mas a senhora nunca me disse quantos anos ela tem.
— Sabe que nem eu sei direito quantos anos ela tem? Bem, deixe-me ver... seu avô me deu ela antes de seu pai ir para Hogwarts, ele tinha onze anos. Quando você nasceu seu pai tinha vinte e quatro anos e já se passaram quinze anos, então, me corrija se eu estiver errada, mas ela tem vinte e oito anos não?
— Se papai tinha trinta e nove anos, menos onze... é, é isso mesmo.
— Eu nunca fui boa em matemática.- a velha senhora piscou para a neta e sorriu.
Neste momento elas chegaram a loja e empurraram a porta de vidro para entrar. Sabrina olhou para o balcão e lá viu um rapaz de mais ou menos dezesseis anos conversando com uma mulher muito mais velha, eles pareciam estar discutindo baixinho, pois a cara da mulher estava com uma expressão de muita raiva. Quando a mulher as percebeu, parou de falar com o garoto e voltou suas atenções para elas.
— Bom dia, senhora Jackmen.
— Bom dia, senhora Lair. Desculpe, mas eu estava tentando explicar para esse meu filho irresponsável, que ele não pode deixar seu cão gigante passear pelo povoado sem correntes.
— Mas mamãe, Brutus é um cachorro inofensivo, ele não vai fazer mal a ninguém! Ele fica angustiado quando está preso, e me dá dó ver ele tão triste. Deixa eu soltar ele, vai...
— Já disse que não. E vá pegar a coruja da senhora Lair!- O garoto então parou e olhou para trás como se só agora tivesse percebido que havia mais pessoas lá. Seus olhos caíram automaticamente em Sabrina, fixando-se nela por alguns instantes.
"Deve ser porque sou nova aqui", pensou ela, mesmo sabendo em seu íntimo que este não era o motivo.
— Ah, esta deve ser sua neta que veio da Espanha, não é, senhora Lair? — disse a senhora Jackmen, percebendo o olhar do filho.
— É, esta é Sabrina...ela é muito bonita, não é? — disse vovó Penny, olhando divertidamente e com certa malícia para o filho da senhora Jackmen.
— Vovó...-Sabrina estava muito vermelha, quase como seus cabelos.
— Sua avó está certa! — disse o garoto se afastando. Também muito vermelho.
— Ela também vai para Hogwarts? — perguntou a senhora Jackmen, apontando para trás do balcão — Fillipe está no sexto ano de lá, na casa da Lufa-Lufa.
Neste momento o garoto voltou com a gaiola de Trude, a coruja piava indignada lá dentro, já que odiava ficar presa.
— Lufa-Lufa? Você conheceu Cedrico? — Sabrina perguntou fervorosamente para o garoto
— Diggory? Eu não falava muito com ele. De onde o conhece? — o garoto franziu o cenho a observando atentamente.
— Minha neta é uma velha "amiga" dele — disse vovó Penny abraçando Sabrina, que estava com uma cara triste — Bem, então vamos indo Sá, Trude já está impaciente. Tchau, Senhora Jackmen. Fillipe.
— Tchau — disse a senhora Jackmen.
—Espero que nos encontremos em Hogwarts, Sabrina — disse Fillipe antes delas fecharem a porta do estabelecimento.
Quando elas partiram, Fillipe olhou para a mãe e disse:
— Uau! Preciso mandar uma coruja para os meus amigos. Já volto, mamãe. — E dizendo isso saiu para o fundo da loja.
— Adolescentes...- disse a senhora Jackmen revirando os olhos.
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— Parece que você já fez sucesso! — disse vovó Penny logo depois de sair de braços dados com a neta pela porta da loja, um sorriso de orelha a orelha.
— Eu não acho vovó, ele só estava curioso, porque nunca tinha me visto por aqui. Só isso!
— Como você é modesta, não? Você sabe o quanto é bonita, não é Sabrina? E não ouse dizer que não se acha bonita! — disse ela quando viu que Sabrina ia abrir a boca para falar exatamente isso — Não despreze o serviço de seus pais. Sabia que eles estavam inspirados quando te fizeram?
— Vovó... Hei, porque nós estamos indo por essa rua, sua casa não é para a esquerda vovó?
— Primeira surpresa. Eu fiz uma pequena mudança, vendi aquela casa para comprar uma maior. A outra não dava para nós duas, você sabe, ter adolescente em casa exige certo espaço, não é meu bem? — disse ela beijando a mão dá neta.
— Mas a senhora gostava tanto daquela casa, vovó.
— Não, eu gosto do lugar que você gosta, meu anjo. E espere até chegar lá, aquela casa é adorável. Tem um jardim imenso, cheio de flores e uma varandinha com balanço, do jeito que você gosta. E também é grande o suficiente para fazer várias festas...
— Se eu a conheço bem, a senhora só a comprou por isso, né vovó?
— Não! Você precisa ver como ela é espaçosa por dentro, você vai adorar. Fique quieta Trude, eu já vou te soltar.
— Vó, posso te fazer uma pergunta que já está rondando minha cabeça faz tempo?
— Claro, Sá. Aconteceu alguma coisa?
— Não, eu só queria saber se o Angel está bem. Eu não gostei desta história de o mandar primeiro.
Angel era a maritaca que Sabrina havia ganhado de seu pai, por isso o havia batizado com um diminutivo de Angelus.
— Ora, você já vai o ver. Bem vinda a sua nova casa! — disse vovó Penny com os dois braços abertos e estendidos para frente, indicando a casa.
Sabrina parou embasbacada. Realmente a casa era fantástica. Tinha um jardim com rosas de todas as cores, margaridas, papoulas e amores-perfeitos. – "Morg vai adorar isso", pensou ela. — Além de várias árvores, como carvalhos, macieiras, eucaliptos e salgueiros. A casa tinha uma cerca de ferro trabalhado com temas românticos e na varanda um balanço de três lugares com estofado florido cor-de-rosa. Parecia o que ela tinha em sua antiga casa, na Espanha.
— Vovó é tudo tão... Maravilhoso!
— Eu sei, deu pra ver pela sua cara de boba.- ela gargalhou.- Vamos entrar?
— Claro! Eu estou ansiosa para ver como é por dentro.
— Então o que está esperando? Vamos! — gritou a vovó Penny já dentro da casa.
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Se por fora a casa era maravilhosa, fantástica, magnífica, por dentro então, não se tinha adjetivos suficientes. Apesar de sua casa na Espanha ser bem legal, não chegava nem aos pés desta, parecia que ela era encantada para parecer tão fabulosa.
Quando se entrava nela, logo se deparava com uma fonte bem no meio do hall de entrada, onde um querubim de asas brilhantes despejava de um pote dourado uma pequena cascata de águas cristalinas, que caiam na bacia da fonte entre cristais e pétalas de rosas. O piso e as paredes eram branquíssimos, e quando se olhava para cima se via um céu azul turquesa enfeitado por um enorme lustre trabalhado em ouro e cristais. Na outra extremidade da sala se via a escada que se abria em duas partes quando se chegava em cima, feita de mármore branco, com corrimões de madeira escura.
— Eu não disse que era fantástica? Venha, vamos ver a sala de estar — e, dizendo isso, a avó puxou-a para a porta que tinha a direita do hall.
Ao entrar na sala, o queixo dela caiu outra vez. A sala tinha janelas enormes, cobertas por cortinas de seda branca, que iam do teto até quase o chão, onde dava para ver todo o jardim lateral. Nos dois lados da porta havia retratos de duas nobres, uma com a pele bem branca, vestida de vermelho, com cabelos loiros acetinados presos em um coque perfeito arrematado por um belo grampo. E outra vestida de dourado, com a pele morena, cabelos negros bem lisos e soltos, apenas afastados do rosto com uma fivela também dourada.
— Buenos dias! Señora Lair. Señorita. — disse a morena, seguida pela loira:
— Bon Jour! Madame Lairr. Mademoiselle.
— Bon Jour e Buenos Dias para vocês também. -disse Sabrina, fazendo uma reverência divertida.
— Pardón Miss Lairr, mas se incomodaria, se nos rretirrássemos parra tomarr nosso dessjejum?
— Sim, sim, podem ir, só estou bancando a guia turista para a nova moradora. — ela sorriu.
— Ya, entonces esta es la señorita Sabrina? Muy gusto. Yo soy la Viscondessa Mercedes IV. Donde estaba tu habitación en la España? Hablas español, no?
— Eu vivi na cidade de Barcelona por quinze anos, portanto falo espanhol fluentemente. Mas aqui eu prefiro falar inglês mesmo, se não se importa.
— Todo bién.
— Daixe-me aprresentarr tanbã, eu sir Madame Louise Marie. Prazerr, Mademoiselle Sábrrina.
— Prazerr — disse uma divertida Sábrrina.
— Muy Bién, entonces hasta luego.
— Au revoir, chéri.
— Até logo — ela disse.
— E aí, gostou delas? Eu as comprei quando fui visitar Paris. Achei que ia gostar.
— Eu as adorei, aliás, como tudo que vi aqui até agora — disse Sabrina, voltando a observar a sala.
No meio da sala, que era decorada em vermelho e dourado, havia dois sofás com encosto em forma redonda e com detalhes dourados. Em frente a eles flutuava uma TV bruxa, que tinha tela plana vermelha e asinhas douradas. Na extremidade esquerda Sabrina viu uma porta de vidro e perguntou:
— Vovó, para onde aquela porta dá?
— Para o jardim de inverno. Quer dar uma olhada?
— Claro.
Quando abriu a porta, Sabrina se deparou com um enorme jardim com begônias e orquídeas. Uma mini piscina na extremidade Norte, umas mesinhas na extremidade Leste juntamente com um sofá de madeira, com estofado lilás. E, para sua total surpresa e alegria, um poleiro dourado com Trude e outro com Angel na extremidade Oeste.
— Angel! — gritou, indo correndo fazer carinho na cabeça da ave, que de preta ficou cor-de-rosa. Ela começou a cantar uma bonita canção e Sabrina sentou na poltrona à sua esquerda para ouvir. No final, Angel empoleirou-se no ombro de Sabrina e beliscou seu rosto de leve, como num beijo. Sabrina disse:
— Eu também tive saudades.
— Ah, que cena linda. Porque você não aprende, hein Trude? — a coruja deu um pio indignado e pousou no ombro da dona, fazendo a mesma coisa que Angel.
Elas saíram da sala rindo e foram ver a sala de jantar, que era a porta do lado esquerdo no hall de entrada.
A sala de jantar era igualmente bonita. Tinha uma mesa de vidro com pés prateados no centro, e cristaleiras de madeiras nobres cheias de louças de todas as espécies nos cantos. Também tinha a decoração em vermelho e dourado, além dos quadros de nobres e reis franceses, espanhóis, ingleses e portugueses nas paredes. Tinha, ainda, uma porta ao norte que levava para a sala de café, onde a decoração era menos nobre e mais alegre e florida.
— Falando em café, a senhorita não comeu nada até agora, não é?
— Ah, vovó eu quero terminar de ver a casa.
— Não. Primeiro sente aí para tomar seu café, depois agente termina de ver a casa.
— Mas vovó...
— Nem mais, nem menos. Ande, sente aí — disse a vovó Penny. E Sabrina sabia que quando a avó dava uma ordem, não tinha jeito de contestar.
— Fique aí sentadinha que eu vou ajudar a Cream a trazer as coisas para a mesa.
Depois de um tempo sua avó vinha voltando com várias bandejas no ar e com o elfo doméstico mais claro que ela já vira na vida.
— Sabrina, essa é a Cream. Como eu não podia dar conta de uma casa tão grande assim, eu tive que contratar um elfo doméstico para me ajudar e fazer companhia enquanto você vai para Hogwarts.
— Prazer ama Sabrina Lair. Cream promete fazer tudo que ama Sabrina Lair pedir, tudo, tudo — disse o elfo fazendo uma profunda reverência.
— Para começar, não precisa fazer reverência quando falar comigo, ok?
— Tudo que minha ama Sabrina Lair mandar — disse ela se endireitando.
— Torradas, Sá?
—Hum ... eu acho que eu quero é alguns daqueles seus biscoitinhos amanteigados.
E assim elas tomaram seu café da manhã. Quando terminaram, uma Sabrina agora absolutamente ansiosa subiu ao andar de cima com a avó. Elas foram pela escada da esquerda.
Na primeira porta do corredor tinha uma biblioteca, já que as duas amavam ler. Eram quatro estantes que ocupavam as paredes até o teto, e um sofá sem encosto na parede da porta, juntamente com uma poltrona ao lado da primeira estante. Ao meio deles havia uma mesinha de cedro com um vaso e uma foto de seu avô e seu pai segurando ela no colo no quintal da casa deles na Espanha. Eles estavam acenando e sorrindo. Sabrina pegou a foto e a alisou, sentindo que lágrimas se formavam, depois a colocou no lugar, limpou os seus olhos e seguiu a avó até a outra sala.
Na primeira porta a esquerda no corredor, tinha um escritório e sala de estudos, onde haviam duas escrivaninhas, uma mesa e estantes cheias de pergaminhos, tintas e penas.
E na última porta do corredor tinha uma sala onde a avó costurava, tricotava e fazia bordados e crochês. A sala era bem confortável, com paredes que, diferentemente do resto da casa, eram floridas e de um rosa bebê. Tinha um tapete branco e felpudo no centro, uma poltrona lilás com encosto de pés e um poleiro ao lado da poltrona. Do lado oposto tinha dois pufes e um poleiro para Angel, além de uma almofada ao lado de um dos pufes. Na sala também tinha um banheiro, todo lilás e rosa-bebê. Realmente essas eram as cores preferidas de vovó Penny.
Elas saíram do corredor, depois de falarem com um cavaleiro de armadura chinês, e subiram as escadas da direita. Um corredor todo cheio de nuvens brancas e azuis turquesa apareceu e elas entraram no primeiro quarto, que ficava à direita. Era o quarto da vovó Penny. Ele era parecidíssimo com a sala de crochê, mas ao invés de só ter uma poltrona, também tinha uma cama com patamar alto, cortinas de seda rosa, um mirante estofado na janela imensa e uma escrivaninha. Além, é claro, da gaiola de Trude e de uma TV Bruxa, que a avó não ficava sem.
A segunda porta do corredor, à esquerda, era de um quarto de hóspedes decorado em azul cobalto, com uma cama, um guarda-roupas e criados mudos. Ao lado havia um banheiro para o uso dos que dormissem neste quarto, decorado no mesmo azul cobalto.
No lado direito do corredor havia duas portas gêmeas, a avó levou Sabrina para a primeira, logo depois da sua. Era seu quarto.
Ele era todo em rosa e branco e tinha uma faixa com motivos angelicais em toda a sua volta. Encostada à parede da direita, a sua cama dourada de espaldamar alto, com uma colcha branca e travesseiros de plumas. Cortinas de seda branca caiam do alto do espaldamar como uma cascata de nuvens. Dos dois lados da cama os criados mudos eram de Cedro e continham várias das fotos que ela tinha empacotado, além é lógico do seu despertador mágico, que cantava a música com que ela mais se identificaria no dia. Do lado da cama tinha o seu banheiro, ele era todo branco e estrelado com uma banheira quadrada e várias torneiras. Tinha dois crisóprasios enormes de onde caiam águas puras e cristalinas, no lado direito uma pia e do lado esquerdo uma privada. Depois da cama na parede do norte tinha um mirante com janelas grandes e a paisagem conjurada do parque em que beijara o Cedrico pela primeira vez. Mais a esquerda do mirante tinha uma escrivaninha. Na parede ao sul do lado direito da porta tinha um guarda roupa com espelhos por toda a sua superfície. No lado esquerdo da porta estava a gaiola dourada de Angel. A ave que até agora estava no ombro de Sabrina voou para sua gaiola e foi beber um pouco de água. Em frente à cama tinha uma porta e Sabrina perguntou:
— Vovó para onde essa porta dá.
— Essa é a segunda surpresa. Vem comigo.
Elas entraram pelo quarto e Sabrina viu surgir um outro quarto a sua frente e compreendeu exatamente a quem pertencia o quarto: Morgana Summers. Ela olhou interessada o quarto que era igual ao seu, só que azul escuro como a noite e tinha uma faixa de estrelas o rodeando. A colcha era azul cheia de luas e o véu de seda que caia do espaldamar da cama era de um azul bem clarinho. A paisagem conjurada era de uma praia sob a luz do luar, e as mesinhas de cabeceira de Bordo. No banheiro uma espécie de mini cachoeira descia na banheira. E tinha cristais espalhados por todo o quarto. E o último detalhe mais não menos importante, em vez de gaiola tinha uma cama de gato, no lado esquerdo da porta.
— Esse quarto pertence a minha outra neta.
— Obrigada vovó, a senhora sempre pensa em tudo — disse a garota sorrindo e abraçando vovó Penny. — Eu te amo!
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