Harry Potter e a Neta de Voldemort

16 Capítulo 15 - Peguei você!


Notas iniciais
História originalmente escrita com Sheila Farias. Porque existem histórias que quando não são contadas ou finalizadas, ficam na sua mente lhe perturbando até que as deixem sair.

Capítulo Quinze – Peguei você!

Era estranho ficar um pouco confuso em relação a coisas como o amor. Quer dizer, ele tinha toda a paixão por Cho desde muito tempo, mais do que ele conseguia contar. Ou talvez pudesse, lá digamos pelo terceiro ano dele, quando ele finalmente notara que garotas eram, bem, garotas, e não só uns garotos diferentes com que ele podia brincar e pregar peças.

Lembrava-se o quanto tudo em relação a ela e Cedrico o incomodara no ano anterior, e nesse também, a ponto dele secretamente sentir meia aversão pelo primo de Morgana quando ficara sabendo da coisa toda com Sabrina, e Cho ao mesmo tempo. Na verdade, seus sentimentos sobre isso e quando ficara sabendo, fora os de que Cedrico, por mais legal que parecesse, fizera algo abominável afastando-o de Cho, talvez com um prazer perverso por o ver sofrer, ou para afirmar sua posição de garanhão de Hogwarts por cima de Harry de quem ele sentia ciúmes por ter sido escolhido também como campeão de Hogwarts e...ok, os pensamentos dele eram sombrios, narcisistas e pouco justos em relação a coisa toda do triangulo amoroso.

Ainda assim, mesmo que houvesse divagado uma vez ou outra sobre o assunto, desde o terceiro ano, Harry nunca se sentira tão...perdido, em relação a sentimentos.

O problema em questão, era o fato de que se sentia balançado pelo que escutara de Morgana, e mesmo que ela não fizesse ideia do que havia dito em sono – E ele devia ser sincero, ela provavelmente não tinha dito nada do que ele concluira, afinal de contas o sonho funciona de forma diferente, as pessoas não são coerentes no sono. – ele se sentia estranho cada vez que olhava ou se deparava com ela. De repente, tudo que vinha protelando de pensar, tinha invadido sua mente com uma potência absurda o bastante para enviar todos os pensamentos e preocupações embora.

Não poucas vezes ele se pegara olhando para ela distraidamente durante as aulas, observando matizes indecifráveis de visão e o que elas causavam, como a forma que ela ficava quando cochichava algo com Sabrina, os olhos brilhando de prazer ao fazer uma piada, o rosto franzido de desagrado, ou como brilhava em uma aura diferente quando a luz de outono entrava por um vitral na aula de Binns e incidia sobre seu perfil.

Droga, isso eram coisas que meninas conversavam entre risinhos nos corredores, coisas que elas viviam sussurrando umas as outras nas filas e o deixavam um pouco enjoado por perderem tanto tempo com coisas tão...incompreensíveis.

Mas lá estava ele, olhando a garota ao longe e se perguntando o que ela teria feito se ele tivesse vencido os centímetros e beijado-a enquanto dormia.

— Provavelmente me dado um tapa bem dado. – Resmungou enquanto rabiscava o pergaminho, fazendo McGonagall girar os olhos dos pergaminhos que corrigia e o fitar pelos óculos redondos.

— Algo que queira compartilhar conosco, Potter?

— Não professora, desculpe. – Puxou um suspiro do fundo do peito, voltando a se concentrar nos exercícios de Transfigurações.

Mas era ainda pior o fato de que mesmo que pensasse nisso com muita frequência, ou observasse Morgana ao longe, ele não parara, em nenhum momento, de se sentir quente e flutuante quando por fim cruzava com Cho.

Isso era contraditório.

Ele estava em um minuto arriscando um dia de mau humor por ver Morgana e Simas Finnigan cochichando e rindo de uma piada que o excluía, muito próximos para acessar seu ciúmes irracional. – Morgana nunca sequer olhara duas vezes para Simas, mas ei, o cara não ficava babando em cima dela, agora que ele parava pra pensar? — E no instante seguinte descendo o corredor, ele se deparava com Cho e era como ver luz e sol e estrelas ao mesmo tempo. Que diabos de garoto doente ele estava se tornando?

Porque isso o incomodava tanto, afinal?

Podia catalogar os sentimentos, se se esforçasse bastante, por uma sentia uma atração que não sabia explicar, por outra uma coisa diferente. O problema era que dependendo do momento e situação, as posições se invertiam. Teria que cair fundo no poço e conversar com Rony, ou quem sabe os gêmeos, ou alguém mais velho ainda, Gui (?), sobre isso?

— Oi! – Uma garota se aproximou dele, parecendo simpática e radiante. Harry ergueu uma sobrancelha, tentando desesperadamente saber de onde conhecia essa garota. Ele apenas sabia que a conhecia, só não ligava o nome a pessoa ainda. Ela pareceu notar sua confusão, e rindo se explicou.

— Acho que você não lembra, né? Você não me conhece mesmo, digo, não muito. Meu nome é Gwyneth Ortholan, sou da Corvinal, do sexto. – Ela fez uma pausa e Harry a observou melhor, ansioso, dos cabelos castanhos encaracolados e grandes olhos avelãs, ás meias azul e prata nitidamente corvinas. Harry sorriu, estático. Ela riu mais. – Sou amiga de Cho.

— Ah sim, desculpe. – Ele se apressou a dizer, encabulado. Conversa estranha.

Gwyneth girou a cabeça e olhou Cho, que a metros a frente deles observava os dois e sorriu pra Harry, acenando e virando para falar algo com um garoto de seu ano. Harry sentiu algo rugir, algo como afeição pura e simples, e sentido de proteção pela oriental.

Cho parecia sempre tão desprotegida ultimamente. Uma menina, que corajosamente tentava superar o fim do amor, e a traição que veio junto com esse ano. Ele imaginava como devia ser ter o coração partido, duas vezes, pela mesma pessoa, e por motivos tão diferentes. E assim como desde que trouxera o corpo de Cedrico, a onda de culpa e arrependimento veio também com mais força.

Ele sempre sentia uma onda de culpa em relação a Cedrico, e sempre ficava bem forte, misturando a proteção e vontade de ser um cavaleiro branco, quando envolvia Cho. De forma estranha, a própria prima dele, Morgana, despertava sentimentos diferentes. Quer dizer, havia culpa, mas...Morgana não chorava, sofria e parecia miserável 98% das vezes que ele a via, então tinha um pouco menos de proteção...e de rancor.

Pensar em Morgana enquanto olhava Cho corando pra ele, lhe pareceu algo abominável, então ele virou-se para Gwyneth.

— Então...hum...?

— O que você acha dela? – A outra soltou, mudando o peso de uma perna para a outra.

— O que? – Harry puxou o fôlego, tentando não parecer tão tímido quanto se sentia. – Digo...como exatamente? Quer dizer, Cho é uma garota fantástica, legal, extrovertida. Gosto de quando conversamos e...jogamos quadribol? – Ele testou, incerto. Gwyneth soltou um muxoxo e lhe deu um tapa no braço.

— Sim, ela realmente é tudo isso. Você é um cara eloquente, Harry. – Disse isso de forma que teria dito: Você é idiota. Harry pestanejou. – Mas eu quero dizer, o que acha dela para ter um...encontro?

"Garotas são estranhas, porque ela não disse antes?", pensou o garoto beirando o desespero. Se de hesitação, nervoso ou falta de paciência era difícil ele saber.

Longos minutos em que ele ia e voltava com a resposta passaram, e Gwyneth parecia bem impaciente quando Rony se aproximou, revirando os olhos e agarrando a mochila de Harry abraçou o amigo pelo ombro.

— Ele adoraria!

— Rony! – Harry olhou o amigo sem saber se detestava ele ter aceitado, ou ele estar se esgueirando pelo castelo ouvindo suas conversas particulares.

— O que? Não? É só um café no Madame Puddifoot nesse final de semana....

— Não é isso, eu só...

— Ele aceita. Harry tem olhado Cho de longe a anos, claro que aceita.

Se Rony tivesse revelado que ele usava calcinhas para dormir, ele teria ficado menos envergonhado. Viu os olhos de Gwyneth crescer, esbugalhados e brilhantes de deleite, e ela virar para ver Cho por cima do ombro, sorrindo pra amiga. Cho pareceu modesta, e colocando uma mecha de cabelos atrás da orelha, corou. Quão adorável?

— Ceeerto. Combinado, ás três. Ei... – Ela hesitou, já de costas e olhou Rony de cima a baixo, avaliando. Era uma garota bonita, isso era verdade. Seu rosto angular e pequenos lábios em forma de coração, davam um ar aristocrático, e suas curvas bem delineadas no suéter apertado da escola, junto a barra da saia um pouco alta que roçava as coxas e o corpo atlético, deixavam o suficiente para a imaginação. Era como uma garota que se podia dar o luxo de escolher e avaliar. – Eu também vou estar lá, se você quiser participar, ruivo.

Rony parecia atingido por um balaço.

— Cara, uma garota como aquela acabou de me chamar pra um encontro? – Ele balbuciou. Harry revirou os olhos.

— Não, ela me chamou pra um com a amiga dela. Você é tipo um bônus track. Que te deu pra aceitar, ein?

Eles haviam voltado a caminhar, e Harry ia cada vez mais sentindo uma sensação de vazio e desamparo na boca do estomago. Um encontro com Cho era algo bom, ele esperara isso e pedira tantas vezes em silencio no ano passado, que parecia meio injusto agora ele sentir aquela sensação quase ruim quando ele aconteceu.

— Como é? Você ia negar?

Harry suspirou, coçando a nuca exasperado. – Não sei, talvez, eu queria poder ter decidido sozinho.

— Você tava balbuciando e soltando sons estranhos de afogamento. A menina já estava achando que você era demente. Te fiz um favor!

— Eu posso decidir quando te pedir um favor ou não, Weasley? Nesse caso eu não pedi, então você não devia ter se intrometido.

— O que há com você? – Rony pareceu chateado e amuado, como se a esperança de ter ajudado o amigo murchasse a cada palavra de Harry e isso fosse algo terrível. Ótimo, ele devia se sentir assim mesmo.

— Eu quero decidir quando vou a um encontro e não que você decida por mim. Aliás, quando você começou a ficar ouvindo pelas minhas costas?

— Eu não ouvi pelas suas costas, esse é o corredor do nosso salão comunal, caso você não saiba. Elas deviam estar ali por horas esperando te achar, isso é grande. Pense Harry: Cho! Cho Chang.

— O que tem Cho Chang? – Hermione apareceu por trás deles, fazendo os dois darem pulos de léguas de puro susto.

— Harry tem um encontro com ela! – Rony apontou, depois para si mesmo. – Eu aceitei, ou ele ficaria só parado como um peixe. Agora ele está com raiva.

Harry apertou os lábios, se negando, terminantemente a olhar para o lado direito de Hermione, o lugar onde Morgana estava no chão, pegando os pergaminhos e livros que derrubara quando ouvira o que Rony tinha a dizer. Sem saber como agir, com medo de se movimentar muito para direita e pegar algum relance indesejado, ele olhou para Sabrina a esquerda, só pra ver a ruiva o olhando com algo parecido a...julgamento? Recriminação? Estranheza?

— Ah...você gosta de Cho? – Ela perguntou incerta, observando Hermione, não Morgana. Porque?

— Não é bem...

— Ah sim, ele gosta, desde o ano passado. Cedrico vivia dizendo como era estranho que ele sempre estava perto, e como havia voltado para salvá-la no lago, e coisas assim. Você deveria ter agarrado o peixe antes dela ter feito toda essa confusão com Sabrina, ein Harry. – Morgana entrou em seu campo de visão, sorrindo meio animada demais. Quando passou por ele ela deu um tapinha em suas costas. – Divirta-se, garotão.

Um silencio desconfortável surgiu entre ele e as colegas.

— Bem, eu acho que... – Rony começou, pescando algo na expressão de Harry e no que acabara de acontecer.

— Rony também tem um encontro. Se quer saber ela é sua cara, Hermione. – e realmente agora que parara pra pensar, ela era.

Saiu deixando Rony se explicar.

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— Espero que ela quebre alguma coisa ou que nasçam dez espinhas enormes no nariz dela, ou então que ele descubra que é gay e que a pessoa que ele verdadeiramente ama é o Rony.

— Ei não mete o Rony nessa não, Morgana. – Hermione andava meio aérea e animada demais após a tentativa sem graça de Rony se explicar após a saída de Harry.

Sabrina achou bonitinho, a despeito da situação, a forma como por fim Rony assumira que de certo ângulo Gwyneth parecia mesmo Hermione, ele não tinha se dado conta, jurava. Mas isso era bom. Para Hermione, por mais que ela fizesse cara de zangada e saísse pisando duro, ela apostava que fora como ele dizer que ela era bonita. Pobre Hermione.

A ruiva virou-se para a amiga morena, se perguntando se sairia fumaça em algum momento de suas orelhas. Ela parecia ferver, prestes a explodir. Era triste e desleal que ela pensasse coisas assim insensíveis de um momento péssimo como aquele? Fred a tornara tão coração gelado assim? Se esforçando para ser uma amiga melhor, ela estendeu mais um chocolate a Morgana, solícita. A morena agarrou a barra e deu três dentadas acabando com ela inteira, antes de voltar a falar.

— Não me venha defender, ele que causou isso!

— Morgana, eu pensei que você estivesse conformada, você desejou que eles se divertissem!

— O que você queria que eu fizesse? Queria que eu mandasse os dois pra puta que pariu? É, eu deveria ter feito isso mesmo, ai toda Hogwarts ia saber que eu gosto dele! — Ela fez um gesto obsceno para um quadro particularmente mau educado, que as mandava calar a boca.

— Não exagera, estávamos só nós no corredor. – Retrucou Sabrina, observando ela devorar outro chocolate como se fosse nada. – Ei, chega, você quem vai acabar com dez espinhas no nariz assim. – Elas brigaram por um tempo pelos chocolates e Sabrina se levantou do chão, descabelada, mas vitoriosa. Pegou toda a caixa e mais os doces que viu espalhado e foi até o banheiro dando descarga em toda aquela coisa tóxica.

— Morgana se você quer saber minha opinião...

— Não, muito obrigada Sabrina, mas eu não quero. Mas prometo que da próxima vez eu te peço se quiser.

— Relax Morg, eu vou falar mesmo assim. Você não tem direito nenhum de ficar brava. O Harry não tem nada com você, e isso é porque você não quer. Morgana eu sei que você é meio tímida com meninos, mas você sempre correu atrás do que você queria, o que você está esperando pra tentar fazer o Harry, se isso ainda não aconteceu, gostar de você? Como você quer que o menino adivinhe que você gosta dele, se você não, pelo menos, dar algumas dicas? A nota dele em Adivinhações nem é tão alta assim!

— É Morg, você tem de paquerar ele pelo menos um pouco, não vai adiantar sentar e ficar esperando ele cair no seu colo, né? — disse Hermione se afastando cautelosa. A luta das duas devia ter sido algo realmente impressionante.

— É, e se você não fizer nada vai acabar perdendo ele pra Cho, porque ela tomou uma atitude.

— Ah tá, claro. O Harry gosta da Cho vocês ouviram!

— Er...você respondeu por ele na verdade. – Sabrina apontou para ela acusadora.

— Sim, e ele não negou. Aceitou um encontro. Soletra encontro pra mim?

— Isso não quer dizer...

— Isso quer dizer tudo, Hermione. – Ela se pôs de joelho em frente seu malão e começou a fuçar até encontrar um pacote de fudges de chocolate, meio rançosa, ficou tentando levar eles a boca um por um, sob o olhar de nojo das outras. Sabrina estendeu a varinha quase entediada:

Accio fudge, Accio, Accio.

— Me deixa comer!

— Não! Você vai começar a comer cenouras e maçãs por uma semana depois, e alfaces com mostarda, e me carregar por corridas intermináveis em volta do campo de quadribol.

— Ahh é. Se cuide, você disse. Ele vai te notar, meninos são idiotas, você disse. Melhore seu...

— Desculpa? Eu não disse que você deveria encaixar em padrão algum pra conquistar Harry, nós fizemos isso porque queimar calorias era melhor do que chorar, lembra disso? – A ruiva se enervou.

Dizer que forçara a amiga a se encaixar num padrão que achassem atraente, ignorando sua personalidade ou o que ela sentia sobre si mesma era tipo, ofensivo. Mesmo porque, na sua opinião, o aparelho era o problema, não os quilos a mais...bom, talvez um pouco, mas isso não queria dizer nada. Morgana se sentia mal consigo mesma, e era apenas por isso que haviam mudado o que ela mesma não gostava.

— É bom. É verdade. Me deem a solução então, o que vocês fariam no meu lugar? Como faço pra esse encontro nunca, nunca acontecer?

Depois de alguns segundos de silêncio, em que até ela ficou mais visivelmente amuada, Morgana balançou a cabeça em negação:

— Viu? Vocês ficam me repreendendo, mas não conseguem pensar numa solução pra isso, do mesmo jeito que eu não consigo. O Harry não desistiria do encontro com a pessoa amada nem que eu me estribuchasse na frente dele.

— Escuta aqui, como você tem tanta certeza que a Cho é a "pessoa amada" dele?

— Ele disse, Sabrina. E Hermione disse também!

— Eu o que? – Hermione arregalou os olhos, meio na defensiva. – Eu disse que ano passado parecia que ele gostava dela. Eu não disse nada sobre esse ano. E se você quer saber eu acho que ele sente alguma coisa por você sim, eu já peguei ele olhando pra você pelo menos umas cinco vezes, inclusive hoje na aula do Binns. Ele sente ciúmes de você com o Alecs, não faz essa cara de dúvida, isso é óbvio, porque ele faz cara feia pro Alecs e chama ele de Vighty, quando todo mundo, até mesmo Dino, Simas e Neville, que não falam com ele a não ser oi e tchau, chamam ele de Alecs? E o mais importante: quando ele falou que você era atirada só porque você estava falando que o Alecs era bonito e queria conhecer ele, agente perguntou pra ele porque ele tinha feito aquilo e ele quase disse que tinha ficado com ciúmes.

— Quase! — Disse Morgana como se tivesse achado o mapa de um tesouro.

— Ah, Morgana, por favor.

— Bem...mas se isso fosse verdade ele não teria aceitado se encontrar com a Cho...

Sabrina sentiu aquilo de novo, como se doesse pensar que a amiga passava por isso, mas fosse uma dor distante, gelada. Pra começar, ela não achava que fosse tão ruim assim, Morgana podia fazer algo, qualquer coisa. Se ela pedisse ou aceitasse ajuda, Sabrina pensaria em uma poção ou duas. Talvez Amortencia. Cerrou o maxilar, revirando os olhos. Era doloroso sentir aquele...não sentir, em relação a amiga. A fazia ficar ansiosa, e raivosa.

— Bom, sabe o que você pode fazer? Em vez de ficar se negando o que dissemos, fica comigo e entra pro clube das freiras de Hogwarts. Nosso coração partido daria boas histórias para palestras, podemos criar um movimento nazi feminista e fazer as garotas daqui desistirem da sexualidade. Se formos rápidas conseguimos fazer a nojentinha lá aderir antes de sair com Harry. – Não evitou xingar Cho, a despeito de a ter meio que perdoado já. E no fundo, o “nojentinha lá” e a ideia, era em relação a er...Thaty Meyer e Fred Weasley.

Ultimamente tinha sido difícil lidar com os dois pelo castelo, e a dor, a mágoa a falta de ação que ela sentia ao ver.

Morgana girou os olhos pra ela. Hermione pareceu entender melhor, e se dando conta com um sobressalto, deu um tapinha no ombro de Sabrina.

— Olha, vamos pensar em alguma coisa, por enquanto, temos aula, vamos nos concentrar nisso.

Sabia Hermione! Sempre pronta a defender suas notas e tirar, por uma hora ou duas, o amor de suas cabeças. E nossa...como ela e as amigas sofriam por amor!

Era realmente, realmente impressionante, pensou com crueza.

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A vida continuava, e as aulas continuavam, quer eles decidissem que um cataclisma pessoal estava para acontecer ou não. Ainda que Harry secretamente ficasse satisfeito por não se deparar com Morgana, ou Rony, em quem decidira dar um gelo, ele se sentiu meio deslocado, como se algo estivesse fora do lugar. Com dificuldade passou em frente a mesa da Corvinal, acenando de volta para uma Cho tímida e Gwyneth esbaforida. Parecida com Hermione, sim, mas pelo visto completamente diferente na personalidade. Ele veria, afinal. No final de semana, veria.

Isso é, desde que Lilandra parasse de chantageá-lo.

— O que você quer dizer com: Só vou passar o formulário assinado por Padfoot se você tiver algum progresso na aula? Que tipo de sádica você...

Lilandra soltou um longo e melindroso suspiro, apontando toda a volta de sua sala com um girar de dedos, o que o fez pensar por longos minutos antes de compreender.

— As vezes acho que ser uma professora tão legal quebra minha autoridade. Te conheço a um misero mês e tenho certeza disso, Harry Potter. E olha, tenho anos e anos de profissão!

Ele resmungou mas não fez mais nenhum comentário maldoso.

A verdade era que as lições de Oclumência vinham se mostrando de incertas a desprezíveis. Ele tinha um avanço muito, muito lento, e apenas no dia de hoje libertara lembranças particularmente dolorosas e constrangedoras para o escrutínio de Lilandra. Por algum motivo elas tinham a ver com os Dursley e Hermione socando Malfoy no nariz, não com o que vinha rondando sua mente. Isso era um progresso, não? Tinha medo de dizer isso para a professora, ou ela meio que saberia o que procurar...ou o que não procurar.

Era engraçado, ele supunha, o fato de que ela sempre fazia perguntas ou tentava saber sobre sua infância com seus tios, ou coisas contra seus rivais. O tópico preferido da semana era esse, sobre Malfoy e sua gangue, assim como Duda. Isso não demonstrava muito sobre o que e quem a professora era, é verdade. Ao contrário, era meio como se ela quisesse que ele preservasse seus pensamentos mais profundos para si mesmo, quase cortes. Tirando o fato de que ela parecia chocada com cada lembrança dos tios que tinha.

Na primeira vez que eles haviam tido aula, em que ele se sentia um boneco manipulado e tendo sua vida esmiuçada, ele já notara um padrão. Na segunda aula ela lhe perguntara sorridente o que ele queria saber. Harry não hesitou:

— Sua relação com Sirius Black, pra começar.

— Oh, indo com ganância no pote. Porque você iria querer saber sobre algo intimo meu, como minha relação com qualquer pessoa? Isso é meio desleal. – Ela tornara, de forma incompreensiva para Harry. Havia algo que ele não tinha pescado dessa frase, ele tinha certeza. Se era a ganância dele, ou falta de escrúpulos por ir direto em um segredo que ele não deveria saber, “Para sua própria segurança”, ele não tinha ideia.

— Voldemort iria querer saber sobre meu dia a dia no colégio? – Ele tornou mau humorado, e então recebeu um olhar sujo, que dessa vez conseguiu decifrar bastante bem como o fato dele parecer saber demais sobre o que queria Voldemort e como se jogava aquele jogo.

Interessante ela o olhar acusadoramente. Mas logo a professora se recuperou e sorriu misteriosa. – Tem razão, ele vai querer saber algo caro para você... Já passou pela sua mente que seu dia-a-dia diz o bastante e muito sobre não só você, quanto sobre o que você valoriza, Harry? Tipo os seus amigos? Suas relações? Alguma namoradinha? E bem, há seus planos, e o que está fazendo em relação a ele, e o quanto isso o preocupa. Mas tem razão, ele não vai querer saber sobre sua infância.

Mas ela ainda continuava a se focar apenas nessas coisas, e em coisas mais inofensivas.

Hoje porém, ela havia se sentado recostada na cadeira e sorrido animada, assim que ele entrou. Após arrancar suas lembranças, sem ao menos suar, ela anunciara:

— Hoje vamos tentar o inverso. Você tenta descobrir qual minha relação com Sirius com Legilimência, o que acha?

— Porque isso? – Ele perguntou incerto.

— Dumbledore acha que se você souber como se escala e que aparência tem um muro, você saberá reproduzi-lo. – Ela disse simplesmente. E então falara sobre o formulário de visita a Hogsmeade, e ali estavam eles.

Sem pensar ou dar tempo de reagir, ele passou a tentar. O feitiço saiu de seus lábios e de sua varinha como se ele tivesse acostumado a fazer aquilo toda hora. Talvez fosse por causa da maneira absurda como ela vinha usando aquilo nele.

E ele tentou de verdade.

Tentou, e tentou, e tentou. De forma incompreensível, tudo que ele via quando tentava acessar uma lembrança, ou sentimento em Lilandra, era um relvado e florido campo verde sob o sol. Era estranho acessar esse lugar, no meio do vazio estéril, tão belo, mas tão sinistro, sem movimento, cor ou som. E por mais que tentasse, e andasse em sua mente por todos os lugares, tudo que achava era o mesmo padrão de flores silvestres e grama verde, sob um lindo sol de verão.

Tentou tanto que sua cabeça passou a doer mais e mais, sensível em corpo como devia estar em alma, mas a cada frustração ele se irritava e forçava mais.

— Harry, eu acho que já chega! – Lilandra estava agora atenta, observando-o como se algo estivesse extremamente errado nele. Harry não ligou, apertando a varinha com mais força, sibilou sua negativa.

Tudo aconteceu rápido e de forma agonizante demais, mas ele lembraria e repassaria cada detalhe no dia seguinte consigo mesmo.

De repente a dor de cabeça foi como se seu crânio estivesse sendo aberto, começando pelo ponto sensível entre suas sobrancelhas onde ele habituara-se a esmagar o cabelo para tentar esconder a terrível cicatriz. No instante que acessava os campos floridos de Lilandra, ele a viu arregalar os olhos e formar uma negativa com os lábios, mas os sons não pareciam chegar exatamente até ele.

— HARRY!

Por sublimes segundos ele viu o campo florido chegar ao seu fim e duas figuras escuras se adensarem no meio da campina, uma claramente sendo uma Lilandra. – Mais nova, de cabelos longos e lisos escorrendo pelos ombros e um sorriso bonito nos lábios inocentes. – e a outra era uma mulher nova e bonita, mais velha do que ela, de cabelos em ondas luxuriantes castanho escuro, com olhos do mesmo tom. Não! Eles eram chocolate, percebia agora, de um marrom cremoso e cheio de riscos amarelos e esverdeados pela íris. Algo nela, vindo de Lilandra, falava sobre segurança e afeição, ainda que ele, ao olhar a forma como a mulher bem feita de corpo se aproximava da garotinha que tinha sido a professora pelas costas, o fizesse lembrar de uma cobra. Ao mesmo tempo que Harry tentava registrar sua vitória e o que acontecia, a dor em suas sobrancelhas era tão insuportável que uma parte de si mesmo cegava, fazendo com que a campina e a imagem ganhasse bordas nubladas de sonho e memórias desvanecendo.

Se agarrou aquela lembrança, forçando a ver o que acontecia, conforme identificava mais características na mulher sorrateira que se aproximava da menina Blacklight com passinhos saltados.

— Tão ingênua...ingênuo... – A voz da mulher começou a ter um eco, lembrando uma estação de rádio mal sintonizada. Ao mesmo tempo que era firme e sedutora, assim como suas generosas curvas e sorriso de lábios cheios, era também masculina e sibilante, mas os toques de malicia vinham dos dois tons sobrepostos.

A Lilandra da lembrança se assustou, e Harry sentiu o que ela sentiu, o desespero e dor quando foi agarrada por trás, pelo braço, pelas unhas da mulher que arrancavam sangue enquanto se aproximavam de seu ouvido e sussurrava:

— ...Consegui chegar até você, Lilá. Legilimens.

E então a lembrança e o mundo se fundiu, e morreu para ele. A dor da professora se confundindo com a sua, como se seus tímpanos tivessem explodido e metade de seus miolos caísse pelas orelhas, assim como os dela. Harry sentiu o corpo guinar para frente e começar a cair naquele vazio negro e despovoado de vida, uma gargalhada ao mesmo tempo feminina e masculina, sibilante, ecoando por sua mente paralisada e indefesa.

E então ele soube de onde conhecia aquele sibilar masculino, e soube o que acontecia com ele agora, e o quanto fora burro de continuar com aquilo a despeito de quão fraco estava. Não que ele achasse que fosse fazer diferença no instante que aquele ser tinha decidido abrir caminho até suas lembranças.

Tão ingênuo...Peguei vossssê!— Sibilou Lord Voldemort, acessando sua mente pela Legilimência através de sua cicatriz, a milhares de quilômetros de distancia.

Ele ouviu o eco das palavras até perder a consciência.

Notas finais
Esse capítulo é um dos que me deixa mais insegura... porque ao mesmo tempo que gostei do fim dele, é nesse ponto onde fica mais nítido quão diferente vai ser tudo do livro escrito pela tia J.K. e não sei se guento a responsabilidade de tornar isso crível... medo. O que acham? Tá tão ruim assim? :(